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5.05.2023

Brasil, América Latina e Caribe é onde comer saudável custa mais caro

Relatório da FAO alerta para crise da segurança alimentar nos países latino-americanos e caribenhos em contexto de crise e pós-pandemia

Alta de preços de alimentos ficou 3 pontos percentuais acima da inflação na região

por Edison Veiga* no Deutsche Welle - Sociedade e Segurança Alimentar

Foto agricultura familiar

Muitas vezes os números servem para dar a dimensão exata daquilo que é naturalmente inexplicável. No caso da dor de quem tem fome porque não pode pagar por alimentar-se o mínimo, no relatório divulgado em 18 de janeiro de 2023 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mostra o tamanho do drama das(os) brasileiras(os) latino-americanas(os) e caribenhas(os) mais pobres nos últimos anos.

Em análise de 12 meses até junho de 2022, o levantamento confirmou que a inflação geral de todos os países da América Latina e do Caribe foi alta, refletindo a tendência mundial: 8,9%. Mas se isso, por si só, dificulta a vida dos habitantes, a realidade refletida no fundo do prato vazio das populações vulneráveis desses países é ainda pior. Porque, no mesmo período, o preço dos alimentos subiu 11,9%, ou seja, 3 pontos percentuais a mais do que a inflação.

O relatório lembra que o peso da alimentação no bolso das famílias de baixa renda é ainda maior porque, o valor proporcionalmente gasto com comida pelos mais pobres é maior do que pelos mais ricos. Por isso, a chamada "inflação alimentar” dói mais no bolso e no estômago daqueles que ganham menos.

O documento Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e no Caribe 2022 foi divulgado às 12h30 (horário de Brasília) em 18/JAN/2023 no escritório da FAO em Santiago, Chile. O trabalho envolveu outras quatro entidades, além da FAO: o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS), o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) e o Fundo das Nações Unidas Unidas para a Infância (Unicef).

Alimentos que Contribuem para a Segurança Alimentar na América Latina e Caribe

O levantamento concluiu que atualmente são 131 milhões de indivíduos de toda a América Latina e o Caribe que não podem pagar por uma dieta saudável. Isso equivale a 22,5% da população total de toda a região: 52% do Caribe, 27,8% da América Central e 18,4% da América do Sul.

O número de famintos também teve um aumento de 30% entre 2019 e 2021, saltando de 43,3 milhões para 56,5 milhões. E, reflexo da alimentação pouco ou nada saudável, a obesidade é uma epidemia cada vez mais presente nesses países, atingindo um quarto dos adultos e um total de 3,9 milhões de crianças até os cinco anos de idade.

A crise alimentar, portanto, como aponta o relatório, não causa apenas fome: também traz problemas como obesidade, anemia, atrasos no desenvolvimento infantil e desnutrição.

Preço da Invasão Européia na América Latina e Caribe

Segundo a FAO, a América Latina-Caribe é, hoje, o lugar mais caro do planeta alguém comer de forma saudável: o custo é de, no mínimo, 3,89 dólares por pessoa, enquanto a média mundial é de 3,54 dólares.

Para o sociólogo e cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), a América Latina ainda paga o preço do período quando concretizou-se a invasões européias.

"Desde então, historicamente, boa parte da produção agrícola da região é direcionada para o mercado internacional. Os preços são taxados em euros ou dólar, e como essas commodities  têm uma variação atrelada ao cenário internacional, os alimentos se tornam mais caros nos países que foram tornados ‘colônia'.”

Em outras palavras; o produtor de alimento no Brasil acaba enxergando mais vantagem na exportação, em detrimento do mercado local. E este cenário tem sido especialmente intenso nos últimos anos, quando o real desvalorizou-se frente a moedas que tem valores mais elevados no mercado internacional, como o dólar e euro. Segundo levantamento realizado em 2022 pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), o real perdeu quase 50% de seu valor e poder de compra em uma década ou nos últimos 10 anos.

Esse privilégio do mercado externo em detrimento do interno tem 2 consequências diretas nos insumos básicos: a escassez de alimentos e o aumento dos preços. Ramirez defende que o governo federal tenha um programa de silagem de grãos e cereais (estoques reguladores), como forma de criar um controle entre oferta e demanda que proteja o bolso do consumidor brasileiro, sobretudo no tocante à alimentação básica, que afeta diretamente as populações mais pobres.

Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o sociólogo Rogério Baptistini Mendes argumenta que "criar estoques reguladores de grãos básicos" é necessário para não "ficar refém de sazonalidades e externalidades" quanto ao clima ou economia.

"O grande desafio do [presidente] Lula será negociar com o setor agrário brasileiro e convencê-lo de que, embora seja importante manter as exportações, o fundamental é garantir o mínimo necessário para que a população possa se alimentar”, afirma o sociólogo Ramirez.

Brasil, América Latina e Caribe: Propostas de Segurança Alimentar

No relatório, as entidades apresentam propostas para os países afetados melhorarem a situação e garantirem maior segurança alimentar. Elas apontam a necessidade de programas de apoio a pequenos produtores e incentivo à agricultura familiar, com foco na produção de alimentos saudáveis, e ajudando esses agricultores a se conectarem com o sistema, inclusive privilegiando-os em eventuais compras realizadas por órgãos públicos.

"No curto prazo, em países como o Brasil, o incentivo à agricultura familiar é uma saída", concorda o sociólogo Mendes. "Mas deve ser acompanhada de políticas de médio e longo prazo, voltadas para a recuperação do rendimento dos salários das(os) brasileiras(os) e transformação sócio-cultural, com a criação de uma cultura de segurança alimentar e de saúde."

Também apresentou-se no documento a sugestão de que sejam criadas plataformas de monitoramento de preços e trocas de informações, proporcionando uma maior transparência da cadeia produtiva quanto aos alimentos. Por fim, as instituições cobram maior investimento em programas de alimentação escolar, com cardápios mais bem preparados, além de campanhas para o incentivo de alimentos saudáveis e políticas fiscais para reduzir o consumo de alimentos altamente processados, melhorando assim a saúde das(os) brasileiras(os) .

Segundo o relatório, a atual situação enfrentada pelo Brasil, América Latina e Caribe explica-se por uma combinação de fatores, que vão das sucessivas crises econômicas atravessadas nos últimos 15 anos à maneira como a guerra entre Rússia e Ucrânia afeta o setor agrícola, passando pelos impactos econômicos da pandemia de covid-19. As perdas agrícolas causadas pelo aquecimento global também estão no cerne do problema, de acordo com o documento.

No quadro abaixo, é possível ver os 10 alimentos que diariamente compõem a alimentação básica global e das(os) brasileiras(os), latina(o) americanas(as) e caribenhas(os):

A origens de 10 alimentos e/ou bebidas que hoje são globalizados

A maioria do que se coloca no prato diariamente procede de lugares espalhados pelo mundo. Um novo estudo do Centro Internacional para a Agricultura Tropical (CIAT) identificou a origem de alimentos considerados globais.

Foto:  picture-alliance/Ch. Mohr

Manga, verde, amarela ou rosa – e asiática

Ela é tropical e parece bem brasileira, mas originalmente surgiu no Sul da Ásia. A manga, assim como o coco, foi trazida para o Brasil com a colonização portuguesa e se adaptou bem ao clima. Ela faz parte da dieta de alimentos não nativos, que vem crescendo no mundo em consequência de preferências culturais, desenvolvimento econômico e urbanização, conforme comprovou o estudo do CIAT.

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Arroz para meio mundo

O arroz vem originalmente da China mas virou item básico da dieta de mais da metade da população mundial. A produção de cada quilo exige de 3 mil a 5 mil litros de água. Em alguns países produtores, a contaminação por arsênico dos lençóis freáticos é tão forte, que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alertou para as consequências do consumo do cereal.

 

Trigo nosso de cada dia

O trigo já era cultivado há mais de 7 mil anos na região do Mar Mediterrâneo. Na forma de pão ou de outras massas, como o macarrão, é um dos alimentos mais importantes do mundo. Cultivado em enormes campos de monocultura, o cereal é também usado para alimentar animais . Os campeões do cultivo são China, Índia, Estados Unidos, Rússia e França.

 

Milho, dos astecas aos transgênicos

Originário do Centro do México, o milho hoje é plantado em todos os continentes. Apenas 15% da safra vai parar nos pratos, pois a maior parte serve como ração para animais. A indústria o aproveita, ainda, para fabricar xarope de glucose e produzir combustível. Nos Estados Unidos, cerca de 85% da produção é de milho transgênico, e outros países vão pelo mesmo caminho.

