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8.10.2023

Cúpula dos Povos Indígenas fica isolada do Fórum Amazônia Real no Pará

Sem a presença das indígenas que atuam no Governo Federal e falta de apoio do governo, cerca de 800 indígenas se reuniram em Belém no sábado (5/ago/2023) para discutir o modelo de desenvolvimento que querem para a Amazônia e um futuro com terras demarcadas, longe do garimpo, da monocultura, das ferrovias, das hidrelétricas e dos grandes projetos

Documento da Cúpula dos Povos Indígenas, evento paralelo, foi entregue ao Forum Amazônia Real, promovido pelo Governo Federal, Estadual e Municipal, em Belém, no Pará

 O líder indígena, cacique Raoni Metuktire (centro), foi quem abriu a Cúpula dos Povos Indígenas . Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real

por Cícero Pedrosa Neto do Amazônia Real, no  – Sociedade e Luta dos Indígenas pela Sobrevivência da Terra

Belém (PA) O local onde a Cúpula dos Povos Indígenas ocorreu ficava em uma via pública, ladeada por arquibancadas de metal e alvenaria, no bairro da Pedreira. É lá que desfilam as tradicionais escolas de samba de Belém. As principais organizações indígenas até tentaram um espaço melhor, mas não receberam resposta dos organizadores do evento Diálogos Amazônicos, a cargo do governo federal, estadual e municipal. E foi assim que, no sábado (5/ago/2023), cerca de 800 indígenas da bacia amazônica se reuniram, longe dos holofotes e da megaestrutura montada para a Cúpula da Amazônia, que começou na quarta-feira.

É simbólico quando os principais detentores do conhecimento das florestas ficam de fora dos debates em torno da preservação da Amazônia. “Não fomos convidados, mas viemos para Belém, porque a nossa luta é feita de resistência”, protestou Toya Manchineri, coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), uma das organizações indígenas que idealizaram e realizaram a Cúpula dos Povos Indígenas. 

O encontro paralelo dos povos indígenas, que ocorreu no âmbito da Assembleia dos Povos Pela Terra, reuniu lideranças de todos os estados da Amazônia Legal e de alguns países da Pan-Amazônia. Eles exigem protagonismo nas decisões sobre o futuro dos seus territórios, da Humanidade frente às mudanças climáticas e do modelo de desenvolvimento possível para a região. 

Mas muitas delegações indígenas só puderam chegar à capital paraense graças à mobilização de organizações como a Coiab, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa). Os mais de 800 indígenas que acompanharam os eventos ao longo dos últimos dias estão, em sua maioria, acampados no Parque dos Igarapés, distante cerca de 14 quilômetros do Hangar, onde lideranças mundiais buscarão encontrar uma posição em comum nos debates climáticos da COP28, que ocorrerá em novembro e dezembro/2023, em Dubai, nos Emirados Árabes.

“Nós queremos ser escutados pelo governo e participar diretamente das decisões que incidem sobre nossos territórios. E a gente também quer incidir nas decisões do governo. Nós também temos voz e já passamos do período tenebroso do Bolsonaro”, acrescentou Toya Manchineri.

“Eu me preocupo muito com o formato em que está se dando essa construção com os povos indígenas separados do evento central, fazendo seu debate apenas entre nós mesmos. Nós já sabemos o que nos afeta e o que precisa se fazer para reverter isso, é o governo que não sabe”, comentou a ativista indígena Nice Tupinambá, presente na plateia da Cúpula dos Povos Indígenas.

Crédito de carbono e bio-economia para quem ?

O encontro histórico ocorrido na capital paraense foi aberto pelo líder indígena cacique Raoni Metuktire, do povo Kayapó, que lembrou da sua longa trajetória de luta pelos direitos dos povos indígenas. “Eu já estou cansado, mas me fortaleço vendo vocês aqui”, disse Raoni. Durante quase 10 horas, sob forte calor, em cadeiras plásticas, na Aldeia Cabana, lideranças indígenas abordaram justamente os temas que mais preocupam seus povos e que estão na pauta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre eles a ferrovia Ferrogrão, a exploração de petróleo na Foz do rio Amazonas, o crédito de carbono e a bio-economia – defendidos como frentes viáveis ao desenvolvimento da região, apesar dos impactos e das controvérsias entre o governo, indígenas e órgãos ambientalistas.

Os temas prometem ser pontos-chaves das discussões na Cúpula da Amazônia, evento que sediou a  4ª Reunião de Presidentes dos Países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. “Estamos aqui para consolidar um documento que diga que tipo de desenvolvimento nós queremos para a Amazônia, de que forma ele tem que ser feito e respeitando os povos indígenas”, comentou Toya sobre o documento, fruto dos apontamentos feitos pelas lideranças indígenas, que será entregue ao presidente Lula e demais chefes de Estado que foram a Belém. 

