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12.17.2013

O Brasil e a Mentira Sobre o Comunismo

Por Mauro Santayana, jornalista do Jornal JB, Rio
A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em todo o mundo — no Brasil, particularmente, está ficando moda ser de extrema direita — baseia-se em manipulação, com que se tenta, por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar criando uma absurda realidade paralela.
Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista, surgem por todo mundo, como nos piores tempos da guerra fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma absolutamente fantasiosa, 100 milhões de mortos ao comunismo na Rússia (ou União Soviética) socialista.
Busca-se associar, o marxismo ao nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado na Segunda Guerra Mundial, em que os alemães e seus aliados perderam 850 mil homens, e a Batalha de Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho — que cercaram e ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar — a Alemanha nazista teria tido tempo de desenvolver sua própria bomba atômica e não teria sido derrotada.
Espalha-se, na internet — vários autores que não conhecem a história, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso — que o Golpe Militar de 1964 — apoiado e financiado pelos Estados Unidos — foi uma contrarrevolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do Estado de Direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck presidente da República em 1965.
1964 foi uma aliança de oportunistas, desde empresários, imprensa, clero políticos,etc. Civis que há anos almejavam chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso, segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e oficiais — não todos — golpistas que odiavam a democracia e não admitiam viver em um país livre.
Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do papa Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como quaisquer outras — e não são os monstros apresentados pela extrema-direita, sob a farsa do “marxismo cultural” — representam um apelo à razão e um alento.
Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das  chaminés do Vaticano.
http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/12/17/habemus-papam-2/

12.12.2013

Nelson Mandela foi Banalizado pela Imprensa Mundial

SIMON JENKINS
Jornalista do jornal The Guardian

A publicidade da morte e do funeral de Nelson Mandela tornou-se absurda. Mandela foi um líder político africano com qualidades que foram apropriadas para um momento crucial nos assuntos de seu país. Foi apenas isso.
No entanto, sua reputação foi parar entre ladrões e cínicos. Sequestrado por políticos e celebridades que vão de Barack Obama a Naomi Campbell e Joseph Blatter, foi preciso endeusá-lo para que outros pudessem ser iluminados por sua glória.
Nesse processo, ele foi desumanizado. Ouvimos falar tanto sobre a banalidade do mal. Às vezes deveríamos perceber a banalidade do bem.
Parte disso se deve à mecânica grosseira da mídia. Milhões de dólares foram desembolsados nos preparativos para a morte de Mandela. Profissionais foram despachados, quartos de hotel foram reservados, cabanas foram alugadas em vilarejos do Transkei.
Teria sido possível construir hospitais com os valores que devem ter sido gastos. A mídia inteira enlouqueceu.                                                               
Na semana passada vi um apresentador da BBC, gemendo de tédio, pedir a um convidado que comparasse Mandela a Jesus. Consta que a emissora já teria recebido mais de mil queixas sobre a cobertura excessiva. Estaria ela se preparando para uma ressurreição de Mandela?
Mais séria é a obrigação que o culto ao evento de mídia deveria ter com a história.
Quando eu visitava a África do Sul e escrevia sobre o país durante os últimos anos do governo branco, na década de 1980, tinha consciência aguda de que a grande luta não se dava tanto entre os sul-africanos brancos e o CNA de Mandela, cujos líderes estavam na prisão ou no exílio, mas dentro do próprio campo dos africâneres que mantinham o poder branco na África do Sul.
Não era uma rebelião contra uma potência estrangeira. Era um conflito potencial entre uma maioria impotente (negros) e uma minoria potente (brancos), no qual a probabilidade de a última ceder diante da primeira parecia ser mínima --e desnecessária no curto prazo.
  Participava dessa luta o então primeiro-ministro, F.W. de Klerk. A compreensão de que seu grupo deveria ceder o poder a um governo negro foi um convencimento moral.
Os africânderes capitularam não porque alguma força poderosa (como as sanções da ONU) os tivesse esmagado, nem devido à mais importante queda da Rodésia e do império português que apoiavam os brancos. Seus padres e intelectuais lhes disseram que o apartheid tinha perdido a discussão.
Os africâneres tinham perdido a vontade política [de continuar com o apartheid]. O apartheid tinha sido "um erro terrível", disse De Klerk. Mesmo assim, a tarefa de passar para um governo da maioria negra era hercúlea, e o êxito estava longe de garantido.
De Klerk poderia ter levado a batalha adiante por mais uma década, com cada vez mais sangue derramado. Mas a revolução tribal de Mandela teve êxito, como foi relatado pelo historiador do nacionalismo africânder Hermann Giliomee.
Mandela foi crucial para a tarefa de De Klerk. Ele era um africano que conhecia muito bem seu país, alguém que articulou as aspirações de seu povo, um reconciliador, alguém que perdoou males passados da ditadura branca.
Mandela parecia encarnar a travessia da divisão racial, com isso viabilizando a tarefa impossível a De Klerk. Lançando olhares nervosos para Desmond Tutu e outros, os sul-africanos brancos juravam que Mandela era o único líder negro que os fazia sentir-se em segurança.
A África do Sul em 1993 não era nenhum paraíso de férias pós-colonial. Era uma barganha entre um grupo de tribos e outro grupo. Apesar de todas as crueldades da luta armada, derramou-se menos sangue que se esperava, graças a sabedoria de Mandela.
A África do Sul não foi um Paquistão, um Sri Lanka ou um Congo. A ascensão do governo da maioria no país foi um dos momentos mais nobres da história africana.

