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3.20.2014

Todos Somos Seres Humanos, mas Se Aproveitam da Côr na Pele ...

Por Miguel Martins, na revista CartaCapital:
Um dia a máscara cai. Pode até desbotar, como a base de pó de arroz aplicada ao rosto de Carlos Alberto, jogador do Fluminense do Rio de Janeiro, no Brasil, na década de 1910. Em uma partida contra o América do Rio de Janeiro, o atleta mulato foi alvo da torcida adversária quando o suor derreteu seu disfarce de “respeitável homem branco”, condição exigida para atuar nos campos de um Campeonato Carioca, no Rio de Janeiro elitizado, frequentado por moças e rapazes da alta sociedade. Quando a moda ludopédica se espalhou pelas favelas e subúrbios cariocas, o escritor Lima Barreto, mulato e avesso aos circuitos aristocráticos, criticou a coqueluche importada “por intermédio dos arrogantes e rubicundos caixeiros dos bancos” do Reino Unido. Não teve tempo de acompanhar as diabruras de Maravilha Negra, Diamante Negro e Pelé, entre tantos craques de pele escura que reinventaram o jogo bretão ou o futebol.

O futebol pentacampeão sempre teve um ídolo preto ou mulato à frente de suas conquistas: Didi em 1958, Garrincha em 1962, Pelé em 1970, Romário em 1994 e Ronaldo em 2002. Para a Copa de 2014, Neymar, também negro (embora não se considere), desponta como protagonista da seleção. Tantas glórias não foram, porém, capazes de eliminar o preconceito. A máscara que escondia o racismo, moldada em torno de uma suposta democracia racial, não consegue mais blindar seus adeptos. Brucutus cada vez mais barulhentos destilam discursos de ódio contra médicos cubanos, adolescentes dos rolezinhos, movimento que reuni pessoas das áreas mais humildes das cidades para passearem pelos shoppings, ou um menor amarrado a um poste por um grupo de justiceiros, violência abominada no Brasil. Não seria diferente no esporte.

Em 5 de março, cerca de 20 torcedores do Esportivo, time gaúcho de Bento Gonçalves, exibiram suas verdadeiras faces. O grupo atacou o árbitro Márcio Chagas da Silva por causa da cor de sua pele. “Macaco”, “negrão imundo” e “vagabundo” foram apenas alguns dos impropérios ouvidos por Chagas. Ao chegar ao estacionamento privativo do estádio, encontrou seu carro coberto de cascas de banana. Ao dar a partida no veículo, duas frutas caíram do cano do escapamento. No dia seguinte, o volante Arouca foi agredido. Autor de um golaço de voleio na partida contra o Mogi-Mirim, time do interior de São Paulo, o camisa 5 do Santos foi chamado de “macaco” por um torcedor enquanto concedia entrevistas.

Felizmente, foi-se o tempo em que os atletas negros se intimidavam. Arouca afirmou, por meio de nota, que o futebol é “um espelho da nossa realidade”. Declarou-se orgulhoso de suas origens africanas e lembrou a trajetória de sucesso de Leônidas da Silva, Romário e Pelé, responsáveis por “algumas das páginas mais bonitas da história da Seleção”. Na mesma linha, Chagas resolveu vir a público. Em entrevista a CartaCapital, o árbitro defende a responsabilidade do clube em relação aos torcedores racistas e a necessidade de campanhas de educação para reduzir o preconceito. “Entre os agressores, havia homens, mas também crianças e adolescentes. Esses meninos nada mais são do que reflexo dos seus responsáveis. Assim se constroem futuros racistas.” O regulamento lhe permitiria suspender a partida caso testemunhasse os atos discriminatórios durante o jogo. Mas o grupo, diz, aproveitava justamente as interrupções para ofendê-lo.

Não é a primeira vez que árbitros sofrem preconceito na Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, Brasil. Em 2005, o próprio Chagas foi chamado pelo então técnico do Encantado, time gaucho, Danilo Mior, de “negrão coitado”. Em 2006, foi novamente insultado por torcedores na região. “Todos os casos em que fui vítima de racismo ocorreram na Serra Gaúcha. São comuns essas manifestações em cidades como Bento Gonçalves, Caxias, Farroupilha e Garibaldi”, onde prevalece a colonização europeia, garante o árbitro, que diz nunca ter sido insultado ao apitar jogos do Campeonato Brasileiro. Ao chegar em casa, pensou em abandonar o apito. Mas ao deparar-se com o filho Miguel, de 10 meses, emocionou-se e mudou de ideia. “Seria uma besteira desistir de algo que gosto por causa de 20 infelizes”, afirma. “Não poderia ser covarde. Mais adiante pode acontecer com o meu filho e quero que ele tenha uma postura firme e encare os fatos de frente.”