Não se sabe ainda em que termos será este encontro e como o documento das Cúpula dos Povos Indígenas chegará nas mãos dos presidentes da Pan-Amazônia. Até agora, uma marcha está programada para sair em direção ao Hangar Centro de Convenções, no dia 8/ago/2023, que foi o primeiro dia da Cúpula da Amazônia.

O documento formalizado pelas organizações indígenas clama pela urgência da demarcação das terras indígenas pelo governo brasileiro e pela não aprovação do marco temporal, como forma de assegurar o bem-viver dos povos originários e a proteção dos biomas. 

Além disso, o documento contém o posicionamento dos povos indígenas da bacia amazônica sobre as políticas governamentais focadas na transição energética e na redução das emissões de carbono, estabelecendo de que maneira os indígenas pensam a bio-economia e de que forma o crédito de carbono ainda é um enclave do ponto de vista da justiça climática. 

Outro destaque dado pelos indígenas na assembleia foi a importância da consulta prévia livre e informada na mediação de qualquer empreendimento ou projeto que esteja relacionado aos territórios indígenas, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Mundial do Trabalho (OIT).

“Eles pensam que nós somos pobres, que vivemos na miséria e que estamos querendo os milhões de dólares do crédito de carbono. Nossa riqueza são os rios e as florestas, o resto é coisa de pariwat [homem branco em na língua Munduruku]”, afirma Alessandra Munduruku, que também é uma das principais vozes da atualidade quando o assunto é justiça climática e transição energética justa

“Não há futuro sem nós”, afirmou Txai Surí, jovem liderança Paiter Suruí

Txai Suruí, jovem liderança do povo Paiter Suruí, que ficou conhecida mundialmente após discursar em defesa da Amazônia e dos povos indígenas na COP26, em Glasgow, na Escócia, acompanhou a plenária indígena e não escondeu seu desapontamento. “O que eu estou vendo nesses eventos do governo é justamente o contrário daquilo que estamos construindo em termos de diálogo, porque os povos indígenas de fato não estão dentro das discussões. A prova disso é o isolamento (Cúpula dos Povos Indígenas) deste encontro que está acontecendo”, disse Txai em entrevista à Amazônia Real, se referindo à Cúpula dos Povos Indígenas. Recentemente, ela, a mãe, Neidinha Suruí, e o artista Mundano e mais cinco indígenas do povo Uru-Eu-Wau-Wau, foram vítimas de uma emboscada em uma estrada que dá acesso ao posto de vigilância da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Rondônia.

Mirando na COP30, maior evento mundial pelo clima que será realizada em Belém,  e avaliando o governo do Pará como um dos maiores da região amazônica, Txai destaca o mau exemplo dado pelo governador Helder Barbalho (MDB).  A jovem liderança disse não entender como o mesmo governador “quer abrir as portas do estado para uma série de empreendimentos destrutivos, como a Ferrogrão e outros, e ao mesmo tempo falar em proteger as florestas”. 

“Não há futuro sem nós povos indígenas, mas nós já sabemos disso. E sabemos que se os governantes continuarem tomando decisões sem nos escutar de verdade, não vai ter mudança de verdade”, afirma Txai, que coordena a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, com sede em Porto Velho, Rondônia.

“O que é essa bio-economia, parentes?”, perguntou Mariazinha Baré, liderança indígena

Bio-economia tem sido apontado pelo governo Lula como uma solução para a região amazônica para a geração de renda e substituição de práticas destrutivas que impactam os biomas. No entanto, questionamento de indígenas, quilombolas, povos tradicionais e pesquisadores repousa no fato de que os danos são provenientes do agronegócio, do garimpo, da monocultura e da extração ilegal de madeira, atividades diretamente associada às queimadas, ao desmatamento, à contaminação dos rios e, consequentemente, às mudanças climáticas.

Longe de negarem a importância da bio-economia como ferramenta de transformação e uma guinada a um futuro mais integrado e em conexão com a natureza, o que as populações das florestas querem saber é de que forma o governo tem pensado a bio-economia e como eles participarão, efetivamente das discussões e tomadas de decisão. 

“O que é essa tal bio-economia, parentes ((outras(os) indígenas))”, questionou aos presentes Maria Cordeiro Baré, mais conhecida como Mariazinha Baré, liderança indígena do Amazonas na Aldeia Cabana. “O governo do Amazonas está construindo um plano de bio-economia sem a participação dos povos indígenas, sem a participação dos quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares”, denuncia Mariazinha sobre a falta de escuta dos povos no Plano de Bio-economia do Amazonas, liderado pelo governador Wilson Lima (União Brasil). 

“Esse é o grande problema dos governos e é o mesmo que estamos vendo aqui na construção da Cúpula da Amazônia, para a qual nós não fomos chamados. Mas nós estamos aqui porque sabemos da nossa importância para a Amazônia e para o mundo”, afirma a líder. Para Mariazinha Baré, um dos pontos mais importantes do documento da Cúpula dos Povos Indígenas que foi entregue ao presidente no dia 8/ago/2023 é o que fala da relação bio-economia e povos indígenas. 

