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9.12.2025

Para combater o aquecimento global será preciso diminuir em muito a queima de combustíveis fósseis

A defesa do governo brasileiro de que a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas poderia financiar a transição para matrizes mais limpas, seria como fazer sangrar paciente anêmico

O governo quer o Brasil fóssil

O governo Lula esquece as promessas de campanha, não leva em conta a agenda da sustentabilidade e passa a apresentar perfil bastante favorável ao petróleo

Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP)... pratica atividade lobística nas COPs (inclusiveCOP 30) em defesa da continuidade de uso global do petróleo, na qual o Brasil passou a ser membro...

por Carlos Bocuhy* na ((eco)) - Sociedade e Luta Contra a Destruição do Planeta

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o Ministro da Casa Civil, Rui Costa, durante cerimônia de retomada da indústria naval e offshore brasileira no âmbito do Programa de Renovação da Frota Naval do Sistema Petrobras. Tebig, Angra dos Reis - RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR

O Planeta está aquecendo. Ultrapassou a meta do acordo de Paris em 2024, batendo na marca média global dos 1,55º C, acima do índice considerado “suportável” para o aquecimento global.

Esse “suportável” não foi bem o que se previa.  

Estudos recentes examinam dados climáticos atuais e apontam para danos catastróficos para a biosfera: humanos, animais e ecossistemas vitais.

Os impactos de 1,5º médios no planeta já representaram situações extremas de secas, incêndios, furacões, inundações e outros efeitos adversos que atingiram duramente a humanidade e as espécies vivas.

É preciso combater fortemente o aquecimento global e para tanto será preciso eliminar a queima de combustíveis fósseis, maior causador do problema em nível global, conforme insistentemente tem alertado a ciência.

O governo do Brasil, país vulnerável que já sofre duros impactos climáticos, demonstra incoerência. Com argumentos contraditórios, anuncia sua disposição em insistir no erro. 

O governo Lula esquece as promessas de campanha, ignora a agenda da sustentabilidade e passa a apresentar perfil aderente (aumento de exploração) ao petróleo. O governo, de forma cínica, distorce os fatos para angariar apoiadores des-providos de conhecimento, utilizando frases contraditórias absurdas como “explorar petróleo para financiar sua eliminação”.

Não é só isso. O Brasil entrou recentemente para o cartel transnacional do Petróleo, a Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), mais especificamente na OPEP +. A associação dos fósseis visa controlar a demanda e os preços do petróleo, visando  de forma prioritária sua continuidade no mercado. Pratica atividade lobística nas COPs em defesa da continuidade de uso global do petróleo. “A indústria de combustíveis fósseis é impulsionada por seus resultados financeiros, que se opõem fundamentalmente ao que é necessário para deter a crise climática, ou seja, a eliminação urgente e justa dos combustíveis fósseis”, afirma Sarah MCarthur, ativista do UK Youth Climate Coalition.

A realidade climática é pior do que se pensava. Grupos de cientistas da Europa e dos Estados Unidos, em pesquisas diferentes, afirmam que o atingimento superior a 1,5ºC em 2024 aponta um período de aquecimento que se manterá por 20 anos. Em síntese, a conclusão é: se em 12 meses consecutivos a temperatura se manteve acima de um limite climático, este limite também será atingido a longo prazo.

Essa descoberta significa que a continuidade das emissões decididas a partir de agora são cruciais, revestidas de maior responsabilidade do que se antevia anteriormente.

Portanto, a defesa do governo brasileiro de que a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas poderia financiar a transição para matrizes mais limpas, seria como fazer sangrar paciente anêmico.

Contribuir para o aumento de mortalidade e impactos debaixo dos eventos extremos, sufocar em secas a produção agrícola, aumentar inseguranças alimentar e hídrica e causar fortes migrações internas será a consequência da continuidade da extração e queima de petróleo.

O governo do Brasil não só erra. De forma grosseira, frustra expectativas de sustentabilidade, sacrifica seu papel de líder na proteção dos ecossistemas e da emblemática Floresta Amazônica, conhecida como ante-sala do Gênesis, em conhecido processo de fenecimento.

