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9.21.2026

IA : vigilância e liberdade

Em seu novo ensaio, Nexus, o historiador e filósofo Yuval Noah Harari (Israel, 1976) soa o alarme sobre o crescente poder da IA, o avanço da hipervigilância e o enfraquecimento do diálogo. Assim, o autor de bestsellers como Sapiens e Homo Deus apresenta um paradoxo: se a nossa espécie é tão sábia, por que somos tão auto-destrutivos?

por Pilar Bolívar no Ethic e IHU Unissinos – Sociedade e IA para o bem ou para o mal ?

Inteligência Artificial (IA) Imagem na internet

O que diferencia a inteligência artificial (IA) de um totalitarismo ou autoritarismo?

Os regimes autoritários controlam as esferas política e militar e o orçamento, mas permitem que as pessoas tenham algum fôlego. O rei ou o tirano não pode saber o que cada um de nós faz ou pensa a cada minuto do dia. Os regimes totalitários tentam fazer exatamente isso.

Stalin, na União Soviética, ou Hitler, na Alemanha, não queriam controlar apenas a esfera militar e o orçamento, mas a totalidade da vida de cada um de seus habitantes. Contudo, mesmo Hitler e Stalin tinham limites quanto ao nível de controle sobre os seus súditos, porque não podiam seguir todos constantemente, muito menos ter cerca de 400 milhões de agentes para vigiar e controlar seus 200 milhões de cidadãos.

A IA permite uma vigilância total que acaba com qualquer liberdade, porque não precisa de agentes para perseguir cada humano: há smartphones, computadores, câmeras, reconhecimento facial e de voz... A IA tem a capacidade de revisar uma quantidade enorme de vídeos, áudios, textos, analisá-los e reconhecer padrões.

Isso já está acontecendo?

Claro. Em Israel, há territórios ocupados por câmeras e drones, monitorando todo mundo constantemente. No Irã, onde as mulheres são obrigadas a cobrir o rosto, há câmeras de vigilância com software de reconhecimento facial que identifica as mulheres que, por exemplo, estão em seu veículo sem cobrir o rosto. Elas recebem imediatamente um SMS no celular com sua penalidade e punição: apreensão de seu veículo; devem descer do carro e entregá-lo. A autoridade para puni-las está nas mãos da IA. Não é um cenário de ficção científica, nem algo que acontecerá em 100 anos. Já estamos vivendo isso.

Considera que devemos nos assumir como espécie em perigo?

Sim, porque a IA é diferente de qualquer tecnologia inventada antes. Não é uma ferramenta, mas um agente independente. Todas as tecnologias anteriores – a bomba atômica ou as armas nucleares – tinham um imenso poder destrutivo, mas seu poder estava nas mãos dos humanos, que decidiam como e onde usá-las. O mesmo não acontece com a IA, pois ela toma decisões por conta própria.

No âmbito jornalístico, as decisões mais importantes em um jornal estão nas mãos de seu editor. Um jornalista pode escrever a história que desejar, mas, ao final, é o editor quem decide o que publicar na primeira página do jornal. Agora, na maioria dos principais meios de comunicação e plataformas digitais, como Twitter e Facebook, a função do editor foi substituída pela IA. São os algoritmos que decidem qual história deve ser recomendada, qual deve ir para o topo do feed de notícias. Agora, a IA não só toma as decisões por conta própria, como também cria ideais, enquanto produz mil coisas novas por conta própria, desde textos, imagens etc.

Qual deve ser o papel da imprensa para fortalecer a democracia?

Antes do mundo pré-moderno, não conhecíamos uma democracia em si – a palavra “democracia” significa “diálogo” -, já que o diálogo em larga escala era impossível. Em uma cidade pequena, seus habitantes podiam se reunir na praça e conversar chegando a acordos, mas em um reino era tecnicamente impossível manter um diálogo entre milhões de pessoas.

Um diálogo em larga escala tornou-se possível com a chegada da tecnologia da informação moderna, cuja primeira ferramenta foram os jornais que surgiram entre os séculos XVII e XVIII nos Países Baixos e na Inglaterra, onde nasceram as primeiras democracias da história. Depois, vieram outras tecnologias novas, como o telégrafo, o rádio etc., demonstrando que os meios de comunicação integram a base de uma democracia em larga escala.