Mas a história é uma disciplina, não uma fé. O mundo pode ter sede de um "ícone do tipo de Mandela", mas com que finalidade? Que veículos sérios de mídia discutem Mandela ao lado de Gandhi e Jesus de Nazaré é pura e simples perda de tempo.
Ele foi Nelson Mandela e ponto final. Depois de assistirem a seu ex-presidente ser banhado em virtude e ter sua glória extraída para ungir uma multidão de celebridades mundiais, os sul-africanos deveriam repatriar sua reputação.
Mandela lhes prestou um serviço ímpar por alguns anos breves na década de 1990, e, se lhes convém reverenciá-lo como símbolo de unidade, bondade e paz, que assim seja. Isso é questão deles.
Mas a característica sul-africana que eu me recordo de Mandela possuir em plena medida não era a santidade --era um senso de ironia temperada. Duvido que neste momento ele esteja usando o endeusamento que a mídia lhe forjou. Aposto que ele está dando gargalhadas.
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/12/1384536-opiniao-nelson-mandela-nao-foi-

um-santo.shtml

  • Nelson Rolihlahla Mandela foi um advogado, líder rebelde e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, considerado como o mais importante líder da África Negra, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1993, e Pai da Pátria da moderna nação sul-africana.
  • Falecimento: 5 de dezembro de 2013

  • Prêmios: Nobel da Paz, Bharat Ratna, Pessoa do Ano
  • Cônjuge: Graça Machel (de 1998 a 2013)
     

    12.10.2013

    Desafio: O Brasil Terá Capacidade para Solucionar a Miséria?

    Enviado por on 09/12/2013 do blog Cafezinho
    A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) decidiu criar uma nova metodologia para classificar as classes sócio-econômicas no Brasil. Segundo o novo modelo, há bem mais pobres do que se pensava. As classes D e E, que correspondiam a apenas 18% no modelo antigo, irão representar 37% no novo modelo. . A classe C, por sua vez, corresponderá a 42% da população brasileira.
    Os dados são importantes para entendermos que ainda precisamos de sólidos programas sociais, e que o problema do saneamento urbano constitui uma das mais graves urgências da sociedade.
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    População pobre é maior do que se pensa
    Por Cynthia Malta | no Valor
    Empresas de pesquisa especializadas em detectar hábitos de consumidores vão mudar o modelo usado para classificar os domicílios que compõem suas bases de dados e ele mostra que a camada mais pobre da população é maior do que imaginavam. Formada pelas classes D e E, essa parcela equivale a 37,3% dos domicílios no país e não 18,2%, segundo a metodologia atual.
    Ao todo, 180 companhias reunidas na Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) deverão aposentar o atual Critério Brasil e passar a usar um modelo mais amplo, que considera, além de posse de bens, acesso a rede de água, esgoto e rua pavimentada. (…)
    132031518497_opt
      http://www.ocafezinho.com/2013/12/09/brasil-tem-mais-pobre-do-que-se-pensava