O procurador Alberto Franco, do Tribunal de Justiça Desportiva, pretende fazer uma denúncia contra o Esportivo. Segundo o artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, o clube pode perder três pontos, caso fique comprovado que o ato discriminatório tenha partido de um “considerável número de pessoas vinculadas” à entidade. Franco diz haver indícios de que as ofensas partiram de torcedores localizados no pavilhão social do clube, o que caracterizaria o vínculo. Em nota, o presidente do Esportivo, Luís Oselame, lamentou o episódio, mas disse que os torcedores racistas são uma minoria e criticou uma possível decisão da Justiça prejudicial ao clube. Na terça-feira 11, o Esportivo informou ter entregado às autoridades locais os nomes dos suspeitos das agressões, identificados com o auxílio de torcedores, de jornalistas e da brigada militar.

No domingo 9, jogadores do Aimoré também time gaúcho, usaram máscaras com o rosto de Chagas estampado antes do confronto contra o Internacional, pelo Campeonato Gaúcho. No jogo em que apitou, o árbitro também foi homenageado com faixas contra o preconceito carregadas por jogadores do Pelotas e do São Luiz. Dilma Rousseff usou sua conta no Twitter para mandar uma mensagem de apoio às vítimas. “É inadmissível que o Brasil, a maior nação negra fora da África, conviva com cenas de racismo.” Há pouco mais de um mês, a presidenta havia manifestado apoio ao meia Tinga, do Cruzeiro, time de Minas Gerais, pelos insultos sofridos na partida contra o Real Garcilaso, em jogo pelo campeonato Libertadores, América Latina, jogado no Peru. Dilma recebeu em audiência Tinga e Arouca na quinta-feira 13.

A Conmebol esforça-se para ignorar o episódio. Enquanto o árbitro venezuelano José Argote nem sequer relatou na súmula os xingamentos a Tinga, Eugenio Figueiredo, presidente da entidade, colocou panos quentes ao afirmar que os insultos partiram de torcedores, e não de jogadores. Elaborou-se dessa forma uma espécie de salvo-conduto para as torcidas sul-americanas atacarem os jogadores negros impunemente. Até por serem vítimas constantes de insultos na Libertadores, surpreende que jogadores brasileiros enfrentem o preconceito em sua própria casa. O historiador e escritor Joel Rufino dos Santos, autor do livro História Política do Futebol Brasileiro, levanta como hipótese a grande audiência dos campeonatos europeus no Brasil, que levaria alguns torcedores a emular as atitudes racistas vistas na televisão. Rufino também credita o problema ao acirramento do conservadorismo no País. “Alguns estão perdendo a vergonha de serem cruéis e racistas. Liberou geral.”

O técnico da Seleção Brasileira, Luiz Felipe Scolari, afirmou que a discussão sobre o racismo é uma “bobagem”. “Não adianta punir, a solução é ignorar. Esses babacas nunca vão aprender.” A declaração incomodou profundamente Rufino. “O Felipão, técnico da seleção brasileira,  é um reacionário, nunca se coloca do ponto de vista social. Ele pode querer deixar rolar, mais vai perguntar ao Tinga e ao Arouca o que pensam?” Prestes a sediar uma Copa do Mundo, o Brasil não pode ignorar a pauta. Ao ser o último país ocidental a abolir a escravidão, enfrentar o racismo é uma dívida histórica, haja visto os vários programas sociais públicos, para resgatar a dívida com os negros. Tanto mais no futebol, em que a contribuição dos negros formulou sua própria identidade, alegre e criativa e ajudou em muito a criar uma memória do futebol mundial.

3.17.2014

Na Política, os Jeitinhos Corrompem a Pessoa e a Sociedade

Sociedade

Entrevista com a professora Valdete Daumfemback Niehues

Daiana Constantino - jornalista do Jornal Notícias do Dia - Joinville SC

“Como os vereadores eleitos estão sempre em campanha eleitoral, a população está sempre esperando o momento de negociação do seu voto.”
“Como a corrupção já se naturalizou entre a sociedade, cada qual acha no direito de usufruir do dinheiro público.”
“Os políticos deveriam dar exemplo de fazer uma política de transparência.”
“Ele [cidadão] precisa ser orientado a lutar pela ampliação de políticas públicas que possa atender à toda a população.” 
“Sociedade cultiva o jeitinho”, diz socióloga sobre os pedidos recebidos pelos vereadores.