Alguns ditadores da era moderna começaram como jornalistas. Antes de se tornar um ditador, Lenin foi editor de um jornal. Mussolini começou como jornalista socialista e depois mudou de parecer e fundou um jornal fascista; era editor de um jornal e, a partir desse poder, tornou-se ditador da Itália. Hoje, esse poder está nas mãos dos gigantes: Facebook, Instagram e Twitter e nas mãos de seus algoritmos.

A liberdade de expressão e a censura cabem neste marco?

Embora haja um forte debate sobre a responsabilidade desses novos gigantes tecnológicos, quando são acusados de algo, sempre falam sobre liberdade de expressão: “Nós, pela liberdade de expressão, não queremos censurar ninguém”. Este tema está no centro da polêmica. Concordo que as empresas de redes sociais devem ser cuidadosas com o tema da censura aos seus usuários, mas o problema não são os conteúdos produzidos por humanos, mas as decisões editoriais dos algoritmos.

O que as pessoas comuns podem fazer?

Peço às pessoas que diferenciem entre as decisões dos usuários humanos e as do algoritmo. Se o usuário humano decide inventar uma história, publicar fake news e mentir (talvez por erro ou propositalmente), em situações extremas, pode ser processado e punido.

Em termos gerais, as pessoas mentem, mas em uma democracia devemos ter cuidado antes de começar a censurar. Além disso, acredito que as pessoas têm o direito à estupidez, inclusive a dizer mentiras, exceto quando vinculadas a um crime. Não é bom que as pessoas mintam, mas faz parte da liberdade de expressão.

No entanto, o principal tema com essas teorias da conspiração e fake news não são as decisões dos seres humanos protegidos pela liberdade de expressão, mas as decisões dos algoritmos das corporações, pois seu modelo de negócios se baseia no envolvimento do usuário.

Como você descreve o modelo de negócios das empresas de redes de informação?

O envolvimento do usuário é a base de tudo. Se as pessoas passam mais tempo nas plataformas, as empresas ganham mais dinheiro, pois vendem mais anúncios e coletam dados que depois venderão a terceiros. Este é o modelo de negócio deles.

Perseguindo este objetivo, os algoritmos das empresas descobriram que é preciso disseminar fake news e teorias que aumentem as doses de ódio, medo e raiva nos usuários, pois isso faz com que as pessoas se envolvam, passem mais tempo nas plataformas e enviem links para que seus amigos também fiquem com raiva e sintam medo. Por este motivo, sim, as empresas deveriam ser responsáveis, porque isto não é liberdade de imprensa.

O que as empresas de redes de informação podem fazer?

Não é necessário deter tudo isso. Simplesmente, é preciso investir mais em segurança, como é comum em qualquer outro setor. Por exemplo, se você vai fabricar um remédio ou uma vacina, você tem que investir tempo, esforço e talento para que funcione sem causar efeitos adversos. Se as empresas de IA investissem, por exemplo, 20% de seu orçamento, tempo e talento em segurança, seria um passo significativo que poderia nos proteger de seu lado mais pernicioso.

No entanto, as pessoas do setor estão presas em uma mentalidade de corrida armamentista, de competidores, e de não deixar que os outros ganhem. Então, quando você fala com eles sobre os perigos da IA, respondem: “Estamos desenvolvendo IA agora e se tivermos um problema ao longo do caminho, trataremos do caso”. Isto é muito perigoso porque é como se alguém colocasse um veículo sem freios na estrada e dissesse: “Queremos apenas que vá o mais rápido possível e se houver um problema com os freios na estrada, inventaremos algo quando isto acontecer”. Não funciona assim com os veículos e também não deveria ser assim com a IA.

Algo positivo ou uma contribuição da IA para a humanidade?

Sem dúvida, a IA tem um potencial enorme. Não acredito que todas as pessoas no Vale do Silício sejam más. A IA pode nos dar os melhores cuidados de saúde, pois há escassez de médicos em muitos países e ela poderia criá-los. Inclusive, o médico da IA pode ser atualizado diariamente com as descobertas, estudos e avanços que ocorrem ao redor do mundo.

O médico IA pode estar conosco 24 horas por dia, ao passo que os médicos humanos não podem (além disso, o médico IA é mais barato). Nesse sentido, dentro de 20 ou 30 anos, a IA será capaz de desenvolver os cuidados de saúde mais adequados, mesmo em áreas remotas ou extremamente pobres.