    A mulher e o homem são o ponto fraco da exploração do corpo

    Leonardo Boff*

    Somos seres complexos, vale dizer, sobre o que representa um sem-número de fatores, materiais, biológicos, energéticos e espirituais. Temos uma aparência com a qual nos fazemos convivemos uns com os outros e pertencemos ao universo dos corpos. Nosso interior é habitado por vigorosas energias positivas e negativas que formam a individualidade psíquica. Somos portadores da dimensão do profundo, assim rondam as questões mais significativas do sentido de nossa passagem por este mundo.
    Estas dimensões convivem e interagem permanentemente, uma influenciando a outra e moldam aquilo que chamamos o ser humano.
    Tudo em nós tem que ser cuidado, caso contrário perdemos o equilíbrio das forças que nos constroem e acabamos por perder a humanidade interior.
    Ao abordar o tema do cuidado do corpo, antes de mais nada, devemos opor-nos conscientemente as duas coisas importantes  que a cultura mantem: por um lado o “corpo”, sem o espírito e por outro o “espírito” sem o corpo. Pensando e vivendo assim, perdemos a unidade da vida humana em corpo e espírito.
    A propaganda comercial explora estes dois aspectos, apresentando o corpo não como a totalidade exterior do humano, mas sua parte separada entre corpo e espírito; enfim seus músculos, suas mãos, seus pés, seus olhos, o corpo físico separado do espírito, emocional.
    A principal vítima desta verdadeira retaliação são as mulheres, pois o machismo secular se refugiou no mundo da comunicação, da propaganda, do marketing,da imprensa, expondo  partes da mulher, seus seios, seus cabelos, sua boca, seu sexo  e outras partes, continuando a fazer da mulher um “objeto de consumo” de homens machistas. Devemos nos opor firmemente a esta deformação cultural.
    Importa tambem rejeitar o “culto do corpo” promovido pelo sem número de academias de ginástica e outras formas de trabalho sobre a dimensão física, como se a mulher-corpo ou o homem-corpo fossem uma máquina destituída de espírito, buscando performances musculares cada vez maiores.
    Com isso não queremos desmerecer os exercícios dos vários tipos de ginástica a serviço da saúde e de uma integração maior corpo-mente. Pensamos nas massagens que revigoram o corpo e fazem fluir as energias vitais, particularmente, as ginásticas orientais como o yoga que tanto favorece uma postura meditativa ou emocional da vida. Ou no incentivo à uma alimentação equilibrada e sadia, incluíndo também o jejum, seja como opção voluntária ou seja como forma de equilibrar as energias vitais.
    O vestuário ou a roupa que se usa merece consideração especial. Não possui apenas uma função utilitária ao nos proteger das intempéries da natureza ou do ambiente. Ele pertence ao cuidado do corpo, pois o vestuário ou a roupa representam uma linguagem, uma forma de revelar-se no teatro da vida. É importante cuidar  que a roupa seja expressão de um modo de ser e mostre o perfil estético da pessoa mesmo na moda. Especialmente significativo é na mulher, pois ela possui um relação mais íntima com o próprio  corpo e sua aparência.
    Nada mais ridículo a demonstração de anemia de espírito, que as belezas construídas à base de botox e de plásticas desnecessárias, enfim da estética artificial, forçada. Sobre este embelezamento artificial está montada toda uma indústria de cosméticos e práticas de emagrecimento em clínicas e SPAs, que dificilmente servem a uma dimensão mais integradora do corpo. Entretanto não há que se invalidar as massagens e os cosméticos importantes para pele e para o justo embelezamento das pessoas.
    Mas cabe reconher que há uma beleza própria de cada idade, um charme que nasce da existência feita de luta e trabalho, que deixaram marcas na expressão “corporal” do ser humano. Não há photoshop ou fotografia camuflada que substitua a beleza rude de um rosto de um trabalhador(a), talhado(a) pela dureza da vida e com traços faciais moldados(as) pelo sofrimento. A luta de tantas mulheres trabalhadoras, nas cidades,  no campo e nas fábricas  deixou em seus corpos um outro tipo de beleza, não raro,  com uma expressão de grande força e energia. Falam da vida real e não da artificial e construída. As fotos trabalhadas dos ícones da beleza convencional, são quase todos moldados, por tipos de beleza da moda e mal disfarçam a artificialidade da figura e a vaidade fria que aí se revela.
    Tais pessoas são vítimas de uma cultura ou um estilo de viver que não cultiva o cuidado próprio de cada fase da vida, com sua beleza e irradiação do espírito, mas também com as marcas de uma vida vivida que deixou estampada no rosto e no corpo as lutas, os sofrimentos, as superações. Tais marcas criam uma beleza singular e uma irradiação específica, ao invés de engessar as pessoas num tipo de perfil de um passado irrecuperável.
    Positivamente, cuidamos do corpo regressando à natureza  e à Terra das quais, há séculos, nos havíamos exilado ou afastado, imbuídos de uma atitude de sinergia e de comunhão com todas as coisas. Isso significa estabelecer uma relação, de amor, de biofilia e de sensibilidade para com os animais, as flores, as plantas, os climas, as paisagens e para com a Terra. Quando esta é mostrada a partir do espaço exterior, com essas belas imagens do globo terrestre, transmitidas pelos grandes telescópios ou pelas naves espaciais, irrompe em nós um sentido de reverência, de respeito e de amor à nossa Grande Mãe, de cujo útero todos viemos.
    Ela é pequena, no espaço cósmico já envelhecida, mas irradiante, irreverente, viva.
    Talvez o desafio maior para a mulher-corpo ou o homem-corpo consiste em ter um equilíbrio entre a auto-afirmação, sem cair na arrogância e no menosprezo dos outros e entre a integração no todo maior, da família, da comunidade, do grupo de trabalho e da sociedade, sem deixar-se massificar e cair no aceitar sem a mínima noção do que acontece. A busca deste equilíbrio não se resolve uma vez por todas, mas deve ser assumido no dia-a-dia,  pois, ele nos é cobrado a cada momento.
    Há que se encontrar o equilíbrio adequado entre as duas forças que nos podem destruir ou fazer viver.
    O cuidado em nossa aceitação no estar-no-mundo, envolve nossa dieta: o que comemos e o que bebemos. Fazer do que comemos um ato de nutrição, um rito de celebração e de comunhão com os outros que se alimentam e com os frutos  da generosidade da Terra. Saber escolher os produtos orgânicos ou os que tem menos química. Daí resulta uma vida saudável, que assume o princípio da precaução contra eventuais enfermidades, que podem se originar do ambiente danificado, degradado.
    Assim a mulher-corpo ou  o homem-corpo deixam transparecer sua harmonia interior e exterior, como membro da grande comunidade de vida.
    * Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é autor, também, de 'Proteger a Terra e cuidar da vida: Como escapar do fim do mundo' (Record, Rio de Janeiro, 2011).
    http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2013/12/09/cuidado-do-corpo-contra-o-culto-do-corpo/

