por Lauro A. A. Duvoisin e Miguel E. Stédile no
Boletim Ponto*/BdF – Sociedade e Brasil em Caos
“Eleições no Brasil: até porque a
história não se repete e o cenário atual é, em muitos aspectos, mais desafiador
e complexo que o de 2022”
Olá, com
o mundo e a política brasileira em altas temperaturas, falta pouco para
incendiar um ano eleitoral desconhecido.
Será que vai ser 2022 na política outra vez?
Quanto mais a eleição se aproxima, mais parecida
ela vai ficando com o pleito de quatro anos atrás. E isso não só pelo sobrenome
do presidenciável oposicionista ou pela inviabilidade de uma terceira via. É
também porque, faltando sete meses para a disputa, o grau de polarização e
conflito político começa a se elevar. Por um lado, a oposição já escolheu suas
temáticas preferidas, que são sempre as mesmas, levando o debate para o mais
baixo nível possível: corrupção e criminalidade. O suposto envolvimento do
filho de Lula no esquema do INSS deve manter-se vivo até outubro, assim como o
esforço de vincular o escândalo do Master ao governo. O jogo passa também
por sugerir que o governo defende a bandidagem porque
se opôs à classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, conforme
propõe Trump. Mas as similaridades com as últimas eleições vão além. Por
exemplo, podemos de novo eleger o pior Congresso da nossa história. E não é que
a crise mundial no fornecimento de
petróleo e a tendência de alta no diesel recolocaram em pauta a ameaça de uma greve dos caminhoneiros? A paralisação foi impulsionada
nas redes sociais pelo bolsonarismo (aquelas(es) que põe fogo no circ, sic) e,
no fim, não aconteceu, mas o clima de tensão vai se instalando. Mas o petismo
também tem sua parcela de culpa nessa incapacidade de sair do lugar. Mais uma
vez, avalia Luís Nassif (jornalista
investigativo), o governo mostra-se incapaz de apontar uma alternativa de futuro
que mobilize a sociedade. Frente à subida nas pesquisas do herdeiro do
bolsonarismo, o PT resolveu elevar o tom das críticas e
intensificar a denúncia de que Flávio Bolsonaro representa o mesmo projeto
autoritário e anti-popular de seu pai, o que é verdade, mas não resolve o
problema. Até porque a história não se repete e o cenário atual é, em muitos
aspectos, mais desafiador e complexo que o de 2022. Envolve uma profunda crise geopolítica, disputa de narrativas em
plataformas digitais e uma persistente insatisfação
da sociedade. Aliás, uma das novidades é a dificuldade que Lula tem demonstrado
de converter as conquistas econômicas e as políticas públicas em apoio
político. Outra novidade é que as insatisfações com o governo afetam também a
população nordestina, justamente o eleitorado que garantiu a vitória do candidato petista em 2022.
Gente
Aplicando Torniquete e Tentando Fazer Sangrar
A
pergunta de um milhão de reais é se, em ano eleitoral e num cenário de fortes
restrições externas, o governo poderá continuar operando a mesma política
econômica de sempre. Aqui, a armadilha é que a taxa básica de juros já parte de
um patamar altíssimo e tende a se elevar ainda mais devido à crise
internacional. Por hora, o Copom manteve a decisão de baixar timidamente a
Selic em 0,25%, mas deu indicativos de que não deve ir mais longe do que
isso nas próximas reuniões. O problema é agravado
pela sensação de perda da renda, um dos
principais fatores de insatisfação dos eleitores. O que, num cenário de
inflação relativamente controlada, pode ser explicado pela alta dos juros bancários, que atingiram o maior patamar dos
últimos 8 anos, agravando o endividamento familiar. Agora, uma combinação de elevação no
preço dos combustíveis e em insumos agrícolas pode acabar
impactando a inflação dos alimentos e o custo de vida em geral, especialmente
para os mais pobres. Para o governo, o cenário é especialmente sério pela
mistura de tendências inflacionárias e chantagens de diferentes setores. O
Planalto luta para evitar uma escalada do diesel, que já subiu em média 11% na última semana para
o consumidor na bomba. Isentou de tributos federais o diesel importado e
impôs uma sobretaxa sobre a exportação de petróleo nacional.
Porém, mesmo como uma compensação de R$ 3 bilhões oriunda
dos cofres da União, os governadores não pretendem contribuir com a isenção do
ICMS, deixando o Planalto arcar sozinho com o custo
financeiro e político da crise. Ao mesmo tempo, o açambarcamento e a
especulação rolam soltos, levando a Agência Nacional do Petróleo e os Procons a
realizarem um mutirão de fiscalização e o governo a convocar a Política Federal para
fiscalizar distribuidoras e postos de combustíveis. Isso para não falar da
malandragem das empresas de transporte, que exploram economicamente os
caminhoneiros com o achatamento dos preços do frete, jogando-os contra o
governo. Cabe verificar se o aperto da fiscalização e da repressão contra práticas
abusivas do patronato será suficiente para evitar a paralisação
do setor.
O fim do mundo está próximo, sic
Quando Daniel Vorcaro trocou de advogados, na
semana passada, Brasília entrou em polvorosa com a possibilidade de que uma
delação premiada se tornasse realidade. Depois que a defesa de Vorcaro se
reuniu com a PF e com André Mendonça para
tratar do assunto, o alerta de que o fim do mundo está próximo foi disparado.
