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12.23.2025

Brasil Feudal: para pobres a lei nua e crua, para ricos com poder, o famoso “jeitinho brasileiro” por baixo da lei

Quer gostemos ou não, neste país pós-tupy-guarany, foi imposta uma nação control C-control V de uma sociedade européia desiquilibrada e feudal, que mostrou um péssimo histórico de dominação...

  Foto na internet

Uma dúvida sem resposta: até quando a população invisível tolerará o judiciário, sem eira nem beira, quanto aos direitos civis e humanos ?

Conquistas populares somente foram alcançadas com bastante articulação e organização popular, depois que a elite egoísta oprimiu em muito tempo e elevado grau o povo.

No Brasil, situações de injustiça popular, infelizmente passaram a ser corriqueiras, após décadas de acumulação de capital e patrimônio por pessoas que conseguiram um lugar no espaço social, e oportunamente, roubaram as possibilidades de direitos as pessoas, que se mantiveram humildes e buscando sempre uma vida digna e justa.

Nos três poderes públicos, esse fato é notório, corriqueiro e sem nenhum pudor, praticado a revelia do estrato mais baixo da população, que procura tão somente atender suas necessidades mínimas para viver.

Quer gostemos ou não, neste país pós-tupy-guarany, foi imposta uma nação control C-control V de uma sociedade européia desiquilibrada e feudal, que mostrou um péssimo histórico de dominação, destruições e guerras (1ª e 2ª guerra mundial, só para citar esses genocídios). Nossa herança histórica deixa a desejar um otimismo que possa ser seguido como estrutura sócio-econômica.

Seguindo essa análise histórica brasileira, um país mais justo, digno e com oportunidades para todas(os), se alcançará a longuíssimo prazo, onde poderão haver oportunidades a população que não tem direitos e justiça. A começar pela eterna busca por respeito e cidadania, distribuição de terra e renda, assim como continua conscientização dos direitos e deveres de cada cidadão com nacionalidade brasileira.

Um exemplo prático e que possibilita o entendimento dessa injustiça social, é o texto abaixo publicado no UOL por Adriana Ferraz.

General Heleno Nunes vai para prisão domiciliar, em 2025, STF negou prisão domiciliar para preso por pensão, com Alzheimer avançado

por Adriana Ferraz no UOL _ Sociedade e Judiciário Elitista

Ambulatório do centro de detenção apontou risco. Segundo a defesa do engenheiro, o ambulatório do Centro de Progressão Penitenciária de São Vicente (SP), onde o idoso ficou preso, emitiu memorando sobre o frágil estado físico e mental do custodiado 15 dias após a detenção. "Fui informado de que ele não estava se adaptando bem, mas não consegui acessar o documento para juntar aos autos", explicou o advogado Nilton Carlos Lopes Júnior.

Prisão durou um mês. Sem a aprovação da domiciliar, o aposentado cumpriu a prisão de 30 dias expedida em função do não pagamento da pensão. Durante esse período, em função do Alzheimer avançado, um de seus filhos conseguiu na Justiça a curatela do pai por "incapacidade civil" decorrente da doença. "Estava claro desde o início ser incabível a manutenção da prisão. Ele foi levado de uma UPA justamente pela sua condição física", completa Júnior.

STF só liberou 6% dos idosos com comorbidades na pandemia

Nem o risco na pandemia resultou em decisões favoráveis. O risco de contágio no sistema penitenciário não foi suficiente para o STF decidir a favor de pedidos de liberdade monitorada feitos por presos idosos ou com comorbidade. Apenas 6% foram atendidos, segundo o estudo Decidindo Não Decidir — A atuação penal do STF durante a pandemia de Covid-19, elaborado por pesquisadores da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Pesquisa avaliou 120 despachos que tinham o "risco específico" como argumento principal das defesas. Trata-se de decisões monocráticas tomadas entre 1º de janeiro de 2020 e 26 de junho de 2021. Na lista, estavam doenças respiratórias, hipertensão e a própria condição de ser idoso. Somente sete pedidos (5,8%) obtiveram sucesso.

