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8.09.2015

Especialistas alertam para os problemas causados pelo colesterol alto

O consumo de fibra solúvel ajuda a reduzir a absorção de colesterol na corrente sanguínea

Por  

Por Redação, com ABr – de Brasília:

Considerado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia como grave problema de saúde pública, o colesterol alto não tem sintomas, a menos que a situação seja grave. Neste sábado, quando é promovido o Dia de Combate ao Colesterol Elevado, voluntários da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e da Associação de Pacientes com Hipercolesterolemia Familiar estiveram no Parque Villa-Lobos, em São Paulo, fazendo a medição da dosagem de colesterol e dando orientações sobre alimentação.

O colesterol é um lipídio que auxilia no bom funcionamento do organismo, mas, em excesso, torna-se perigosoO colesterol é um lipídio que auxilia no bom funcionamento do organismo, mas, em excesso, torna-se perigoso
 A campanha é voltada especialmente para quem tem hipercolesterolemia familiar, ou seja, quem tem o problema de colesterol alto por origem genética. Segundo a cardiologista Tânia Martinez, a doença faz com que os membros da família estejam sujeitos ao infarto precoce, que ocorre antes dos 30 anos e, em alguns casos, até na adolescência.
A especialista explica que, embora não haja estatísticas, a estimativa é que uma em cada 250 pessoas apresenta o problema que, se não identificado e tratado, provoca um número muito grande de mortes evitáveis, e principalmente entre os jovens.
Segundo a SBC, a boa notícia é que o tratamento de hipercolesterolemia familiar é fácil e muito eficiente e a identificação das famílias com a tendência genética também. Se em uma família há registro de duas ou mais pessoas que tiveram infarto, principalmente antes dos 40 anos, e se o pai e a mãe de uma criança têm colesterol elevado e precisam de tratamento, é recomendável o acompanhamento do nível de colesterol dos filhos. Em muitos casos, é possível identificar o problema antes dos 10 anos.
– É muito importante que as pessoas com parentes que tenham tido infarto ou derrame em idade precoce e quem apresentam algum outro fator de risco, como pressão alta, tabagismo, que seja diabético, tenham o colesterol dosado – aconselha Tânia. Se a doença for tratada precocemente, a pessoa tem grandes chances de levar uma vida normal e evitar infarto.
A médica esclarece que, embora a dieta possa ajudar, quando o problema é familiar geralmente é necessário tratamento com remédios. A preocupação com o consumo de  alimento como verduras, frutas, legumes e fibras e a recomendação de atividade física intensa sempre é importante.
O colesterol é um lipídio que auxilia no bom funcionamento do organismo, mas, em excesso, torna-se perigoso, sobretudo para os maiores de 60 anos, e pode causar doenças cardiovasculares, como infarto.
– Só quando o colesterol passa de uma concentração ideal é que começa a se depositar nas artérias. Começa a fazer umas estrias gordurosas e depois umas placas de gordura e ai as placas, dependendo da área do corpo, coração ou cérebro, promoverão eventos como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, angina – explica Tânia.
Há dois tipos de colesterol: o “bom” (HDL) e o “ruim” (LDL). O consumo de fibra solúvel ajuda a reduzir a absorção de colesterol na corrente sanguínea. Esse tipo de fibra é encontrado na aveia, maçã, pera, ameixa e no feijão.
Peixes como truta, sardinha, atum, salmão, linguado, entre outros, são aliados contra o colesterol alto, pois contêm altos níveis de ômega-3, os ácidos gordos, que podem reduzir a pressão arterial e o risco de desenvolvimento de coágulos sanguíneos. Outros alimentos que ajudam a manter o bom colesterol e a evitar o mau são azeite e castanhas, iogurtes e suco de laranja.
http://correiodobrasil.com.br/especialistas-alertam-para-os-problemas-causados-pelo-colesterol-alto/

O nosso vício na internet tem cura?

por : Diario do Centro do Mundo - Sociedade e Tecnologia
josh
Publicado na BBC Brasil.
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 Quase todas as ruas em quase todas as grandes cidades do mundo estão lotadas de pessoas usando seus celulares, alheias à presença dos outros. É um comportamento que não existia poucas décadas atrás.
Acabamos nos acostumando ao fato de que compartilhar o mesmo espaço físico não significa mais compartilhar da mesma experiência. Onde quer que estejamos, levamos conosco opções muito mais interessantes do que o lugar e o momento que vivemos: amigos, familiares, notícias, imagens, modismos, trabalho e lazer cabem na palma da mão.
Mas como questiona o fotógrafo Josh Pulman, autor do ensaio Somewhere Else (em algum outro lugar, em tradução livre), cujas fotos são exibidas com esta reportagem: “Se duas pessoas estão andando juntas, cada uma prestando atenção a seu telefone, elas estão realmente juntas?”
Faz parte do ser humano ter uma profunda vontade de se conectar. Mas será que esse dom pode nos prejudicar em algum momento? É possível ficar “conectado em excesso”? E o que isso significa para
nosso futuro?
A vida por um fio

