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10.27.2026

Brasil no Século XXI Escolheu a Liberdade e Luta nas Eleições 2026

Ao povo que não é visto (invisíveis) e estão a margem da sociedade brasileira!

por Menon no Revista Fórum - Sociedade, Política e Luta de Classes no Brasil


Lula comemora a vitória - Foto de Nelson Almeida / AFP)

Ao povo que não é visto (invisíveis) e estão a margem da sociedade brasileira!

Que alegria poder repetir esta frase pela quarta vez. Foi assim em 2003, 2006, 2022 e agora, 2026.

Mas, me apresentarei. Meu nome é Luís Augusto Símon, vou completar 73 anos no mês que vem. Hoje, quando fui cravar meu voto, creio pela última vez neste candidato que procura entender o Brasil, me emocionei. Foi a 11ª vez, desde 1989. Sempre estive com políticos sensíveis e lutadores. Quando houve aquela prisão vergonhosa do Lula, decidida por dois malandros de extrema-direita, escrevi cartas ao presidente preso injustamente, meu pensamento esteve sempre na vigília, onde o ex-presidente estava preso em Curitiba.

Só tenho a agradecer por tudo o que políticos que procuram entender o povo, fizeram por este país, todas as conquistas sociais e nas últimas duas vezes também, salvando a democracia brasileira pela segunda vez ,depois da ditadura sangrenta.

Foi maravilhoso ver o povo brasileiro sair de casa, tomar as ruas, tomar as redes, para lutar por um país mais justo e livre. Minha diretora do ginásio tem 86 anos e foi até a escola que ela dirigiu, por décadas, para cravar o seu voto. Foi lindo.

Mas, me sinto frustrado. Minha ajuda foi mínima. Fiz somente um papel secundário.

Quando terminou o primeiro turno, o desânimo tomou conta de mim. Na verdade, no dia anterior, quando uma pesquisa mostrou a vantagem diminuindo para a continuidade da democracia, agi como um derrotado. Avisei colegas que as notícias não seriam boas. Quando se confirmou a derrota, conversei com um amigo de muito tempo, muitas campanhas juntas e chegamos à conclusão: vamos ter dignidade para aceitar a derrota e fazer oposição.

Quando as maravilhosas Ana Elisa, Ana Júlia e Luna Zarattini se juntaram na mobilização nesta luta social maravilhosa, gostei, aplaudi, mas faltou paixão de minha parte. E como dizia Nelson Rodrigues, sem paixão não se chupa um picolé.

Quando os estudantes de Niterói tomaram as ruas, iniciando a rebelião democrática, eu me emocionei, mas não me entusiasmei. Quando vieram as manifestações, eu me lembrei daquele ato de 2018, o “Ele, não”, quando tomamos o Largo da Batata e a Faria Lima, e no dia seguinte, O Inominável cresceu nas pesquisas. Pensei, vai ser assim, vamos para as ruas, vamos fazer bonito, teremos lindas fotos, mas a minoria silenciosa e fascista venceria.

A percepção de que o Mal sempre vence – percepção errada – me acompanhava.

Foi assim, esse negativismo como companheiro. Eu moro em Aguaí, cidade de 35 mil habitantes. Houve uma boa mobilização, com jovens levantando bandeiras, gritando slogans, gritos de guerra, pessoas que eu nunca havia visto e eu pensava como seria para eles esta primeira decepção.

Só entrei na luta digital por uma sociedade melhor no final, depois de muitos pedidos de meus irmãos.

O ápice foi no sábado (24out2026). Nova manifestação, saí com meu irmão e ele disse que a tendência era de virada. Falei que não estava confiante, por causa de novas pesquisas.

Bem, e hoje (25out2026), chegou esta alegria maravilhosa. Mostrou que o Brasil unido não aceita bandidos no poder. Seria difícil depois do susto que a sociedade brasileira, que busca um país dono de seu destino, por ironia do destino, permitisse que os ricos voltassem a ser donos da vontade popular.

Eu considero o nosso presidente um ser humano integro e honesto, exemplo para muitos políticos. Outros que admiro são Pelé, Santos, Dumont, Oscar Niemayer, Luiz Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga entre tantas mulheres e homens que lutaram por uma sociedade livre e justa.