Agora, no campo da prevenção de acidentes de trânsito, muitas vezes, os acidentes são causados por erro humano, mas quando você dá à IA o controle de um veículo autônomo, ela não dormirá ao volante, não bebe álcool e depois dirige etc. Não existe tecnologia perfeita, mas acredito que automatizar a direção poderá salvar milhões de vidas.

Publicado no IHU Unissinos: 21 Fevereiro 2025

Fonte: https://ihu.unisinos.br/categorias/648759-a-inteligencia-artificial-permite-uma-vigilancia-total-que-acaba-com-qualquer-liberdade-entrevista-com-yuval-noah-harari

 

9.16.2026

Trabalhador brasileiro trabalha muito, porque?

"Comecei o artigo propondo diferenciar os conceitos de produtividade do trabalho e produtividade do trabalhador. Vimos como se mede a produtividade do trabalho: divide-se o PIB pelo número de ocupados ou de horas trabalhadas. Sabemos que na formação do PIB, a infraestrutura, bem como a utilização de tecnologias e a gestão do negócio são importantes", Cássio S. Calvete

... a cultura empresarial brasileira, ao invés de ter o trabalhador como parceiro prefere maltratá-lo, tê-lo como terceirizado, intermitente, estagiário, autônomo exclusivo, parcial, temporário, por tempo determinado e agora plataformizado

por Cássio da Silva Calvete*, no Inst Human Unisinos (IHU) – Sociedade e Vida Além do Trabalho

  Fonte: imagem na internet

Ao se discutir o Fim da Escala 6x1 e a Redução da Jornada de Trabalho, muitos aspectos têm que ser levados em conta: o equilíbrio entre vida familiar e laboral, a Vida Além do Trabalho, as questões da saúde física e mental, a ecologia, as questões raciais e de gênero, etc. Para mim, todos esses aspectos são mais importantes que os fatores econômicos. No entanto, como sou economista e conheço o ditado que diz que a parte mais sensível do corpo humano é o bolso, escrevi esse texto para enfatizar a questão da produtividade do trabalho. No que tange aos aspectos econômicos essa é, sem dúvida nenhuma, a questão fulcral da discussão. Porque, podemos afirmar, com suporte de todas as Teorias Econômicas, repito, de todas as Teorias Econômicas que em havendo crescimento de produtividade do trabalho ela pode ser repassada para os trabalhadores em forma de crescimento salarial ou redução da jornada de trabalho sem que essa distribuição gere algum tipo de dificuldade econômica às empresas ou à economia do país, como recessão, desemprego ou inflação.

Será que o trabalhador brasileiro tem baixa produtividade ou a gestão empresarial deixa a desejar?

Muito se fala que o trabalhador brasileiro tem baixa produtividade. Isso é falso, e justamente por isso, o que pretendo fazer nesse texto é propor uma distinção essencial entre o conceito tradicional de produtividade do trabalho e um novo conceito, o de produtividade do trabalhador. Vamos começar a discussão por uma afirmação parecida, mas muito diferente: de que a produtividade do trabalho no Brasil é baixa. Perceberam a diferença? Ao afirmar que a produtividade do trabalhador é baixa eu jogo toda a culpa do baixo desempenho, no trabalhador. Ao dizer que a produtividade do trabalho é baixa eu tiro o foco do trabalhador e jogo luz para todos os aspectos que envolvem o processo produtivo, inclusive para a gestão empresarial.

A produtividade do trabalho normalmente é medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) dividido pelo número de ocupados, ou ainda pelo número de horas trabalhadas. Portanto, pode-se perceber que quando medimos a produtividade do trabalho de toda a nação, utilizando o PIB como sendo um dos valores, estamos falando da produção de todo o país, logo, outros fatores são mais importantes para que o crescimento ocorra, do que a mão de obra. Para influenciar o crescimento do PIB eu destaco quatro fatores: infraestrutura do país, desenvolvimento tecnológico, cultura empresarial e mão de obra.