    12.05.2013

    Os Óculos e Minhas Filhas

                por Luiz Carlos Azenha

    Nunca fui desprezado por uma garota do Leblon, como cantavam os Paralamas. Nunca namorei uma delas. Mas cheguei perto – ela era do bairro vizinho, São Conrado, e nunca se importou com meus óculos. Nem eu. Entrei agora numa fase que é comum a muitos de nós, os quatro-olhos. Tiro os óculos ao chegar em casa e, quando preciso deles de novo, lá vou eu apalpar os móveis em busca de minhas gafas.
    É assim que se fala óculos em espanhol. Glasses – vidros, em inglês. Quando perco o celular em casa, é só discar o número na linha fixa para encontrá-lo. Gostaria de poder fazer o mesmo com meus óculos. Por precaução, tenho dois pares além daquele que vive equilibrado entre meu nariz e minhas orelhas.
    Guardo também os óculos antigos, com lentes que um dia serviram a olhos mais jovens e aguçados. Através deles, vi coisas belas e trágicas. Muita gente já me perguntou qual foi a reportagem mais bonita que fiz. Sempre respondi de sopetão, puxando pelo primeiro caco da memória. Mas agora, que estou aqui sozinho, diante do computador – e sem óculos – páro para refletir e descubro: nunca transformei em reportagem as cenas mais belas que vi.
    Eu estava lá quando minhas duas filhas nasceram, ambas de parto natural. E me lembro bem das veias que irrigavam a placenta. Que surpreendente a beleza daquela embalagem de onde sairam Ana Luisa e Manuela, cada qual em seu tempo. A médica americana, do hospital novaiorquino, segurou com a pinça o cordão umbilical e eu mesmo, com meus óculos e um tesourão, cortei o troço e entreguei as meninas ao mundo.
    Mas eu estou aqui para falar de óculos, não de partos. Atribuo a eles o maior sucesso de minha carreira de repórter. Aos óculos, sim; não os meus, os de Alexander Yakovlev. Ele foi um poderoso líder da extinta União Soviética. Braço direito de Mikhail Gorbatchev. A dupla bolou e colocou em prática a abertura política e a reforma econômica que levaram ao fim do comunismo soviético, ainda que não era bem isso o que pretendiam. Foi nos tempos da Rede Manchete que tive a sorte de encontrá-los em Moscou, num dos pátios do Kremlin – ainda hoje a sede do poder russo.
    Aos berros – e resistindo aos safanões dos seguranças – nossa equipe arrancou a primeira entrevista improvisada de um líder soviético. Uma notícia tão inusitada que correu o mundo. Nada teria acontecido não fosse a ajuda de Yakovlev.
    Ex-embaixador no Canadá, fluente em inglês, ele serviu de tradutor improvisado para que Gorbatchev entendesse minhas perguntas – e eu, as respostas dele. Até hoje conservo a fita completa, que registra a rebeldia dos óculos de Yakovlev. No início da entrevista e no meio de uma multidão, os óculos do embaixador caíram no chão.
    Todos nos abaixamos, ao mesmo tempo, para apanhá-los, num movimento que quase me levou a bater cabeça com Mikhail Gorbatchev. E pensar que eu poderia ter nocauteado, com uma cabeçada involuntária, um dos dois homens então capazes de detonar o mundo numa guerra nuclear. Há dúvidas se o outro todo-poderoso da época, o presidente americano Ronald Reagan, tinha mesmo um cérebro – ou se só emprestava dos outros.
    Mas eu estou aqui para falar de óculos, não de cérebros. Os de Yakovlev, encontramos sãos e salvos, depois de alguns segundos de busca. Pelo bem da Humanidade não haviam sido pisoteados. Restaurada a ordem, pudemos enfim avançar na entrevista.
    Nunca imaginei que iria causar tal rebuliço: as redes americanas ABC e CNN nos procuraram para pedir cópias, a tv estatal russa exibiu a entrevista na íntegra e até a TV Globo pôs no ar um trecho, no Jornal Nacional, reconhecendo o êxito da emissora concorrente.
    Como deixei de acreditar em coincidências, atribuo hoje àquele incidente prosaico – ou seja, aos óculos de Yakovlev – o furo de reportagem. Foi ali, quando todos nos agachamos – Yakovlev, eu, Gorbatchev – que nos igualamos. Éramos simples mortais, tentando resgatar um objeto que sabíamos fundamental.
    Eu tinha perguntas a fazer, Gorbatchev tinha respostas a dar. O mais importante é que Yakovlev tinha resgatado os óculos, desconfio até que agradeceu esticando a conversa, em meu benefício.
    Sem aquela armação robusta, que sustentava as grossas lentes de Yakovlev, quem sabe nem estivessemos mais aqui, pulverizados pela miopia temporária de um dos homens que tinham o dedo no gatilho nuclear.
    Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru no dia 27 de novembro de 2005
    http://www.viomundo.com.br/bau/oculos.html