Maioria dos casos nem teve o mérito analisado. "O que se observou foi que o STF decidiu não decidir durante a crise sanitária, e nos poucos casos em que analisou o caso concreto, quase não se pronunciou sobre o risco à vida ou condições de saúde nas instituições prisionais", destaca Mariana Zambom, doutoranda na FGV Direito SP e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Direito e Violência de Estado

Publicado no UOL: 22/DEZ/2025

Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/12/22/em-outubro-justica-negou-domiciliar-para-preso-por-pensao-com-alzheimer.htm

12.22.2025

Entre o sutil e o explícito, o Brasil caminha para o precipício climático

"De certa forma, o que estamos vendo é um casamento arrumado entre o negacionismo sutil do governo federal com o explícito que é promovido pela bancada que representa os interesses do latifúndio agro-exportador e das mineradoras (comodites)."

por Marcos Pedlowski no A Nova Democracia – Sociedade e Ser Humano Insano Destrói sua Propria Casa

Foto: copiado na internet

Como previsto em artigo publicado em março2025 pelo Nova Democracia, a COP30 se configurou com um imenso fracasso no tocante à adoção das medidas necessárias para ser impedido o precipício climático que está sendo gerado, pela contínua dependência de combustíveis fósseis, para movimentar o sistema produtivo capitalista.  Se olharmos para as principais decisões adotadas na COP30, é possível notar que ali se consumou a adoção de formas de mercado, para tentar debelar os efeitos negativos gerados pelo sistema produtivo, através das grandes corporações.  Mas o parcos resultados não podem ser vistos como surpresa, na medida em que as corporações multinacionais do petróleo e do complexo alimentar possuíam mais lobistas do que delegações de muitos países somados e presentes no evento. 

Por outro lado, as idas e vindas do presidente Lula a Belém serviram apenas para explicitar as limitações das propostas de uma forma particular de negacionismo climático.  As principais propostas do governo brasileiro, se é que se pode chamar aquilo de proposta para salvar a Terra, encontraram forte resistência política e financeira.  O autodenominado Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que na prática é uma espécie de consórcio das florestas, acabou reunindo menos promessas de alocação de recursos do que esperado e não se antevê que poderá conter as pressões, no sentido de avançar a exploração das áreas que ainda estão cobertas por florestas, especialmente na região tropical, como por exemplo a Amazônia.  Além disso, o tal mapa do caminho para alcançar a diminuição do uso dos combustíveis fósseis, sequer foi incluído na declaração final da COP30. Aliás, esse resultado foi até facilitado pela guinada feita pelo presidente Lula em prol da exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas.  Ao fazer isso, o Brasil se colocou em uma posição fragilíssima, para argumentar em prol da diminuição progressiva do uso de combustíveis fósseis na matriz energética global. 

Coerente e antenada com o fracasso da COP30, a maioria dos deputados e senadores que compõe a atual legislatura, entraram em campo (no congresso) para derrubar 52 dos 63 vetos impostos pelo presidente Lula ao chamado PL da Devastação.  Essa derrubada era também esperada, na medida em que a mesma coisa já havia ocorrido durante a tramitação do PL do Veneno. Naquele caso, Lula vetou uma parcela menor dos artigos, que foram posteriormente facilmente derrubados por este mesmo congresso. Mas se engana quem acha que houve uma resistência real por parte da bancada governista para manter os vetos de Lula no PL da Devastação.  O que houve, quando muito, foi um simulacro de resistência, já que o governo Lula negociou diretamente com Hugo Motta e Davi Alcolumbre a aprovação do PL da Devastação, pois existe um claro interesse governista em passar a boiada na BR-319 e na Foz do Amazonas.

De certa forma, o que estamos vendo é um casamento arrumado entre o negacionismo sutil do governo Lula com o explícito que é promovido pela bancada que representa os interesses do latifúndio agro-exportador e das mineradoras.  A diferença entre um e outro é apenas performática, na medida em que o resultado final será um avanço no processo de extração de recursos, para alimentar uma economia cada vez mais agro-mineral dependente de tecnologias para desenvolvimento do país. 

O problema é que, todo esse cenário se dá em meio ao aumento das evidências de que o Brasil é uma espécie de lócus privilegiado do colapso climático. Se olharmos apenas para as últimas semanas, veremos vários episódios de eventos meteorológicos extremos varrendo cidades, sejam na forma de ventos catastróficos, chuvas de granizo com pedras gigantes, ou ainda na seca aguda que compromete o abastecimento hídrico da maior área metropolitana do hemisfério sul.