Duas operações entraram em curso para tentar evitar a delação. Por um
lado, deputados do centrão pressionaram o STF para uma
saída alternativa para o banqueiro, como uma prisão domiciliar. Por
outro, liderado pelo jornal Estado de São Paulo, propagou-se a ideia de que o PT e o governo seriam os maiores
prejudicados por uma delação, quase um apelo para que o Planalto
entrasse em campo para impedi-la. Mas como lembra a professora Maria Hermínia Tavares, 17 governadores
implicados pertencem a partidos de direita, assim como todos os parlamentares
citados até agora. Há ainda quem peça a Deus para que a delação de Vorcaro seja
seletiva, mas André Mendonça já avisou nos bastidores que se ela não for completa, não tem acordo, nem
homologação. Para além do terremoto político em um ano eleitoral, a
delação pode ter outras consequências nas investigações. Maria Cristina Fernandes, jornalista, chama
atenção que Vorcaro e João Carlos Mansur, dono do fundo REAG, têm os mesmos
advogados, o que pode indicar uma tabelinha em que os dois joguem juntos para
apontar os mesmos culpados. Neste caso, o alvo poderia ser o terceiro
investigado da Operação Compliance, o empresário Nelson Tanure, acusado nesta
semana, na CPI do Crime do Organizado, de ser “o verdadeiro dono do Master”.
Independente da delação, as investigações em curso têm aprofundado o papel
do REAG como lavador do dinheiro do PCC e
novas relações do governador do DF Ibaneis Rocha com o
mesmo fundo.
Mas..., muita calma nessa hora
As duas principais instituições envolvidas no olho
do furacão do Master, o STF e o Congresso, reagem à sua maneira diante do que
parece ser uma tempestade inevitável. No Supremo, os boatos falavam em
aposentadorias de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes como saídas para a crise e
se atribuía inclusive ao presidente Lula uma campanha para se
livrar de Toffoli, mas preservar Moraes. A hipótese, porém, tem sido tratada
apenas como um balão de ensaio, porque nem mesmo o mais raivoso bolsonarista
anti-Moraes concordaria em dar à Lula a oportunidade de nomear outros dois
ministros do STF neste mandato. O fato concreto é a ordem de Edson Fachin de
que a Corte deve sair da crise mostrando trabalho. E o Supremo fez isso
mandando recados para o Congresso, com a condenação de dois deputados por
desvios de emendas do orçamento secreto e colocando uma tornozeleira eletrônica em uma deputada envolvida
nas fraudes do INSS. Outro recado, cortando na carne do Judiciário, foi a
decisão de Flávio Dino em suspender as aposentadorias compulsórias para juízes
e desembargadores condenados. Mais ou menos a mesma lógica tem sido adotada
por Hugo Motta, que quer pautar projetos mais
simpáticos, como ter aprovado o acordo UE-Mercosul e agora pretende
discutir a regulação dos trabalhadores de aplicativos e uma demanda da equipe
econômica, a atualização das normas para que o Banco Central possa liquidar uma
instituição financeira em crise (será que é o banco do Edir Macedo, sic). Já no
Senado, se depender de Davi Alcolumbre, não haverá nenhuma CPI para tratar do Master.
Enquanto isso, sem rumo desde a instalação, a CPMI do INSS busca ainda
sobrevida e relevância, tentando tirar alguma lasca do escândalo do Master,
o que não conseguiu até agora, mas principalmente mirando em Lulinha para
desgastar o governo. O problema é que o próprio presidente da CPMI, senador Carlos Vianna, tem que explicar suas emendas
pix para Igreja da Lagoinha (para a Receita Federal, etc e tal, sic),
aquela mesma do Banco Master. E o Planalto, que não tem nada a ver com o
Master, também tem seus motivos para se preocupar. É que um escândalo deste
porte atinge a confiança da população nas instituições em
geral, como atesta uma pesquisa de Felipe Nunes da Quaest, o que
alimenta discursos e candidatos anti-ssistema em um ano eleitoral e todos eles
localizados do lado direito da política.
Ponto
Final: nossas recomendações de leitura
A crise Trump, segundo Varoufakis.
O economista grego analisa os possíveis impactos da guerra no Oriente Médio para
além do preço do petróleo. No Outras Palavras.
O Banco Master e os vendilhões do templo.
Como a Igreja da Lagoinha se tornou uma corporação e se envolveu com o Banco
Master. Na Revista Jacobin.
Como um documentário da Brasil Paralelo se liga a uma
rede de ódio contra Maria da Penha. O Brasil Paralelo atuou como
organização criminosa, segundo o MP, para atacar a ativista e des-credibilizar
a lei. Na Carta Capital.
A internet era uma terra sem lei’.
No Brasil de Fato, o advogado Ariel de Castro Alves analisa os impactos da
promulgação da ECA (Est. Criança e Adolescente
digital).
O bolsonarista sem guerra cultural que desafia
Nikolas Ferreira. Como a frustração com a política institucional
impulsionou a carreira do líder das pesquisas ao governo de MG.
Na Carta Capital.
Como os novos presidentes sul-americanos podem
influenciar as eleições no Brasil. O papel dos cinco vizinhos
governados pela extrema-direita nas eleições brasileiras.
Na Pública.
Poemas de Leminski esquecidos em avião há 44 anos são
devolvidos à família. Quatro décadas depois, a descoberta de
manuscritos e poemas inéditos de Paulo Leminski.
No Farofafá.
* O Ponto é editado por Lauro Allan
Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos
Contemporâneos, publicado todas as sextas-feiras.
**Este é
um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial
do Brasil do Fato.
Editado BdF: Nathallia Fonseca
Publicado no BdF:20.mar.2026
Fonte: https://www.brasildefato.com.br/colunista/boletim-ponto/2026/03/20/brasilia-tem-cheiro-de-gasolina-e-oleo-diesel/