Arquivo Pessoal/ND

Valdete Daumfemback Niehues, socióloga

Professora no Bom Jesus/Ielusc, em Joinville, a socióloga Valdete Daufemback Niehues defende a politização dos vereadores para que eles possam fazer o mesmo pelos cidadãos. Segundo ela, esse seria um caminho para acabar com a relação baseada na troca de favores, estabelecida entre eleitores e representantes do povo.
Reportagem especial do Notícias do Dia, publicada na edição deste fim de semana, mostrou que a prática de fazer todos os tipos de pedidos aos vereadores é bastante comum em Joinville. Na “romaria” aos gabinetes rola de tudo, desde de pedido de emprego e dinheiro em espécie até viagens internacionais.
Segundo a socióloga, essa relação entre eleitores e políticos começa no processo de campanha eleitoral, com as promessas. “Ou fazem pactos. O voto em troca de algum serviço, isso antes ou depois de serem eleitos.”
O comportamento também se explica, segundo a socióloga, pela deficiência das políticas públicas existentes. “Como estes cidadãos não entendem como funcionam as políticas públicas por seu grau de alienação política, entendem, então, que as suas necessidades devam ser tratadas no balcão, pois assim eles entendem a linguagem de seus representantes, os quais compraram o direito de voto destes cidadãos”. 
Mestre em História pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Valdete explica que somente uma população despolitizada tende a pedir favores aos vereadores. Confira.

Os vereadores são os mais procurados porque estão mais próximos da comunidade. Essa proximidade justifica os pedidos feitos pela população?
Os vereadores são procurados porque se tornaram conhecidos na época da campanha eleitoral. E como os vereadores eleitos estão sempre em campanha eleitoral, a população está sempre esperando o momento de negociação do seu voto. E, geralmente, os eleitores não votam novamente nos vereadores que não lhes atenderam no balcão. Não há muita proximidade dos vereadores com os cidadãos, exceto nesta transação comercial. Por outro lado, sabe-se que os vereadores, ou a Câmara de Vereadores tem valor monetário a ser gasto em causas que, com o tempo, depois que alguém consegue ajuda, a fama se espalha e há indicação de que este ou aquele vereador pode ajudar nas suas necessidades. Como há uma morosidade nos serviços públicos, a população busca o caminho mais rápido, o vereador, aquele com quem manteve contato direto ou não. Há ainda uma disposição da população na descrença de serviços públicos coletivos, porém, a mesma disposição se reflete na vontade de ser beneficiada de forma individual. O imediatismo que se estabeleceu na atual sociedade de consumo, transformou o cidadão em um ser consumista de direitos individuais, mesmo que tenha que passar por cima das necessidades de seus semelhantes.
O famoso jeitinho...
Às vezes, os cidadãos se orgulham de ter passado na frente de outros cidadãos que estavam mais tempo na espera pelo direito. Levar vantagem ainda é um valor que a sociedade consumista e alienada politicamente cultiva.
A população deve tomar cuidado com a atitude de procurar vereadores e pedir favores? Por quê?
Somente uma população despolitizada faz este tipo atitude. São pessoas que ficam à margem do conhecimento ou então, são pessoas inescrupulosas que agem de má-fé e se aproveitam dos recursos públicos para fins privados. Como a corrupção já se naturalizou entre a sociedade, cada qual acha no direito de usufruir do dinheiro público. Se falarmos em ter cuidado diante dessa atitude, estamos legitimando os procedimentos da transação comercial do voto e da ação dos vereadores, os quais foram eleitos para trabalhar pelas políticas públicas. Entende-se que tomar cuidado significa articular manobra para não ser pego, ou para não ficar visado. Ora, o cidadão deve ser orientado pelos vereadores a não se utilizar desse tipo de artifício político para conseguir direitos.
Qual seria a orientação?
Ele [cidadão] precisa ser orientado a lutar pela ampliação de políticas públicas que possa atender à toda a população. Ele precisa ser orientado a atuar na associação de moradores, nos conselhos, que é por onde passam as possibilidades de conquistas de direitos coletivos.
O político também precisa tomar cuidado, não é mesmo?
Os políticos deveriam dar exemplo de fazer uma política de transparência. Tomar cuidado talvez não seja bem o conceito a ser empregado. Os políticos não deveriam estimular essa atitude. Cuidados eles já tomam, pois as transações de balcão acontecem às portas fechadas, geralmente, com hora marcada, juntamente com o vereador ou com seus assessores. A promessa se projeta para as próximas eleições. Para as campanhas eleitorais o beneficiado já está comprometido.
http://ndonline.com.br/joinville/noticias/151560-ldquo-sociedade-cultiva-o-jeitinho-rdquo-diz-sociologa-sobre-os-pedidos-recebidos-pelos-vereadores.html

3.12.2014

A Polícia Militar é para Ajudar a Organizar a Sociedade ou para Controla-la?