“Qual a bio-economia que a gente quer e o que é bio-economia na nossa visão, nós povos indígenas? E será que os governos estão mesmo dispostos a pensar em uma economia de baixo impacto? Será que eles estão dispostos mesmo a passar por esse processo de transição econômica? Até que ponto eles estão mesmo dispostos a mudar esse cenário de uma economia que vai arrasando e matando os povos e as formas de vida na Amazônia”, resume.

A líder, fazendo coro com os demais membros da mesa que discutia o futuro dos povos indígenas na Amazônia e sob palavras de ordem que pediam o fim da tese do marco temporal, ressaltou a importância dos povos continuarem lutando pela demarcação dos territórios. “Está provado que nossos territórios são locais onde existe vida e onde a gente consegue manter a vida sem desmatamento e queimadas.”

Pessimismo de Alexandra, liderança indígena com o Governo Federal

 Alessandra Korap, líder indígena do povo Munduruku, e uma das principais vozes da Amazônia contra o garimpo e as hidrelétricas no Tapajós (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real).

Alessandra Munduruku, cuja voz se opõe ao garimpo na região do Tapajós, se diz pessimista com relação às ações e aos discursos do governo sobre o combate às mudanças climáticas e a proteção da Amazônia. “A gente sabe que o mundo está de olho na Amazônia, todo o caos que está acontecendo com as mudanças climáticas tem envolvido a Amazônia. Mas se o governo negociar com mineradoras, hidrelétricas nos nossos rios, compensação de carbono nos nossos territórios e exploração de petróleo, para nós não vale nada o que eles estão dizendo.”

A liderança Munduruku questiona ainda a falta de posicionamento do governo federal em relação o marco temporal. Essa tese, que está sob análise tanto no Senado Federal quanto no Supremo Tribunal Federal (STF), condiciona o direito territorial dos povos indígenas apenas sobre os territórios ocupados antes de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Se aprovada, ela colocará em risco e vulnerabilidade centenas de famílias indígenas em todo o País.

Os indígenas cobram uma posição do governo federal a respeito dos grandes vetores que promovem as destruições nas Terras Indígenas, apontando para as indústrias de mineração e de produção de agrotóxicos, além dos impactos mortais causados pela contaminação por mercúrio causada pelo garimpo. “A gente quer saber o que o governo vai fazer com os projetos de lei que estão afetando nossa terra”, cobra Alessandra. Ela também questiona os “países desenvolvidos porque eles financiam a destruição da nossa terra e ao mesmo tempo falam em mudança climática, em preservar a Amazônia para as futuras gerações”.

O ceticismo de Alessandra foi um sentimento compartilhado nos mais de 50 depoimentos ouvidos na Cúpula dos Povos Indígenas, além das denúncias e cobranças. Uma delas era a ausência notável das lideranças indígenas agora com assento no governo federal, como Joênia Wapichana, presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e a Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. Joênia já estava em Belém durante o encontro das lideranças, mas participava de plenárias indígenas no evento oficial do governo, nos Diálogos Amazônicos. A ministra Sônia, por sua vez, só chegou em Belém no domingo (6/ago/2023).

  O líder indígena, cacique Raoni Metuktire durante a abertura dos Diálogos Amazônicos, evento que antecedeu a Cúpula da Amazônia, em Belém (Foto: Bruno Peres/ASCOM SG-PR/04/08/2023)

 Abertura dos Diálogos Amazônicos, evento realizado pelo Governo Federal e que antecedeu a Cúpula da Amazônia, em Belém com apresentação de danças e cantos indígenas (Foto: Bruno Peres/ASCOM SG-PR).


*Cícero Pedrosa Neto é repórter multimídia e colaborador da agência Amazônia Real desde 2018, atuando em temas relacionados ao meio-ambiente, impactos sócio-ambientais da mineração, populações quilombolas, populações indígenas e conflitos agrários. Em 2019 foi um dos jornalistas premiados com o 41º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos na categoria multimídia com a série “Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil”, um trabalho colaborativo entre mídias digitais independentes: #Colabora, Ponte Jornalismo e Amazônia Real. Foi bolsista do Rainforest Journalism Fund | Pulitzer Center em 2020. É fotógrafo, documentarista, roteirista, podcaster e mestre em sociologia e antropologia pela Universidade Federal do Pará. (pedrosaneto@amazoniareal.com.br)

Redação do GGN:  jornalggn@gmail.com

Publicado no site GGN: 7 de agosto de 2023

Fonte: https://jornalggn.com.br/questao-indigena/cupula-dos-povos-indigenas-fica-isolada-da-cupula-da-amazonia/

 

8.09.2023

Terra: Mudanças Climáticas e Previsões Catastróficas que Já Ocorrem

O atual aumento do clima é causado pelos próprios seres humanos, não tanto pelas grandes maiorias pobres, mas pelas populações dos países opulentos (EUA, Europa, Japão, Rússia, Austrália, Canadá e China)

O Brasil, por causa de sua vasta extensão ensolarada, será um dos mais atingidos pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas

Começou a era da ebulição global do planeta?

