No Brasil, a raiz da desigualdade não está apenas
em falhas “políticas sociais”, mas assentadas no monopólio da terra e falta de verdadeiras
politicas sociais para as classes mais baixas
por Redação de AND
– Sociedade e Exploracao das Classes mais Humildes
Imagem desigualdade social na
internet
Quando se olha os dados de desigualdade para o Brasil nos últimos 15
anos, e possível perceber que este pais e o pior em distribuição de renda no
mundo. Mesmo após programas sociais, impostos e transferências, a desigualdade
segue em patamar bem superior ao da média do Ocidente. Ainda que haja alguma
redução em relação à renda “bruta”, o país continua no topo do ranking mundial
da concentração de renda, lado a lado com os casos mais extremos do planeta. Em
outras palavras, o Estado até mexe um pouco na mísera ponta da renda, mas não o
suficiente para tirar o Brasil do bloco dos campeões globais da desigualdade.
Enquanto o governo presidido por Luiz Inácio (PT) comemora em cadeia
nacional que o Brasil “atingiu o menor nível de desigualdade da série
histórica”, dados de organismos internacionais dizem outra coisa. Relatórios
recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e
do World Inequality Lab (Laboratório da Desigualdade Mundial)
mostram que o país continua entre os mais desiguais do mundo, com concentração
de renda e riqueza características de um país capitalista liberal burocrático, dominado
por financismo e administração publica distante das verdadeiras necessidades da
população.
O estudo Government at a Glance 2025, da OCDE, avalia o
impacto de impostos e transferências (como benefícios sociais,
seguros-desemprego, aposentadorias) sobre pobreza e desigualdade em dezenas de
países. Em média, antes de qualquer intervenção estatal, 27% da população dos
países da OCDE está em situação de pobreza relativa. Depois de impostos e
transferências, esse número cai para 11%. Da mesma forma, o coeficiente de
Gini* médio cai de 0,46 (renda de mercado) para 0,32 (renda disponível),
mostrando que a redistribuição existe, mas longe de atender as necessidades de
toda a sociedade, dentro de limites bem definidos.
A própria OCDE admite que, no conjunto dos países, depois de uma década
de políticas compensatórias e “inovações” em proteção social, a desigualdade,
mesmo após os impostos e transferências, praticamente não se moveu. Em 2012, o
Gini médio “pós-redistribuição” era de 0,32; em 2021, continuava em 0,32. A
pobreza relativa cai alguns pontos, estabiliza, oscila ligeiramente, mas a
estrutura da concentração de renda se mantém. Do clube dos países ricos, o
recado é cristalino: com o desenho atual de Estado e de distribuição de terras,
a máquina da desigualdade continua funcionando quase intacta.
No caso brasileiro, o mesmo relatório mostra que a
desigualdade não só permanece entre as mais altas do planeta, como aumentou na
última década. A fatia da renda nacional apropriada pelos 10% mais ricos passou
de 57,9% em 2014 para 59,9% em 2021, recuando ligeiramente para 59,1% em 2024 –
ainda assim, acima do patamar de dez anos antes. No mesmo período, a
participação dos 50% mais pobres caiu de 10,7% para 8,2%, recuperando-se
parcialmente para 9,3%. O índice que divide a fatia dos 10% do topo pela fatia
dos 50% de baixo saltou de 53,7 para 63,5 entre 2014 e 2024, com pico de 73 em
2021. Ou seja, houve uma melhora mínima na vida dos mais pobres em termos
absolutos, enquanto os muito ricos enriqueceram muito mais.
É exatamente a partir dessa discrepância que entra a polêmica com o
estudo do Ipea, usado pelo governo conclusão de que a desigualdade estaria “no
menor patamar em 30 anos”. A nota técnica usa exclusivamente dados da Pnad (pesquisa
domiciliar do IBGE) para medir renda e conclui que o coeficiente de Gini caiu
de 0,615 para 0,504 entre 1995 e 2024, o que indicaria uma forte redução da
desigualdade. Os números foram apresentados no Palácio do Planalto pelo
presidente, ao lado da presidente do Ipea e dos autores da nota técnica.
O problema é que a própria nota do Ipea admite, em letras miúdas, que
pesquisas domiciliares subestimam fortemente a renda do topo – sobretudo dos 1%
e 0,1% mais ricos, cuja renda vem principalmente de lucros, juros, dividendos e
ganhos de capital. Economistas como Guilherme Klein, pesquisador da
Universidade de Leeds e do Made/USP, lembra que, “para enxergar de fato o topo,
é obrigatório combinar pesquisas domiciliares com dados da Receita
Federal”.
Foi exatamente isso que o World Inequality Lab fez. Ao
juntar Pnad, IRPF e contas nacionais, o quadro se inverte de “queda histórica
da desigualdade” para “desigualdade ainda maior do que se imaginava”. Não por
acaso, um dos próprios autores da nota técnica do Ipea já havia mostrado, em
pesquisas anteriores com dados tributários, que a desigualdade não caiu entre
2005 e 2014, ao contrário do que sugerem apenas as entrevistas domiciliares.
