A
primeira estratégia do cacique Xavante Apoena, foi “amansar” os brancos e permitir o
contato pacífico, realizado nos anos 1940, depois de décadas de resistência às
suas investidas
por Inês
Castilho* em Outras Palavras –
Sociedade e Povos Tradicionais Indigenas
Em julho, aldeia Etenhiritipá, em
MT, volta a receber não-índios. Através de filme e debates apresentam, em SP, notáveis ações de
resistência adotadas há décadas pelos índios guerreiros
Estratégia
Xavante narra
uma história vivida a partir de 1976 por oito meninos da etnia Xavante – os
A’uwe uptabi, povo verdadeiro. Foram escolhidos pelo lendário cacique Ahopoen
(Apoena) e outras lideranças da Terra Indígena (TI) Pimentel Barbosa, no Mato
Grosso, para viver com famílias de Ribeirão Preto (SP) com a missão de entender
a cultura dos brancos, os warazu, e ajudá-los a proteger-se da violência dessa
mesma cultura.
O filme
(de Belisário Franca, com produção executiva de Angela Pappiani, Belisário
Franca, Jurandir Siridiwê Xavante e Luís Antônio Silveira) conta como essas
crianças, com cerca de 8 anos, conseguiram viver num ambiente totalmente
estranho ao seu meio de origem e aprender a língua e costumes não-índios, vindo
a considerar-se filhos e irmãos daquelas famílias. E os conflitos que sentiram,
mais de uma década depois, ao separar-se desse novo mundo para retornar à vida
com seu povo.
“Quando
chegamos na rodoviária de Ribeirão tinha muita gente, era muito barulho, as
avenidas, as ruas, tudo muito estranho. E a gente tinha medo. Medo mesmo. Era
um mundo desconhecido”, conta Jurandir Siridiwê, um daqueles meninos, hoje
formado em relações internacionais e líder de sua comunidade.
Esse foi
apenas o primeiro choque cultural vivido por essas crianças e relatados no
filme. Paulo Cipassé Xavante conta como, no primeiro dia de escola, viu-se
cercado por muitas crianças, “acho que a escola toda”, que queriam vê-lo e
tocá-lo, e como isso lhe causou medo. Tem ainda a história de quando José Paulo
Serewarã Xavante arrancou os cílios das bonecas das irmãs de criação, e os
cílios das próprias irmãs, por ser essa uma tradição cultural de seu povo.
O retorno
à própria cultura foi também doloroso. Com o passar dos anos Tsetetó esqueceu a
língua materna e teve de reaprendê-la. Houve ainda a dificuldade de
acostumar-se novamente com a comida tradicional, quando de volta à aldeia, ou a
vergonha por não conseguir fazer as longas caminhadas para caçar, por falta de
preparo físico. Grandes desafios para esses guerreiros.
“Hoje
estão todos à frente de suas comunidades, trabalhando pela recuperação de seus
hábitos alimentares tradicionais, o reflorestamento do cerrado, o manejo da
caça, os direitos indígenas”, observa a jornalista Angela Pappiani, uma das
principais responsáveis pela realização do filme. “Foi uma estratégia
bem-sucedida”, diz ela, que registrou a saga desses meninos no livro Entre
dois Mundos (Ed. Nova Alexandria).
Mas esta
não foi a primeira estratégia de sobrevivência física e cultural dos Xavante. A
primeira, do mesmo cacique Apoena, foi “amansar” os brancos e permitir o
contato pacífico, realizado nos anos 1940, depois de décadas de resistência às
suas investidas.
“O branco
chegou pressionando o povo xavante. Era barulho, muito sobrevoo rasante, nossos
ancestrais pegavam os filhos e corriam, tinham grande medo. Até que os velhos
começaram a pensar como fazer pra haver um encontro pacífico. Essa foi a
estratégia do meu avô Apoena, e foi assim que teve um encontro de paz”, conta o
cacique Jurandir Siridiwê.
“[Apoena]
foi o único e último líder. Ele deu início a tudo. Foi no tempo da pureza. Sua
metodologia era que não houvesse divergência, que se preservasse a paz”, diz o
guerreiro Cidancri.