Também perderá poder de convencimento para liderar as mudanças necessárias como anfitrião e presidente da COP30, ocasião única que se reveste de vital importância pela gravidade e urgência do problema.

Com a adesão fóssil, o governo impulsiona o Brasil contra sua gênese, seu DNA de biodiversidade e florestas, seu pensar e agir como Estado, em respeito à sua Constituição ecológica e cidadã, que estabeleceu sabiamente a Política Nacional do Meio Ambiente, que determina garantir futuro saudável para atuais e futuras gerações.

É preciso ressaltar ainda que a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas é uma aventura tecnológica inconsequente. A avaliação de impacto ambiental para novos empreendimentos demanda, de forma prioritária, avaliar alternativa locacional. Sendo esta inadequada, quando o ecossistema é frágil e apresenta alta vulnerabilidade, a perspectiva de perfuração deverá ser negada, já que, por sí só, gera impactos e riscos.

Sabe-se também da dificuldade para contenção de vazamentos devido à profundidade e fortes correntes marinhas.

Além disso, a extração de petróleo é prática em vias de extinção por recomendações científicas e em respeito ao acordo global obtido nas COPs.

A insistência na extração (no setentrional do rio Amazonas) está completamente na contramão da ciência e da economia e mau negócio. Começar a pesquisar agora, enfrentar pesados investimentos e ser compulsoriamente obrigado a paralisar essa extração em 2030-2035 devido ao avanço dos impactos climáticos será desperdício de recursos. Como afirma o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em seu levantamento sobre tendências para países da América Latina e Caribe: “quando governos ou instituições públicas adquirem bens ou serviços, parece que ineficiência, fraude e abuso são a norma, não a exceção.

Só fará sentido para aqueles que, mal-informados sobre perspectivas futuras, tem interesses para que o petróleo não seja banido, como pretende a OPEP. A coordenação da OPEP recomendou aos seus países membros durante a COP28 “rejeitar pro-ativamente qualquer texto ou fórmula que vise a energia, ou seja, combustíveis fósseis em vez de emissões”.

Não resta dúvida que prosseguir com este erro grosseiro seria, além de impactar a região do Amazonas, contribuir para um desastre humanitário.

 *Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

Publicado no site ((o))eco: 24 de fevereiro de 2025

Fonte: https://oeco.org.br/colunas/o-governo-quer-o-brasil-fossil/#comments

 

9.05.2025

A Política Ambiental com Soberania Popular, Justiça Social e Ambiental para a Sociedade Brasileira no Governo Lula 3

Qual é a política ambiental do governo Lula 3? 

Os recursos para políticas públicas estruturantes — regularização fundiária, apoio à agro-ecologia, fiscalização ambiental e infra-estrutura para populações tradicionais, seguem minguados >— enquanto o discurso oficial prioriza parcerias público-privadas e mercados de carbono

por Sérgio Botton Barcellos* no IHU Unissinos – Sociedade e Sem Igualdade Social e Financeira não Haverá Justiça Ambiental 

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil 

Esse texto é a busca de uma forma franca de diálogo junto a tantas outras iniciativas, mobilizações, elaborações etc. em relação a política ambiental que vem sendo tocada e gestada no Brasil após mais de dois (2,5) anos e meio de governo Lula 3 em suas condições e contradições. Trata-se de uma balanço inicial e parcial que pretende-se refletir mais e mais como foi feito em relação ao lamentável governo Bolsonaro. Já estava-se algum tempo “matutando” sobre isso, participando de espaços, conversando com militantes (e pesquisadores), estudando, analisando o cenário e aguardando a ação do governo diante do “PL da devastação”. 

Diante disso, brevemente cabe considerar que a política ambiental no Brasil é atravessada por uma série de contradições históricas e estruturais que a tornam, ao mesmo tempo, avançada em sua formulação legal e frágil em sua implementação (acao). Desde a re-democratização, o país construiu um dos arcabouços jurídicos considerados um dos mais sofisticados do mundo, sobretudo com a Constituição de 1988, que elevou o meio ambiente ecologicamente equilibrado à condição de direito fundamental. A criação do Ibama, do ICMBio e do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama) consolidou uma burocracia técnica, inclusive considerada referência internacionalmente. 

