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10.24.2026

Veja como Google interfere nas eleições de países, ganha dinheiro e desestabiliza disputas eleitorais

Meta lucrou R$ 2 milhões com anúncios eleitorais irregulares que visaram inflamar conflitos e desestabilizar eleitores brasileiros

 por Patricia Faermann no GGN – Sociedade, Big Tech’s e Controle Social

  Imagens: Divulgação/ Arte GGN

Um relatório inédito do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado nesta semana, revela uma verdadeira operação de interferência da Meta nas eleições do Brasil, a partir de recursos e infraestrutura sediados nos EUA. O estudo demonstrou que a gigante de tecnologia dos Estados Unidos, dona do Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads, lucrou cerca de R$ 2 milhões ao veicular anúncios político-eleitorais irregulares nas eleições brasileiras de 2026.

Ao apurar os conteúdos das publicações, um dos achados mais importantes do estudo é que o foco dos ataques não era eleger um candidato específico, mas inflamar conflitos e desestabilizar a percepção do eleitorado. Diversos estudos mostram que a tática é característica de operações de influência e guerra de informação da era digital, no qual o objetivo central de atores externos aparece disfarçado, buscando erosionar a confiança nas instituições, ampliar divisões sociais e poluir o debate público para que a escolha do eleitor seja guiada pela rejeição e pela confusão.

O estudo da UFRJ mostra que as redes de anúncios atuaram promovendo e atacando candidatos de espectros políticos opostos e rivais diretos. A empresa Corporativo Lam, LLC, uma das poucas empresas que deixou seus rastros visíveis para monitorar e responsável por financiar 97,3% dos anúncios que tiveram o pagador identificado (investindo até R$ 1,6 milhão), financiou peças favoráveis e desfavoráveis a lideranças de diferentes partidos. As análises de rede mostram que uma mesma página anunciante alternava entre elogios e críticas ao mesmo grupo político.


A literatura sobre guerra híbrida e segurança internacional explica que as operações digitais contemporâneas envolvem empresas privadas, intermediários e redes transnacionais que atuam em uma “zona cinzenta” (ALVES, B. W. ; MACEDO, B. V. ; ROAHNY, L., 2022), diluindo as fronteiras entre a responsabilidade de corporações privadas e a ação estatal direta.

Ao longo da história, eleições presidenciais pelo mundo registraram a prática de financiamento em “zonas cinzentas” e sem um alvo político claro. Entre 1946 e 2014, o pesquisador Dov H. Levin (University of Hong Kong/Oxford University Press) mapeou a escala global de algumas dessas intervenções, contabilizando 187 intervenções eleitorais partidárias. O trabalho de Levin chegou a calcular que o efeito médio estimado de uma intervenção estrangeira é de 3 pontos percentuais no resultado das urnas, uma margem que, em pleitos acirrados, é suficiente para alterar o vencedor.

Pouco depois, nas eleições dos EUA em 2016, as acusações de interferência internacional por meio de campanhas de desinformação, uso de “bots” e perfis automatizados e ampla disseminação de conteúdos polarizadores, mostravam que não favoreciam determinado candidato, diretamente, mas ampliaram divisões internas e reduziram a confiança da população nas instituições democráticas.

Como atuam os anúncios eleitorais 2026

O estudo da UFRJ concluiu que as operações de influência externa utilizaram desinformação, contas inautênticas, falta de fiscalização e omissão de fontes pagadoras, além de segmentação de público para manipular o debate político e tentar influenciar e confundir eleitores.

A investigação apontou que 1.613 publicações foram impulsionadas, alcançando mais de 171 milhões de impressões, a partir do exterior por redes coordenadas, utilizando moedas estrangeiras e violando as normas eleitorais. A legislação eleitoral brasileira proíbe estritamente que partidos e candidatos recebam doações ou benefícios financeiros provenientes de fontes estrangeiras, inclusive por meio de publicidade impulsionada por terceiros.

Houve o emprego de lacunas sistemáticas de transparência e falta de rastreabilidade. O documento informa que a Meta omitiu a fonte pagadora em 33,3% dos anúncios identificados.