Considerada uma das causas da violência policial, estrutura militar só pode ser superada com união dos governos estaduais e federal
Paulo Liebert / Estadão 
AGE20120103093.jpg Violência policial no Brasil é uma das mais elevadas no mundo, em grande parte devido ao treinamento militar de agentes que consideram civis como inimigos da sociedade
O dia 13 de junho de 2013 ficou marcado pela desproporcionalidade com a qual a Polícia Militar reagiu aos cerca de 5 mil manifestantes que pediam a revogação do aumento de 20 centavos no preço do transporte público de São Paulo. A avenida Paulista, no centro da cidade, foi palco de cenas de violência policial que culminaram na agressão de jornalistas, manifestantes e pessoas que passavam pelo local. Aquele foi um ponto de virada das manifestações. Após a reação truculenta, os protestos ganharam força e se espalharam pelo Brasil. Em São Paulo, a polícia evitou novos conflitos, mas em cidades como Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre e Rio de Janeiro a postura agressiva se manteve. Um comportamento que reabriu o debate sobre a desmilitarização da polícia, cujas ações transparecem a impressão de que o civil, seja manifestante ou suspeito de crime, é um inimigo da sociedade.
Essa mentalidade, sustentam estudos, provém do treinamento policial em moldes militares típicos das Forças Armadas, que visam eliminar “invasores externos”. Na sociedade civil, não haveria espaço para tal lógica. “A polícia não se vê como uma entidade para defender os direitos dos manifestantes, mas os encara como parte do problema”, afirma Maurício Santoro, assessor de direitos humanos da Anistia Internacional no Brasil. “Os policiais frequentemente usam uma linguagem bélica, de encarar o protesto como uma luta e o manifestante como o outro lado”, afirma.
A militarização também estaria por trás dos elevados níveis de violência cometidos por policiais no País. Segundo o 5º Relatório Nacional sobre os Direitos Humanos no Brasil, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, entre 1993 e 2011 ao menos 22,5 mil pessoas foram mortas em confronto com as polícias paulista e carioca. Uma média de 1.185 pessoas por ano, ou três ao dia, um número elevado para um Estado que não utiliza execuções sumárias e pena de morte em sua legislação.
A USP aponta ainda que o número inclui apenas os casos registrados como “auto de resistência”, aqueles nos quais o policial alega ter atirado em legítima defesa. Os episódios classificados como homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte não foram computados, indicando que o número de civis mortos por policiais no período é ainda maior. “É a tradição brasileira de pensar a segurança pública de forma agressiva, com pouca ênfase na prevenção e fiscalização. É uma forma de controle da população pobre, tratando problemas sociais como problemas de polícia”, critica Santoro.
Um indicador utilizado para calcular o uso desproporcional da força por agentes da lei é medir a razão entre o número de mortes civis para cada perda policial. Quando a quantidade de civis mortos é dez vezes maior que a de policiais, há indícios de que a polícia esteja abusando do uso da força letal. E, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, esse cenário acontece ao menos em três Estados: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo.
Em 2010, a Bahia registrou a morte de seis policiais (civis e militares) em serviço contra 305 civis vitimados em confronto com a polícia ou resistência seguida de morte – 51 vezes mais. No ano seguinte (oito policiais e 225 civis mortos) a relação caiu para 28,1 civis assassinados para cada policial vitimado.
Em São Paulo, o cálculo também indica uso excessivo de força letal. Em 2010, o estado perdeu 25 policiais, enquanto matou 510 civis (20,4 vezes mais). Em 2011, a diferença caiu: 28 agentes contra 460, uma média de 16,4 civis assassinados para cada agente.
No Rio, foram 20 policiais mortos em serviço em 2010, contra 855 civis (42,7 vezes mais). No ano seguinte, foram 12 policiais contra 524 civis (uma razão de 43,6 civis por policial). “A estrutura militarizada tem um treinamento e cultura de guerra, de combate ao inimigo. Uma policia cidadã é feita para prender e encaminhar as pessoas ao julgamento, não para aniquilação como fazem as Forças Armadas”, afirma Túlio Vianna, doutor em Direito do Estado e professor da UFMG.
O que fazer diante da situação?
Uma das soluções apontadas por analistas e organizações civis para reduzir a violência policial é a unificação das policias Civil e Militar em apenas uma estrutura funcional. A separação destas forças e suas funções está, entretanto, prevista no artigo 144 da Constituição, segundo o qual as polícias civis são responsáveis pelas funções de “polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares” e as polícias militares farão a “polícia ostensiva e a preservação da ordem pública”.
Unificar as duas polícias, acreditam analistas, aumentaria a coordenação e eficiência na solução de crimes. Além disso, daria recursos extras para uma inteligência integrada, devido ao corte de despesas com a manutenção de duas estruturas. Para Luís Antônio Francisco de Souza, professor da Unesp e coordenador científico do Observatório de Segurança Pública, a desmilitarização não significaria, porém, extinguir a Polícia Militar. “É preciso mantê-la, mas desvinculá-la das Forças Armadas ao retirar seu caráter militar e devolver a estrutura civil à organização, extinguindo patentes e atual estrutura de hierarquia interna.”