No entanto, essa estrutura opera ao longo do tempo sendo alvo da pressão constante de interesses econômicos hegemônicos nacionais e internacionais, como do agronegócio, da mineração, do setor energético, das empreiteiras etc. que tensionam e limitam a atuação das instituições ambientais e oferecem mitigação a partir de uma educação ambiental que muitas vezes legitima os empreendimentos. Essa tensão é visível no próprio modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil, baseado em uma lógica extrativista, agro-exportadora e de infra-estrutura pesada. O mesmo Estado que formula políticas ambientais e de conservação é também responsável por concessões para mega-projetos que desmatam, poluem, exploram bens naturais e des-territorializam comunidades tradicionais e povos originários. O discurso da preservação coexiste com a prática da destruição sistemática dos biomas brasileiros.

O Retorno de Lula a Presidência (Lula 3)

Mesmo governos considerados progressistas, como os de Lula e Dilma, combinaram avanços na criação de unidades de conservação, na diminuição de índices de des-matamento que eram altíssimos (sem apresentar os índices de restauração) e demarcações de terras indígenas, ao mesmo tempo que ocorre o des-mantelamento de instituições indigenistas, quilombolas e ambientais no Brasil. Em 2024 o Brasil registrou uma queda de 32,4% no desmatamento, com todos os biomas apresentando redução – sendo o Cerrado responsável por 52,5% da área perdida, totalizando 652 mil hectares, enquanto a Amazônia teve 377 mil hectares derrubados, 30% do total nacional Esses números representam um recuo, mas ainda refletem ritmo insuficiente diante da meta de zerar o desmatamento até 2030, sobretudo considerando que 43% da supressão ocorreu com autorização, muitas vezes dentro de Unidades de Conservação. Isso sem falar que ainda não há discussão sobre recuperação de áreas anteriormente desmatadas e exploradas. 

Nos últimos anos, o Brasil também embarcou na lógica do chamado “neoliberalismo verde”, apostando em mecanismos de mercado como pagamento por serviços ambientais, créditos de carbono e fundos de investimento ambiental. Essa transição do ambientalismo público para o ambientalismo financeiro tem ampliado a presença de grandes corporações nas decisões ambientais, na maioria das vezes em detrimento de comunidades locais. A natureza, nesse modelo, deixa de ser bem comum e passa a ser precificada, negociada, explorada e tratada como um recurso natural conforme as lógicas do capital. Ao mesmo tempo, comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e camponesas são frequentemente marginalizadas, quando não criminalizadas, por defenderem seus territórios e seus modos de vida sustentáveis em relação ao modelo de exploração e espoliação no modelo capitalista vigente. 

O governo anterior (Bolsonaro) agravou esse cenário. Entre 2019 e 2022, o país assistiu a um desmonte sistemático da política ambiental, com cortes orçamentários, perseguição a servidores públicos, estímulo à grilagem e ao garimpo ilegal, aumento dos conflitos fundiários e uma explosão no des-matamento. O discurso negacionista e anti-ambientalista do então presidente criou um ambiente de impunidade e violência nos territórios, especialmente na Amazônia, onde a presença estatal, apesar do combate, foi parcialmente substituída por milícias, madeireiras ilegais e redes de crime ambiental. Mesmo após a saída de Bolsonaro, os efeitos do desmonte das políticas ambientais persistem em algumas situações, como: faltam servidores, (corte de) orçamento, equipamentos e, sobretudo, força política para reverter o esvaziamento das políticas (aproximadamente 50% do Congresso esta ligado direta ou indiretamente ao agronegócio). 