 

Batata, dos Andes para a Europa

As batatas consumidas hoje em dia são variações de espécies silvestres dos Andes, na América do Sul. Só há cerca de 300 anos o tubérculo passou a ser cultivado em grande escala na Europa, sendo fundamental na dieta de países como a Alemanha e Irlanda. Atualmente, porém, o cultivo da batata no continente está em declínio, enquanto cresce nos maiores centros de produção: China, Índia e Rússia.

 

Açúcar, de cana ou beterraba

A cana-de-açúcar vem do Oeste da Ásia, embora não se saiba exatamente de onde. Já há mais de 2.500 anos era usada para adoçar. O Brasil é atualmente o principal produtor, com grande parte da safra destinada ao bioetanol, também para exportação. A colheita é um trabalho árduo e, em geral, mal pago. O açúcar de cana é mais barato no mercado mundial do que o de beterraba, originário da Europa.

 

Banana, a preferida global

Cheia de vitaminas, a banana engorda menos do que reza sua fama. Fruta preferida em escala mundial, ela tem origem no Sudoeste Asiático. Hoje é cultivada principalmente na América Latina e Caribe, a custos tão baixos que saem mais baratas na Alemanha do que as maçãs cultivadas no próprio país. As condições para os trabalhadores rurais costumam ser ruins e há uso intensivo de pesticidas.

 

Café, prazer com reflexos sociais

Procedente da Etiópia, o café é a segunda bebida mais consumida e principal fonte de renda de cerca de 25 milhões de produtores no mundo. Contando-se as famílias, são 110 milhões de pessoas dependentes das flutuações do mercado mundial. Contudo vem ganhando espaço a negociação por cooperativas e empresas de comércio justo. Mais de 800 mil pequenos agricultores já aderiram a esse sistema.

 

Chá, relíquia colonialista

O chá vem da China e era servido aos imperadores. Tirando a água pura, é a bebida mais consumida do planeta: a cada segundo, mais de 15 mil xícaras são ingeridas. Considerado bebida nacional na Inglaterra, o chá ainda hoje é produzido principalmente nas antigas colônias do Império Britânico, como o Quênia, Índia e Sri Lanka. As condições do trabalho no campo são catastróficas.

 Cacau, presente dos deuses

Os astecas, na atual América Central, usavam os grãos de cacau como moeda e oferenda. Também preparavam com eles uma bebida que diziam vir dos deuses. Não é difícil de acreditar: hoje o chocolate é amado no mundo inteiro. Produzido numa estreita faixa próxima ao Equador, o cacau sofre flutuações de preço no mercado mundial que afetam duramente os pequenos agricultores.fotos

*Edison Veiga Repórter@edisonveiga

Publicado no Deutsche Welle: 18/01/202318

Fonte: https://www.dw.com/pt-br/am%C3%A9rica-latina-e-caribe-%C3%A9-onde-comer-saud%C3%A1vel-custa-mais-caro/a-64430142

4.30.2023

Brasil está com a economia estagnada a vários anos e a Índia avança

A Índia emergente e o Brasil sub-mergente

O Brasil está com uma economia estagnada há diversos anos, enquanto a Índia tem apresentado crescimento significativo nas últimas 4 décadas

por José Eustáquio Diniz Alves* no Eco Debate e IHU Unissinos

    Foto da Ïndia na Internet                                                            Foto do Brasil na internet

A Índia já foi palco de uma das civilizações mais criativas e prósperas do mundo. Mas, nos últimos séculos, este país bastante importante do Sul da Ásia, ficou para trás em relação ao mundo Ocidental e em relação ao seu ainda mais gigantesco vizinho chinês. A despeito do tamanho, a Índia é considerada uma nação de renda baixa, tendo a renda média por habitante inferior a US$ 10 mil.

Contudo, a Índia está a caminho de se tornar uma nação de renda média no mundo e já é a terceira maior economia, atrás apenas da China e dos EUA, quando se considera a renda em poder de paridade de compra. Embora a Índia tenha enormes desafios para vencer a pobreza, a fome e a degradação ambiental, o país tem se destacado nos indicadores econômicos. A Índia se tornou o país mais populoso do mundo em abril de 2023, tendo passado a China e possui a maior população em idade produtiva da comunidade internacional.