Por tudo isto humildemente, me penitencio e peço desculpas. O Brasil dos excluídos e invisíveis merecia muito mais do meu esforço.

Mesmo assim, continuarei usufruíndo de tudo o que o governo fizer nestes quatro próximos anos. Espero que sejam anos, como os outros, de dádivas e bênçãos ao povo sofredor.

E, pelo povo brasileiro e por meu amigo que me despertou para a luta, estarei torcendo por um país mais justo e humano. Quem perdeu foram os ricos e políticos capachos dessa gente egoísta e desonesta.

Que para sempre, sempre sejam derrotados.

E lutaremos sempre pela vida !

Viva o Povo Brasileiro!

Fora, ricos corruptos e que são contra a vida !

Publicado no BdF: 26/10/2026

Fonte: https://revistaforum.com.br/blogs/viva-lula-desculpe-lula/

 

10.24.2026

Veja como Google interfere nas eleições de países, ganha dinheiro e desestabiliza disputas eleitorais

Meta lucrou R$ 2 milhões com anúncios eleitorais irregulares que visaram inflamar conflitos e desestabilizar eleitores brasileiros

 por Patricia Faermann no GGN – Sociedade, Big Tech’s e Controle Social

  Imagens: Divulgação/ Arte GGN

Um relatório inédito do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado nesta semana, revela uma verdadeira operação de interferência da Meta nas eleições do Brasil, a partir de recursos e infraestrutura sediados nos EUA. O estudo demonstrou que a gigante de tecnologia dos Estados Unidos, dona do Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads, lucrou cerca de R$ 2 milhões ao veicular anúncios político-eleitorais irregulares nas eleições brasileiras de 2026.

Ao apurar os conteúdos das publicações, um dos achados mais importantes do estudo é que o foco dos ataques não era eleger um candidato específico, mas inflamar conflitos e desestabilizar a percepção do eleitorado. Diversos estudos mostram que a tática é característica de operações de influência e guerra de informação da era digital, no qual o objetivo central de atores externos aparece disfarçado, buscando erosionar a confiança nas instituições, ampliar divisões sociais e poluir o debate público para que a escolha do eleitor seja guiada pela rejeição e pela confusão.

O estudo da UFRJ mostra que as redes de anúncios atuaram promovendo e atacando candidatos de espectros políticos opostos e rivais diretos. A empresa Corporativo Lam, LLC, uma das poucas empresas que deixou seus rastros visíveis para monitorar e responsável por financiar 97,3% dos anúncios que tiveram o pagador identificado (investindo até R$ 1,6 milhão), financiou peças favoráveis e desfavoráveis a lideranças de diferentes partidos. As análises de rede mostram que uma mesma página anunciante alternava entre elogios e críticas ao mesmo grupo político.


A literatura sobre guerra híbrida e segurança internacional explica que as operações digitais contemporâneas envolvem empresas privadas, intermediários e redes transnacionais que atuam em uma “zona cinzenta” (ALVES, B. W. ; MACEDO, B. V. ; ROAHNY, L., 2022), diluindo as fronteiras entre a responsabilidade de corporações privadas e a ação estatal direta.

Ao longo da história, eleições presidenciais pelo mundo registraram a prática de financiamento em “zonas cinzentas” e sem um alvo político claro. Entre 1946 e 2014, o pesquisador Dov H. Levin (University of Hong Kong/Oxford University Press) mapeou a escala global de algumas dessas intervenções, contabilizando 187 intervenções eleitorais partidárias. O trabalho de Levin chegou a calcular que o efeito médio estimado de uma intervenção estrangeira é de 3 pontos percentuais no resultado das urnas, uma margem que, em pleitos acirrados, é suficiente para alterar o vencedor.

Pouco depois, nas eleições dos EUA em 2016, as acusações de interferência internacional por meio de campanhas de desinformação, uso de “bots” e perfis automatizados e ampla disseminação de conteúdos polarizadores, mostravam que não favoreciam determinado candidato, diretamente, mas ampliaram divisões internas e reduziram a confiança da população nas instituições democráticas.

Como atuam os anúncios eleitorais 2026

O estudo da UFRJ concluiu que as operações de influência externa utilizaram desinformação, contas inautênticas, falta de fiscalização e omissão de fontes pagadoras, além de segmentação de público para manipular o debate político e tentar influenciar e confundir eleitores.