Desde sua invenção, o telefone tem sido um motor de agitação social e um foco de ansiedade tecnológica. Imagine a cena através dos olhos do século 19, quando as primeiras estruturas de telefonia começaram a ser instaladas: quilômetros e quilômetros de fios pendurados nas laterais das ruas, perfurando todas as casas. As paredes estavam sendo violadas: o santo lar, ligado a uma nova espécie de interação humana.
“Em breve não seremos mais do que gelatinas transparentes”, lamentou um jornalista britânico em 1897, temendo a perda da privacidade.
Mas, enquanto os primeiros medos em relação ao telefone podem ter sido exagerados, eles também foram um tanto proféticos. Se no fim do século 19 e durante o século 20 nossa vontade foi de plugar todos os locais de trabalho e lazer em redes, o século 21 emerge com o desejo de uma interconexão de nossas mentes nessa trama.
E estamos começando a sentir os efeitos disso.
Assim como seu antepassado no século 19, o telefone celular nasceu como um símbolo de status para as pessoas afluentes e ocupadas. Com o tempo, o luxo se tornou universal. Passamos a entremear a disponibilidade constante no nosso conceito de espaço público e privado, na nossa linguagem corporal e na etiqueta cotidiana.
Ficar incontactável se tornou a exceção, algo fora deste mundo – mas também uma fonte inesgotável de ansiedades.
E, como a história se repete, a todo momento recebemos alertas sobre possíveis efeitos prejudiciais da comunicação móvel.
Um desses avisos veio com a notícia de que um homem de 31 anos foi recentemente internado para se tratar de um “distúrbio de vício em internet”, por causa de seu uso excessivo do smartphone.

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Relação normal ou patológica? Casos como esse levantam outras questões: com que frequência suas mãos se mexem involuntariamente com a intenção de pegar seu celular ou de alcançar o lugar onde você normalmente o deixa? Como você reage ao som de cada nova mensagem – ou à ausência dele?
Não são perguntas com respostas definitivas.
Traçar o limite entre hábito e patologia significa decidir o que queremos dizer com os termos “normal”, “saudável” e “aceitável”.
E se a tecnologia excede em algo, é justamente em mudar velhas normas rapidamente.
Passei anos tentando avaliar nosso relacionamento com a tecnologia e ainda me vejo sendo puxado em duas direções diferentes.
Por um lado, como disse o filósofo Julian Baggini, “o homem pode estar mudando, mas em muitos aspectos ele continua o mesmo”. Podemos ler romances da Grécia Antiga e compreender quando o autor fala de raiva, paixão, patriotismo e confiança, por exemplo.
Por outro lado, as tecnologias digitais significam que as relações com os outros e com o mundo foram estendidas e ampliadas para um nível nunca antes experimentados.
Como argumentam filósofos como Andy Clark e David J. Chalmers, a mente é uma colaboração entre o cérebro na cabeça e equipamentos como o telefone nas mãos. O “eu” é um sistema complexo que envolve as duas coisas.
É esse impacto exponencial de tecnologia da informação que representa o maior problema para tudo o que julgávamos ser normal, equilibrado, autoconhecido e auto-regulado.
Vivemos em uma era em que nossas patologias são aquelas do excesso.
 Dando um tempo
Será que precisamos de uma desintoxicação? Bem, isso não necessariamente funciona, nem para a saúde física nem para a saúde mental.
O melhor é encarar os fatos e começar a aproveitar a intimidade de um relacionamento que só tende a ficar cada vez mais próximo: aquele entre os cérebros de cada indivíduo e as redes de automação que estão sendo tecidas entre eles.
Afinal, estamos despejando nossas horas e minutos não apenas em uma tela, mas sim na mais complexa e abrangente rede de mentes humanas que já existiu, cada uma mais capaz do que o computador mais rápido.
Se fico fascinado, impressionado, superenvolvido, distraído e deliciado com tanta frequência, é por que há outras pessoas lá fora peneirando e refratando esse mundo de informações de volta para mim.
Só conseguirei mudar isso se puder encontrar outras pessoas com quem posso formar novos hábitos e novos modelos de funcionar.