Enquanto a equipe econômica do governo escolhe uma série que não mostra
a realidade, para anunciar ao país que “vivemos em um momento de menos
desigualdade”, os dados e estudos mais completos indicam que a concentração de
renda no Brasil segue entre as maiores do mundo e, em diversos itens piorou.
No plano mundial, o World Inequality Report 2026 aprofunda
o diagnóstico. Segundo o estudo, divulgado pelo jornal inglês The Guardian,
menos de 60 mil pessoas – cerca de 0,001% da população do planeta – concentram
três vezes mais riqueza do que toda a metade mais pobre da humanidade. Já os
10% mais ricos ficam com 75% da riqueza global, enquanto a metade de baixo tem
apenas 2%. Com o parâmetro da renda (ganhos de trabalho e capital), o padrão se
repete: o topo dos 10% embolsa mais que os outros 90% somados. A pesquisa é
fruto de um consórcio de pesquisadores, e encomendada pela ONU.
Brasil: desigualdade que assusta até seus próprios beneficiários
Mesmo quando se toma ao pé da letra os números usados pelos governos, o
limite das chamadas “políticas compensatórias” salta aos olhos. A OCDE admite
que “impostos progressivos e transferências reduzem pobreza e achatam um pouco
a curva de renda” – mas, em 10 anos, isso não alterou o nível médio de
desigualdade “pós-redistribuição”. O sistema corrige pequenos excessos, evita
explosões imediatas das massas mais pobres, mas preserva intacta a engrenagem
que produz a concentração.
O caso brasileiro ilustra bem essa contradição. O próprio Ipea mostra
que a renda média por pessoa cresceu e que a pobreza extrema caiu de cerca de
25% para 5% em três décadas, impulsionada por “programas de transferência” como
o Bolsa Família e períodos de expansão do emprego. Ao mesmo tempo, os dados
combinados de IBGE e Receita, usados pelo World Inequality Report,
revelam que a fatia da renda abocanhada pelos ricos aumentou – ou seja, os
pobres melhoraram um pouco, enquanto os ricos dispararam numa velocidade muito
maior. A desigualdade de renda continua brutal e a de riqueza (terras, imóveis,
ações, títulos financeiros) é ainda mais obscena e praticamente intocada.
Essa incapacidade de “consertar” a desigualdade pelas bordas é
reconhecida, com crescente inquietação pelos que tem o capital e patrimônio. No
prefácio do relatório global, o vencedor do Nobel Joseph Stiglitz defende a
criação de um “painel internacional permanente para monitorar a desigualdade”,
nos moldes do IPCC do clima, e os autores sugerem taxar os milionários
(patrimônio líquido de 100 milhões de dólares) para financiar educação nos
países pobres. Claro que não se trata de generosidade, mas do medo de que
tamanha contradição entre a concentração de renda e pobreza desestabilize as
“democracias” liberais, alimentando rebeliões de massas que ameaçam o equilíbrio
social.
No Brasil, a raiz da desigualdade não está apenas em falhas “políticas
sociais”, mas assentadas no concentração da terra e da exploração do capital e patrimônio.
O latifúndio e seu maquinário tecnológico concentram atividades voltadas
unicamente para produção de produtos primários para exportação,
como soja, café, cana-de-açúcar e carne animal, ao mesmo tempo sustentadas na
exploração da massa camponesa. Enquanto, a produção da “cesta básica”
brasileira é restrita a pequena produção familiar, de pequenos e médios
proprietários, reféns dos monopólios de distribuição e circulação de suas
mercadorias. Além do monopólio do financiamento por bancos que comandam a intermediação
do crédito, e demais conglomerados industriais e de serviços associados ao grande
capital.
As “políticas compensatórias” funcionam como amortecedores, aliviam a
miséria extrema, garantem algum consumo básico, reduzem a pressão imediata
sobre o sistema de exploração e opressão, mas não mexem na concentração da
terra, nem nos monopólios dos que controlam o capital. Enquanto se distribuem
cartões de benefício, seguem intocados os mecanismos que permitem a 0,001% do
planeta acumular mais do que metade da humanidade e, no caso brasileiro, que
10% abocanham quase 60% da renda nacional.
A partir dos estudos da OCDE e do World Inequality Report, a
conclusão é, portanto, oposta à propaganda oficial. A desigualdade brasileira
não está “em queda histórica”, permanece entre as mais altas do mundo e integra
um quadro global em que até os organismos do próprio sistema capitalista
admitem não conseguir reverter, apenas administrar.
Publicado na AND
12 de dezembro de 2025
Fonte https://anovademocracia.com.br/desmentindo-governo-brasil-desigualdade/