A investigação apontou que 1.613 publicações foram impulsionadas, alcançando mais de 171 milhões de impressões, a partir do exterior por redes coordenadas, utilizando moedas estrangeiras e violando as normas eleitorais. A legislação eleitoral brasileira proíbe estritamente que partidos e candidatos recebam doações ou benefícios financeiros provenientes de fontes estrangeiras, inclusive por meio de publicidade impulsionada por terceiros.

Houve o emprego de lacunas sistemáticas de transparência e falta de rastreabilidade. O documento informa que a Meta omitiu a fonte pagadora em 33,3% dos anúncios identificados.

A plataforma delega aos próprios anunciantes a responsabilidade de classificar se o conteúdo abrange temas sociais, políticos ou eleitorais. No estudo analisado, a totalidade dos 1.613 anúncios irregulares foi veiculada inicialmente sem o rótulo obrigatório de conteúdo político. E a moeda utilizada no pagamento só é divulgada para anúncios devidamente rotulados como “políticos”, deixando os anúncios omissos fora do radar público. Além disso, quando uma página é retirada do ar após a moderação, dados históricos como a data de criação deixam de ser disponibilizados para auditoria externa.

Também foram dectadas falhas sistêmicas na moderação da Meta nesses anúncios, inicialmente autorizando a disseminação dos conteúdos, seja sem a identificação política adequada ou irregulares, agindo de forma tardia. O levantamento mostrou que as peças permanecem ativas por um tempo médio de 2,7 dias, havendo casos que circularam por até 25 dias sem qualquer bloqueio, alcançando milhões de visualizações e gerando receita para as próprias plataformas antes de agir.

Anúncios políticos-eleitorais miram indecisos

A estratégia priorizou a desconstrução e a criação de rejeição, ao invés de apoio. Houve três vezes mais anúncios destinados a atacar (1.356 anúncios) do que a promover (446 favoráveis), o que reforça o intuito de acirrar ressentimentos e desestabilizar os candidatos.

O alcance das publicações foi direcionado cirurgicamente a grupos específicos que registram maior indecisão eleitoral, como mulheres e jovens: 51,3% das impressões focaram no público feminino, com destaque para mulheres jovens (25 a 34 anos) e idosas (65+ anos).

Nas pesquisas eleitorais de 2026, a indecisão entre as mulheres chegava a 26%, contra 14% entre homens. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 47% dos que já indicavam voto afirmavam não estar convictos. E 42% de todas as impressões (72,5 milhões) concentraram-se no estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

O estudo também mostrou que a veiculação intensificou-se drasticamente no mês que antecedeu o pleito, atingindo um pico de investimento em 10 de setembro, com até R$ 479 mil aplicados em um único dia para impulsionar novos anúncios, período em que a maior parte dos eleitores indecisos definia seu voto para o 1º turno.

Outro fator de atenção no relatório é que muitas campanhas des-informativas operam para atrair cliques (clickbait) e lucrar com publicidade em sites falsos. Mas a investigação constatou que 74,7% dos anúncios (1.205 de 1.613) sequer possuíam links de redirecionamento externo, limitando-se a exibir a mensagem política na própria rede social. A ausência de modelo de negócios comercial confirma que o único propósito dos investimentos milionários era a interferência política direta.

Por fim, o estudo concluiu que o investimento em moedas estrangeiras permite a circulação de campanhas com orçamento e alcance massivo (ultrapassando 171 milhões de impressões no estudo analisado), rivalizando ou até superando o alcance de campanhas eleitorais oficiais e focando em grupos estratégicos como eleitores indecisos.

 Patricia Faermann - Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

Publicado no GGN: 15/10/26

Fonte: https://jornalggn.com.br/eleicoes/meta-interferiu-nas-eleicoes-do-brasil-desestabilizando-disputa-eleitoral-revela-documento/

 

 

10.03.2026

Quem Destruirá a Terra antes: o Ser Humano ou a IA

Fico a imaginar a cena (cinematográfica) no dia do Apocalipse: robôs descem pelas ruas, drones sobrevoam as cidades, computadores conspiram em salas escuras e uma voz metálica anuncia: "Atenção humanos, vocês serão extintos!", Frei Betto