A integração das polícias, defende Souza, também daria aos secretários estaduais de Segurança o poder de definir todos os aspectos do setor. “O comando da PM decide todo tipo de operação. Sem essa centralização, os mais de 100 mil policiais paulistas poderiam ter mais flexibilidade em atuar em função das necessidades locais”, diz.
Desde a definição do papel da PM na Constituição, os casos de abuso policial se acumulam. O massacre do Carandiru, quando a polícia invadiu o presídio paulista durante uma rebelião e matou 111 presos, e a Chacina da Candelária, na qual policiais assassinaram oito jovens que dormiam nas ruas do centro do Rio de Janeiro, são dois dos exemplos mais marcantes. “A militarização gera violência contra os policiais, criados em uma cultura de humilhação hierárquica. Logo, o soldado transfere essa violência a alguém abaixo dele. E a população sofre com essa cultura de violência institucionalizada”, diz Vianna, da UFMG.
A lógica de tratar o civil como inimigo atingiu inclusive os policiais civis. Em outubro de 2009, a PM usou camburões, tropa de choque, gás lacrimogêneo e gás de pimenta contra colegas da corporação Civil de São Paulo que reivindicavam um aumento de salário em uma passeata próxima ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.
Pressão externa
Em meio aos inúmeros casos de truculência da PM brasileira, o Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou em maio de 2012, por sugestão do governo da Dinamarca, a abolição do "sistema separado de Polícia Militar, aplicando medidas mais eficazes (...) para reduzir a incidência de execuções extrajudiciais". O governo brasileiro respondeu alegando que não poderia fazer a mudança por conta da questão constitucional.
Em julho deste ano, a organização internacional Human Rights Watch escreveu uma carta ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), apontando o elevado número de suspeitos mortos por policiais e cobrando que os casos fossem investigados, devido ao “claro padrão de execução de vítimas”. Segundo a entidade, relatos de mortes em resistência à prisão do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP, da Polícia Civil) na cidade de São Paulo em 2012, mostram que a polícia transportou 379 pessoas a hospitais após os incidentes e 95% delas (360) morreram.
A ONG também demonstra preocupação com as operações das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota, da Polícia Militar). De acordo com a carta, entre 2010 e 2012, a tropa matou 247 pessoas em incidentes de resistência no Estado, enquanto feriu apenas 12.
Desmilitarização
Em 2009, o Ministério da Justiça realizou a 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública para discutir as diretrizes da política nacional do setor. Com a participação da sociedade civil, trabalhadores da área de segurança pública e representantes da União, Estados e municípios foi aprovada uma proposta de desmilitarização das polícias.
A proposta pedia a transição da segurança pública para “atividade eminentemente civil”, além da desvinculação da polícia e corpos de bombeiros das forças armadas, a revisão de regulamentos e procedimentos disciplinares, a criação de um código de ética único, respeitando a hierarquia, a disciplina e os direitos humanos. E também submeter irregularidades dos profissionais militares à justiça comum.
Para Souza, da Unesp, mesmo que o debate sobre a desmilitarização tenha ganhado força nos últimos anos, a realidade mostra o oposto. “Enquanto se discute o tema, a militarização retornou em ações em São Paulo, como Pinheirinho e a Cracolândia, e nas UPPs do Rio. As Forças Armadas fazem atribuições de polícia em missões de pacificação nos morros do Rio e o Exército faz segurança em grandes eventos. Parece que temos uma remilitarização da segurança publica.”
Para desmilitarizar a PM e uni-la à Polícia Civil, como defendem especialistas em segurança pública, seria necessária uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Esse caminho é complexo e demorado. Uma PEC precisa de aprovação em dois turnos na Câmara por, no mínimo, 308 dos 513 deputados em cada turno. Após aprovada, a medida seguiria para o Senado. Também seriam necessárias duas votações com aprovação mínima de 60%, ou 49 dos 81 senadores.
Em uma eventual mudança constitucional, o governo federal precisaria apoiar os estados na desmilitarização, defende Santoro, por meio de uma cooperação com o Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos. “Os estados mais organizados conseguiriam, mas seriam poucas as unidades federativas com dinheiro e pessoal qualificado para fazer as mudanças sozinhas”, diz.
Apenas a mudança legislativa não seria, porém, o suficiente para diminuir a truculência policial. Seria preciso mudar o treinamento das polícias e reforçar uma flexibilização da formação do policial – com a diminuição dos conteúdos militares e estímulo para a realização de cursos de especialização – algo que já vem sendo feitos em algumas polícias na última década. “A desmilitarização trará um tratamento humanizado ao policial, reconhecendo os direitos", diz Vianna. "Eles vão mudar a cultura e respeitar mais a população civil em longo prazo. As novas gerações de policiais serão treinadas em uma nova mentalidade.”
www.cartacapital.com.br/autores/Gabriel-Bonis