  Imagem: Elyeser Szturm

 

por Leonardo Boff* no site A Terra é Redonda – Sociedade, Aquecimento Global e Grandes Corporações Destrutivas

Esta expressão não é minha, mas do Secretário Geral da ONU, António Guterrez, proferida no dia 27 de julho de 2023, ao tomar conhecimento da aceleração inesperada do aquecimento global. Este chegou ao ponto de o planeta entrar num processo de ebulição, dada a incúria dos processos humanos, especialmente do industrialismo e produtivismo capitalista (EUA, Europa, Japão, Rússia, Austrália, Canadá e China) que usam abusivamente de energia fóssil, carvão e outros elementos produtores de efeito estufa.

O clima normal médio da Terra é de 15 graus centígrados. Mas esta média começou a subir tanto que ultrapassou em julho de 2023 a mais de 17 graus centígrados. Isso tudo se deve ao fato de por ano serem lançadas na atmosfera cerca de 40 bilhões de toneladas de CO2 que permanece na atmosfera por mais de 100 anos, acrescido ainda do ácido nitroso e do metano que é 28 vezes mais danoso que o CO2, embora fique na atmosfera por uns 9-10 anos.

As consequências deste aumento se mostram por secas prolongadas, por inundações de inteiras regiões e cidades, furacões, ciclones extratropicais como no Sul do país, queimadas em quase todo o planeta. A inflexão sobre as vidas humanas são de grande monta. A conhecida revista Nature Medicine calculou que o alto calor de 2022 provocou só na Europa 61 mil mortes. Nem falemos de África e da Ásia ou de países mais pobres que vitimaram milhares de crianças e de pessoas idosas, particularmente na parte central da Índia, onde a temperatura chegou a 50 graus centígrados.

A observar o pouco que as grandes corporações e os estados fazem para deter essa lenta mas permanente ascensão da temperatura, tudo indica que já atingimos o ponto de não retorno. A ciência e técnica chegaram atrasadas, não conseguem deter o aumento, apenas ajudam a minorar os efeitos danosos que serão inevitáveis.

  Imagem Terra em destruíção _ Unoesc _ na internet

Mas nem tudo é fatal. Cabe lembrar que o improvável pode acontecer: os seres humanos sob a percepção do risco de desaparecer, dêem um salto de consciência, rumo à noosfera como projetava Teilhard de Chardin ainda em 1933, vale dizer, unindo coração e mente (noosefera) para mudar a forma de produzir, de consumir e particularmente de se relacionar com a natureza, sentindo-se parte, não seus senhores e cuidando dela.

Se observarmos a biografia da Terra, constatamos que o aquecimento pertence à evolução de nosso planeta. Quando ainda não existíamos como espécie sobre a Terra, há 250 milhões de anos, o clima chegou e permaneceu por milhares e milhares de anos a 32 graus centígrados. Ocorreu uma massiva extinção de espécies de seres vivos. Mais tarde, há 50 milhões e anos a Terra chegou a 21 graus centígrados; os crocodilos e as palmeiras adaptaram-se a esse aquecimento mas houve também grande extinção de organismos vivos. Mais perto de nós, há 130 mil anos, a Terra alcançou a temperatura que neste momento estamos verificando, de 17 graus centígrados. Muitos seres desapareceram e o mar subiu entre 6-9 metros, o que teria encoberto toda a Holanda e as partes baixas do norte europeu.

Esse aumento do clima terrestre pertence à geo-evolução. Mas o atual é causado pelos próprios seres humanos, não tanto pelas grandes maiorias pobres, mas pelas populações dos países opulentos, sem a justa medida em suas ações seja no assalto sobre a natureza seja nas formas de consumo suntuoso e nada solidário. Fala-se que inauguramos uma nova era geológica, o Antropoceno. Por este conceito se quer identificar que a grande ameaça à vida do planeta e ao futuro da natureza depende dos seres humanos. Estes, na expressão do biólogo da biodiversidade Edward Wilson, se comportaram como o Satã da Terra e transformaram o Jardim do Éden num matadouro.

Alguns vão mais longe ainda e referem-se ao necroceno, dado o crescente processo de morte (necro) de espécies de seres vivos na ordem de 70-100 mil por ano. Ultimamente se tem falado do piroceno, quer dizer, da era do fogo. Este é causado também pelos seres humanos mas particularmente porque o solo ficou mais seco, as pedras se terem aquecido; basta folhas secas e gravetos sobre elas para produzirem grandes e devastadores incêndios por quase todo o planeta, mesmo na úmida Sibéria.