Com a eleição de Lula em 2022, surgiu a expectativa de reconstrução da política ambiental e do papel do Brasil como potência ecológica. A nomeação de Marina Silva para o Ministério do Meio Ambiente (MMA) sinalizou, simbolicamente, o retorno de um projeto mais comprometido com a sustentabilidade, com foco na redução do des-matamento e na rea-proximação com organismos internacionais. Marina voltou ao governo como figura de prestígio global, articulando agendas como a retomada do Fundo Amazônia (capital de alguns países desenvolvidos para a Amazonia), o fortalecimento das conferências climáticas e o apoio a povos indígenas e tradicionais (principalmente quilambolas e camponeses). No entanto, mesmo com essa simbologia, o MMA enfrentou e segue enfrentando limitações profundas ao longo do governo Lula 3. Uma das principais contradições está no fato de que Marina Silva chefia uma pasta estratégica, mas é politicamente isolada dentro de um governo que, para garantir maioria no Congresso, fez concessões sistemáticas à bancada ruralista, da energia, da mineração etc. (governo de conciliação), quando não é abandonada pela base do governo para ser insultada nas audiências no Congresso. Ao mesmo tempo em que Marina discursa sobre des-carbonização e proteção da bio-diversidade em fóruns internacionais, o governo libera mais e mais agrotóxicos, muitos deles banidos na Europa, e atua de forma no mínimo apática em projetos como o novo marco temporal, que restringe a demarcação de terras indígenas (comprovadas pela Fundacao Nacional do Indio). A transferência da Agencia Nacional de Águas (Ana) e da gestão do Cadastro Ambiental Rural (CAR) para o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, chefiado por aliados do centrão (grupo no Congresso apoiado pelo agronegócio e outros segmentos), é outro exemplo de esvaziamento institucional do MMA. O mesmo se aplica ao papel desempenhado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), que deveria ser aliado, mas que muitas vezes compete com o MMA, sem articulação efetiva entre os dois, em pautas territoriais sensíveis, no qual muitas vezes concede as terras devolutas da União para em-preendimentos nos estados o que tende a gerar apropriação por grupos econômicos e especulação no mercado fundiário.

Política de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda 

Nesse mesmo contexto, emergiu de forma atravessada a “política de transformação ecológica” lançada pelo Ministério da Fazenda. Liderada pelo atarantado Fernando Haddad, essa política buscou impulsionar a economia verde por meio de instrumentos de mercado, re-estruturação industrial e estímulo a investimentos “sustentáveis”. No discurso, trata-se de promover um novo ciclo de crescimento com base na des-carbonização e na bio-economia. Na prática, porém, a política tem se mostrado marcada por um viés tecnocrático, financeiro, que atropela outras instâncias de governo e distante das agendas sócio-ambientais históricas e populares. A iniciativa concentra-se em atrair investidores privados e criar arcabouços regulatórios que favoreçam o capital verde internacional, mas sem enfrentar os conflitos fundiários, o poder do agronegócio ou o desmatamento legalizado. Ou seja, não há conexão real entre essa transformação ecológica proposta pelo (Ministério da) Fazenda e a política de base territorial defendida pelo MMA; pelo contrário, o que se vê são abordagens paralelas, por vezes concorrentes, quando não des-organizadas e contraditórias dentro do próprio governo.

 Atualmente, o orçamento do MMA para 2025 está fixado em R$ 4,5 bilhões, valor que representa uma ligeira queda de 1% em relação a 2024. O Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima) complementa essa cifra com um pacote de R$ 11,2 bilhões, embora apenas R$ 4,46 milhões sejam alocados diretamente pelo MMA para projetos não reembolsáveis, o restante é canalizado via linhas de crédito do BNDES. O MMA enfrenta, além disso, déficit de execução orçamentária, com parte significativa dos recursos aprovados não sendo efetivamente utilizados. A maior dessas contradições se revela no próprio arcabouço fiscal que é o principal projeto de governo na gestão Lula 3. A âncora fiscal limita os investimentos públicos e impõe restrições severas à expansão dos gastos sociais e ambientais. Ou seja, mesmo que se reconheça a urgência de uma transição ecológica, o teto de investimentos impede que essa transição seja liderada pelo Estado e pautada pela justiça climática. Os recursos para políticas públicas estruturantes — regularização fundiária, apoio à agro-ecologia, fiscalização ambiental e infra-estrutura para populações tradicionais, seguem minguados >— enquanto o discurso oficial prioriza parcerias público-privadas e mercados de carbono. Assim, o governo promete uma transição ecológica sem reformar a estrutura fiscal, sem questionar com ações efetivas o rentismo e sem reforma agrária.