2.25.2014

O País do Futebol Será o País das Escolas

por EDINA MARIA BURDZINSKI*
O sociólogo polonês Sygmunt Bauman diz que “o projeto moderno prometia libertar o indivíduo da identidade herdada”. Povo brasileiro: que identidade herdamos mesmo? Quais identidades? Uma delas é inequívoca: somos o país do futebol. A bola rola, o coração na ponta da chuteira, suor, raça, amor à camisa. Não há nada igual. Também pudera. Bola de meia, bola de gude… já cantou Milton Nascimento. Identidade criada sem esforço, sem exigência. O que é preciso para uma pelada no final da rua no fim de tarde? Moleques e uma bola de meia. Está aí o que é preciso para se criar um país do futebol. Só isso mesmo? Claro!
O que o menino ou a menina querem ser quando crescer? Jogador(a) de futebol! Também pudera, vejam os exemplos: moleque de favela chegou à Seleção, negro de Santos ganhou o mundo, é rei.
Talento e sorte, sorte e talento. Mas se o moleque ou a garota desejam ser outra coisa? Bom, aí já fica mais difícil.
Para ser médico(a), advogado(a), engenheiro(a), administrador(a), professor(a), ele(a) precisa um pouco mais do que bola de meia e campo de várzea. Já é assunto complicado no país do futebol.
Até mesmo se ficarmos no mundo dos esportes: para ser ginasta, patinador(a), jogador(a) de vôlei, handebol e corredor(a), por exemplo, exigem-se professores(as) treinados(as) e habilidosos(as) para reconhecer talentos; criança na escola estudando em um período e em outro tendo suas habilidades treinadas. Paremos por aqui, porque já estaremos falando em país olímpico e nós somos o país do futebol.
Além disso tudo, o futebol é, de quebra, um baita negócio. As cifras são citadas como se jogadores fossem diamantes; milhões, é isto que valem seus passes. E eles passam a bola, lotam estádios e os sofás na frente das TVs; vendem camisas, desodorantes, imagem… Bom, é altamente necessário que haja compradores(as) para tudo isso, que haja torcedores(as), seguidores(as) fiéis. O que restará ao povo sofrido se lhe tirarem a alegria do futebol? De ver seus moleques e garotas virarem heróis(inas) nacionais?
E quanto à Copa, Deus é brasileiro, meu amigo. A Copa do Mundo é nossa, sou brasileiro(a), não há quem possa… E convenhamos: já veio tarde essa Copa para o país do futebol. A democracia é a vontade da maioria e duvido que haja neste país qualquer político que arriscaria perder o apoio da maioria. E quanto a investir em educação no lugar de estádios? Está maluco? Agora, se já tivessem feito isso historicamente no Brasil, quem sabe nem fôssemos hoje apenas o país do futebol...

* Professora de sociologia
edina.mariacs@hotmail.com

2.23.2014

Porque a Qualidade de Vida é Melhor nos Pequenos Centros Urbanos

Rafaela Bez
Durante o período de Natal e Ano Novo, estive com minha família, a qual mora no interior.
Lá percebi, ainda mais, a diferença imensa entre campo e cidade. O campo, hoje, é tratado pela grande mídia capitalista como um local sem qualidade de vida, sem condições dignas de moradia e sem visões de desenvolvimento futuras. O cidadão da roça ainda sofre o preconceito dos grandes meios de comunicação, que induzem e mostram a cidade como paraíso para se viver, quando sabemos que não é nada disso. O as pequenas cidades e a roça têm um valor inigualável, tanto para o próprio agricultor, quanto para quem vive na cidade também.
Este texto mostra o contrário do que vemos por aí. 
"A inversão do êxodo rural", ou a volta para o sítio e as pequenas cidades. Esse fenômeno ainda não é muito visível, mas requer analise e incentivo.
Vale a pena dar uma lida e repassar aos contatos.