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http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-nosso-vicio-na-internet-tem-cura/

Governos da América Latina vivem série de tentativas de golpe

Países têm sido alvo dos chamados 'golpes suaves', que tentam derrubar as administrações através de ações violentas, guerra psicológica e econômica
 
por Redação RBA - Sociedade e Poder na América Latina
 
Cancilleria de Equador
presidentes.jpgGovernos da América Latina eleitos por bases populares enfrentam resistência conservadora constante
 
São Paulo – Nos últimos meses, os governos latino-americanos têm sido alvo dos chamados "golpes suaves" promovidos pela direita nacional e internacional, que tentam derrubar as administrações dos líderes progressistas através de ações violentas nas ruas, greves, e guerra psicológica e econômica.
Os casos mais emblemáticos ocorrem atualmente contra os governos de El Salvador, Brasil, Equador, Bolívia, Argentina e Venezuela. Nesses países, setores da oposição têm o mesmo modus operandi, incluindo a promoção de campanhas de difamação, desinformação e medo; bem como denúncias de supostos atos de corrupção e violações dos direitos humanos.
Sob esses argumentos, aqueles que se opõem aos governos progressistas na região têm chamado manifestações de rua violentas, com as quais eles têm procurado desacreditar os esforços dos respectivos governos, desestabilizar as nações, justificar intervenções dos agentes externos e derrubar os chefes de estado.
De acordo com o cientista político americano Gene Sharp, o golpe suave tem quatro fases definidas: aquecer as ruas, fratura institucional, deslegitimação e desestabilização.
Normalmente, o golpe suave é executado como a única maneira de chegar ao poder, devido à falta ou ausência de apoio popular nas eleições.
Em informações listadas no site do jornal equatoriano El Telegrafo, o diretor do Centro Andino de Estudos Estratégicos, Mario Ramos explica que uma das principais ferramentas utilizadas são os meios de comunicação e redes sociais para alcançar as massas.
"É uma estratégia muito inteligente. Usa psicologia de massa, a mídia e as redes sociais, por isso é chamado suave, porque não é o golpe clássico", diz.
El Salvador, na América Central, sofreu mais um ataque orquestrado pela direita, na semana passada: grupos de oposição forçaram um boicote do setor dos transportes para tentar criar o caos e promover um golpe de Estado contra o presidente legítimo, Salvador Sanchez Ceren.. Verdadeiras quadrilhas criminosas forçaram os trabalhadores a paralisar suas atividades sob ameaça e assassinaram nove motoristas que não obedeceram às suas ordens.
No Equador, o governo do presidente Rafael Correa tem enfrentado a violência promovida pela direita contra a reforma da chamada Lei de Redistribuição da Riqueza e Ganhos Extraordinários. Mesmo tendo anunciado a suspensão temporária da tramitação proposta, as hostilidades continuam. "Eles vão continuar tentando (desestabilizar), gerar violência e o pânico econômico, eles têm tentado todos esses meses", disse Correa.
Na Venezuela, a escalada da direita teve várias fases, como a guerra econômica, caracterizada pela especulação de preços e a escassez de alimentos básicos. Em 12 de fevereiro, o presidente venezuelano Nicolas Maduro denunciou uma nova tentativa de golpe. O plano teria início após a publicação na imprensa de um manifesto apelando para um governo de transição.

*Reportagem do Vermelho reproduzida pela Carta Maior
http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2015/08/governos-da-america-latina-vivem-serie-tentativas-golpe-397.html

O Brasil assumiu a posição de 16º país mais desigual na distribuição de renda, no planeta

Combater desigualdades no capitalismo é como andar de bicicleta em um trânsito caótico

Sem avanço na base material da economia, a distribuição menos desigual da renda torna-se mais distante
 
por Marcio Pochmann*, para a RBA - Sociedade e Distribuição de Renda
Memória EBC / ABr
Promulgação-Constituição-1988.jpgConstituição de 1988 aproximou Brasil do Estado de bem estar social, barrado pela economia em crise
Os anos 2000 trouxeram uma novidade desconhecida no século 20, destacada não apenas pelos brasileiros, como também por organismos internacionais: a combinação entre crescimento econômico, democracia política e distribuição de renda.
Desde 2013, contudo, os sinais de estagnação da economia nacional apontam para a perda da eficiência da distribuição de renda. Não apenas houve aumento na quantidade de pessoas na condição de miséria, como também estancou o movimento de queda no grau de desigualdade da renda.
Neste ano de 2015, com a recessão econômica, as conquistas sociais obtidas nos anos 2000 passaram a estar ameaçadas. Isso porque o combate às desigualdades no capitalismo parece ser como "andar de bicicleta, sem poder parar de pedalar", uma vez que sem o crescimento econômico, a repartição menos desigual do fluxo de renda torna-se muito mais difícil.
O ineditismo dos anos 2000 em relação ao enfrentamento da pobreza e desigualdade de renda concentrou-se na ação política organizada em torno do estímulo ao crescimento econômico compromissado com melhora no padrão distributivo, por meio da sofisticação das políticas públicas.
Entre as décadas de 1960 e 1970, por exemplo, o vigor do crescimento econômico foi muito maior, porém com a democracia política ausente, por força da Ditadura Militar (1964 – 1985), a distribuição "menos desigualitária" da renda não existiu. Pelo contrário, o país que conseguiu situar-se na oitava economia mais rica do mundo em 1980 respondia simultaneamente pela terceira posição no ranking mundial da desigualdade de renda.
Nos anos de 1980 e 1990, a democracia política foi reposta, com a implementação da Constituição Federal de 1988, a mais avançada em termos de posicionamento em termos da construção do Estado de bem estar social. Todavia, a inexistência do crescimento econômico no período simplesmente tornou impraticável redistribuir o que não se produzia.
Assim, as décadas de 1980 e 1990 foram consideradas as piores de todo o século passado. O País retroagiu em 2000 do posto de oitava economia mais rica do mundo para a 13ª, enquanto a desigualdade de renda estancou em patamar mais elevado.
Por isso que a primeira década do século 21 trouxe emblematicamente conquistas sociais fundamentais, permitindo que o país avançasse para o posto de sétima economia mais importante do mundo, concomitantemente com a queda na desigualdade de renda. Se nos anos de 1980 era considerada a terceira nação mais desigual do mundo, na década de 2000, o Brasil assumiu a posição de 16º mais desigual do planeta.
Sem haver avanço na base material da economia, a distribuição menos desigual da renda torna-se mais distante, uma vez que os segmentos mais poderosos da sociedade aproveitam o momento de debilidade dos segmentos mais vulneráveis para avançar a apropriação dos recursos.
Isso pode ser percebido atualmente pelo poder do setor rentista no País, que por meio das elevadíssimas taxas de juros aumentam suas participações na renda nacional em detrimento dos trabalhadores que convivem com queda no nível de emprego e redução do poder de compra dos salários.
Sem a mudança deste cenário econômico desfavorável, as conquistas dos anos 2000 correm o sério risco de encolherem em 2015.
* Professor do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.
http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2015/08/combater-desigualdades-no-capitalismo-e-como-andar-de-bicicleta-8464.html

