“Parece
muito provável que os furacões e
os terremotos tenham
uma relação e isto parece estar se intensificando com a mudança climática”, escreve Mateo León
Como
há um consenso de que a atividade humana, particularmente o
consumo de combustíveis fósseis, está produzindo o aquecimento global, alguns cientistas
começam a dizer que o que está acontecendo não deve mais ser chamado apenas de
“desastre natural”, pois há uma interferência
humana
por Mateo León no PijamaSurf
e IHU Unissinos – Sociedade, Mudanças Cimáticas, Terremotos e Furacões
Foto
El Pais terremoto Helem_Tawain em set/2018
Diante dos
recentes desastres naturais, o ser humano
busca dar sentido a eles e costuma se perguntar se estão relacionados entre si
ou se tais fenômenos estão aumentando. De fato, estão relacionados ou é
simplesmente o desejo humano de conectar as coisas e projetar significado à
natureza? Realmente, estão aumentando sua frequência ou simplesmente estamos
mais conscientes deles pela grande exposição nos meios de comunicação digitais?
Tentaremos
entender algumas dessas perguntas neste artigo.
Os terremotos ocorrem devido ao
acúmulo de energia, uma espécie de “estresse telúrico”. Quando se acumula energia
suficiente, as placas
tectônicas que estão ligadas se rompem, permitindo que a
energia acumulada seja liberada. A energia detonada por um terremoto pode ser produzida por
deslocamentos de segmentos na crosta terrestre, erupções vulcânicas ou
explosões humanas.
Da mesma forma,
existem teorias que sugerem que a energia gravitacional potencial armazenada na
configuração dos elementos da Terra é
a fonte de energia dos terremotos.
Um terremoto supõe sempre uma rea-comodação
da crosta terrestre, em que diminui a inércia e aumenta a velocidade angular.
Isso faz com que os grandes terremotos (como
o do Chile, em 2010, o do Japão, em 2011
e o da Turquia e Síria em 2023), ao aumentar a velocidade angular, diminuam
ligeiramente a duração do dia, em uma dimensão de micros-segundos.
A Relação entre os Terremotos
e a Mudança Climática Global
Sobre a relação
entre os terremotos e
a mudança climática, existem alguns trabalhos
interessantes. Um deles é o do professor Bill McGuire, da University College London, que argumenta que o derretimento das calotas polares,
devido ao aquecimento global, pode ter vários efeitos, que incluem terremotos.
Outro pesquisador
que pode ter algo a dizer sobre o assunto é Chi-Ching Liu, do Instituto de Ciências da Terra de Taipei [Taiwan], defende que
existe uma correlação entre tufões e terremotos, sugerindo que uma redução da pressão atmosférica (o
que caracteriza tais sistemas do Pacífico, equivalentes aos furacões) é suficiente para mover as
falhas sísmicas e liberar estresse acumulado.
Conforme aponta o
geofísico John McCloskey, uma falha sísmica que juntou energia suficiente,
às vezes, não precisa mais do que “a pressão de um aperto de mãos”. No entanto,
esse vínculo observado não é imediato. Um furacão pode causar um terremoto, mas meses ou anos depois.
Segundo Shimon
Wdowinski, da Universidade de Miami, em algumas partes
dos trópicos, grandes terremotos tendem
a se formar depois de furacões excepcionalmente
fortes. Isso parece ter ocorrido no terrível terremoto no Haiti, em 2010, que pode ter como antecedente a
erosão da terra produzida pelas tempestades de 2008.
Neste contexto,
supõe-se que as inundações lubrificam as falhas telúricas. Ou, como
sugere Wdowinski, a erosão de deslizamentos por chuvas torrenciais
reduz o peso de uma falha e a permite se mover com maior facilidade.
Uma associação
semelhante foi observada no caso do terremoto no Nepal, em 2015, possivelmente relacionado com a
temporada das monções de verão. Se essas tempestades estão ligadas à mudança climática, parece lógico dizer
que os terremotos também
estão.
Surjalal Sharma, físico da Universidade de Maryland, acredita que os eventos
naturais não existem isoladamente, mas fazem parte de uma memória da evolução
do planeta, que ele considera um sistema holístico ou mesmo um ser vivo,
conforme considerado pela chamada Teoria de Gaia. “O sistema da Terra como um todo, no qual
existem furacões,
inundações, terremotos,
tempestades solares e outros, é um sistema integral. Portanto, a memória de
todo o sistema afeta eventos extremos”,
destaca.