Acordar, levantar, tomar café da manhã, pegar ônibus, trabalhar, almoçar, trabalhar de novo, pegar ônibus, voltar para casa, jantar, ver televisão, tomar banho, dormir. Em meio a isso: estresse, violência, correria, poluição, alimentação incorreta, insônia, preocupação. Essa é a rotina da maioria da população que vive nas grandes metrópoles. Mas, nos últimos anos, algumas pessoas estão revertendo essa situação e fazendo com que o campo, as praias, a roça e a natureza voltem a ter cada vez mais habitantes. O mundo vive a inversão do êxodo rural.
Uma vontade intensa de viver com simplicidade, em comunidade e em comunhão com a natureza. Esses são alguns dos vários fatores que fizeram com que a socióloga Gisele Carneiro, que nasceu no Rio de Janeiro, mudasse primeiro para Curitiba e, recentemente, se transferisse para uma aldeia indígena, no Espírito Santo, transformando o seu estilo de vida. “A cidade grande oferece inúmeras possibilidades culturais, conforto, consumo, opções de lazer e facilidades diversas. No entanto, é preciso pagar um preço alto para tanta comodidade: a distância da natureza, que desumaniza o homem, o apelo capitalista ao consumismo, as relações superficiais entre as pessoas, a desconfiança, o medo, a correria do dia a dia, que prejudicam a reflexão, a escuta, o sentir e a observação de perceber o que está à nossa volta”, ressalta Gisele.
Nem todos querem ou estão preparados para uma mudança radical na questão da mobilidade. É preciso exercitar o desapego do conforto e abdicar das comodidades que o mundo urbano oferece. Há um encanto por cidades grandes. Ainda são fortes o preconceito e a desvalorização das pessoas que vivem e trabalham em áreas rurais.  “Para contribuir com esta visão preconceituosa e mítica, há todo o apelo dos meios de comunicação, a própria literatura e o senso comum que coloca o indígena como preguiçoso ou o caipira como ‘jeca’, atrasado, ignorante, alvo de chacota. É preciso afirmar e reafirmar o valor do trabalho rural, problematizando o senso comum, fazer uma reflexão crítica sobre o que é qualidade de vida, solidariedade, valor do trabalho e o cuidado e a comunhão com a natureza”, explica a socióloga.
Em uma pesquisa nacional do Programa Luz para Todos, do Governo Federal, que é coordenado pelo Ministério de Minas e Energia, 10,6 milhões de brasileiros que foram beneficiados pelo projeto, 4,8%, ou 96 mil em todo o país, voltaram a viver no campo por identificarem a oportunidade de ter ali uma qualidade de vida maior do que nas grandes cidades.
Atualmente, o apelo desse tipo de alternativa de vida segue nessa direção, na medida em que o interior do país se transforma. Antes caracterizado pelo isolamento e pelas dificuldades de comunicação, hoje a televisão praticamente se universalizou, assim como o acesso ao telefone celular. Além disso, a internet também está chegando aos rincões mais profundos do país. Ao mesmo tempo se pode, com variações é claro, ter acesso aos bens de consumo.

Dessa maneira, a fronteira entre o urbano e o rural, por exemplo, vai ficando cada vez mais tênue. Além disso, novas, boas e às vezes melhores oportunidades de emprego estão surgindo em localidades distantes dos grandes centros urbanos e que vão atraindo as pessoas. “As cidades maiores, ao mesmo tempo em que oferecem mais facilidades e oportunidades em termos de acesso à saúde, educação e trabalho, sofrem dos problemas próprios das metrópoles: poluição, aumento da violência, problemas relacionados à mobilidade, estresse e correria.” É o que explica o sociólogo do Centro de Pesquisa e Apoio ao Trabalhador André Langer. Para ele, a maior dificuldade da sociedade hoje, em modificar seu estilo de vida, é não saber renunciar a algumas facilidades, como cinema, shopping centers e a possibilidade de comprar as coisas na hora em que fazem falta.

Há também quem mude seu estilo de vida devido as novas oportunidades de emprego originadas no interior ou nas pequenas cidades. “A maior dificuldade talvez seja a adaptação. É preciso estar aberto e não oferecer resistência a esse novo estilo de vida possível. Às vezes, somos viciados em nossos antigos hábitos, o que pode dificultar a mudança. É preciso ter ‘espírito’ aberto ao novo”, afirma o comerciante Valdemir Chimborski, que nasceu em Minas Gerais, morou em Curitiba por mais de 20 anos e hoje reside na cidade de Pitanga (PR), que tem um pouco mais de 8 mil habitantes. Ele mudou-se com a esposa e o filho, de 5 anos, pois sua mulher desejava trabalhar em uma empresa da região. Para isso, deixaram sua vida em Curitiba e partiram rumo ao norte do estado. “A qualidade de vida da população pode ser impulsionada por uma mudança de local de moradia. O motivo principal de mudança de Curitiba para uma cidade menor, além da busca por novas oportunidades, foi também a procura de um novo estilo de vida, onde se possa ter uma maior tranquilidade”, explica Chimborski.

2.21.2014

Se Não Houvesse Racismo Seriamos Mais Felizes



Adital
Entre nós, seres humanos, nossa identidade genética é de 99,9%. 
O ser humano tem  99% da genética dos chipanzés. 
Todos nós temos origem na África e pode haver mais diferença entre dois louros que entre um louro e um africano.
A tonalidade da pele não difere geneticamente os seres humanos. Não há duas raças humanas, mas uma só.
Esse é o resultado do mapeamento do genoma humano publicado há algum tempo e comparado ao mapeamento de outros seres vivos.
É um prazer pertencer à comunidade da vida com chipanzés e humanos que habitam esse planeta. Provavelmente, sem aqueles seres, que nos transmitiram sua carga genética, não estaríamos aqui. Se houve evolução das espécies, todos os seres vivos contribuíram para os degraus da evolução.
Mesmo que não tenha havido, somos todos irmãos, parentes, geneticamente irmanados.
Portanto, mais que um pré-conceito, o que os peruanos fizeram com o Tinga que é negro, xingando com este jogador de futebol no Peru ou quando os europeus pensam estar ofendendo algum jogador brasileiro ou africano, chamando-os de macaco, é pura ignorância.
Certos ramos das ciências sociais, entretanto, acham interessante manter o conceito interpretativo de raça, não porque existem duas ou três raças humanas, mas porque ele capta a discriminação conveniente para os grupos dominantes que consideram seus semelhantes inferiores por razões de cor.
A polícia que atira nos negros e índios em primeiro, ou o deputado que diz serem "os negros, índios e gays tudo que não presta”, assim revela seu entendimento ignorante e discriminatório em relação aos seus irmãos "gêmeos”. Ele segue o princípio nazista de dividir os seres humanos em raças e afirmar que os "arianos” são superiores aos demais.
Os peruanos, os africanos, os brasileiros, os europeus, todos somos geneticamente os mesmos.
Portanto, de alguma forma, como somos seres humanos, também podemos dizer que todos somos parecidos com chipanzés.
Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79458