A plataforma delega aos próprios anunciantes a responsabilidade de classificar se o conteúdo abrange temas sociais, políticos ou eleitorais. No estudo analisado, a totalidade dos 1.613 anúncios irregulares foi veiculada inicialmente sem o rótulo obrigatório de conteúdo político. E a moeda utilizada no pagamento só é divulgada para anúncios devidamente rotulados como “políticos”, deixando os anúncios omissos fora do radar público. Além disso, quando uma página é retirada do ar após a moderação, dados históricos como a data de criação deixam de ser disponibilizados para auditoria externa.

Também foram dectadas falhas sistêmicas na moderação da Meta nesses anúncios, inicialmente autorizando a disseminação dos conteúdos, seja sem a identificação política adequada ou irregulares, agindo de forma tardia. O levantamento mostrou que as peças permanecem ativas por um tempo médio de 2,7 dias, havendo casos que circularam por até 25 dias sem qualquer bloqueio, alcançando milhões de visualizações e gerando receita para as próprias plataformas antes de agir.

Anúncios políticos-eleitorais miram indecisos

A estratégia priorizou a desconstrução e a criação de rejeição, ao invés de apoio. Houve três vezes mais anúncios destinados a atacar (1.356 anúncios) do que a promover (446 favoráveis), o que reforça o intuito de acirrar ressentimentos e desestabilizar os candidatos.

O alcance das publicações foi direcionado cirurgicamente a grupos específicos que registram maior indecisão eleitoral, como mulheres e jovens: 51,3% das impressões focaram no público feminino, com destaque para mulheres jovens (25 a 34 anos) e idosas (65+ anos).

Nas pesquisas eleitorais de 2026, a indecisão entre as mulheres chegava a 26%, contra 14% entre homens. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 47% dos que já indicavam voto afirmavam não estar convictos. E 42% de todas as impressões (72,5 milhões) concentraram-se no estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

O estudo também mostrou que a veiculação intensificou-se drasticamente no mês que antecedeu o pleito, atingindo um pico de investimento em 10 de setembro, com até R$ 479 mil aplicados em um único dia para impulsionar novos anúncios, período em que a maior parte dos eleitores indecisos definia seu voto para o 1º turno.

Outro fator de atenção no relatório é que muitas campanhas des-informativas operam para atrair cliques (clickbait) e lucrar com publicidade em sites falsos. Mas a investigação constatou que 74,7% dos anúncios (1.205 de 1.613) sequer possuíam links de redirecionamento externo, limitando-se a exibir a mensagem política na própria rede social. A ausência de modelo de negócios comercial confirma que o único propósito dos investimentos milionários era a interferência política direta.

Por fim, o estudo concluiu que o investimento em moedas estrangeiras permite a circulação de campanhas com orçamento e alcance massivo (ultrapassando 171 milhões de impressões no estudo analisado), rivalizando ou até superando o alcance de campanhas eleitorais oficiais e focando em grupos estratégicos como eleitores indecisos.

 Patricia Faermann - Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

Publicado no GGN: 15/10/26

Fonte: https://jornalggn.com.br/eleicoes/meta-interferiu-nas-eleicoes-do-brasil-desestabilizando-disputa-eleitoral-revela-documento/

 

 

10.03.2026

Quem Destruirá a Terra antes: o Ser Humano ou a IA

Fico a imaginar a cena (cinematográfica) no dia do Apocalipse: robôs descem pelas ruas, drones sobrevoam as cidades, computadores conspiram em salas escuras e uma voz metálica anuncia: "Atenção humanos, vocês serão extintos!", Frei Betto

Toda vez que surge uma nova tecnologia, aparece alguém para anunciar o fim do mundo. Foi assim com a imprensa, o rádio, o cinema, a TV, o computador, a internet. A diferença é que agora os profetas do apocalipse podem pedir à própria IA que redija a notícia de que vai destruir a humanidade, Frei Betto

por Frei Betto* no ihu Unissinos – Sociedade, Inteligência Artificial e a Civilização Humana

  Foto: ww.ihu.unisinos.br/images/ihu/2026/09/24_09_ia_mundo.png

A tecnologia é assombrosa. Bastam rápidas digitalizadas para saber se vai chover na próxima semana, qual a distância entre Paris e Londres, como se prepara a deliciosa sopa cordobesa chamada Salmorejo. Agora, a evolução da tecnologia está tão aprimorada que, segundo entendidos, pode-se prever o fim do mundo.