Que cenários poderemos enfrentar? São todos sombrios, caso não ocorrer um salto quântico que defina outro caminho e outro destino para o sistema-vida e o sistema-Terra. Não se pode negar que o planeta, dia após dia, está se aquecendo. Os órgãos da ONU que acompanham a evolução deste evento desastroso nos alertam que entre os anos 2025-2027 teremos ultrapassado os 1,5 graus centígrados, previstos para 2030 pelo acordo de Paris em 2015. Tudo se antecipou e nesta data, entre 2025-2027, chegaremos ao que está ocorrendo atualmente, um clima que poderá se estabilizar acima de 35 graus, chegando a 38-40 graus em algumas regiões do planeta. Milhões deverão emigrar por não poderem mais viver em suas pátrias queridas e safras serão totalmente perdidas.

O Brasil, atualmente, um dos maiores exportadores de alimentos, verá sua produção profundamente reduzida. Segundo James Lovelock, (Veja, 25 de outubro de 2006), o Brasil, por causa de sua vasta extensão ensolarada, será um dos mais atingidos pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas. Os do agronegócio deveriam estar atentos a essas advertências, pois como escreveu o Papa Francisco na encíclica Laudato Si: como cuidar da Casa Comum, dirigida a toda a humanidade e não apenas aos cristãos: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia; deixaríamos para as próximas gerações demasiadas ruínas, desertos e lixo” (n.161).

É o que ninguém quer para seus filhos e netos. Mas para isso devemos nos munir de coragem e de ousadia para mudar de rumo. Só uma radical mudança ecológica nos poderá salvar.

*Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Habitar a Terra (Vozes)

Publicado no A Terra é Redonda: 08/08/2023

Fonte: https://aterraeredonda.com.br/comecou-a-era-da-ebulicao-global-do-planeta/

7.24.2023

Brasil: os Principais Culpados pela Tragédia no Trânsito são as Fábricas de Automóveis

 Indústria de carros vende velocidade e potência como sinônimo de sucesso. Por causa disso 33 mil brasileiros morrem todo ano em acidentes com automóveis. É preciso enfrentar o “feitiche do voo” sobre quatro rodas e construir outra visão de mobilidade, que priorize pessoas e não os automóveis

Em São Paulo, segundo o Detran,  93% das mortes no trânsito são causadas por homens. A sensibilidade masculina atende ao apelo do glamour da velocidade das fábricas de automóveis de maneira muito mais expressiva, do que a feminina (deixa-se convencer mais fácil)

por Sérgio Avelleda na Revista Piauí e Outras Palavras – Sociedade e Trânsito que Mata Brasileiras/os


 Imagem no site Outras Palavras

Participei da administração pública da cidade de São Paulo como secretário de Mobilidade entre 2017 e 2018. No rol das atribuições formais do cargo, uma me chamou a atenção logo que assumi: autorizar ou não o fechamento de ruas para o trânsito de veículos. Eram muitos os pedidos que chegavam. Fiquei curioso para saber a origem de tantas solicitações. Descobri que boa parte delas vinha de agências de publicidade, com o propósito de utilizarem o espaço para a gravação de filmes de propaganda. Quando um assistente me informou que a maioria dos pedidos era para gravar comerciais de automóveis, lembrei que não se vê anúncio de carro (na televisão ou em redes digitais) que tenha trânsito. O veículo destinado a encantar os consumidores está frequentemente rodando, soberano (único), por ruas vazias. Publicidade não costuma rimar com realidade – a pessoa compra o automóvel e quando sai da concessionária para no primeiro de muitos engarrafamentos que encontra pelo caminho. Penso que esse tipo de anúncio mereceria uma reprimenda do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), uma vez que se assemelha ao que chamam de “propaganda enganosa”.

Mas, não é apenas essa falsa realidade que a indústria automobilística utiliza para vender seus carros-chefes (top’s de linha). Há também o uso da velocidade elevada como atrativo para a comercialização dos veículos. Atributos como potência, torque (força) e capacidade de chegar a 100 km/h em um átimo (fração de segundos) são sempre evidenciados em propagandas de automóveis pelas fábricas. Vende-se carro para que se corra muito com ele.

Nos anos 1980, uma poderosa representante americana dessa indústria instalada no país, usava a imagem de um astro do automobilismo nacional para vender a versão esportiva de um de seus modelos. O piloto ligava o veículo e dizia: “Quando ouço o motor, sinto o desempenho, a raça.” Em outro anúncio da mesma montadora, sua picape se deslocava velocíssima, saltando no solo, enquanto um helicóptero a sobrevoava, até que o carro dava um cavalo de pau, ao som de uma trilha típica de blockbuster (campeão de venda) de super-herói. Puxando pela memória, alcanço a propaganda de uma concorrente daquela fábrica, na qual uma canção dizia que o coração bate mais alto dentro de um veículo de tal marca, que media forças com um jatinho. Também me vem à mente o comercial de uma montadora europeia gabando-se que um de seus automóveis passava de 0 a 100 em 8,2 segundos, e que sua velocidade final era de 220 km/h. “Os outros não fazem nem sombra”, concluía a peça publicitária da montadora européia.