Contradições 

As contradições não param por aí. O plano de governo apresentado por Lula em 2022 falava em “retomar o protagonismo ambiental do Brasil”, “re-industrializar com base na bio-economia” e “fortalecer os povos indígenas e a agroecologia como pilares da sustentabilidade”, mas muitas dessas promessas estão sendo esvaziadas na prática. Na mesma linha, a promessa de impulsionar a economia verde com justiça social esbarra na ausência de um projeto industrial ambiental consistente. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), retomado em 2023, mantém a lógica de grandes obras de infraestrutura com impactos sócio-ambientais severos, como estradas, hidrelétricas e portos em áreas ambientalmente sensíveis. Muitas dessas obras estão sendo aceleradas considerando o licenciamento ambiental como um gargalo pelo mercado financeiro. 

Além desse quadro, também cresce a intensidade de conflitos socioambientais relacionados à água e à mineração de acordo com o Mapa dos Conflitos no Campo (CPT, 2025). Em 2024 registraram-se 266 disputas envolvendo recursos hídricos (alta frente aos 225 do ano anterior) e 1.768 conflitos ligados à posse da terra. A mineração, tanto em grandes empreendimentos quanto em garimpos ilegais, provoca poluição de rios (como o Paraopeba, o Doce e bacias do Pará), uso intensivo de água e assoreamento, agentes de tensões que também se refletem em violências contra comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas. 

Outro questão a ser considerada quando pensamos política ambiental é a desigualdade social. Exemplo disso, pode ser visto no relatório Global Wealth Report 2023 expõe crescentes níveis globais de concentração de riqueza – os 1 % mais ricos detêm cerca de 47,5 % da riqueza mundial – e a desigualdade entre países e dentro deles segue acentuada, especialmente no Brasil, com índice de Gini de riqueza de 88,4 em 2022. Essas desigualdades impactam diretamente a política ambiental, pois sem redistribuição de poder, tributação progressiva e combate à acumulação privada de capital, não há base econômica estruturada e sólida para financiar a rede de proteção socioambiental apropriada e contextualizada a um projeto de país soberano, seja em relação aos interesses financeiros privados, seja em relação aos interesses neo-extrativistas de Estados Unidos, União Europeia, China etc. 

E a COP30 nesse contexto? 