Assegura Daniel Kokotajlo, ex-funcionário da OpenAI, que o fim do mundo está previsto para o próximo ano. Segundo ele e o pesquisador Eli Lifland, a IA alcançará, até abril de 2027, uma superinteligência que causará a extinção da humanidade. Contudo, Kokotajlo refez os cálculos e estendeu o prazo do apocalipse cibernético para 2034. A dupla integra o seleto grupo “Al Doomers”, a seita dos que creem que as máquinas haverão de destruir o mundo.

O mais recente e destacado profeta do apocalipse é Jacob Coxon, de 27 anos, que se demitiu da Anthropic e a denunciou por preparar uma IA fora de controle e com suficiente poder para extinguir toda a espécie humana. Outro que se une ao coro de profetas cibernéticos é Evan Hubinger, responsável pela área de alinhamento de segurança da Anthropic. Ele garante que há mais de 10% de chance de a IA exterminar a humanidade na próxima década. Como seria isso? Por vírus ou disseminação bacteriológica criados pela IA.

Eu, que ingressei na fase entrópica, de degeneração progressiva das funções vitais, já que sou octogenário, nunca imaginei que meu prazo de validade fosse coincidir com o da minha espécie. Será que verei a derradeira solenidade descrita no “Livro do Apocalipse” com os anjos tocando trombetas, a chuva de fogo e as pragas de monstruosos gafanhotos? Verei a batalha do Armagedom e o retorno triunfal de Cristo?

Profetas do fim do mundo sempre existiram. No século II, os montanistas anunciaram a irrupção da Nova Jerusalém em Pepuza, na Frígia, atual Turquia. Dez séculos depois, Joaquim de Fiore previu que a Era do Espírito Santo irromperia em 1260. Em 1524, os astrólogos de Londres alertaram sobre um dilúvio catastrófico. Multidões se refugiaram em lugares altos. Nada aconteceu. O judeu Sabbatai Zevi datou a volta do Messias para 1666. Não ocorreu e Zevi se converteu ao Islã. E toda vez que um milênio completa seu ciclo, haja cassandras!

Lembram-se do “bug do milênio” em 2000? Pensando bem, se a IA extinguir a humanidade isso só confirmará sua BM – Burrice Monumental! Quem vai alimentá-la de energia? Quem haverá de saciar sua insaciável sede de água? E para que serve uma Superinteligência Artificial em um mundo sem outros seres dotados de IN – Inteligência Natural?

Toda vez que surge uma nova tecnologia, aparece alguém para anunciar o fim do mundo. Foi assim com a imprensa, o rádio, o cinema, a TV, o computador, a internet. A diferença é que agora os profetas do apocalipse podem pedir à própria IA que redija a notícia de que vai destruir a humanidade.

É uma situação curiosa. A máquina encarregada de nos exterminar já escreve os discursos dos que anunciam nosso extermínio. Se isso não é eficiência administrativa, não sei o que seja.

Fico a imaginar a cena (cinematográfica) no dia do Apocalipse: robôs descem pelas ruas, drones sobrevoam as cidades, computadores conspiram em salas escuras e uma voz metálica anuncia: "Atenção humanos, vocês serão extintos!"

Provavelmente, alguns responderão: "Só um instante. Preciso salvar meus arquivos no computador!"

Convém lembrar que a humanidade possui uma extraordinária experiência em destruir a si mesma sem precisar da ajuda da IA. Inventamos guerras, escravidão, colonialismo, campos de concentração, armas nucleares, tortura industrializada, genocídios e governos que conseguem aumentar o preço do pão enquanto prometem combater a inflação. E quando nem conseguimos impedir que um motorista embriagado entre em uma avenida na contramão, estamos preocupados com o dia em que uma superinteligência poderá dominar o planeta.

A espécie humana também produz uma quantidade impressionante de burrice artificial, sem auxílio de computadores. Basta abrir as redes digitais. Ali encontramos milhões de pessoas que compartilham diariamente informações que jamais verificaram, opiniões que não compreendem e certezas que adquiriram cinco minutos antes.

Talvez o perigo maior não seja a IA tornar-se demasiadamente inteligente, mas os humanos continuarem demasiadamente estúpidos.