    11.27.2013

    TV corrói o cérebro das crianças

    Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

    No século passado, antes de as crianças ficarem reféns de games, smartphones e iPads, havia outro inimigo dos pais: a televisão. Acreditava-se que ela fazia mal para a visão, para a educação, para o comportamento. Logo se passou a acreditar que era lenda urbana.

    Não era.

    Uma nova pesquisa da Universidade de Ohio constatou que meninos em idade pré-escolar que tinham uma TV no quarto, ou cujos pais deixavam o aparelho ligado de maneira inercial, tiveram um desempenho pior nos níveis mental e emocional. Sua compreensão dos sentimentos de outras pessoas era superficial - crenças, desejos, intenções etc.

    O estudo foi com 107 crianças na faixa entre 38 e 74 meses. A capacidade cognitiva estava prejudicada. A faculdade de “ler” os demais, dizem eles, um passo fundamental para a maturidade, estava comprometida.

    “Tanto a TV ligada sem ninguém assistir quanto sua simples presença no quarto têm um impacto negativo”, afirma o relatório. “A TV expõe as crianças a personagens e situações sem profundidade e que requerem um processo superficial de entendimento”.

    Isso acontece, entre outras razões, porque é uma mídia muito menos interativa do que, por exemplo, a Internet ou os videogames. É feita sob medida para o chamado couch potato.

    A boa notícia é que ela está morrendo. De acordo com um levantamento do Citi Research, tanto as emissoras abertas quanto fechadas tiveram, em 2013, seu pior ano na história nos EUA. Todos os principais canais a cabo perderam pelo menos 113 mil assinantes no terceiro quadrimestre deste ano — é o fenômeno dos cord-cutters. No Brasil, a tendência não é diferente (o Ibope bate recordes negativos há 13 anos).

    Sim, ainda é possível ver coisa boa por assinatura. Mas a situação se complica quando você tem a possibilidade de, com serviços de streaming na Internet, como o Netflix, assistir o que quiser, como quiser e na hora em que quiser.

    Ou seja, quando seu filho estiver ali, em seu mundo, com o laptop e o iPad abertos, trocando mensagens ao mesmo tempo, não se desespere. Ele podia estar vendo o Big Brother, tornando-se um pequeno robô anti-social e comentando sobre o próximo capítulo da novela das 9.
    http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/11/tv-corroi-o-cerebro-das-criancas.html

    11.23.2013

    Alimento é Saúde ou é Comércio?



    ‘Apenas 5% dos consumidores brasileiros podem ser considerados conscientes’.
    Entrevista com Moacir Darolt



    "Atualmente o cultivo de alimentos está dominado pela semente transgênica (no caso da soja e do milho). O princípio da precaução não foi observado no caso do Paraná e do Brasil. As consequências, saberemos no futuro próximo", afirma o pesquisador e agrônomo. 
    O cultivo de alimentos orgânicos, sem produtos químicos está muito prejudicado.



    No primeiro momento da chegada dos transgênicos no Brasil, ainda no final da década de 1990, o Paraná se mostrou um estado bastante resistente à entrada dessas sementes, especialmente com a atuação do então governador Roberto Requião. No entanto, com a liberação dos transgênicos no território brasileiro, em 2003, o estado logo se tornou um dos maiores produtores brasileiros em matéria da tecnologia. Para o pesquisador e agrônomo do Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR, Moacir Darolt, "a liberação levou em conta apenas a questão produtiva e econômica, passando por cima das questões de saúde e riscos ambientais”. E continua: "O princípio da precaução não foi observado no caso doParaná e do Brasil. As consequências, saberemos no futuro próximo”.
    Uma resposta a este movimento hegemônico são as produções alternativas, orgânicas e agroecológicas. Além disso, há também o movimento do consumo consciente, que busca valorizar produtos desenvolvidos em condições sociais e ambientais adequadas e sem risco à saúde humana. No entanto, ainda que o interesse sobre o tema venha crescendo, Darolt estima que "apenas 5% dos consumidores brasileiros podem ser considerados conscientes”. Há várias dificuldades envolvidas nesse tipo de produção, especialmente na forma como a cadeia produtiva sem rastreabilidade oferece pouca segurança para o consumidor. Ainda assim, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele ressalta: "É preciso acreditar que a capacidade do consumidor em mudar hábitos de consumo tem reflexos em outros segmentos da economia, construindo mercados locais mais fortes”. E conclui: "Nós somos o reflexo de nosso sistema de produção”.
    Moacir Roberto Darolt é graduado em Agronomia pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, possui especialização no Institut de l'Elevage, na França, com um trabalho sobre engenharia de projetos e desenvolvimento rural, e doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural também na UFPR. Atualmente é agrônomo do Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR. Darolt é autor de vários livros que abordam a agricultura orgânica e a ecologia, muitos voltados para leigos ou para o público infantil. Destacam-se, entre outros, Alimentos Orgânicos: um guia para o consumidor consciente (Londrina: IAPAR, 2007) e Conexão Ecológica: novas relações entre agricultores e consumidores (Londrina: IAPAR, 2012).