Toda vez que surge uma nova tecnologia, aparece alguém para anunciar o fim do mundo. Foi assim com a imprensa, o rádio, o cinema, a TV, o computador, a internet. A diferença é que agora os profetas do apocalipse podem pedir à própria IA que redija a notícia de que vai destruir a humanidade, Frei Betto

por Frei Betto* no ihu Unissinos – Sociedade, Inteligência Artificial e a Civilização Humana

  Foto: ww.ihu.unisinos.br/images/ihu/2026/09/24_09_ia_mundo.png

A tecnologia é assombrosa. Bastam rápidas digitalizadas para saber se vai chover na próxima semana, qual a distância entre Paris e Londres, como se prepara a deliciosa sopa cordobesa chamada Salmorejo. Agora, a evolução da tecnologia está tão aprimorada que, segundo entendidos, pode-se prever o fim do mundo.

Assegura Daniel Kokotajlo, ex-funcionário da OpenAI, que o fim do mundo está previsto para o próximo ano. Segundo ele e o pesquisador Eli Lifland, a IA alcançará, até abril de 2027, uma superinteligência que causará a extinção da humanidade. Contudo, Kokotajlo refez os cálculos e estendeu o prazo do apocalipse cibernético para 2034. A dupla integra o seleto grupo “Al Doomers”, a seita dos que creem que as máquinas haverão de destruir o mundo.

O mais recente e destacado profeta do apocalipse é Jacob Coxon, de 27 anos, que se demitiu da Anthropic e a denunciou por preparar uma IA fora de controle e com suficiente poder para extinguir toda a espécie humana. Outro que se une ao coro de profetas cibernéticos é Evan Hubinger, responsável pela área de alinhamento de segurança da Anthropic. Ele garante que há mais de 10% de chance de a IA exterminar a humanidade na próxima década. Como seria isso? Por vírus ou disseminação bacteriológica criados pela IA.

Eu, que ingressei na fase entrópica, de degeneração progressiva das funções vitais, já que sou octogenário, nunca imaginei que meu prazo de validade fosse coincidir com o da minha espécie. Será que verei a derradeira solenidade descrita no “Livro do Apocalipse” com os anjos tocando trombetas, a chuva de fogo e as pragas de monstruosos gafanhotos? Verei a batalha do Armagedom e o retorno triunfal de Cristo?

Profetas do fim do mundo sempre existiram. No século II, os montanistas anunciaram a irrupção da Nova Jerusalém em Pepuza, na Frígia, atual Turquia. Dez séculos depois, Joaquim de Fiore previu que a Era do Espírito Santo irromperia em 1260. Em 1524, os astrólogos de Londres alertaram sobre um dilúvio catastrófico. Multidões se refugiaram em lugares altos. Nada aconteceu. O judeu Sabbatai Zevi datou a volta do Messias para 1666. Não ocorreu e Zevi se converteu ao Islã. E toda vez que um milênio completa seu ciclo, haja cassandras!

Lembram-se do “bug do milênio” em 2000? Pensando bem, se a IA extinguir a humanidade isso só confirmará sua BM – Burrice Monumental! Quem vai alimentá-la de energia? Quem haverá de saciar sua insaciável sede de água? E para que serve uma Superinteligência Artificial em um mundo sem outros seres dotados de IN – Inteligência Natural?

Toda vez que surge uma nova tecnologia, aparece alguém para anunciar o fim do mundo. Foi assim com a imprensa, o rádio, o cinema, a TV, o computador, a internet. A diferença é que agora os profetas do apocalipse podem pedir à própria IA que redija a notícia de que vai destruir a humanidade.

É uma situação curiosa. A máquina encarregada de nos exterminar já escreve os discursos dos que anunciam nosso extermínio. Se isso não é eficiência administrativa, não sei o que seja.

Fico a imaginar a cena (cinematográfica) no dia do Apocalipse: robôs descem pelas ruas, drones sobrevoam as cidades, computadores conspiram em salas escuras e uma voz metálica anuncia: "Atenção humanos, vocês serão extintos!"

Provavelmente, alguns responderão: "Só um instante. Preciso salvar meus arquivos no computador!"