O contraste com o Brasil é gritante. O gráfico abaixo mostra a participação da economia brasileira e indiana no PIB global entre 1980 e 2028. Nota-se que, em 1980, o PIB brasileiro representava mais de 4% do PIB mundial e o PIB indiano menos de 3% do PIB global. Mas a partir do início dos anos de 1990, a Índia ultrapassou o Brasil e foi deixando para trás o maior país em território da América do Sul.

Atualmente, o PIB do Brasil representa menos de 3% do PIB global e o PIB da Índia representa mais de 7%. Em algum momento da década de 2030, o PIB da Índia deve alcançar 10% do PIB global, enquanto a economia brasileira deve encolher para menos de 2%. Portanto, não é incorreto dizer que a Índia é um país emergente, pois cresce mais do que a média mundial e o Brasil é um país sub-mergente, pois cresce menos do que a média global.

Os dados do FMI mostram que a Índia tem um desempenho econômico muito acima do brasileiro. O gráfico abaixo mostra as taxas anuais de crescimento do PIB em 4 décadas. O Brasil só apresentou taxas ligeiramente superiores às indianas nos anos de 2000 e 2008. Em 2020, durante a pandemia da covid-19 a recessão foi maior na Índia, mas nos anos seguintes o país asiático se recuperou, enquanto o Brasil patina.

Em 1980, o Brasil tinha uma renda per capita de US$ 11,4 mil e a Índia uma renda de US$ 1,2 mil, perfazendo uma diferença de 9,4 vezes, conforme mostra o gráfico abaixo com dados do FMI de 1980 a 2028, em preços constantes em poder de paridade de compra (ppp). Em 1990, a diferença tinha caído para 6 vezes. Em 2023, a renda brasileira ficou estimada em US$ 15,2 mil e da Índia em US$ 7,4 mil.

Fazendo uma projeção até 2045, considerando um crescimento médio do PIB per capita de 0,7% ao ano para o Brasil e de 4,2% ao ano na Índia, os dois países teriam renda, respectivamente, de US$ 18 mil e US$ 19 mil. Ou seja, a renda per capita da índia ultrapassaria a renda brasileira em 2043.

É claro que toda projeção está sujeita à alteração, dependendo da dinâmica econômica nacional e internacional, mas os dados parecem indicar que a Índia está superando a “armadilha da pobreza”, enquanto o Brasil está preso à “armadilha da renda média”.

A figura abaixo mostra que a China deve contribuir com 22,6% do crescimento global no quinquênio 2023-28 e a Índia vem logo em seguida com 12,9%. Os EUA aparecem em 3º lugar, com 11,3% e o Brasil com uma contribuição de apenas 1,7% para o crescimento global. É cada vez menor o peso do Brasil na economia internacional e a política externa brasileira precisa levar estes dados em consideração.

Mas como foi mostrado no artigo “A Índia como o país mais populoso do mundo e com enormes desafios eco-ssociais”, publicado no portal Ecodebate (Alves, 10/08/2022): “A Índia já é o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa e ocupa o 2º lugar quando se considera as emissões por área. Como se projeta grande crescimento demo-econômico nas próximas décadas, a perspectiva é que os problemas ambientais do país se agravem bastante no médio e longo prazo.

A Índia já sofre com os eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e ondas letais de calor. Não será fácil resolver de forma simultânea os problemas sociais e ambientais. Mas, com certeza, o aprofundamento da transição demográfica deve ajudar a mitigar as crises e a facilitar a adaptação para o novo cenário da crise climática e ambiental global.

Artigo publicado na revista Plos Climate (29/04/2023) diz: “Devido aos encargos sem precedentes na saúde pública, agricultura e outros sistemas sócio-econômicos e culturais, as ondas de calor induzidas pelas mudanças climáticas na Índia podem impedir ou reverter o progresso do país no cumprimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS)”

Em síntese, o Brasil está com uma economia estagnada há diversos anos, enquanto a Índia tem apresentado crescimento significativo nas últimas 4 décadas.

