por Bruna de Lara,
Tatiana Dias** no The Intercept Brasil – Sociedade e Brasil Colônia
Rosana Gonçalves* não dirige. Ela dá aulas de manhã, à tarde e à noite em um colégio de Osasco, na grande São Paulo. Era uma quarta-feira, 9 de maio de 2018, quando ela saiu da escola no horário habitual – 22h40 – e, daquela vez, preferiu chamar um Uber em vez de esperar pela carona do marido. O carro chegaria em cinco minutos. Veio mais rápido do que o previsto. Quando o motorista parou, ela checou seu nome e se sentou no banco de trás. Começou ali o maior pesadelo de sua vida.
Gonçalves
conta que motorista era parecido fisicamente com a foto que aparecia no app.
Ele teria pedido que ela se sentasse no banco da frente porque a porta de trás
estava com problema. Isso já tinha acontecido outras vezes, por isso Gonçalves
não estranhou. O celular estava no painel. Nada parecia incomum para um
motorista de aplicativo. Mas ele desviou do caminho. “Achei que ele
tinha errado e tentei corrigir”, lembra. “Até que ele anunciou o sequestro.”
Gonçalves diz
que foi ameaçada com uma arma e que o motorista jogou sua bolsa no banco de
trás. Ela tentou abrir a porta e pular, mas ele teria a segurado pelos cabelos,
a ameaçado de morte e obrigado a colocar o cinto. “Comecei a chorar e perguntar
o que ele queria. Se fosse dinheiro, eu dava”, ela contou.
O
motorista perguntou se a professora era casada e exigiu que ela mostrasse a
aliança, de acordo com o relato de Gonçalves. Ela implorava para que ele a
soltasse e falou do filho e do marido. “Se você colaborar eu vou te soltar”,
ele teria dito. Eles rodaram de carro por alguns minutos até chegarem em uma
casa. “Quando percebi, caí em prantos”, ela lembra. Só então percebeu a
intenção do motorista. Ela foi estuprada. Quando terminou, o agressor
pediu que a professora colocasse a roupa e voltasse ao carro. Ele a deixou
no local de origem, teria feito nova ameaça e deu a ela R$ 20. E desapareceu.
Transtornada
e desorientada – mas aliviada por estar viva –, Gonçalves encontrou um bar,
contou o que aconteceu e ligou para o marido e para a cunhada. Ao contrário do
que normalmente acontece, ela foi bem tratada na delegacia. Fez o tratamento
preventivo para vítimas de estupro no hospital Pérola Byington, que tem coleta
de material genético, antiinflamatórios, vacinas contra hepatite, coquetel
anti-HIV e pílula do dia seguinte.
Quando a
polícia entrou em contato com o Uber, entretanto, a empresa se recusou a
liberar as informações sobre a corrida e exigiu uma ordem judicial.
Número de casos não é calculado
O The Intercept pediu às
secretarias estaduais de segurança pública de todo o país o número de crimes e
delitos sexuais envolvendo transportes por aplicativo a partir
de 2016, até julho de 2018. Das 27 solicitações feitas com base na Lei de
Acesso à Informação, só oito foram respondidas, e poucas de forma satisfatória.
No Acre e no Espírito Santo, por exemplo, não há diferenciação entre o tipo de
transporte envolvido na ocorrência – o local é classificado apenas como
“veículo automotivo” ou “veículo”, impossibilitando a análise. No Rio de
Janeiro, há duas classificações: “Táxi” e “Veículo de transporte alternativo”.
O estado enviou dados referentes a janeiro de 2015 a dezembro de 2017. Só consideramos
os números a partir de 2016. Na Bahia, os casos vieram organizados sob a
etiqueta “Uber, Cabify ou Táxi”.
Filtramos
entre os dados enviados apenas os casos de estupro ocorridos em corridas de
aplicativos e táxis e chegamos ao total de 46 casos ocorridos na Bahia, Mato
Grosso, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo (estados que
enviaram dados padronizados e que puderam ser comparados). Nos últimos
dois anos, pelo menos 70 pessoas relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência
sexual em táxis e veículos de transporte particular (assédio sexual, ato
obsceno, estupro, importunação ofensiva ao pudor e violação sexual mediante
fraude – quando alguém droga a vítima, por exemplo, ou toma alguma outra
atitude para dificultar ou inviabilizar a manifestação de sua vontade). O
número, no entanto, pode ser muito maior – a polícia não contabiliza os dados
específicos ocorridos dentro de veículos, e as empresas se recusam a divulgar
os casos à imprensa.
Líder em
número de usuários, com mais de 20 milhões de passageiros
cadastrados, a Uber também é campeã de denúncias em todos os estados – talvez
exatamente por ser a líder em usuários. Em São Paulo, 143 dos boletins
mencionavam o aplicativo, contra seis da 99, que reúne 14
milhões de clientes. A Cabify, com 3 milhões de usuários, não
foi citada em nenhuma das respostas que permitiram análises separadas por
aplicativo.