Essa mesma indústria, que reforça o tempo todo o atributo de aceleração, potência e velocidade máxima de seus produtos, é a grande fomentadora das competições esportivas entre carros. São elas que ajudam a referenciar o “voo” sobre quatro rodas como sinônimo de ousadia, habilidade e, acima de tudo, sucesso.

A minha geração, a de nascidos nos anos 1970, foi embalada pelas vitórias de brasileiros na fórmula um (F1) nas manhãs ensolaradas – ou chuvosas – de domingo. De fato, o glamour ao redor das corridas nos contagiava. Queríamos ir ao fliperama gastar nossas fichas em simuladores de GPS ou passar tardes nos videogames também simulando velocidade, ultrapassagens, recordes e – imagine – acidentes!                     Os mais velhos vão se recordar dos autoramas e das disputas para estabelecer os mais rápidos naquelas pistas de brinquedo.

Vivemos bombardeados por diversas mensagens enaltecendo a velocidade como se fosse um elemento formador do caráter e, especialmente, da masculinidade (aquela de ser mais homem). As questões de gênero e a violência no trânsito estão intimamente ligadas a isso.

O discurso do glamour da velocidade sempre foi muito mais dirigido aos homens do que às mulheres. Automóveis foram concebidos para homens para serem adquiridos por outros homens (estereotipo de masculinidade). Um estudo recente mostra que as mulheres são mais propensas a mortes e ferimentos quando estão dentro dos veículos do que os homens. Os carros são desenhados para serem mais eficientes na proteção a eles (motoristas) do que a elas (acompanhantes).

Em São Paulo, segundo o Detran,  93% das mortes no trânsito são causadas por homens. A sensibilidade masculina atende ao apelo do glamour da velocidade de maneira muito mais expressiva do que a feminina (deixa-se convencer mais fácil). A grande maioria das mulheres não enxerga automóveis como elementos de poder. São simples instrumentos de transporte (o ir e vir). Homens, inebriados pela publicidade tóxica e enganosa da indústria de veículos, são induzidos a comprar carros e a potencializar sua masculinidade através da velocidade e da agressividade.

Nos dias de hoje, as redes sociais se tornaram as grandes impulsionadoras do culto à velocidade (são mais procuradas que a televisão). Uma delas monetiza e permite monetização por meio da exaltação da velocidade e até de crimes de trânsito – como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Já denunciei vários vídeos com esse conteúdo. Em um deles, o indivíduo desce a serra vindo de Campos do Jordão em direção a São Paulo ultrapassando diversos automóveis irregularmente e em alta velocidade, guiando um veículo de marca alemã. Na Rodovia Carvalho Pinto, o contumaz criminoso de trânsito ultrapassa os 230 km/h e chega a disputar um racha com motocicletas. Todas as denúncias que fiz sobre essa postagem foram ignoradas pela plataforma digital que divulga esse vídeo na internet.

Ela tem também diversos vídeos de crimes de trânsito cometidos na Estrada dos Romeiros (SP), onde há tráfego de ciclistas e pedestres. Em vez de tomar providências, a plataforma prefere seguir ganhando dinheiro com publicidade e permitir que os criminosos de trânsito participem dos lucros, incentivando um comportamento que é a maior causa de mortes entre jovens no planeta (surreal). Não por coincidência, as empresas desse segmento gastam fortunas em lobbies na administração pública estadual e principalmente federal, para evitar a regulação de suas atividades.

O consumo de cocaína é considerado um ilícito no Brasil. Logo, não esperamos encontrar uma loja anunciando a comercialização da droga nas esquinas das cidades brasileiras. Conduzir veículos nas vias públicas nacionais é atividade regulada pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Lá está definido que a velocidade máxima em tais vias é de 120 km/h. Ou seja, do mesmo modo que consumir cocaína é um ilícito, guiar acima desse limite também é um ilícito. Contudo, não nos espantamos com o fato de as concessionárias venderem produtos que podem facilmente ultrapassar os 120 km/h, atingindo velocidades acima de 200 km/h. Mais do que isso, naturalizamos que comerciais desses carros enalteçam (super valorizem) essa possibilidade como elemento sedutor para vendas. Claro que toda vida é valiosa, porém vale observar que a cocaína mata menos de 100 pessoas por ano no Brasil, contra 33 mil mortes no trânsito.                                             Objetivamente: qual droga é mais perigosa? Não é intenção comparar carro com cocaína, mas apenas observar nossa preocupação extremada e correta com a droga e nosso conformismo com algo muito mais letal, a violência do trânsito devido ao excesso de velocidade.

Muitas medidas poderiam ser adotadas para melhorar a percepção quanto ao risco da velocidade – e também para conter a exposição a esse risco.

Desde cedo, nas escolas, as aulas de ciências deveriam demonstrar às crianças que velocidade é o maior risco no trânsito e nas demais atividades humanas. Aulas de física deveriam destacar o perigo ao qual um corpo é submetido quando exposto à velocidade.