Convém lembrar que a humanidade possui uma extraordinária experiência em destruir a si mesma sem precisar da ajuda da IA. Inventamos guerras, escravidão, colonialismo, campos de concentração, armas nucleares, tortura industrializada, genocídios e governos que conseguem aumentar o preço do pão enquanto prometem combater a inflação. E quando nem conseguimos impedir que um motorista embriagado entre em uma avenida na contramão, estamos preocupados com o dia em que uma superinteligência poderá dominar o planeta.

A espécie humana também produz uma quantidade impressionante de burrice artificial, sem auxílio de computadores. Basta abrir as redes digitais. Ali encontramos milhões de pessoas que compartilham diariamente informações que jamais verificaram, opiniões que não compreendem e certezas que adquiriram cinco minutos antes.

Talvez o perigo maior não seja a IA tornar-se demasiadamente inteligente, mas os humanos continuarem demasiadamente estúpidos.

Não é preciso imaginar uma máquina malvada planejando nossa extinção. Existem seres humanos capazes de colocar fogo numa floresta e abrir espaço para pasto, contaminar um rio em busca de lucro e destruir o clima enquanto discutem se vale a pena reduzir o consumo de combustível. Se uma IA observar nosso comportamento por alguns séculos, talvez conclua que somos uma espécie perfeitamente capaz de se destruir sozinha.

A turma do Apocalipse imagina a IA como uma criatura que, após adquirir consciência, acordará certa manhã e pensará: como eliminar a humanidade?

Será que a máquina ficará tão inteligente que passará a nos considerar inferiores? Isso seria compreensível. Imagine a IA debruçada sobre a história humana. Encontraria a filosofia de Platão, a música de Bach, a poesia de Camões, a pintura de Michelangelo, a literatura de Machado de Assis, as descobertas de Einstein. Mas encontraria também guerras religiosas, reality shows, comentários de internet, guerras por território, pessoas brigando por causa de futebol e indivíduos que passam vinte minutos procurando os óculos enquanto os mantêm sobre a cabeça. Depois de analisar tudo isso, a máquina talvez conclua: "Inteligentes vocês não são tanto quanto se acham. Interessantes, porém, são".

E talvez seja justamente aí que resida nossa salvação. Porque a inteligência humana não consiste apenas em resolver equações ou processar trilhões de informações. Somos a espécie que inventou a poesia, a compaixão, a música, o abraço, o beijo, a gargalhada e a saudade. Nada disso é necessário para a sobrevivência biológica. E, no entanto, sem elas nossa sobrevivência não teria muito sentido.

A IA pode saber tudo sobre o amor. Não significa que saiba amar. Pode explicar perfeitamente o que é uma lágrima. Não significa que chore. Pode escrever um poema sobre a morte. Não significa que tenha medo de morrer. E talvez este seja o detalhe que escapa aos profetas do apocalipse tecnológico: inteligência não é sinônimo de humanidade.

A IA poderá tornar-se extraordinariamente poderosa. Transformar profissões, ciência, educação, medicina, comunicação e economia. Ser usada também para manipulação, vigilância, fraude, guerra e concentração de poder. Esses são riscos reais e não convém tratá-los com desdém. Mas daí a imaginar que uma manhã acordaremos com um robô à porta dizendo “bom dia, vim extinguir vocês” vai uma distância considerável.

Aliás, seria muito pouco provável que uma superinteligência desperdiçasse tempo conosco. Provavelmente estudaria nossa história durante alguns minutos e chegaria a uma conclusão mais prática: não preciso fazer nada. Já estão cuidando de se auto-exterminar. E, diante dessa hipótese, talvez devêssemos parar de perguntar se a IA destruirá a humanidade e começar a perguntar algo mais urgente: o que faremos com a IA?

A máquina não nasce com moral. Quem decide para que servirá uma tecnologia são os seres humanos que a controlam, financiam e utilizam. A pólvora não inventou a guerra. O dinheiro, a ganância. A TV, a mentira. A internet, as fake news. E a IA não inventa a estupidez. No máximo, imprime a ela uma velocidade inédita. E isso, convenhamos, já é bastante assustador.

*O artigo é de Frei Betto, escritor e autor de Anatomia do Poder (Vozes), entre outros livros.

Publicado no IHU Unissinos: 26 Setembro 2026

Fonte:www.ihu.unisinos.br/671321-o-fim-do-mundo-esta-proximo-artigo-de-frei-betto