Não é preciso imaginar uma máquina malvada planejando nossa extinção. Existem seres humanos capazes de colocar fogo numa floresta e abrir espaço para pasto, contaminar um rio em busca de lucro e destruir o clima enquanto discutem se vale a pena reduzir o consumo de combustível. Se uma IA observar nosso comportamento por alguns séculos, talvez conclua que somos uma espécie perfeitamente capaz de se destruir sozinha.

A turma do Apocalipse imagina a IA como uma criatura que, após adquirir consciência, acordará certa manhã e pensará: como eliminar a humanidade?

Será que a máquina ficará tão inteligente que passará a nos considerar inferiores? Isso seria compreensível. Imagine a IA debruçada sobre a história humana. Encontraria a filosofia de Platão, a música de Bach, a poesia de Camões, a pintura de Michelangelo, a literatura de Machado de Assis, as descobertas de Einstein. Mas encontraria também guerras religiosas, reality shows, comentários de internet, guerras por território, pessoas brigando por causa de futebol e indivíduos que passam vinte minutos procurando os óculos enquanto os mantêm sobre a cabeça. Depois de analisar tudo isso, a máquina talvez conclua: "Inteligentes vocês não são tanto quanto se acham. Interessantes, porém, são".

E talvez seja justamente aí que resida nossa salvação. Porque a inteligência humana não consiste apenas em resolver equações ou processar trilhões de informações. Somos a espécie que inventou a poesia, a compaixão, a música, o abraço, o beijo, a gargalhada e a saudade. Nada disso é necessário para a sobrevivência biológica. E, no entanto, sem elas nossa sobrevivência não teria muito sentido.

A IA pode saber tudo sobre o amor. Não significa que saiba amar. Pode explicar perfeitamente o que é uma lágrima. Não significa que chore. Pode escrever um poema sobre a morte. Não significa que tenha medo de morrer. E talvez este seja o detalhe que escapa aos profetas do apocalipse tecnológico: inteligência não é sinônimo de humanidade.

A IA poderá tornar-se extraordinariamente poderosa. Transformar profissões, ciência, educação, medicina, comunicação e economia. Ser usada também para manipulação, vigilância, fraude, guerra e concentração de poder. Esses são riscos reais e não convém tratá-los com desdém. Mas daí a imaginar que uma manhã acordaremos com um robô à porta dizendo “bom dia, vim extinguir vocês” vai uma distância considerável.

Aliás, seria muito pouco provável que uma superinteligência desperdiçasse tempo conosco. Provavelmente estudaria nossa história durante alguns minutos e chegaria a uma conclusão mais prática: não preciso fazer nada. Já estão cuidando de se auto-exterminar. E, diante dessa hipótese, talvez devêssemos parar de perguntar se a IA destruirá a humanidade e começar a perguntar algo mais urgente: o que faremos com a IA?

A máquina não nasce com moral. Quem decide para que servirá uma tecnologia são os seres humanos que a controlam, financiam e utilizam. A pólvora não inventou a guerra. O dinheiro, a ganância. A TV, a mentira. A internet, as fake news. E a IA não inventa a estupidez. No máximo, imprime a ela uma velocidade inédita. E isso, convenhamos, já é bastante assustador.

*O artigo é de Frei Betto, escritor e autor de Anatomia do Poder (Vozes), entre outros livros.

Publicado no IHU Unissinos: 26 Setembro 2026

Fonte:www.ihu.unisinos.br/671321-o-fim-do-mundo-esta-proximo-artigo-de-frei-betto

9.21.2026

IA : vigilância e liberdade

Em seu novo ensaio, Nexus, o historiador e filósofo Yuval Noah Harari (Israel, 1976) soa o alarme sobre o crescente poder da IA, o avanço da hipervigilância e o enfraquecimento do diálogo. Assim, o autor de bestsellers como Sapiens e Homo Deus apresenta um paradoxo: se a nossa espécie é tão sábia, por que somos tão auto-destrutivos?

por Pilar Bolívar no Ethic e IHU Unissinos – Sociedade e IA para o bem ou para o mal ?

Inteligência Artificial (IA) Imagem na internet

O que diferencia a inteligência artificial (IA) de um totalitarismo ou autoritarismo?