Aliás, há que se dizer que um dos locais afetados recentemente por um evento meteorológico extremo, Rio Bonito do Iguaçu foi o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, com 24,9 mil hectares de florestas destruídas, o que representa aproximadamente 60% da mata original daquela região. Este desmatamento excessivo, foi impulsionado pelo latifúndio agroexportador, e expôs eventos climáticos extremos, como o recente tornado que devastou grande parte do município. Desta forma, é possível afirmar que o caos instaurado por um tornado em Rio Bonito do Iguaçu é uma espécie de antessala do que deveremos ter pela frente, como resultado da combinação das diferentes formas de negacionismo climático.

Diante de um cenário de precipício climático explícito, algo óbvio a se dizer é que precisamos reagir de maneira urgente e firme. Os problemas que estão já presentes por causa das formas capitalistas de espoliação da natureza, vão ser aprofundados por essa combinação dos negacionismo. É urgente construir a resistência climática sob um novo marco, de forma a incluir a classe trabalhadora e a juventude, através dos movimentos sociais e grupos organizados, na construção de ferramentas de transformação de uma realidade, que nos encaminha para o colapso climático.

Publicado no AND: 2 de dezembro de 2025

Fonte: https://anovademocracia.com.br/entre-o-sutil-e-o-explicito-o-brasil-caminha-para-o-precipicio-climatico/

12.16.2025

O Brasil que Nao esta dando certo

 No Brasil, para que haja direitos civis e de cidadania, muita coisa tem que ser resolvida, tanto nas áreas publicas como privadas.

A começar, pela rapinagem (desvio de dinheiro e patrimonio) nas varias áreas da administração publica federal, passando pelas administrações estaduais e municipais.Nos setores públicos, so por que as admissões sao feitas por concurso publico, achamos que tudo esta no seu lugar, com justiça e direitos preservados.

Errado.

Vai ter muita luta para cortar os oportunismos de ganhos salariais injustos e vergonhosos, perante a maioria da população que passa muitíssima necessidade na conquista de uma vida digna.

Como ocorrem distorções e oportunismo no setor publico, o setor privado busca frestas e descaminhos para se beneficiar dessa situação de esbornia (ou bagunça), pagando impostos que sao verdadeiros roubos durante o dia, madrugada e a noite dão calote em suas dividas publicas e conseguem descontos ou reduções tributarias vergonhosas.

Um exemplo de vergonha nacional, que na area da justiça em todas as estancias sao de deixar qualquer pessoa vermelha de raiva, sem fazer mais delongas no executivo e legislativo, o site digital (jornal digital) UOL publicou, denunciando a advogacia geral da união, algo inimaginável por qualquer pessoa de bom senso. 

Segue abaixo o texto do UOL

Penduricalho dispara, e supersalários da AGU somam R$ 3,8 bi acima do teto

Tiago Mali - UOL 

O aumento está relacionado a uma decisão de usar saldos acumulados em anos anteriores para pagamentos de novos penduricalhos acima do teto (leia mais abaixo).

Os pagamentos foram feitos a 11,7 mil funcionários da ativa e aposentados nas carreiras de advogado da União, procurador da fazenda nacional, procurador federal e procurador do Banco Central.

Neste ano, 93% dos servidores ativos e 99,7% dos inativos ultrapassaram o teto constitucional em pelo menos um mês.

O UOL mostrou em março que R$ 14,4 bilhões haviam sido arrecadados desde 2017 por um fundo gerido pelo CCHA (Conselho Curador dos Honorários Advocatícios), uma entidade privada.

O estudo indica que esse valor, de janeiro de 2020 a agosto de 2025, foi de R$ 16,8 bilhões.

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O recurso vem de taxas pagas por quem quita débito inscrito na dívida ativa da União e de honorários advocatícios das causas envolvendo a União, autarquias e fundações públicas federais. Os honorários são pagos por partes perdedoras em processos judiciais.

O vigoroso aumento de 2025 está relacionado não a uma maior arrecadação de recursos, mas à decisão de pagar, em forma de penduricalhos, recursos represados em anos anteriores.