2.15.2014

Meu Celular, Minha Vida



Adital

Há uma nova doença nos anais da medicina: a nomofobia, o medo de ficar sem celular. O termo foi cunhado no Reino Unido, e deriva de "no mobile phobia”. O fato é óbvio: para qualquer lugar que se olhe, as pessoas estão atentas ao celular – rua, restaurante, local de trabalho, ônibus, metrô, escola, e até igreja.

Não sem razão, a revista Forbes considerou o mexicano Carlos Slim, em 2013, pela quarta vez consecutiva, o homem mais rico do mundo, com uma fortuna calculada em 73 bilhões de dólares. Com negócios na área de comunicação em vários países, no Brasil ele controla a Globopar (Net), a Claro e a Embratel.
O Brasil é o 60º país do mundo mais conectado por celular, e o 4º a dar mais lucros às empresas de telefonia. O brasileiro gasta, em média, 7,3% de sua renda mensal com o uso do telefone móvel. Em julho deste ano, nosso país dispunha de 267 milhões de aparelhos.
Essa fissura de manter o celular ligado o tempo todo –e manter-se ligado ao celular todo o tempo (até na hora de dormir)– se explica pela hipnose coletiva gerada pelas redes sociais.
Uma das anomalias de nossa época pós-moderna é o esgarçamento das relações pessoais e comunitárias. A família tradicional, que se reunia à mesa de refeições ou na sala para conversar, é hoje um bem escasso. As relações matrimoniais mal resistem à primeira crise. Segundo o IBGE, as uniões conjugais duram, em média, cerca de sete anos!
Na opinião de Aristóteles, amizades são imprescindíveis à nossa felicidade. No entanto, nesse mundo competitivo, muitas andam contaminadas por inveja, ciúme, cobranças, ou prejudicadas pela falta de tempo.
Resta então, nesse mar revolto no qual naufragam antigos e saudáveis costumes, a ilha salvadora do celular! O aparelho corresponde muito bem às contradições da pós-modernidade: por ele me comunico, sem conversar; opino, sem me comprometer; me expresso, sem me envolver; troco mensagens e torpedos, sem me doar a ninguém e a nenhuma causa.
O fascínio do celular consiste em amenizar minha solidão sem exigir solidarizar-me. Estou na rede, interajo com inúmeras pessoas e, no entanto, fico na minha, olhando o meu umbigo, indiferente ao fato de algumas dessas pessoas estarem sofrendo ou, pelo menos, necessitando de minha presença física consoladora ou incentivadora.
O celular faz de mim, Clark Kent, um Super-Homem. Eu, a quem quase ninguém presta atenção, agora gozo de um público multimídia ligado no que expresso. Em contrapartida, o celular me rouba tempo: de leituras, de trabalho, de convivência familiar e com amigos. Com ele ligado no bolso ou ao meu lado, fica cada vez mais difícil a concentração.
O celular é um espelho mágico. Repare como as pessoas o fitam. É como se vissem na tela. Por ser um equipamento eletrônico dotado de múltiplos recursos, ele me traz a sensação de que sou um Pequeno Príncipe capaz de visitar sucessivamente diferentes planetas.
No celular eu me enxergo como gostaria que as pessoas me vissem. Com a vantagem de que ele dissimula minha verdadeira identidade, meu modo de ser, permitindo que eu me esconda atrás dele. Ele faz de mim um ser onipresente. O que transmito é captado por uma rede infinita de pessoas que, por sua vez, podem reproduzir a inúmeras outras.
Hoje em dia os consultórios médicos já lidam com crianças, jovens e adultos que padecem de nomofobia. Gente que não consegue se desconectar do aparelho. Vive as 24h do dia ligada a ele.
Ah, como é saudável estar bem consigo mesmo e manter o celular desligado por um bom tempo, sobretudo à noite! Mas isso exige o que parece cada vez mais raro nos dias atuais: boa autoestima, falta de ansiedade, consistência subjetiva, gosto pelo silêncio e uma vida ancorada em um sentido altruísta.
[Frei Betto é escritor, autor do romance "Aldeia do silêncio” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=78989&langref=PT&cat=