8.03.2015

Congresso dá marcha a ré para alimentos transgênicos no Brasil

Ativistas denunciam omissão venenosa nos transgênicos

Em vez de proibir os transgênicos, o país caminha para banir dos rótulos de alimentos informações sobre a presença desses ingredientes com potencial ofensivo à saúde e ao ambiente
 
por Cida de Oliveira publicado - Sociedade e Alimentação e Saúde
Fernando Frazão / Abr
Protesto agrotoxicos
Segundo o Inca, o aumento do uso de agrotóxicos tem tudo a ver com a liberação de sementes transgênicas
Quando percebeu que as embalagens de amido de milho trazem um T preto dentro de um triângulo amarelo – símbolo dos transgênicos usados no Brasil –, a professora de tecelagem Célia Regina de Macedo, 63 anos, da capital paulista, não pensou duas vezes. Substituiu o produto por polvilho, derivado da mandioca, em muitas receitas, como de sequilhos. E segue experimentando novas opções. Tofu, um queijo à base de soja, assim como o fubá, só se for orgânico. “Não sei direito o que são esses transgênicos. Dizem que são plantas alteradas para resistir a pragas. Mas se foram modificadas, será que têm os nutrientes de que preciso? Minha certeza é que não quero consumir”, afirma a artesã, que há mais de 20 anos optou por alimentos livres de produtos químicos.
Marcia Minillo / RBACelia Regina
Célia Regina questiona se plantas alteradas para resistir a pragas tem nutrientes de que precisa
Como ela, muitos brasileiros desconfiam desses organismos geneticamente modificados (OGM) – nome técnico dos transgênicos –, que no caso das plantas prometem maior produtividade e resistência a pragas. E fogem deles sempre que podem. No entanto, seu direito de escolha, assegurado pelo Código de Defesa do Consumidor, está ameaçado pelo Projeto de Lei 4.148/2008, do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS). Ex-prefeito de São Borja e produtor de arroz no estado, Heinze ficou mais famoso em 2013, durante audiência pública sobre a demarcação de terras indígenas, ao recomendar aos agricultores a contratação de milícias para se defender de índios. Ele também se referiu a índios, quilombolas e homossexuais como “tudo que não presta”.
O PL, que altera o artigo 40 da Lei de Biossegurança (11.105/2005), desobriga a indústria de alimentos a informar, na embalagem, a presença de componentes transgênicos quando for inferior a 1% na composição total do produto. Impopular, a proposta entrou e saiu da pauta várias vezes desde sua apresentação. Mas, como outras igualmente conservadoras, foi logo colocada na pauta pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
Para surpresa de ativistas, foi aprovada em 28 de abril – até deputados com histórico de defesa do consumidor, como Celso Russomano (PRB-SP) e o ambientalista Ricardo Trípoli (PSDB-SP), se disseram surpreendidos pela votação-relâmpago, embora tenham apertado o “sim” para modificação da lei de biossegurança e para o direito dos fabricantes de excluir o T das embalagens.