    Confira a entrevista.
    IHU On-Line – Você acredita que a produção orgânica ou agroecológica é capaz de substituir a produção convencional?
    Moacir Darolt - Pelas projeções mundiais de crescimento da produção orgânica, que ainda é muito baixa (cerca de 2% das áreas cultivadas no mundo são orgânicas), tão logo não deve haver substituição, mas pode haver uma complementariedade e dar oportunidades de escolhas às pessoas para que tenham uma melhor qualidade alimentar. Não podemos ficar reféns do modelo industrial de agricultura, que padroniza sabores, diminui a diversidade biológica e destrói nossa cultura alimentar. Nosso desafio é saber de fato qual o papel dos produtores, dos consumidores e do estado (como regulador) nessa busca por um alimento de qualidade. Será preciso criatividade para manter as especificidades e diversidade dos produtos de cada região agrícola, evitando uma padronização e preservando os valores, a cultura e a tradição de cada local.

    IHU On-Line – O que é o consumo consciente? Que tipos de pessoas buscam esta alternativa?
    Moacir Darolt - Uma alimentação consciente tem relação direta com a forma de produção sustentável, com hábitos alimentares saudáveis e de consumo responsável. Busca mais do que uma alimentação isenta de aditivos químicos, procura observar técnicas de plantio sustentáveis, realçando o problema dos agrotóxicos, dos produtos transgênicos e dos problemas sociais. Observa com atenção os rótulos de produtos industrializados, preocupa-se com a forma de conservação dos alimentos, enfatiza a importância da hora das refeições e da diversidade na elaboração do prato. Em suma, a alimentação consciente preocupa-se com o alimento desde a sua produção até o momento de ser consumido.
    As pessoas que buscam essa alternativa, normalmente, são pessoas com bom nível de formação e informação, que fazem suas escolhas alimentares preocupadas com a saúde e com a qualidade de vida, assim como com aspectos ambientais e sociais. Todavia, apenas 5% dos consumidores brasileiros podem ser considerados conscientes. Essas pessoas se diferenciam da maior parte da população por transformar em prática valores com os quais se identificam, têm uma preocupação com a comunidade onde vivem e exercem o seu poder de escolha como consumidores cidadãos.
    IHU On-Line – Você acredita que o consumidor e mesmo o produtor paranaense são conscientes do tipo de alimento que consomem ou produzem?
    Moacir Darolt - A grande maioria não conhece a procedência do alimento que está levando à mesa. A maior parte dos consumidores e também produtores abastece a sua cozinha em um supermercado, com alimentos prontos e altamente processados, num distanciamento cada vez maior entre quem produz e quem consome. A maioria não sabe que quase todos os derivados de milho e soja consumidos no país já são transgênicos, por exemplo. A letra T em um triângulo amarelo (indicando presença de pelo menos 1% de ingredientes transgênicos) não tem sido eficiente para informar os consumidores. Mesmo em relação a outros alimentos consumidos cotidianamente como hortigranjeiros, a maioria dos produtos a granel não é identificada em relação ao local de origem. Numa cadeia longa, a identidade do alimento (quem produziu? como e onde foi cultivado?) se perde, de modo que a única informação comunicada entre consumidores e produtores é o preço.
    Em relação a quem produz, é mais fácil ser um produtor convencional do que ser um orgânico, por exemplo. Um produtor orgânico passa por um rígido processo de certificação e inspeção da propriedade, tudo é fiscalizado. Um produtor convencional não precisa declarar quantas pulverizações fez com agrotóxicos, se está causando erosão do solo ou se planta transgênicos, porque isso é o normal. Nós somos o reflexo de nosso sistema de produção.
    A educação para o consumo deveria começar na escola básica, e esse é um dos grandes desafios desse século e uma das premissas para tornar o consumidor protagonista e elemento articulador de mudanças. É preciso acreditar que a capacidade do consumidor em mudar hábitos de consumo tem reflexos em outros segmentos da economia, construindo mercados locais mais fortes.
    IHU On-Line – Pensando pelo lado da produção: todo produtor rural é capaz de produzir alimentos orgânicos ou de forma alternativa? Existe algum perfil para quem deseja escapar da produção de transgênicos?