Na formação de condutores, a velocidade deveria ser apresentada como a maior responsável por lesões e mortes. Poucos motoristas sabem que um pedestre tem quase 90% de chances de sobreviver quando atingido por um carro a 30 km/h. E que essa chance se reduz à medida em que aumenta a velocidade do veículo, caindo para 60% quando o carro está sendo conduzido a 50 km/h!                                                                  Ou seja, a sensação de uma pequena variação de velocidade para quem está dentro do automóvel elimina quase integralmente a possibilidade de sobrevivência de um pedestre (ou mesmo de um ciclista ou motociclista).

Deveria haver inspiração na bem-sucedida política adotada na publicidade de cigarros. Há mais de vinte anos as embalagens desses produtos divulgam fotos chocantes que alertam os usuários sobre os riscos do fumo, que convenceu muitas pessoas a deixarem de fumar e está salvando vidas. Semelhante medida deveria ser adotada no caso dos carros. Junto a qualquer peça de propaganda de carros poderiam vir imagens de sinistros de trânsito. Essa seria uma forma de a indústria contribuir para diminuir o uso indevido dos veículos devido ao excesso de velocidade, algo que provoca tantas mortes e severas sequelas por causa da publicidade das fábricas de automóveis e o empoderamento absurdo dos motoristas nas propagandas.

Na gestão como secretário na cidade de São Paulo, determinei que todos os ônibus urbanos, vinculados à prestação do serviço de transporte público de passageiros, tivessem suas velocidades limitadas a 50 km/h. Em menos de sessenta dias, mais de 14 mil ônibus foram parametrizados (regulados) para cortar a aceleração em caso de ultrapassagem daquele limite. Bastaria uma simples resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) para determinar a parametrização (regulação) da velocidade máxima dos veículos a serem vendidos no país destinados ao trânsito em vias públicas. Naturalmente, qualquer um poderia comprar um carro para alcançar qualquer velocidade desejada, desde que somente em pistas fechadas (semelhantes a pista de corrida), sem risco a pedestres, ciclistas ou motociclistas. Trata-se, porém, de uma discussão que nem sequer é cogitada nos órgãos de trânsito do Brasil. Parece óbvio: nenhum automóvel apto a ser licenciado para trafegar em vias públicas deveria estar habilitado a ultrapassar o limite de velocidade máxima previsto no Código de Trânsito Brasileiro. Do mesmo modo, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) deveria ter editado normas para a publicidade de veículos, proibindo qualquer alusão a potência, velocidade, manobras arriscadas ou quaisquer outros elementos que induzam a comportamentos ilícitos e perigosos no trânsito.

Não há dúvida de que medidas assim exigem coragem da administração pública federal para enfrentar uma indústria gigantesca, que, como foi descrito anteriormente, sempre fez da velocidade um elemento de atração para a venda dos seus produtos. Também não será pouca a resistência de toda uma geração de motoristas alimentada pelo glamour da velocidade.                                                                                                                                                     Mas, diante da perda de vidas e sequelas as vítimas no trânsito, a tragédia que acontece cotidianamente no Brasil, qual a alternativa para solucionar esse genocídio?

Vejo muitas montadoras de automóveis fazendo propagandas sublinhando sua responsabilidade social. Por que não se reúnem e decidem, em conjunto, limitar a velocidade de seus produtos, protegendo e salvando milhares de vidas? Até quando o discurso que se apresenta enaltecido e empoderado conviverá com a realidade da comercialização de veículos, que são verdadeiras máquinas de matar?

Já passou da hora de a indústria automobilística e de os governos em todos os níveis de administração pública se conscientizar de que a velocidade é o principal elemento causador das mortes e sequelas no trânsito. É preciso que eles ajam imediatamente, para acabar com a rotina de carnificina nas vias públicas – que rouba o futuro das vítimas, devasta familiares e envergonha o país.

Publicado em Outras Palavras: 21/07/2023

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-glamour-da-velocidade-que-vende-e-mata/

 

7.20.2023

Rotativo, Consignado e Crediário: Mulheres Relatam Impacto de Juros Altos no Orçamento Familiar

Quanto mais alto o valor da Selic, maior são os juros cobrados em financiamentos, empréstimos e cartões de crédito e menor é o estimulo ao consumo, pois os preços estão mais elevados para a população

por Jaqueline Deister no Brasil de Fato – Sociedade e Endividamento das Famílias Brasileiras

De acordo com a Peic, entre as modalidades de dívida, 87,2% dos consumidores chegaram em maio de 2023 endividados no cartão de crédito - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O percentual de famílias brasileiras com dívidas segue um patamar estabilizado, porém alto de 78,3%. O levantamento da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) de maio deste ano aponta que a cada cinco famílias, uma indica que não conseguirá pagar uma dívida já atrasada. 

“Os juros elevados dificultam o pagamento da dívida atrasada, pois acirram as despesas financeiras. Com isso, o volume de consumidores com atrasos por mais de 90 dias segue em tendência de alta. Do total de inadimplentes, 45,7% estão com atrasos por mais de três meses, maior percentual em três anos”, destaca o relatório da Peic. 