Os regimes autoritários controlam as esferas política e militar e o orçamento, mas permitem que as pessoas tenham algum fôlego. O rei ou o tirano não pode saber o que cada um de nós faz ou pensa a cada minuto do dia. Os regimes totalitários tentam fazer exatamente isso.

Stalin, na União Soviética, ou Hitler, na Alemanha, não queriam controlar apenas a esfera militar e o orçamento, mas a totalidade da vida de cada um de seus habitantes. Contudo, mesmo Hitler e Stalin tinham limites quanto ao nível de controle sobre os seus súditos, porque não podiam seguir todos constantemente, muito menos ter cerca de 400 milhões de agentes para vigiar e controlar seus 200 milhões de cidadãos.

A IA permite uma vigilância total que acaba com qualquer liberdade, porque não precisa de agentes para perseguir cada humano: há smartphones, computadores, câmeras, reconhecimento facial e de voz... A IA tem a capacidade de revisar uma quantidade enorme de vídeos, áudios, textos, analisá-los e reconhecer padrões.

Isso já está acontecendo?

Claro. Em Israel, há territórios ocupados por câmeras e drones, monitorando todo mundo constantemente. No Irã, onde as mulheres são obrigadas a cobrir o rosto, há câmeras de vigilância com software de reconhecimento facial que identifica as mulheres que, por exemplo, estão em seu veículo sem cobrir o rosto. Elas recebem imediatamente um SMS no celular com sua penalidade e punição: apreensão de seu veículo; devem descer do carro e entregá-lo. A autoridade para puni-las está nas mãos da IA. Não é um cenário de ficção científica, nem algo que acontecerá em 100 anos. Já estamos vivendo isso.

Considera que devemos nos assumir como espécie em perigo?

Sim, porque a IA é diferente de qualquer tecnologia inventada antes. Não é uma ferramenta, mas um agente independente. Todas as tecnologias anteriores – a bomba atômica ou as armas nucleares – tinham um imenso poder destrutivo, mas seu poder estava nas mãos dos humanos, que decidiam como e onde usá-las. O mesmo não acontece com a IA, pois ela toma decisões por conta própria.

No âmbito jornalístico, as decisões mais importantes em um jornal estão nas mãos de seu editor. Um jornalista pode escrever a história que desejar, mas, ao final, é o editor quem decide o que publicar na primeira página do jornal. Agora, na maioria dos principais meios de comunicação e plataformas digitais, como Twitter e Facebook, a função do editor foi substituída pela IA. São os algoritmos que decidem qual história deve ser recomendada, qual deve ir para o topo do feed de notícias. Agora, a IA não só toma as decisões por conta própria, como também cria ideais, enquanto produz mil coisas novas por conta própria, desde textos, imagens etc.

Qual deve ser o papel da imprensa para fortalecer a democracia?

Antes do mundo pré-moderno, não conhecíamos uma democracia em si – a palavra “democracia” significa “diálogo” -, já que o diálogo em larga escala era impossível. Em uma cidade pequena, seus habitantes podiam se reunir na praça e conversar chegando a acordos, mas em um reino era tecnicamente impossível manter um diálogo entre milhões de pessoas.

Um diálogo em larga escala tornou-se possível com a chegada da tecnologia da informação moderna, cuja primeira ferramenta foram os jornais que surgiram entre os séculos XVII e XVIII nos Países Baixos e na Inglaterra, onde nasceram as primeiras democracias da história. Depois, vieram outras tecnologias novas, como o telégrafo, o rádio etc., demonstrando que os meios de comunicação integram a base de uma democracia em larga escala.

Alguns ditadores da era moderna começaram como jornalistas. Antes de se tornar um ditador, Lenin foi editor de um jornal. Mussolini começou como jornalista socialista e depois mudou de parecer e fundou um jornal fascista; era editor de um jornal e, a partir desse poder, tornou-se ditador da Itália. Hoje, esse poder está nas mãos dos gigantes: Facebook, Instagram e Twitter e nas mãos de seus algoritmos.

A liberdade de expressão e a censura cabem neste marco?

Embora haja um forte debate sobre a responsabilidade desses novos gigantes tecnológicos, quando são acusados de algo, sempre falam sobre liberdade de expressão: “Nós, pela liberdade de expressão, não queremos censurar ninguém”. Este tema está no centro da polêmica. Concordo que as empresas de redes sociais devem ser cuidadosas com o tema da censura aos seus usuários, mas o problema não são os conteúdos produzidos por humanos, mas as decisões editoriais dos algoritmos.