No México,
viveu-se com enorme surpresa a trágica coincidência de três terremotos de grande magnitude,
ocorridos no mesmo dia: um 19 de setembro (em 1985, 2017 e 2022). Embora para a
consciência popular mexicana setembro seja o “mês dos tremores”,
cientificamente não há correlação significativa entre a temporada do ano e a
frequência de terremotos,
ao contrário dos furacões.
Não existe correlação estatisticamente significativa entre o calor e os terremotos (algo em que os
gregos, curiosamente, acreditavam).
O fato de
que furacões e tremores parecem coincidir no
tempo simplesmente tem a ver com o fato de que áreas propensas a furacões e tempestades também
costumam ser suscetíveis a tremores, o que aumenta a possibilidade de que esses
eventos coincidam.
Furacões Influenciam na
Geração de Terremotos?
Dito isso, parece
que os furacões, sim, podem
influenciar na geração de terremotos,
mas não imediatamente. Por outro lado, alguns terremotos de grande magnitude, sim, podem gerar outros terremotos em outra parte
distante do planeta, como aconteceu com o tremor de Sumatra, de agosto de 2017
(uma coincidência que, no entanto, é extremamente rara).
Os furacões de categoria 5 são
considerados os eventos meteorológicos mais destrutivos da natureza. No
entanto, diversos dados mostram que são os furacões de categoria 3 que estão se
tornando um pouco mais comuns. No Caribe, desde que começaram os registros, em
1851, houve 33 furacões de categoria 3 ou mais, sendo que 23 deles se deram a
partir de 1961, 11 nos últimos 14 anos.
Em parte, embora
esses números possam estar relacionados a melhorias nos equipamentos de
monitoramento, o aumento persiste mesmo em tempos de medições de tecnologia de
satélite.
Os furacões mais fortes precisam de
um oceano excepcionalmente quente para se intensificar, por isso a temporada
de furacões começa
perto do verão. Esses sistemas furiosos estão sendo alimentados mais
recentemente pelas temperaturas do Caribe, que atingiram níveis históricos. De
acordo com os cientistas do clima, desde 1970, os oceanos retêm
90 % da energia excedente do aquecimento global.
De um modo geral,
pode-se dizer que os furacões convertem
energia de calor em energia de vento e, com mais energia no mar, devido
ao aquecimento global, simplesmente há mais energia
disponível. Como há um consenso de que a
atividade humana, particularmente o consumo de combustíveis fósseis, está produzindo o aquecimento global, alguns cientistas
começam a dizer que o que está acontecendo não deve mais ser chamado apenas de
“desastre natural”, pois há uma interferência
humana.
A Relação entre o Clima e os
Furacões
O furacão Harvey (2017) representou um fenômeno
sem precedentes que alguns relacionaram com a mudança climática. Normalmente, as tempestades perdem intensidade
ao se aproximarem da terra firme. Em 30 anos de registros, nenhuma tempestade
no oeste da Flórida havia se intensificado nas últimas 12 horas antes de fazer
contato com a Terra. Contudo, isto aconteceu com Harvey, alcançando a categoria 4 horas antes de atingir a costa do
Texas. O mais surpreendente do fenômeno foi que a água se manteve quente para
que Harvey pudesse
continuar aumentando seu poder, algo inédito.
Embora as observações
científicas sobre as mudanças nesses eventos meteorológicos ainda estejam em
suas etapas iniciais, existe certo consenso sobre a relação entre o clima e os furacões. Segundo Kerry Emanuel, especialista
do MIT, o aumento das
temperaturas do planeta está diretamente relacionado ao aumento da intensidade
de tempestades e furacões,
como ocorreu com o já mencionado furacão Harvey, ou os furacões Irma e Maria,
ambos em 2017 e especialmente devastadores.
Para concluir,
devemos mencionar que embora a ciência do clima,
a meteorologia e
a geologia tenham
feito grandes avanços no tocante à relação entre esses diferentes fenômenos,
suas causas e a compreensão do planeta como um sistema holístico e até como um
ser vivo, sem dúvida, há muitas coisas que permanecem desconhecidas e que
poderão, no futuro, revelar uma maior interconexão e interdependência. Por
enquanto, parece muito provável que os furacões e os terremotos tenham
uma relação e isto parece estar se intensificando com a mudança climática.
Tradução: Cepat
Publicado IHU
Unissinos:
09 fevereiro
2023
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/626120-a-terra-como-um-organismo-vivo-a-singular-relacao-entre-terremotos-furacoes-e-o-clima-do-planeta