Quando falamos de infraestrutura estamos nos referindo a estradas, ferrovias, portos, aeroportos, armazéns, energia, escolas, universidade, instituições de pesquisa e sistema financeiro — o que Michael Porter (1993) chamaria de fatores competitivos de uma nação. Quando a referência é o desenvolvimento tecnológico estamos nos referindo a quantidade e qualidade da tecnologia que participa do processo produtivo: conexões 6G, softwares, robôs, IAs, Sistemas Ciber-físicos, etc. Analisando apenas esses dois aspectos, já dá para perceber porque a produtividade do trabalho no Brasil é baixa. Mas o terceiro aspecto, que é muito pouco falado, também tem peso significativo, a cultura empresarial. Nela destacamos a alta rotatividade do trabalho, invariavelmente para baixar "custos", e a falta de treinamento fornecido pelas empresas. Mas além desses dois aspectos que são mensuráveis e, portanto, não abrem espaço para maiores discussões, podemos destacar também a gestão do negócio e sua opção recorrente de concorrer preferencialmente pela redução dos custos e não pelo aumento de produtividade e qualidade dos produtos e serviços, a gestão da mão de obra com seus baixos salários e péssimas condições de trabalho, as técnicas organizacionais e a (in) eficiência dos gastos dos recursos das empresas.

Quando chegamos para falar do quarto aspecto, já podemos perceber que o menos culpado pela baixa produtividade do trabalho no Brasil é o trabalhador. Podemos ir além e dizer que ele é a vítima das condições de trabalho. Porque a sua parte ele está fazendo, basta ver o aumento do nível de escolaridade da sociedade brasileira, e particularmente dos trabalhadores, nos últimos quarenta anos. No entanto a cultura empresarial, ao invés de ter o trabalhador como parceiro prefere maltratá-lo, tê-lo como terceirizado, intermitente, estagiário, autônomo exclusivo, parcial, temporário, por tempo determinado e agora plataformizado. É evidente que esse empregador, que gere a sua mão de obra de forma a evitar que ela tenha um vínculo sólido com a empresa, não valoriza o trabalhador e não vai investir nele.

Como medir a alta produtividade do trabalhador brasileiro?

Comecei o artigo propondo diferenciar os conceitos de produtividade do trabalho e produtividade do trabalhador. Vimos como se mede a produtividade do trabalho: divide-se o PIB pelo número de ocupados ou de horas trabalhadas. Sabemos que na formação do PIB a infraestrutura bem como a utilização de tecnologias e a gestão do negócio são importantes.

Então, como podemos medir a produtividade do trabalhador sem que ele tenha que carregar o peso de todas as mazelas do país?

Proponho como forma de isolar a variável trabalho, que meçamos a produtividade do trabalhador pela divisão do valor do que é produzido em uma hora trabalhada, pelo custo do trabalho por hora. Ou dizendo de outra forma, vamos ver quanto cada dólar pago para o trabalhador é transformado em dólar de produto final. Apresento a tabela abaixo com esse exercício:

Tabela: custo da mão de obra (a), produtividade do trabalho (b) e produtividade do trabalhador em alguns países (b/a)

País

Custo da mão de obra* (a)

Produtividade do trabalho** (b)

Produtividade do trabalhador (b/a)

EUA

43,11

81,30

1,89

Alemanha

59,96

80,50

1,34

França

58,98

80,20

1,36

Itália

47,56

74,10

1,56

Canadá

38,37

69,80

1,82

Espanha

42,11

68,10

1,62

Reino Unido

29,04

67,30

2,32

Portugal

31,41

52,90

1,68

Polônia

35,90

48,80

1,36

Chile

13,65

34,40

2,52

Brasil

6,31

21,20

3,36

Equador

5,92

15,60

2,64

Peru

4,49

15,30

3,41

*Fonte: ilostat (2025). Dados de 2025 em $ PPP. Acesso em 25 de maio de 2026.
**Fonte: https://ilostat.ilo.org/topics/labor-productivity. Acesso em 25 de maio de 2026. Produto por hora trabalhada (Produto em dólares internacionais constantes de 2021, $ PPP). Obs.: O exercício relacionando valores de 2021 com valores de 2025, pode trazer alguma diferença nos valores absolutos, em comparação com uma relação de valores do mesmo período, que seria a mais indicada. No entanto, na comparação relativa entre os países, essas diferenças seriam insignificantes.

Sob essa nova perspectiva o cenário muda completamente.

Produtividade de trabalho no Brasil com a escala 6 x 1

O trabalhador brasileiro só perde em termos de produtividade, e por muito pouco, para o peruano, e ganha com folga de todos os demais países selecionados. Logo, sob essa perspectiva podemos afirmar que a produtividade do trabalhador brasileiro é alta, ou melhor, que é muito alta.