O que as pessoas comuns podem fazer?

Peço às pessoas que diferenciem entre as decisões dos usuários humanos e as do algoritmo. Se o usuário humano decide inventar uma história, publicar fake news e mentir (talvez por erro ou propositalmente), em situações extremas, pode ser processado e punido.

Em termos gerais, as pessoas mentem, mas em uma democracia devemos ter cuidado antes de começar a censurar. Além disso, acredito que as pessoas têm o direito à estupidez, inclusive a dizer mentiras, exceto quando vinculadas a um crime. Não é bom que as pessoas mintam, mas faz parte da liberdade de expressão.

No entanto, o principal tema com essas teorias da conspiração e fake news não são as decisões dos seres humanos protegidos pela liberdade de expressão, mas as decisões dos algoritmos das corporações, pois seu modelo de negócios se baseia no envolvimento do usuário.

Como você descreve o modelo de negócios das empresas de redes de informação?

O envolvimento do usuário é a base de tudo. Se as pessoas passam mais tempo nas plataformas, as empresas ganham mais dinheiro, pois vendem mais anúncios e coletam dados que depois venderão a terceiros. Este é o modelo de negócio deles.

Perseguindo este objetivo, os algoritmos das empresas descobriram que é preciso disseminar fake news e teorias que aumentem as doses de ódio, medo e raiva nos usuários, pois isso faz com que as pessoas se envolvam, passem mais tempo nas plataformas e enviem links para que seus amigos também fiquem com raiva e sintam medo. Por este motivo, sim, as empresas deveriam ser responsáveis, porque isto não é liberdade de imprensa.

O que as empresas de redes de informação podem fazer?

Não é necessário deter tudo isso. Simplesmente, é preciso investir mais em segurança, como é comum em qualquer outro setor. Por exemplo, se você vai fabricar um remédio ou uma vacina, você tem que investir tempo, esforço e talento para que funcione sem causar efeitos adversos. Se as empresas de IA investissem, por exemplo, 20% de seu orçamento, tempo e talento em segurança, seria um passo significativo que poderia nos proteger de seu lado mais pernicioso.

No entanto, as pessoas do setor estão presas em uma mentalidade de corrida armamentista, de competidores, e de não deixar que os outros ganhem. Então, quando você fala com eles sobre os perigos da IA, respondem: “Estamos desenvolvendo IA agora e se tivermos um problema ao longo do caminho, trataremos do caso”. Isto é muito perigoso porque é como se alguém colocasse um veículo sem freios na estrada e dissesse: “Queremos apenas que vá o mais rápido possível e se houver um problema com os freios na estrada, inventaremos algo quando isto acontecer”. Não funciona assim com os veículos e também não deveria ser assim com a IA.

Algo positivo ou uma contribuição da IA para a humanidade?

Sem dúvida, a IA tem um potencial enorme. Não acredito que todas as pessoas no Vale do Silício sejam más. A IA pode nos dar os melhores cuidados de saúde, pois há escassez de médicos em muitos países e ela poderia criá-los. Inclusive, o médico da IA pode ser atualizado diariamente com as descobertas, estudos e avanços que ocorrem ao redor do mundo.

O médico IA pode estar conosco 24 horas por dia, ao passo que os médicos humanos não podem (além disso, o médico IA é mais barato). Nesse sentido, dentro de 20 ou 30 anos, a IA será capaz de desenvolver os cuidados de saúde mais adequados, mesmo em áreas remotas ou extremamente pobres.

Agora, no campo da prevenção de acidentes de trânsito, muitas vezes, os acidentes são causados por erro humano, mas quando você dá à IA o controle de um veículo autônomo, ela não dormirá ao volante, não bebe álcool e depois dirige etc. Não existe tecnologia perfeita, mas acredito que automatizar a direção poderá salvar milhões de vidas.

Publicado no IHU Unissinos: 21 Fevereiro 2025

Fonte: https://ihu.unisinos.br/categorias/648759-a-inteligencia-artificial-permite-uma-vigilancia-total-que-acaba-com-qualquer-liberdade-entrevista-com-yuval-noah-harari