Visitas à
aldeia
Outras
estratégias se seguiram. Angela conta que, em parceria com o Núcleo de Cultura
Indígena, onde trabalhava sob a direção de Ailton Krenak, e o Ideti – Instituto
de Tradição Indigena, os Xavante propuseram algumas iniciativas para divulgar
sua cultura. Primeiro escolheram mostrar ao mundo seus cantos, com a gravação
de um CD; depois relatar sua história em livros e gravar sua vida em imagens;
em seguida sairam da aldeia para apresentações de canto e dança ritual em
várias capitais brasileiras e outros países. “Sempre com estratégia, propósito,
foco.” Agora estão levando visitantes pra dentro da aldeia.
O projeto
de levar visitantes à aldeia é uma ideia que data ainda dos anos 90, mas que só
agora está sendo levada adiante com sucesso. Depois de um ano de estudos
minuciosos para a implantação do turismo cultural e ambiental com a área
especializada do Senac, grupos de alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio
Santa Cruz começaram a ser levados, em parceria com uma agência de turismo especializada,
para vivências na aldeia Etenhiritipá, na TI Pimentel Barbosa, sob a liderança
do cacique Siridiwê. O programa está agora sendo estendido também a outros
públicos.
“A
experiência está dando certo”, diz Angela, que participou da preparação dos jovens
para a viagem. “Os adolescentes estão gostando, os indígenas também. Eles
fortalecem sua cultura, de que têm grande orgulho, e conquistam aliados para
manter sua tradição e território para as futuras gerações. Além de gerar
recursos para sua sobrevivência, já que hoje é grande a dependência de dinheiro
entre eles, e tudo o que têm são o salário dos professores e a aposentadoria
dos velhos.”
Assim
nasceu o Projeto Wazu’ri’wá, nome dado ao programa de visitação. Wazu’ri’wá
significa o desbravador, guerreiro que vai à frente para reconhecer o terreno,
definir os caminhos, aprender com a natureza e com as novas culturas que
encontrar pela frente, para levar o aprendizado para casa e preparar o caminho
para o restante da aldeia.
“É um
projeto delicado, que precisa ser feito com muito cuidado. Mas que, quando é
pensado com a participação efetiva da aldeia, pode ser muito bom tanto para
nós, não-índios, como para eles”, diz Angela.
Desafios
Não são
poucos os desafios enfrentados hoje pelos Xavante, como de resto pela maioria
dos povos indígenas no Brasil, para manter a tradição e proteger seu território
que, mesmo demarcado desde o final da década de 70, segue sofrendo ameaças de
todo tipo.
A chegada
da luz elétrica e de água encanada, da escola com a merenda escolar, dos
veículos automotivos levou a uma dramática mudança de hábitos alimentares e da
vida cotidiana, acarretando, em algumas aldeias, altos índices de diabetes e
obesidade. A televisão, o álcool, as drogas pressionam os hábitos dos jovens.
As religiões evangélicas, com seu individualismo e consumismo, corroem os
valores comunitários tradicionais.
“Quando
fizemos o filme, em 2017, eles viviam em sete aldeias; dez anos depois, são
aproximadamente o dobro”, diz Angela. “É natural que, quando uma aldeia chega a
cerca de 600 pessoas, ela se divida – o ideal são cerca de 400 pessoas. Mas
hoje, se alguém não aceita a atitude do chefe, já se muda com a família e forma
uma nova comunidade. O senso de coletividade, tão forte nesse povo, está se
perdendo. As velhas lideranças, muito rigorosas na manutenção das tradições,
estão hoje idosas, e a condução dos Xavante está nas mãos dos jovens, mais
permissivos.”
A
estratégia que agora se delineia é tentar a união política do povo Xavante,
hoje muito fragmentado. A ver se os meninos de Ribeirão Preto, fortes
lideranças em suas comunidades, ajudarão a reconquistar um equilíbrio favorável
à tradição.
* Inês Castilho-Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.
https://outraspalavras.net/brasil/para-conhecer-a-complexa-estrategia-dos-xavante/
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