Violação

Idec/ DivulgaçãoRenata Amaral
Para Renata Amaral, sem a informação na embalagem não há como se exercer o direito de escolha
“É uma violação do direito do consumidor porque é praticamente impossível quantificar traços de transgenia em produtos processados, como margarinas e papinhas de nenê”, afirma a pesquisadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) Renata Amaral. “E sem essa informação, não há como exercer o direito de escolha e vai se consumir transgênicos mesmo que não se queira.”
A legislação em vigor obriga a exibição do T em rótulos de produtos com OGM em quantidade proporcional a mais de 1% da composição total, além da menção da espécie doadora do gene na lista de ingredientes. Em vez de ser aprimorada, com alertas seja qual for a quantidade – afinal, faltam estudos sobre dosagens seguras à saúde –, a lei pode ser afrouxada e muitos fabricantes, inibidos por causa da rotulagem, serão encorajados a incluir os transgênicos em seus produtos. Por isso, o Idec elaborou uma carta, assinada por 70 organizações ambientalistas, de saúde, direitos humanos, agricultura orgânica e educação alertando para os impactos à saúde humana, animal e ambiental associados aos transgênicos.
O PL está na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, com relatoria de Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que já se manifestou contra o projeto. A rejeição é grande, como mostra o Portal e-Cidadania, do site do Senado, no qual a população pode opinar sobre as matérias que ali tramitam. Enquanto a reportagem era concluída, havia mais de 13 mil manifestações, das quais apenas 5% eram favoráveis.
Apesar do atropelo na Câmara, os ativistas estão esperançosos. Não há regime de urgência e os senadores, em número menor que o de deputados, poderão ser pressionados um a um – o que não dispensa a mobilização social. “Tudo pode acontecer, mas o fato é que a derrubada da rotulagem pela Câmara provocou uma repercussão muito negativa e mesmo muita gente que não acompanhava esse debate ficou indignada com a medida. Resta ver até que ponto os senadores guardam alguma preocupação com a opinião pública ou se seguem a pauta dos financiadores das campanhas, que parece ser o caso da maioria da Câmara”, diz o agrônomo Gabriel Fernandes, assessor técnico da AS-PTA, associação não governamental sem fins lucrativos especializada em estudos e ações que atua para o fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no Brasil.
Tanta desconfiança não é à toa. Cerca de 77% dos transgênicos cultivados atualmente têm como característica a resistência a herbicidas – venenos que matam o mato que cresce na lavoura. O agricultor, que antes precisava usar o agrotóxico com cuidado para não danificar a própria lavoura, acaba pulverizando o produto à vontade porque morrerão todas as plantas, menos as transgênicas. E cerca de outros 15% dos transgênicos reúnem os chamados cultivos Bt, nos quais foram inseridos genes de uma bactéria chamada Bacillus thuringiensis. Elas produzem toxinas que matam insetos – são plantas inseticidas. Assim, a lagarta do cartucho, nociva a lavouras de milho, morre quando se alimenta de qualquer parte dessa planta geneticamente modificada.
Em resumo, são plantas transformadas para resistir a banhos de veneno – que nelas permanece –, ou para matar pragas que se alimentam das lavouras. Quando isso não acontece, o veneno fica na planta. E a palha queimada contamina o solo. “Nesse processo, houve pragas que se tornaram resistentes, exigindo mais agrotóxico”, explica o engenheiro agrônomo e ex-integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) Leonardo Melgarejo.