A COP30, marcada para acontecer entre 10 e 21 de novembro de 2025 em Belém, no Pará, chega cercada de expectativas, contradições e questões em aberto. A escolha de sediar a conferência no coração da Amazônia foi celebrada como um gesto simbólico de levar a pauta climática para o território que encarna os desafios e as urgências ambientais do planeta. No entanto, a preparação para receber cerca de 45 mil participantes, entre chefes de Estado, delegações, cientistas, ativistas e jornalistas, revelou altos custos devido a improvisos na organização e falta de planejamento e entendimento entre Casa Civil, Itamaraty e organização local, bem como limitações estruturais, conflitos políticos e contradições que colocam em xeque a própria coerência do evento. Um dos grandes entraves segue sendo a hospedagem. A ida do evento para a cidade fez disparar os preços, com diárias chegando a US$ 700 e aumento de até quinze vezes em relação ao valor habitual. A situação é considerada grave, considerando a proximidade da data do evento. Tanto que o secretariado da ONU para o clima convocou uma reunião de emergência para discutir soluções, chegando a ventilar a hipótese de transferir parte da conferência para outras cidades, proposta que o governo brasileiro rejeitou. Entre as alternativas apresentadas estão o uso de navios de cruzeiro como hotéis flutuantes, a adaptação de escolas e alojamentos militares e a construção emergencial de hospedagens temporárias, mas ainda assim os custos superam o subsídio diário de US$ 149 pago pela ONU. Paralelamente, a cidade está tomada por obras de pavimentação, drenagem, revitalização de praças e melhoria da infraestrutura de transporte. Apesar de necessárias, muitas intervenções começaram tarde e estão em ritmo acelerado, gerando transtornos no trânsito e na vida cotidiana. Um dos projetos que mais gerou polêmica é a construção da chamada Avenida Liberdade, uma rodovia de 13,2 quilômetros em área de floresta protegida, com ciclovias e passagens para animais. Ambientalistas apontam o paradoxo de abrir uma via em área sensível no mesmo evento que pretende defender a preservação amazônica. Outro ponto crítico é o acesso desigual à conferência. Os custos elevados de permanência em Belém criam barreiras para representantes de países emergentes, lideranças comunitárias e organizações da sociedade civil. Há o risco de que o encontro se transforme em uma grande peça de marketing do capitalismo verde, que promove a Amazônia como símbolo, mas deixa de fora justamente aqueles que vivem na região e que já são os que mais sofrem com os impactos locais da crise climática. Assim, a COP30 se encontra em mais um dilema. De um lado, a oportunidade histórica de fazer da Amazônia o centro do debate global sobre clima e justiça ambiental; de outro, a ameaça de que problemas logísticos, obras controversas e exclusão de vozes que precisam e devem ser levadas em consideração comprometam não apenas o evento, mas também a credibilidade das soluções discutidas. A maneira como essas questões serão enfrentadas nos próximos meses definirá se a COP30 no Brasil entrará para a história como palco de um marco político real ou como vitrine de contradições e um legado um tanto questionável a exemplo da Copa do Mundo de 2014 e das Olímpiadas de 2016 ambas também organizadas em gestões petistas. 

Esse conjunto de aspectos são apenas a ponta do iceberg de uma relação conturbada por disputas de protagonismo, falta de planejamento, ingerência e divergências entre a Casa Civil, Itamaraty e organização do evento no interior do governo. Ou seja, é só mais um exemplo dos problemas de gestão, organização interna e implementação de políticas públicas no governo Lula 3 (vide relato 480 dias no governo Lula 3 no site do IHU Unissinos). A quem interessar, recomendo a excelente iniciativa da plataforma de jornalismo Sumaúma onde é possível acompanhar o cotidiano e as questões problemáticas relacionadas a COP30 e a questão indígena na Amazônia

E a sanção parcial do “PL da Devastação”? Como fica? 