Em nota
enviada pela assessoria de imprensa, a Uber fez questão de ressaltar que, por
conta da popularidade do app, haveria vítimas que citam a empresa por engano,
chamando qualquer transporte por aplicativo de “uber” – o que, segundo a
assessoria, pode elevar injustamente o número de boletins em que a empresa é
citada.
Os
números, embora altos, são certamente uma pequena fração dos abusos envolvendo
aplicativos como Uber, Cabify e 99 e os táxis de rua. Segundo o Fórum Brasileiro
de Segurança Pública, 65% dos estupros, por
exemplo, não são denunciados à
polícia – e essa é a estimativa mais otimista. A Pesquisa Nacional de
Vitimização estima um número bem mais
preocupante: 92,5% dos estupros não são notificados no Brasil. As demais
formas de abuso, como o assédio, embora mais comuns, são ainda menos
denunciadas.
Eles tiram o corpo fora
Nos
aplicativos, parte da sensação de segurança vem do perfil de cada motorista. Se
ele tem boa pontuação e fez muitas corridas, por exemplo, o usuário se sente
mais protegido. Mas, em agosto deste ano, repórteres do jornal O Povo
investigaram a venda de perfis de motoristas e conseguiram comprar um cadastro antigo da 99 a
meros R$ 100. Testando o aplicativo, um dos jornalistas percebeu que era o
terceiro proprietário daquela mesma conta.
Reprodução
de captura de tela publicada originalmente pelo jornal O Povo, mostrando um
anúncio de venda de contas de motoristas da Uber e da 99 / Foto: reprodução
Em 2016,
a Uber afirmou ao site Nexo que
não conscientiza seus colaboradores, como chamam seus motoristas, sobre
violência sexual, porque são “os motoristas que contratam a Uber para utilizar
o aplicativo”, o que os tornaria “totalmente independentes” da empresa.
Em vez
disso, a Uber se restringiu a dizer que os casos de abuso são avaliados um a um
e, a depender “da gravidade”, o motorista pode ser tirado de circulação – os
critérios dessa avaliação, no entanto, não foram explicados. Se o abuso for
registrado em delegacia, a Uber garante que passa a colaborar com as
autoridades. Mas, na prática, não é bem assim.
Depois do
que aconteceu, Rosana Gonçalves percebeu que seu motorista havia cancelado a
corrida um minuto depois do pedido. O carro que parou era de um falso motorista
– que provavelmente tinha informações de que ela estaria esperando um Uber na
rua. Como ela avaliou que o motorista era fisicamente semelhante ao que
aparecia na foto no seu celular, a professora não estranhou quando entrou no
carro.
Depois de
procurar a polícia, Gonçalves entrou em contato com a Uber. A
empresa se negou a enviar informações sobre o motorista e afirmou que só
divulgaria os dados a pedido da justiça, de acordo com a professora.
O
agressor teria ficado solto por mais tempo se o celular de Rosana não
tivesse com o GPS ligado quando tudo aconteceu. O aparelho gravou todo o
histórico de deslocamento e, em poucos dias, a polícia chegou na casa onde o
estupro ocorreu, que pertencia ao irmão do agressor. Ele foi preso pouco
depois. Ele ainda teria feito outra vítima, dois dias depois de estuprar
Rosana, e também já havia sido condenado e cumprido pena pelo mesmo crime,
segundo a polícia. Estava em condicional.
‘Me senti desamparada em primeiro
lugar. Desrespeitada, principalmente por ser mulher. Casos assim acontecem, e a
Uber sabe disso.’
Segundo a
Uber, a política da empresa é não expor o motorista sem checar as informações.
A empresa disse que não havia um cadastro de motorista com o nome do agressor e
não respondeu sobre a possibilidade de um perfil falso. A professora e os
policiais perguntaram em que momento a corrida original foi cancelada e o
porquê. “Deram uma explicação bem superficial. Como eles não se sentiram
implicados, não deram muita importância”, disse Rosana, que está atrás de um
advogado criminalista. “Eles tiraram o corpo fora.”
Não está
descartada a hipótese de o agressor ser um aproveitador que deduz que a vítima
está na rua distraída. A dúvida, porém, atormenta Rosana. “Me senti desamparada
em primeiro lugar. Desrespeitada, principalmente por ser mulher. Casos assim
acontecem, e a Uber sabe disso. Não serei a primeira e nem a última.”
Há dois
anos, o
BuzzFeed teve acesso à base de dados
da Uber americana. Ao buscarem o termo “assédio sexual” na plataforma,
encontraram mais de 6,1 mil pedidos de suporte de usuários, feitos entre
dezembro de 2012 e agosto de 2015. Pesquisando estupro, a reportagem encontrou
mais de 5,8 mil mensagens.