    Moacir Darolt - Quem busca esse caminho, considero "produtores conscientes”. Normalmente, são produtores inovadores, que buscam conhecer os processos ecológicos envolvidos na sua produção e estão sempre se atualizando. Para quem deseja fazer a conversão de um sistema convencional para um orgânico, é necessário promover a mudança estrutural da propriedade considerando-se alguns aspectos:
    1) Informação e treinamento: dizem respeito ao aprendizado, por parte dos agricultores e dos funcionários, dos conceitos e técnicas de manejo que viabilizam a agricultura orgânica;
    2) Instruções normativas: as normas da agricultura orgânica precisam ser seguidas para que o produto final possa receber o selo orgânico de qualidade;
    3) Ajustes técnicos: pelo menos dois ajustes são fundamentais: o dos insetos, doenças e invasoras (que acontece num período mais curto); e a melhoria da fertilidade do sistema (que é um trabalho de prazo mais longo). O prazo máximo para a conversão é de quatro anos;
    4) Aspectos comerciais: sendo um mercado diferenciado, convém que os canais de comercialização sejam definidos anteriormente à produção. O ideal é optar pelos circuitos curtos (feiras, cestas em domicílio, vendas para governo, pequenos mercados) e formar uma clientela fiel.
    IHU On-Line – Que dificuldades um produtor que opta pela produção alternativa enfrenta tendo em vista financiamento, qualidade do solo, distribuição e outros elementos da cadeia produtiva?
    Moacir Darolt - No Brasil todo agricultor enfrenta dificuldades, sobretudo os pequenos produtores familiares. Em todo caso, seguem algumas sugestões para quem quer produzir organicamente e minimizar os problemas: visite outras experiências bem-sucedidas na sua região ou proximidades antes de começar a produzir e escolha uma cultura ou criação que tenha afinidade; saiba que a fase mais difícil é o período de conversão, que pode durar de um a quatro anos, por isso, tenha uma reserva financeira e faça um bom planejamento nesta fase inicial, quando os produtos ainda não podem ser vendidos como orgânicos; siga corretamente as normas de produção, processamento, envase e comercialização da produção orgânica; tenha um bom controle administrativo e planejamento técnico de sua produção; saiba que a transformação agrega valor ao produto e aprenda a comercializar parte de sua produção de forma direta; faça contato com associações ou grupos de produtores orgânicos da sua região, tentando fazer um trabalho de divulgação em conjunto para venda e promoção da produção; tenha pelo menos dois a três canais de comercialização, preferentemente de venda direta, fazendo uma boa investigação dos melhores canais antes de começar a produzir; dê preferência à certificação participativa ou à certificação por auditoria em grupos, que tem custo mais acessível.
    IHU On-Line – Existe espaço mercadológico para uma produção alternativa de produtos orgânicos? É possível escoar a produção, ou é uma opção mais indicada para a segurança alimentar?
    Moacir Darolt - O espaço para esse tipo de produção é crescente. A tendência é de valorização dos produtos ecologicamente corretos, tanto que tem despertado o interesse econômico de empresas do "negócio verde ou biobusiness”, que se organizam em todo o planeta. É notório o espaço para a produção ecológica também em escala. Do outro lado, cada vez mais agricultores familiares, comunidades rurais e pequenas cooperativas de produtores defendem uma agricultura tradicional e tipos de sistemas agroecológicos que privilegiem a produção com uma dimensão humana, respeitando a biodiversidade e a soberania alimentar. Esse embate entre a produção industrial e a artesanal ou tradicional é uma disputa política que impõe regras na qual os pequenos produtores tradicionais encontram dificuldades em responder às exigências legais em termos de estrutura sanitária e aspectos fiscais, por exemplo.
    É incoerente aplicar critérios semelhantes para a produção em larga escala e a produção artesanal, visto que as práticas tradicionais de produção de alimentos estão enraizadas socialmente e vinculadas a uma cultura e um modo de vida específico. Assim, a melhor alternativa para produtores familiares é optar por circuitos curtos de comercialização, mercados locais e de proximidade. Existem várias alternativas, como feiras do produtor, lojas especializadas, programas de governos, merenda escolar, restaurantes, vendas na propriedade, vendas em circuitos de turismo rural, entregas em domicílio, além de lojas virtuais pela internet