Distúrbios

Em abril, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), vinculado ao Ministério da Saúde, se posicionou publicamente contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no país por causar diversos tipos de câncer. A venda desses venenos para matar insetos ou plantas saltou de US$ 2 bilhões em 2001 para US$ 8,5 bilhões em 2011. Em 2009, o Brasil tornou-se maior consumidor mundial de agrotóxicos, com 1 milhão de toneladas, um consumo per capita de 5,2 quilos. O aumento, segundo o Inca, tem tudo a ver com a liberação de sementes transgênicas. De 2005 para cá, foram autorizadas 21 variedades de milho, cinco de soja, 12 de algodão e uma de feijão – ainda não cultivada. Uma das variedades de soja (RR) ocupa 21 milhões de hectares. A área total cultivada com sementes transgênicas está na faixa dos 45 milhões a 50 milhões de hectares.
Segundo Melgarejo, há outros transgênicos na pauta de liberações do órgão. E novas variedades de soja, milho e algodão estão sendo pesquisadas. Todas produzem toxinas contra lagartas e agregam genes tolerantes a herbicidas. E há estudos com cítricos, cana, sorgo, alface, moscas. “Duvido que entre eles haja características de interesse da população. O que há são facilidades para os produtores em troca de compra casada de tecnologias. A Monsanto quer vender os seus herbicidas, a Bayer os dela. E cada uma oferece sementes transgênicas que estimulam o uso desses venenos”, diz. “Já as moscas substituiriam inseticidas vendidos pelas empresas concorrentes; e a alface, só com ácido fólico, pretende substituir uma alimentação variada.”
O portfólio de sementes promete plantas resistentes a seca, salinidade e doenças, entre outras. Porém, são promessas feitas há 20 anos. “O que se vê até agora são plantas resistentes a herbicidas e que carregam seus próprios inseticidas. Tudo isso vem para a mesa. Os transgênicos reforçam a ideia do filme O Veneno está na Mesa, de Silvio Tendler”, afirma Melgarejo.
“Estudos relacionam os transgênicos a danos ao fígado e aos rins, a distúrbios hormonais e ao surgimento de tumores em animais que foram alimentados com milho transgênico. Há indícios de que seu consumo cause alergias alimentares, provavelmente pelas alterações nutricionais com a transferência de genes resistentes a antibióticos. “Fora a relação com a obesidade devido à possível desregulação do tecido gorduroso por proteínas inseticidas presentes no milho transgênico”, diz a professora Suzi Barletto Cavalli, do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e integrante da CTNBio.
Ela defende estudos também sobre a composição nutricional dos transgênicos para verificar se houve alterações na composição nutricional ou se a manipulação genética interferiu na maneira como o nutriente é absorvido e aproveitado pelo organismo, passando então a oferecer risco à saúde humana. “Por isso, é importante a avaliação de risco, com estudos toxicológicos de longo prazo sobre os efeitos do consumo desses alimentos à saúde.”
Para a professora, enquanto houver incertezas científicas em relação aos riscos dos transgênicos, deve ser adotado o Princípio da Precaução – a garantia contra os riscos potenciais. “É essencial sua identificação em rótulos de alimentos, principalmente considerando que a maioria dos produtos industrializados contém pelo menos um ingrediente derivado de milho ou soja. É importante que o rótulo da embalagem do alimento contenha, além do símbolo T, uma expressão para informar origem e composição transgênica do alimento”, explica. Tal expressão, segundo ela, deve trazer o nome do produto seguido do termo “transgênico”. Além disso, também deve conter o nome da espécie doadora de genes no local reservado para a identificação dos ingredientes.
A discussão sobre a rotulagem em si é outra face do atraso do país nesse campo. Lavouras transgênicas estão sendo limitadas na Alemanha e na França, enquanto Irlanda, Áustria, Hungria, Grécia, Bulgária e Luxemburgo as proíbem – tornando-se entrave para as exportações brasileiras por causa da associação com agrotóxicos vetados em muitos países – por aqui ainda se debate o direito a informações sobre essas culturas.
Arquivo PessoalVinicius Della Libera
O corpo sofre para digerir o alimento que foi alterado para resistir a um banho de veneno
Embora seja muito difícil comprar um alimento livre de transgênicos em sua formulação, a informação na embalagem é fundamental. “É crescente a população que busca hábitos mais saudáveis, naturais. Um mercado que não pode ser desprezado. Assim, esses produtos têm de estar disponíveis a todos”, diz o preparador corporal paulistano Vinicius Della Líbera, 31 anos, que também se dedica a escrever sobre longevidade em seu blog longevidade.voadora.com, no qual ensina, por exemplo, a fazer pão com fermento caseiro, produzido com as bactérias presentes na própria farinha. “Uma alimentação orgânica, que ajuda a limpar o organismo, é um dos caminhos para se viver mais. O corpo sofre para digerir aquele alimento alterado para resistir a um banho de veneno. Não pode haver esse descaso com o consumidor.”

Educação

A professora Marijane Vieira Lisboa, do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, destaca outro aspecto diluído na discussão: a incompreensão da maioria da população brasileira acerca das informações presentes nos rótulos e o próprio significado dos transgênicos por trás da letra T. Para ela, por se tratar de uma questão tão importante quanto complexa, os ministérios da Saúde, da Educação e da Justiça deveriam envolver as secretarias estaduais de Saúde, com suas agências de vigilância, na criação de um projeto educativo. “Os ativistas de organizações não-governamentais não têm condições de realizar esse trabalho. E os professores das escolas regulares não têm formação específica para isso”, afirma Marijane.
Na sua avaliação, a aprovação do PL na Câmara não deixa de ser “um tiro no pé” ao trazer à tona proposta tão escandalosa, ensejando o debate. Ela própria tem sido convidada para entrevistas, palestras e oficinas em diversas regiões do país­ para falar justamente sobre a rotulagem de alimentos com ingredientes transgênicos. “É preciso também um trabalho estruturado para enfrentar o assédio dos fabricantes de venenos e sementes geneticamente modificadas. Já descobrimos trabalhos de educação ambiental com kits distribuídos em escolas, patrocinados pela Monsanto, com o objetivo de mascarar os perigos. Depois de toda a discussão e suposta defesa da saúde e meio ambiente, o material dizia, lá no final, que os transgênicos são a melhor alternativa porque permitem a diminuição do uso de agrotóxicos, quando na verdade leva ao aumento de seu uso, em doses cada vez maiores, de suas versões cada vez mais fortes”, conta. “Além disso, a população tem de se manifestar.”
Breno Lobato / EmbrapaEmbrapaCaminho sem volta? : O próprio governo, por meio de sua agência de pesquisa agropecuária, investe no desenvolvimento de transgênicos
Tal retrocesso, porém, não combina com políticas brasileiras exitosas. É o caso do combate ao tabagismo, reconhecido internacionalmente, que inclui embalagens nada atrativas. “Assim, não se pode esperar a consumação dos perigos da dupla transgênicos e agrotóxicos à saúde de todos para só então tornar os rótulos mais informativos”, observa André Dallagnol, assessor da organização Terra de Direitos.
http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/108/omissao-venenosa-169.html