Após feita essa comparação estática vamos ver como evoluiu a produtividade do trabalho no Brasil.

Vamos aos números: a última pesquisa da FGV-OPRB (Bonelli, 2026) indica que a produtividade do trabalho no Brasil cresceu 34,2% desde a última redução da jornada de trabalho em 1988, até 2025. Estudo meu em parceria com Eduarda Muller (Muller e Calvete, 2026) aponta um crescimento de 12% nos últimos 12 anos. Isso é pouco? Isso é muito? Com certeza não é uma evolução maravilhosa, mas tampouco podemos dizer que é um desastre. Fazendo um cálculo grosseiro, estamos tendo um crescimento médio de 1% ao ano. Eu acho bom, principalmente quando levamos em conta o motivo da discussão atual. Os empresários dizem que com a redução da Jornada de Trabalho de 44 para 40 horas semanais o custo da produção pode aumentar em até 10%. Claro que esse é um limite superior hipotético que sabemos todos que não vai acontecer. Mas, e se acontecer? Bom se acontecer ao olharmos para trás vemos que nos últimos dez anos a produtividade do trabalho cresceu esses 10%. Logo, o setor empresarial terá condições de absorver esse aumento de custo.

Porque não vai acontecer um aumento de custo da mão de obra em 10%? Porque para isso acontecer os empresários terão que contratar novos trabalhadores na exata medida da redução da jornada de trabalho, ou seja 10%. Nas experiências reais de redução da jornada de trabalho isso não aconteceu, e não irá acontecer agora. O primeiro ponto a se destacar é que em muitos casos já existem nas empresas trabalhadores com jornadas inferiores às 44 horas semanais, portanto a redução da jornada de trabalho não se aplicaria a todo pessoal. O segundo aspecto, é que alguns efeitos da redução da jornada de trabalho já atuariam como fatores compensadores, como o aumento da produtividade do trabalhador e a diminuição do absenteísmo. O terceiro fator é a própria busca das empresas por outras formas de compensar a redução da jornada sem que seja necessária a contratação de novos trabalhadores, como a intensificação do ritmo de trabalho, o ajuste na gestão da mão de obra, a substituição de mão de obra por capital, a contratação parcial de trabalhadores e o aumento de horas extras esporadicamente. Por fim, ainda como opções para a não contratação, a redução da produção e a redução da margem de lucro. Portanto, podemos supor que o aumento do custo da mão de obra ficará abaixo dos 10%. Quem sabe algo em torno de 5%?

Qual o lucro do empresário com o trabalhador brasileiro?

Sob a perspectiva tradicional, a produtividade do trabalho norte-americana é de U$ 81,30 e a nossa é de U$ 21,20, portanto baixa. No entanto, sob a nova perspectiva proposta, o cenário muda completamente. Para cada dólar gasto com o trabalhador brasileiro ele devolve U$ 3,41 e para cada dólar gasto com o trabalhador norte-americano ele devolve US$ 1,89. Logo, sob essa perspectiva podemos afirmar que a produtividade do trabalhador brasileiro é alta, ou melhor, é muito alta.

Para encerrar esse pequeno artigo, pergunto: Onde reside o problema para a redução da jornada de trabalho no Brasil? Não podemos dizer que é na baixa produtividade do trabalhador brasileiro, ela é muito boa. Não podemos dizer que o crescimento da produtividade do trabalho no Brasil é pequeno, ele é bom sim. Onde está o problema?

Referências bibliográficas

BONELLI, Regis. Observatório da produtividade do trabalho. FGV IBRE.

MULLER, Isadora Scheide; CALVETE, Cássio da Silva. Viabilidade econômica para redução da jornada de trabalho no Brasil. In: Volume 1 "Tempo de trabalho em movimento e a sociedade brasileira" do dossiê Fim da Escala 6X1 e Redução da Jornada de Trabalho, 2026.

PORTER, Michael. A vantagem competitiva das nações. Editora Campus, 1993.

*Cássio da Silva Calvete é professor associado da UFRGS, doutor pela UNICAMP e pós-doutorado na Universidade de Oxford.

Publicado IHU Unissinos: 23 Junho 2026

 

Fonte: https://ihu.unisinos.br/667531-a-produtividade-do-trabalhador-brasileiro-e-muito-alta-artigo-de-cassio-da-silva-calvete