    IHU On-Line – Em 2013, completam-se dez anos da entrada das sementes transgênicas no Brasil. Neste primeiro momento o Paraná foi um Estado que resistiu bastante à entrada deste tipo de cultivo. Por que isso aconteceu?
    Moacir Darolt - O tema causou muita polêmica entre o final dos anos 1990 e início do novo século no Paraná e continua sendo alvo de discussões acaloradas, sobretudo por parte de entidades da sociedade civil organizada que rejeitam os transgênicos. Na época houve uma posição contrária do governador do Paraná, Roberto Requião, que através da Secretaria da Agricultura e Abastecimento montou um esquema de fiscalização para barrar a comercialização de sementes transgênicas no Estado, que vinham sendo contrabandeadas da Argentina desde o fim dos anos 90. Os plantios clandestinos (não autorizados) levaram à interdição das lavouras e dos produtos pelos órgãos de defesa vegetal a partir de 2001.
    As lavouras transgênicas no Sul do Brasil no período foram implantadas com material desconhecido, grãos não adaptados ao solo e ao clima brasileiro. A primeira medida do governo do Paraná para desestimular o uso do grão contrabandeado foi obrigar o comércio e a circulação de soja a vir acompanhados de certificado atestando a inexistência de sementes transgênicas. A medida foi importante, mas não conseguiu barrar a entrada dos transgênicos no Paraná a partir de 2003. Atualmente o estado está dominado pela semente (no caso da soja e do milho). O princípio da precaução não foi observado no caso do Paraná e do Brasil. As consequências, saberemos no futuro próximo.
    IHU On-Line – Hoje a briga contra os transgênicos arrefeceu e já há várias áreas no Estado onde se planta com o uso de sementes transgênicas. O que levou a esta mudança?
    Moacir Darolt - A liberação de uso pelo Supremo Tribunal Federal, em 2003, estimulou o plantio de sementes transgênicas no Paraná e no Brasil, a ponto de haver um domínio absoluto das sementes transgênicas, totalizando mais de 90% da área plantada com soja, com tendência similar para o milho. Apenas as áreas próximas a parques e reservas naturais, de agricultores orgânicos ou de produtores convencionais que comercializam produtos livres de transgênicos é que escapam dessa invasão. A liberação levou em conta apenas a questão produtiva e econômica, passando por cima das questões de saúde (houve liberação sem testes definitivos que provassem a segurança dos OGMs) e riscos ambientais; portanto, desconsiderando o que se entende por sustentabilidade, que busca um equilíbrio entre diferentes dimensões (produtiva, econômica, social e ambiental).
    As promessas de redução de custos de produção com transgênicos não se confirmaram e hoje quem paga é o produtor, que ficou refém das sementes transgênicas. Para quem deseja produzir livre de transgênicos, o problema é ainda maior, em função de possíveis contaminações desde a lavoura até a limpeza e o armazenamento. O risco é todo por conta do produtor que deseja "ser ecológico”, como os orgânicos! A facilidade de manejo de invasoras com o glifosato, grande trunfo inicial dos transgênicos, vem se perdendo (nesses últimos anos), com o surgimento de problemas com ervas e pragas mais resistentes. Resultado é o uso de mais agrotóxicos! A mudança foi muito boa para a indústria e grandes empresas, mas continua uma incógnita para os produtores e ruim para os consumidores, que são reféns de alimentos transgênicos à base de soja e milho.
    IHU On-Line – Ao mesmo tempo, o Paraná é um dos maiores produtores de orgânicos do país. Como convivem estes dois tipos de lavoura? A transgênica, com alto uso de agrotóxicos, e a agroecológica?
    Moacir Darolt - Diante do monopólio dos transgênicos, os produtores interessados em produzir no sistema orgânico e mesmo no convencional (livre de transgênicos) podem garantir um mercado interessante, sobretudo para a Europa e países onde os consumidores são mais conscientes. Normalmente, para produtos orgânicos, existe um prêmio médio na venda de 30% a mais em relação ao convencional para compensar os custos — que são maiores, sobretudo em função de maior gasto com mão de obra. A concorrência é desleal, com vantagens para quem usa produtos químicos. Acho que quem polui deveria, no mínimo, pagar por isso, como no caso do poluidor-pagador. Ao contrário, no caso dos orgânicos, poderiam receber um prêmio por serviços ambientais prestados.
    Com a supremacia dos transgênicos, quem perde são os consumidores, reféns de uma dieta alimentar baseada em milho, soja, trigo e arroz, mercado dominado por uma dezena de empresas no mundo. Em breve os consumidores poderão não encontrar nas prateleiras de supermercados opções (de milho e soja, por exemplo) sem transgênicos. Produtos à base de amido de milho, por exemplo, muito utilizado para mingau de criança, só serão encontrados na versão transgênica. Isso é um risco não calculado para a saúde dos consumidores.
    IHU On-Line – Deseja acrescentar mais alguma coisa?
    Moacir Darolt - Aderir a uma cadeia alimentar curta talvez seja a melhor garantia da qualidade de um alimento limpo, saudável e justo. Não há dúvida de que isso irá exigir mais esforço de produtores e consumidores, mas está em jogo a nossa saúde e a preservação da nossa cultura alimentar.
    http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=78718