A Uber
passou a investigar não o grande número de ocorrências – taxado de “exagerado”
pela empresa – mas, sim, a identidade do funcionário que vazou os dados ao
Buzzfeed. Segundo o aplicativo, só cinco das mais de 10 mil mensagens
relacionadas a denúncias de violência sexual atendiam ao parâmetro – não
revelado – que usam para classificar esse tipo de “incidente” como verdadeiro.
Diante da resposta, o Buzzfeed prontamente pediu acesso aos procedimentos de
análise de dados da Uber. Mas a empresa, mais uma vez, optou pela falta de
transparência.
Procurada
pelo Intercept, a Uber afirmou que repudia qualquer tipo de abuso contra
mulheres e acredita na importância de enfrentar casos de assédio e violência.
“Segurança é prioridade para a Uber e mesmo um único incidente seria demais”,
escreveu a assessoria de imprensa, ressaltando que a empresa leva “muito a
sério” relatos de assédio e bane o agressor quando eles são confirmados. A Uber
não respondeu qual o procedimento padrão para apurar essas denúncias e alegou
novamente que “colabora com as autoridades no curso de investigações ou
processos judiciais”.
A empresa
acrescentou ainda que “não há qualquer base metodológica para vincular os dados
levantados ao número de ocorrências no aplicativo”. O Intercept sugeriu,
então, que a Uber enviasse o número de casos de violência sexual relatados ao
aplicativo, como contraponto aos dados enviados pelas secretarias de segurança.
Não recebemos a resposta.
A Cabify
afirmou que ouve os envolvidos em cada denúncia recebida por sua central de
atendimento e faz “as recomendações devidas”. Para os motoristas, há uma
central diferente para situações de emergência. “Da mesma forma que suspendemos
os motoristas em caso de suspeitas até que se conclua a operação criminal, o
mesmo é feito para os usuários.” Como a Uber, a Cabify não divulga os dados
relacionados à violência sexual, mas diz estar “sempre à disposição das
autoridades para trabalhos em conjunto”.
Já a 99
não retornou nossos contatos.
Na rua, insegurança é a mesma
A
estudante de jornalismo Roberta Carvalho* conta que sofreu assédio em
táxis de rua nas últimas duas vezes que usou o transporte. Na primeira, em
novembro de 2016, o motorista teria passado todo o percurso de 10 minutos
que separa a estação de metrô do Maracanã do Shopping Tijuca, ambos na zona
norte do Rio, pedindo à jovem de 21 anos que lhe mostrasse fotos de biquíni ou
de calcinha em seu celular. “A minha reação inicial foi sair de perto, eu
precisava fugir daquele cara”, lembra Carvalho, que disse ter
passado um tempo sozinha no banheiro do shopping para se acalmar antes de
encontrar sua amiga.
A
estudante disse que só viria a pegar um táxi de rua novamente dois anos
depois. Era seu aniversário de 23 anos, e ela não conseguia pegar seu ônibus
nem chamar um Uber. Com medo de se atrasar para o trabalho, pegou um táxi e
pediu que o motorista parasse em um caixa eletrônico antes de deixá-la no
destino final. O taxista passou direto. “Ele falou: ‘Não se preocupa com isso,
não. Qualquer coisa eu volto no seu local de trabalho para buscar o dinheiro.”
Assim que chegaram, ela disse que deixaria o dinheiro com o porteiro do prédio.
“Mas aí você almoça comigo”, ela conta ter ouvido. Ela teve que recusar
diversas vezes até que ele desistisse. “Fiquei completamente sem reação.”
Em
nenhuma das duas ocasiões Roberta quis ir à polícia, ainda que a possibilidade
de o segundo taxista voltar a procurá-la a amedrontasse. Depois da primeira,
ela chegou a escrever um depoimento em um grupo de mulheres para alertá-las,
mas decidiu não fazer uma denúncia formal. “Eu vou chegar na polícia e falar
que o cara me pediu foto de calcinha e eles vão rir da minha cara”, justificou.
Roberta
nunca mais fez sinal para um táxi na rua. Hoje, ela só pega carros de
aplicativos e faz questão de compartilhar sua rota com grupos de amigos, para
que várias pessoas tenham acesso à viagem. “Tem sempre alguém acompanhando as
corridas.” O fato de os aplicativos registrarem a corrida e terem os dados do
motorista a faz sentir mais segura. “Você tem onde reclamar e como comprovar
que aquela corrida aconteceu”, explica. “Quando você pega um táxi na rua, o
máximo que vai conseguir é pegar a placa do carro. É sua palavra contra a do
cara, sabe?”
*Nomes alterados a pedido das
vítimas.
https://theintercept.com/2018/11/11/estupros-uber-taxis-99/