Porém, em um futuro não muito distante, a crise climática e ambiental pode retroceder o desenvolvimento ou colocar uma significativa limitação para o bem-estar humano em praticamente todos os países do mundo.

Referencial Bibliográfico

ALVES, JED. A Índia como o país mais populoso do mundo e com enormes desafios ecossociais, Ecodebate, 10/08/2022.

Ramit Debnath, Ronita Bardhan, Michelle L. Bell. Lethal heatwaves are challenging India’s sustainable development, Plos Climate, April 19, 2023.

*José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente

Publicado no IHU Unissinos: 27 Abril 2023

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/628184-a-india-emergente-e-o-brasil-submergente-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves

 

4.10.2023

Busca do eterno equilíbrio natural entre o espírito e a matéria

Em busca do melhor que existe no interior do ser humano

por Francisco do Espírito Santo Neto* na Assoc. Espírita Hammed  – Sociedade e o equilíbrio no interior do ser humano holístico

 Imagem na internet

Nenhum ser humano deseja ser infeliz intencionalmente, pois nenhuma criatura ousa fazer alguma coisa de propósito contra si, a fim de que venha a sofrer ou a se tornar derrotada.

Quando agimos erroneamente, é porque optamos pelo que nos parecia o melhor, conforme nossa visão, visto que todos os nossos comportamentos estão alicerçados em nossa própria maneira de perceber a vida.

O pensador grego Sócrates afirmava que "ninguém que saiba ou acredite que haja coisas melhores do que as que faz, ou que estão a seu alcance, continua a fazê-las quando conhece a possibilidade de outras melhores".

A compreensão do melhor depende do desenvolvimento de um raciocínio lógico para cada situação, e se dá na criatura através de uma sequência progressiva, onde se leva em conta a maturidade espiritual adquirida em experiências evolutivas no decorrer do tempo vivido dessa criatura.

Todos nós acumulamos informações, instruções, noções em nossas multifárias vivências passadas ao longo da vida. A princípio, passamos a vivenciá-las superficialmente. Aos poucos, vamos analisando-as e assimilando-as, entre processos de re-elaboração, para só depois passar a integrá-las em definitivo em nós mesmos, isto é, incorporá-las por inteiro.

Em fazer nosso melhor está contido o quanto de amadurecimento conseguimos recolher nas experiências da vida e também como usamos e inter-relacionamos essas mesmas experiências, quando deparamos com fatos e situações no decorrer dos caminhos vividos.

Fundamentalmente, somos agora o que de melhor poderíamos ser, já que estamos fazendo conforme nossas possibilidades de interpretação, junto aos outros e perante a vida, porque sempre optamos de acordo com nossa gradação evolutiva como ser humano.

Perguntamo-nos, porém, quanto aos indivíduos que matam, mentem, caluniam e fingem: porventura, um ladrão que assalta alguém não saberá o certo, ou o justo? Desconhece o que está fazendo? As resposta quanto a essas situações serão entendidas ao longo do texto.

Instrução é conhecer com o intelecto e, portanto, não é a mesma coisa que saber com todo o nosso ser; isto é, só integraremos o saber de alguma coisa quando ela se encontrar completamente contida em nós próprios. Aí, de fato poderemos dizer que aprendemos e assimilamos totalmente o saber de alguma coisa.

Assim analisando, apenas o que sentimos em profundidade, ou experimentamos vi-venciando, é que é considerado o nosso melhor. Não o que lemos, não o que escutamos, não o que os outros ensinam, ou mesmo o que tentam nos mostrar. Estar na cabeça, não é o mesmo que estar na alma inteira.

Aparentemente, podemos julgar um ato como negativo, mas, quando atingirmos o âmago da criatura e observarmos como ela foi educada, quais valores recebeu na infância, o meio social em que cresceu, aí entenderemos o que a motivou a agir daquela forma e o porquê daquele seu padrão comportamental. Este conceito explica o questionamento quanto as maldades feitas por algumas pessoas, durante suas vidas.

Obviamente que o nosso melhor de hoje sofrerá amanhã profundas alterações. Aliás, a própria evolução é um processo que nos incita sempre ao melhor, pois é propósito do universo (natureza) fazer-nos progredir cada vez mais, para nos aproximar da sabedoria possível de ser alcançada por cada pessoa.