Europeus procuram emprego no Chile e países da América Latina

Europeus buscam emprego na América Latina

por Deutsche Welle — Sociedade e Empregos
Em meio à crise econômica, muitos deixam a Europa em busca de oportunidades em países como o Chile. Atualmente mais migrantes vão do Velho Mundo para as américas do que o contrário, diz estudo
Cristian Quezada Valdés
Santiago-capital-chilenaVisão noturna da capital chilena e o Gran Torre Santiago, o prédio mais alto da América Latina
Natural de Sevilha, no sul da Espanha, Magdalena Martín Sevilla decidiu fazer do Chile a sua nova casa, depois de não ter conseguido encontrar emprego por meses. Em 2012, ela fez as malas e deixou a Espanha.
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"A situação econômica tem sido terrível desde 2008", diz. "É impossível encontrar trabalho na própria área. As pessoas simplesmente acabam realizando trabalhos mal pagos e que não querem fazer."
Antes da crise, a jovem de 20 poucos anos estudou com o objetivo de ajudar famílias de baixa renda. Depois de se formar, ela passou cinco meses à procura de trabalho na Espanha. Quando uma fundação no Chile lhe ofereceu um emprego, ela não pensou duas vezes. Sevilla se mudou para a capital chilena, Santiago, para combater a pobreza na América Latina.
A mudança para o Chile e a adaptação foram fáceis, já que o espanhol é sua língua materna, mas ela diz que ainda tem de lidar com as saudades da família e de amigos. Além disso, ela sente que as pessoas na Espanha sabem aproveitar a vida um pouco melhor.
Escapando da crise econômica
Jorge Salgado-Reyes também se mudou para o Chile em busca de trabalho. Ele deixou o Reino Unido em 2010, quando, segundo ele, tudo ficou mais difícil. "Nossa renda bruta de 100 mil libras [por volta de 525 mil reais] foi reduzida a migalhas de um mês para o outro", conta.
Quando se mudou para o Chile, Salgado-Reyes voltou a ter esperanças, já que na Europa não havia trabalho para ele. Aos 48 anos de idade, ele trabalha como investigador particular e dirige a própria empresa.
De acordo com ele, a competição era difícil no Reino Unido. "Há cerca de 10 mil agências de detetives no Reino Unido. Já no Chile, há apenas umas dez", afirma.
Chile atrai milhares de europeus
Mais europeus estão se mudando para a América Latina e o Caribe do que o contrário, segundo um recente estudo realizado pela Organização Internacional de Migração (IOM, na sigla em inglês). E não são apenas as potências econômicas do bloco latino, como Brasil e México, que estão atraindo migrantes.
O Chile está se tornando cada vez mais popular. Aproximadamente 70 mil europeus – principalmente alemães, franceses, belgas, romenos e búlgaros – vivem hoje no país, de acordo com Gastón Parra González, especialista chileno em política de imigração.
Alguns profissionais já têm uma oferta de trabalho quando embarcam em suas jornadas, enquanto outros simplesmente vão até o Chile para tentar a sorte.
"As empresas chilenas muitas vezes olham para uma área específica de especialização na Europa", diz Parra. "Romenos e búlgaros estão sendo contratados para trabalhar no norte do deserto do Atacama no setor de energia sustentável, instalando painéis solares."
O Chile, um país relativamente pequeno com pouco mais de 17 milhões de habitantes, possui uma economia em expansão, o que atrai não somente europeus, mas também outros migrantes provenientes da América Latina.
"E há mais e mais empresas se deslocando para o Chile, o que significa mais clientes para nós", comemora o detetive Salgado-Reyes.
"Não é um paraíso"
Sevilla diz que muitos de seus amigos espanhóis também conseguiram empregos bem remunerados no Chile. No entanto, ela adverte que o país não é um paraíso. Parra concorda: "As pessoas que se mudam para cá não percebem quão caro é o Chile. Se você quer viver bem em Santiago, é quase tão caro como em capitais europeias, como Londres ou Berlim".
"Muitos imigrantes estão ficando desiludidos e reclamam que não sabiam que teriam de pagar tanto por coisas que eles consideram um direito adquirido, como educação e saúde, algo comum na terra natal", acrescenta Parra.
Os milhares de europeus que vêm a cada ano para tentar a sorte muitas vezes acabam em empregos de baixa remuneração, trabalhando em bares ou como operário em construções. Além disso, Parra afirma que muitos não conseguiram compreender que viver e trabalhar num país é muito diferente do que visitá-lo como turista.
Embora Sevilla e Salgado-Reyes afirmem que estão muito felizes com suas vidas profissionais no Chile, eles não descartam a possibilidade de voltar à Espanha e ao Reino Unido, respectivamente, se a situação econômica melhorar em seus países de origem.
http://www.cartacapital.com.br/internacional/europeus-buscam-emprego-na-america-latina-2725.html