Por trás desses números há histórias como a da Mariana Queiroz. A moradora de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ficou desempregada durante a pandemia e em 2020 precisou utilizar o cartão de crédito para a compra de bens de primeira necessidade. Em quase três anos, a dívida da jovem de 24 anos aumentou em mais de 15 vezes se comparada ao valor original. 

“Eu fiquei endividada na pandemia, fiquei desempregada, eu trabalhava como operadora de caixa num supermercado. A minha dívida é do cartão de crédito que usei na época para comprar fralda e alimentação, eu estava me divorciando, que foi um processo difícil, eu tinha perdido a minha renda e não podia contar com ele, a dívida era de R$ 1.139 e hoje está R$ 17.342”, contou ao Brasil de Fato

Mariana atualmente trabalha como assistente administrativa e recebe cerca de um salário mínimo por mês, ou seja, R$ 1.320. Segundo ela, a tentativa de negociação com a operadora do cartão de crédito não foi bem sucedida. 

”Já tentei negociar quando eu consegui o meu novo emprego, mas era sempre para pagar à vista e o valor superior ao meu salário, quando era para parcelar, os juros ficavam altos e eu teria que comprometer parte da renda para pagar, o que não fica viável levando em consideração as despesas do mês”, desabafa. 

O caso de Mariana é o tipo de endividamento mais comum entre os brasileiros. De acordo com a Peic, entre as modalidades de dívida, 87,2% dos consumidores chegaram em maio de 2023 endividados no cartão de crédito,  esse foi o maior volume em um ano.

Empréstimo Consignado que Não se Consegue Pagar

Assim com a assistente administrativa, a professora da rede municipal do Rio de Janeiro Priscila Mendes, de 41 anos, também não consegue quitar a dívida dos empréstimos consignados que contraiu há 15 anos. A modalidade é popular entre aposentados, pensionistas e funcionários públicos, pois tem as parcelas descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício. 

“Eu comecei a fazer esses empréstimos pouco tempo depois que eu entrei para o município. A renda não era compatível com o meu custo de vida. Tenho vários empréstimos. Peguei cerca de R$ 40 mil e estou pagando R$ 100 mil”, explica a professora que conta ter 40% do salário comprometido pelas dívidas. 

A remuneração de Priscila é a principal da família. Além das despesas da sua casa, onde moram o marido e a filha mais nova, a professora auxilia a primogênita e o neto. O salário mensal da professora, sem os descontos, totaliza R$ 8 mil. 

“Nunca tentei negociar [a dívida], poderia pagar as parcelas de trás pra frente sem juros, mas nunca consigo”, afirma. 

Banco Central Brasileiro e O Efeito “Selic”

A chamada Selic, cuja sigla significa Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, é a taxa básica de juros da economia brasileira. É o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central (BC) para controlar a inflação. Ela influencia todas as taxas de juros do país. Hoje, a taxa está em 13,75%, um valor considerado alto por analistas.

Quanto mais alto o valor da Selic, maior são os juros cobrados em financiamentos, empréstimos e cartões de crédito e menor é o estimulo ao consumo, pois os preços estão mais elevados para a população, com essa lógica, a inflação é puxada para baixo.  

Marieta dos Santos sente no dia a dia o impacto na restrição do consumo causado pela Selic. A senhora de 78 anos tem como única fonte de renda o Benefício de Prestação Continuada (BPC) que recebe do governo. O valor de um salário mínimo acaba exigindo que a moradora da ocupação Habib´s, localizada na zona portuária do Rio de Janeiro, faça uma ginástica no orçamento financeiro. 

“É um pouco difícil, mas vendo que não tem jeito a gente tem que aguentar. Sempre vem os netos aqui passar uns dias, mas eles vivem na casa dos pais. Ficam metade da semana aqui e o resto com os pais. Eu vou ao mercado e compro as coisas ‘pouquinhas’ . Eu vou limitando a vida para evitar de ficar devendo para os outros”, conta.  

Ela relata à reportagem que prefere comprar à vista. “O dinheiro é pouco e eu não uso cartão de crédito. Eu mesma não gosto de crediário. É tudo à vista. Junta um pouquinho aqui e acolá até conseguir comprar alguma coisa”, detalha. 

De acordo com a Peic o risco de inadimplência vem aumentando mais na classe média, já que as famílias de baixa renda estão assistidas pelo Bolsa Família com valores maiores e mais beneficiários e também são o principal foco de renegociações atualmente. 

*A Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) é apurada mensalmente pela CNC desde janeiro de 2010. Os dados são coletados em todas as capitais dos estados e no Distrito Federal, com aproximadamente 18 mil consumidores.

Edição no BdF: Mariana Pitasse

Publicado no BdF: 14 de Junho de 2023

 Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2023/06/14/rotativo-consignado-e-crediario-mulheres-relatam-impacto-de-juros-altos-no-orcamento-familiar