A natureza humana tende sempre a compensar suas faltas e insuficiências. Consta cientificamente, que todo organismo está sempre buscando se atualizar, ou se suprir, pois quando gasta energia tem sempre a necessidade de recompor essa carência energética, expressando-se em algumas ocasiões com a sensação da fome ou da sede. Notamos que essa força que busca melhorar-nos, ou mesmo equilibrar-nos, é como se fosse uma alavanca poderosa. Tende sempre a atualizar-nos, mantendo-nos sempre no melhor equilíbrio possível. Quando um pulmão adoece e deixa de funcionar, o outro pulmão faz a função de ambos; assim também pode ocorrer com nosso rim. Em outros casos, essa força interna tenta reparar os deficientes visuais e auditivos, compensando-os com maior percepção, sensibilidade e tato. Estruturas ósseas fraturadas se recompõem e se solidificam mais fortalecidas no local exato onde houve a lesão.

Além disso, verifica-se que nosso sistema imunológico, que é essa mesma força em ação, exerce grande influência sobre o organismo, para mantê-lo no seu melhor desempenho, conservando a própria subsistência orgânica através de mecanismos de autodefesa, com que elimina todos e quaisquer elementos estranhos que possam vir a comprometê-lo.

Por definição, processo de atualização é a capacidade de adaptação às novas necessidades, ou mesmo a modificação de comportamento íntimo para melhores posturas, a fim de que se conserve a individualidade equilibrada e holítisca.

Ao analisarmos as estruturas físicas, sistemas e órgãos da constituição corpórea, veremos que funcionam por meio de uma atividade perfeita de compensação, e que sempre impulsionam a criatura a manter-se fisicamente melhor. Também sob o aspecto psicológico, esse fenômeno ocorre para que todos nós possamos ajustar-nos diante da vida, de acordo com o nosso melhor. Todo nosso propósito íntimo é fundamentalmente bom, porque ninguém consegue agir de modo diferente do que assimilou como certo ou favorável.

A intenção dos seres humanos se baseia no cabedal de capacidades e habilidades próprias, porém os meios de execução pelos quais eles atuam poderão ser diversas ou diferentes, pois outros indivíduos, nas mesmas situações, tomariam medidas diferentes, baseados em seu estágio evolutivo ou desenvolvimento pessoal.

Ainda examinando essa questão, é imperativo dizer que, quando estamos fazendo o nosso melhor, agimos de acordo com o que sabemos nesse exato momento e, dessa forma, a natureza estará nos protegendo. Porém, quando propositadamente não correspondemos com atos e atitudes ao nosso grau de justiça e conhecimento ou desenvolvimento pessoal, passamos a não mais receber condescendência espiritual, visto que transgredimos os limites das leis naturais que nos amparam e sustentam ou equilibram.

Escreveu o apóstolo de Cristo, Pedro: "Deus julga a cada um de acordo com suas obras". Tais palavras poderão ser interpretadas como a certeza de sermos avaliados pelo Poder da Natureza segundo nossa capacidade de escolha, ou seja, levando-se em conta nosso conjunto de funções mentais e espirituais, bem como nossa aptidão racional de fazer, decidir, analisar e tomar direções, dentro da capacidade de cada um.

As nossas obras, as quais são referenciadas no texto evangélico, não são edifícios de alvenaria, perecíveis e passageiros, são nossas construções íntimas - o maior potencial que já conquistamos ou conseguimos atingir, em todos os sentidos. Isso equivale a dizer que o nosso melhor será sempre o ponto-chave na apreciação e no cálculo da Contabilidade Natural de Cada Um, ao registrar se os céus nos ajudarão, se acharemos o que buscamos, se as portas se abrirão ou se permanecerão fechadas na busca que cada ser humano fará ao longo de sua vida.

 *Francisco dos Santos Neto, é um médium espírita, nascido em Catanduva, no estado de São Paulo. Refere-se ao seu instrutor espiritual pelo nome de Hammed**. É formado em Administração de Empresas, com formação completa em Programação Neurolingüística.

**Hammed é o nome do espírito ao qual o médium paulista Francisco do Espírito Santo Neto atribui a maior parte de suas obras psicografadas, tendo criado a entidade Espaço Espírita Hammed.