Nos primeiros meses deste ano, o CCHA distribuiu R$ 2 bilhões a mais do que recebeu. Ou seja, foram criados em 2025 novos pagamentos extrateto para "gastar" o saldo acumulado pelo conselho.

"O CCHA encontrou, por meio de penduricalhos além do rateio ordinário, uma maneira de exponenciar os contracheques dos beneficiários", afirma Cristiano Pavini, pesquisador da Transparência Brasil.

O estudo mostra que, de 2020 a 2025, o conselho distribuiu bônus superiores a R$ 1 milhão a 7.649 servidores.

Pagamentos Contestados da AGU

O STF determinou em 2020 que o valor dos bônus deveria ser somado ao resto da remuneração do servidor para o cálculo do teto constitucional.

O CCHA, no entanto, tem contornado a determinação com a criação de diversos penduricalhos, como "auxílio-saúde complementar" e "auxílio-alimentação complementar".

Esses adicionais são classificados como "verbas indenizatórias". Essa natureza jurídica permite que sejam acumulados acima do teto.

Em nota enviada à reportagem, o CCHA diz que o teto vem sendo cumprido, já que verbas indenizatórias não estão sujeitas ao teto e classifica a análise feita pelo estudo de "metodologicamente incorreta".

O estudo do Movimento Pessoas à Frente e da Transparência Brasil também contesta o pagamento de penduricalhos a novos advogados.

"A legislação estabelece que os advogados ativos das carreiras da AGU só terão direito aos repasses após o primeiro ano de exercício da função. (...) Desde janeiro de 2024, 435 novos advogados foram diplomados no serviço público. Juntos, eles receberam R$ 15 milhões no período compreendido, antes de completarem um ano de exercício", diz o documento.

O CCHA contesta, dizendo que "advogados públicos em início de carreira recebem exclusivamente verbas indenizatórias legais, como auxílio-saúde e auxílio-alimentação".

O levantamento também localizou indícios de pagamentos de honorários a pensionistas, o que é vedado pela lei. Em resposta à reportagem, o conselho diz não ter tido acesso ao nome das pessoas que estariam recebendo esses recursos.

"Os achados endossam a urgente necessidade de um controle eficaz sobre os honorários advocatícios de sucumbência geridos pelo CCHA, retomando a autoridade do teto constitucional e imprimindo transparência e racionalidade em seus pagamentos", diz o estudo.

O levantamento mostra que as carreiras ligadas à AGU começam a alcançar o nível de pagamentos acima do teto registrado entre juízes e membros do Ministério Público.

Essas carreiras fazem parte de uma exceção do funcionalismo público que recebe muito acima da média.

"Os supersalários são pagos para uma pequena parte, cerca de 1% do funcionalismo, enquanto metade dos servidores públicos tem salários de até R$ 3.300,00", afirma Jessika Moreira, diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente.

Sobre a reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Publicado no UOL 16 dezembro 2025

Fonte uol.com.br/colunas/tiago-mali/2025/12/15/penduricalho-dispara-e-super-salarios-da-agu-somam-r-38-bi-acima-do-teto-htm

12.14.2025

Estudo mostra que Brasil é um dos países mais desiguais do mundo

 No Brasil, a raiz da desigualdade não está apenas em falhas “políticas sociais”, mas assentadas no monopólio da terra e falta de verdadeiras politicas sociais para as classes mais baixas

por Redação de ANDSociedade e Exploracao das Classes mais Humildes

 Imagem desigualdade social na internet

Quando se olha os dados de desigualdade para o Brasil nos últimos 15 anos, e possível perceber que este pais e o pior em distribuição de renda no mundo. Mesmo após programas sociais, impostos e transferências, a desigualdade segue em patamar bem superior ao da média do Ocidente. Ainda que haja alguma redução em relação à renda “bruta”, o país continua no topo do ranking mundial da concentração de renda, lado a lado com os casos mais extremos do planeta. Em outras palavras, o Estado até mexe um pouco na mísera ponta da renda, mas não o suficiente para tirar o Brasil do bloco dos campeões globais da desigualdade.