Os empregos estão mudando: como serão no futuro próximo no Brasil

  É o fim do trabalho com conhecemos hoje?

por Thomaz Wood Jr. — Sociedade e Empregos
Tendências econômicas e tecnológicas sugerem o declínio crescente dos empregos estáveis, de tempo integral
Valdecir Galor/SMCS
DesempregoA presente recessão brasileira nos levam a relembrar o drama do desemprego
O trabalho é ideia milenar nem sempre muito apreciada. A Grécia antiga não o tinha em grande conta e o considerava um inimigo da virtude, a cercear os homens de suas mais nobres aptidões, as quais deveriam ser desenvolvidas na filosofia e na política. As sociedades industrializadas modernas, contrariamente aos gregos, celebram o trabalho como valor central, algo capaz de gerar riqueza e bem-estar, beneficiando o indivíduo e a sociedade.
Algumas tendências em curso sinalizam, entretanto, o declínio dos empregos estáveis, de tempo integral. Esse é o tema da matéria de capa da revista The Atlantic de julho/agosto de 2015, assinada por Derek Thompson. A matéria é ilustrada com imagens que simulam um museu do futuro. Na página 50, traz um executivo com pasta e celular (legenda: “Trabalhador de tempo integral, circa 2016”). Na página 52, mostra um operário com capacete e planilha de controle (legenda: “Homem de fábrica do início do século XXI, extinto”). A pergunta subjacente ao texto é crua: e se o trabalho desaparecer?
A crise econômica do fim dos anos 2000 e a presente recessão brasileira nos levam a relembrar o drama do desemprego. Quando cortam quadros ou encerram atividades, as empresas projetam uma sombra sobre as comunidades. A arrecadação diminui, o consumo cai, os serviços básicos são afetados, a coesão cultural é enfraquecida e multiplicam-se patologias sociais e os dramas pessoais. 
Os últimos séculos foram marcados por reinvenções sucessivas do trabalho, da agricultura para a indústria e desta para os serviços. As transições foram traumáticas, mas cada estado final representou uma evolução em relação ao seu ponto de partida, com mais empregos e mais riqueza. As tendências atuais apontam, entretanto, para a criação de uma massa paralela de destituídos, sem emprego ou competências para subsistir em um mundo intensivo em tecnologia.
Thompson identifica três grandes tendências. A primeira delas é a superação do trabalho pelo capital. Desde os anos 1980, as empresas investiram em reestruturações e em automação industrial, na busca de formas eficientes para organizar o trabalho e automatizar seus processos. O resultado foi o enxugamento dos quadros e uma perda progressiva do poder de barganha do trabalho diante do capital. A segunda tendência é o desaparecimento progressivo do trabalhador. Estatísticas norte-americanas indicam um aumento inexorável do porcentual de homens que não estão trabalhando ou procurando por trabalho. A terceira tendência relaciona-se ao avanço das tecnologias de informação e comunicação. Os impactos de mudanças tecnológicas podem demorar anos para se manifestar, mas quando ocorrem são contundentes. Vendedores, caixas, atendentes e funcionários de escritórios são os primeiros na linha de fogo.
O trabalho preenche três funções sociais: é uma forma pela qual a economia produz bens, um meio de as pessoas garantirem seu sustento e uma atividade que provê sentido e propósito à vida das pessoas. O que ocorrerá se as tendências acima mencionadas se aprofundarem? A primeira função social parece cada vez menos dependente de trabalhadores. A economia poderá continuar produzindo bens, com menor número de empregos. Mas sem salários, quem irá consumi-los? A terceira função social poderá ser substituída, uma vez que há outras atividades passíveis de prover sentido e propósito para os indivíduos. Mas o que ocorrerá com a segunda função social? Como continuar a garantir o sustento sem uma oferta condizente de empregos.
Muitas pessoas detestam sua profissão, seu emprego ou ambos. Porém, perder o ganha-pão pode ser trágico. Nos países desenvolvidos, a infraestrutura madura e as redes de proteção social, aliadas a certa criatividade individual e doses crescentes de empreendedorismo, poderão tornar a vida na informalidade laboral passável, até recompensadora. Nos países em desenvolvimento, a transição poderá ser mais dura e trágica.
Entretanto, o pessimismo necessário deve ser temperado com doses homeopáticas de otimismo. Trabalhos estáveis e de tempo integral talvez sejam vistos no futuro como peculiaridade de uma época. Os nostálgicos talvez lamentem seu desaparecimento. Outros talvez celebrem seu declínio, como uma porta aberta para o cultivo das virtudes, como desejavam os antigos gregos.•
http://www.cartacapital.com.br/revista/860/o-fim-do-trabalho-5512.html