Enquanto o governo presidido por Luiz Inácio (PT) comemora em cadeia nacional que o Brasil “atingiu o menor nível de desigualdade da série histórica”, dados de organismos internacionais dizem outra coisa. Relatórios recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do World Inequality Lab (Laboratório da Desigualdade Mundial) mostram que o país continua entre os mais desiguais do mundo, com concentração de renda e riqueza características de um país capitalista liberal burocrático, dominado por financismo e administração publica distante das verdadeiras necessidades da população.

O estudo Government at a Glance 2025, da OCDE, avalia o impacto de impostos e transferências (como benefícios sociais, seguros-desemprego, aposentadorias) sobre pobreza e desigualdade em dezenas de países. Em média, antes de qualquer intervenção estatal, 27% da população dos países da OCDE está em situação de pobreza relativa. Depois de impostos e transferências, esse número cai para 11%. Da mesma forma, o coeficiente de Gini* médio cai de 0,46 (renda de mercado) para 0,32 (renda disponível), mostrando que a redistribuição existe, mas longe de atender as necessidades de toda a sociedade, dentro de limites bem definidos.

A própria OCDE admite que, no conjunto dos países, depois de uma década de políticas compensatórias e “inovações” em proteção social, a desigualdade, mesmo após os impostos e transferências, praticamente não se moveu. Em 2012, o Gini médio “pós-redistribuição” era de 0,32; em 2021, continuava em 0,32. A pobreza relativa cai alguns pontos, estabiliza, oscila ligeiramente, mas a estrutura da concentração de renda se mantém. Do clube dos países ricos, o recado é cristalino: com o desenho atual de Estado e de distribuição de terras, a máquina da desigualdade continua funcionando quase intacta.

No caso brasileiro, o mesmo relatório mostra que a desigualdade não só permanece entre as mais altas do planeta, como aumentou na última década. A fatia da renda nacional apropriada pelos 10% mais ricos passou de 57,9% em 2014 para 59,9% em 2021, recuando ligeiramente para 59,1% em 2024 – ainda assim, acima do patamar de dez anos antes. No mesmo período, a participação dos 50% mais pobres caiu de 10,7% para 8,2%, recuperando-se parcialmente para 9,3%. O índice que divide a fatia dos 10% do topo pela fatia dos 50% de baixo saltou de 53,7 para 63,5 entre 2014 e 2024, com pico de 73 em 2021. Ou seja, houve uma melhora mínima na vida dos mais pobres em termos absolutos, enquanto os muito ricos enriqueceram muito mais.

É exatamente a partir dessa discrepância que entra a polêmica com o estudo do Ipea, usado pelo governo conclusão de que a desigualdade estaria “no menor patamar em 30 anos”. A nota técnica usa exclusivamente dados da Pnad (pesquisa domiciliar do IBGE) para medir renda e conclui que o coeficiente de Gini caiu de 0,615 para 0,504 entre 1995 e 2024, o que indicaria uma forte redução da desigualdade. Os números foram apresentados no Palácio do Planalto pelo presidente, ao lado da presidente do Ipea e dos autores da nota técnica.

O problema é que a própria nota do Ipea admite, em letras miúdas, que pesquisas domiciliares subestimam fortemente a renda do topo – sobretudo dos 1% e 0,1% mais ricos, cuja renda vem principalmente de lucros, juros, dividendos e ganhos de capital. Economistas como Guilherme Klein, pesquisador da Universidade de Leeds e do Made/USP, lembra que, “para enxergar de fato o topo, é obrigatório combinar pesquisas domiciliares com dados da Receita Federal”. 

Foi exatamente isso que o World Inequality Lab fez. Ao juntar Pnad, IRPF e contas nacionais, o quadro se inverte de “queda histórica da desigualdade” para “desigualdade ainda maior do que se imaginava”. Não por acaso, um dos próprios autores da nota técnica do Ipea já havia mostrado, em pesquisas anteriores com dados tributários, que a desigualdade não caiu entre 2005 e 2014, ao contrário do que sugerem apenas as entrevistas domiciliares.

Enquanto a equipe econômica do governo escolhe uma série que não mostra a realidade, para anunciar ao país que “vivemos em um momento de menos desigualdade”, os dados e estudos mais completos indicam que a concentração de renda no Brasil segue entre as maiores do mundo e, em diversos itens piorou.

No plano mundial, o World Inequality Report 2026 aprofunda o diagnóstico. Segundo o estudo, divulgado pelo jornal inglês The Guardian, menos de 60 mil pessoas – cerca de 0,001% da população do planeta – concentram três vezes mais riqueza do que toda a metade mais pobre da humanidade. Já os 10% mais ricos ficam com 75% da riqueza global, enquanto a metade de baixo tem apenas 2%. Com o parâmetro da renda (ganhos de trabalho e capital), o padrão se repete: o topo dos 10% embolsa mais que os outros 90% somados. A pesquisa é fruto de um consórcio de pesquisadores, e encomendada pela ONU.

Brasil: desigualdade que assusta até seus próprios beneficiários

 

Mesmo quando se toma ao pé da letra os números usados pelos governos, o limite das chamadas “políticas compensatórias” salta aos olhos. A OCDE admite que “impostos progressivos e transferências reduzem pobreza e achatam um pouco a curva de renda” – mas, em 10 anos, isso não alterou o nível médio de desigualdade “pós-redistribuição”. O sistema corrige pequenos excessos, evita explosões imediatas das massas mais pobres, mas preserva intacta a engrenagem que produz a concentração.

O caso brasileiro ilustra bem essa contradição. O próprio Ipea mostra que a renda média por pessoa cresceu e que a pobreza extrema caiu de cerca de 25% para 5% em três décadas, impulsionada por “programas de transferência” como o Bolsa Família e períodos de expansão do emprego. Ao mesmo tempo, os dados combinados de IBGE e Receita, usados pelo World Inequality Report, revelam que a fatia da renda abocanhada pelos ricos aumentou – ou seja, os pobres melhoraram um pouco, enquanto os ricos dispararam numa velocidade muito maior. A desigualdade de renda continua brutal e a de riqueza (terras, imóveis, ações, títulos financeiros) é ainda mais obscena e praticamente intocada.

Essa incapacidade de “consertar” a desigualdade pelas bordas é reconhecida, com crescente inquietação pelos que tem o capital e patrimônio. No prefácio do relatório global, o vencedor do Nobel Joseph Stiglitz defende a criação de um “painel internacional permanente para monitorar a desigualdade”, nos moldes do IPCC do clima, e os autores sugerem taxar os milionários (patrimônio líquido de 100 milhões de dólares) para financiar educação nos países pobres. Claro que não se trata de generosidade, mas do medo de que tamanha contradição entre a concentração de renda e pobreza desestabilize as “democracias” liberais, alimentando rebeliões de massas que ameaçam o equilíbrio social.

No Brasil, a raiz da desigualdade não está apenas em falhas “políticas sociais”, mas assentadas no concentração da terra e da exploração do capital e patrimônio. O latifúndio e seu maquinário tecnológico concentram atividades voltadas unicamente para produção de produtos primários para exportação, como soja, café, cana-de-açúcar e carne animal, ao mesmo tempo sustentadas na exploração da massa camponesa. Enquanto, a produção da “cesta básica” brasileira é restrita a pequena produção familiar, de pequenos e médios proprietários, reféns dos monopólios de distribuição e circulação de suas mercadorias. Além do monopólio do financiamento por bancos que comandam a intermediação do crédito, e demais conglomerados industriais e de serviços associados ao grande capital. 

As “políticas compensatórias” funcionam como amortecedores, aliviam a miséria extrema, garantem algum consumo básico, reduzem a pressão imediata sobre o sistema de exploração e opressão, mas não mexem na concentração da terra, nem nos monopólios dos que controlam o capital. Enquanto se distribuem cartões de benefício, seguem intocados os mecanismos que permitem a 0,001% do planeta acumular mais do que metade da humanidade e, no caso brasileiro, que 10% abocanham quase 60% da renda nacional.

A partir dos estudos da OCDE e do World Inequality Report, a conclusão é, portanto, oposta à propaganda oficial. A desigualdade brasileira não está “em queda histórica”, permanece entre as mais altas do mundo e integra um quadro global em que até os organismos do próprio sistema capitalista admitem não conseguir reverter, apenas administrar.

Publicado na AND 12 de dezembro de 2025

Fonte  https://anovademocracia.com.br/desmentindo-governo-brasil-desigualdade/