O chamado “PL da Devastação” (PL 2159/2021), sancionado em 8 de agosto de 2025 com 63 vetos, evidencia contradições entre o discurso, compromissos internacionais e demandas ambientais da sociedade brasileira. Embora o governo Lula tenha eliminado dispositivos criticados por ambientalistas, como a expansão da LAC (Licença por Adesão e Compromisso) para atividades de impacto mediano e outros mecanismos de automação de licenciamento, ainda manteve pontos-chave que podem fragilizar o licenciamento ambiental e acelerar empreendimentos que podem causar um elevado potencial de dano. Além da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) que faz um lobby pesado para a desregulamentação do licenciamento ambiental no Brasil é o Movimento Brasil Competitivo com 63 empresas mantenedoras entre big techs, mineradoras, Itaú, Bradesco etc. O movimento é presidido por Jorge Gerdau Johannpeter, conforme noticiado pelo de Olho nos Ruralistas no vídeo “Quem está por trás, de verdade, do PL da Devastação?”. Ou seja, isso tudo não está des-contextualizado em relação ao Tarifaço e a guerra comercial e diplomática entre Brasil e EUA. A LAE (Licença Ambiental Especial) permite acelerar o licenciamento de projetos considerados estratégicos, e foi ativada imediatamente por medida provisória, sem coibir sua aplicação em alto impacto ambiental, o que gera preocupações sobre a qualidade das análises e o respeito ao processo técnico ambiental e tende a legitimar pressões políticas sobre processos técnicos que exigem acurácia e tempo. Essa LAE pode abrir brechas para licenciar empreendimentos que terão altos impactos ambientais, como mineração em áreas sensíveis, grandes hidrelétricas, linhas de transmissão e até exploração de petróleo na foz do Amazonas, com menor participação social e menos tempo para avaliações ambientais rigorosas. A aceleração sem salvaguardas enfraquece o princípio da precaução e tende a colidir com o direito à consulta prévia, livre e informada garantido pela Convenção 169 da OIT. Exemplo disso, conforme publicado em um texto no site Outras Palavras “A aprovação da LAE pode expandir ainda mais esse tipo de licenciamento expresso para fronteiras associadas ao lítio e às terras raras, que são objeto de crescente disputa geopolítica. Com o avanço da mineração em áreas de recarga do cerrado, regiões que já são acometidas por escassez hídrica têm ampliado o desafio do abastecimento, principalmente quando se trata de comunidades tradicionais”. Embora a LAC (Licença Ambiental por Adesão e Compromisso) tenha sido limitada a atividades de baixo impacto, o texto ainda permite que estados e municípios definam localmente o que isso significa, abrindo brechas para uma “corrida para o fundo”, na qual entes menos rigorosos desbloqueiem empreendimentos ambientalmente nocivos sob o pretexto de baixo impacto. A curto prazo, além dos outros biomas, a curto prazo o impacto dessas medidas sobre a Amazônia Legal e o Cerrado merecem ser observadas. Ao reduzir etapas para empreendimentos “estratégicos” nessas regiões, tendencialmente pode ser aumentada a pressão sobre o arco do desmatamento (Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas), contrariando a meta de zerar o desmatamento até 2030, reafirmada por Lula em fóruns como ONU e G20. Ainda, não é demais lembrar que no plano de governo, havia o compromisso de revogar medidas que fragilizassem o licenciamento e a fortalecer o Sisnama o que não foi vetado no PL. O principal problema do licenciamento ambiental no Brasil é o enfraquecimento do Sistema, causado pela falta de recursos e pessoal. Seria papel do governo atuar para a reestruturação e no investimento orçamentário junto ao Sistema e pautar o Congresso sobre essa necessidade e a construção de soluções. A solução apresentada de flexibilizar a legislação pela demora por si só é falaciosa. Ainda, deve-se atentar ao fato que a bancada do agronegócio no Congresso, liderada pelo relator Zé Vitor (PL-MG) e articulada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), está se mobilizando para derrubar vetos do governo à Lei do Licenciamento Ambiental (Lei 15.190/25) considerados prejudiciais ao setor. O foco está na derrubada do veto sobre a Licença por Adesão e Compromisso (LAC) para empreendimentos de médio porte ou potencial poluidor, na devolução a estados e municípios da autonomia para definir critérios de porte e impacto ambiental e na retirada da exigência de análise prévia do Cadastro Ambiental Rural (CAR) para acesso a licenças simplificadas. O argumento da Frente Parlamentar da Agropecuária é que essas medidas reduzem burocracias e respeitam as realidades locais, enquanto setores do governo alegam riscos de fragilização do controle ambiental e de “guerra regulatória” entre entes federativos. Diante desse conjunto de aspectos elencados, o resultado é no mínimo de uma mensagem, digamos, ambígua: de um lado, o governo se declara defensor do meio ambiente e das comunidades tradicionais; de outro, preserva instrumentos que aceleram o caos climático em nome da propalada governabilidade e de projetos considerados por grupos da burguesia nacional e corporações financeiras internacionais como “estratégicos”. Além da derrubada dos vetos no Congresso Nacional, o que vem por aí? Organizações da sociedade civil planejam acionar o Superior Tribunal Federal (STF) contra o projeto de lei (PL), por várias questões, dentre elas alegando irregularidades na tramitação no Senado e inconstitucionalidade de pontos como a licença auto declaratória para projetos de médio porte. 

E as terras raras e os minerais críticos? 

A estratégia de transição energética global reposicionou o Brasil como ator-chave das disputas geo-econômicas contemporâneas. O país detém cerca de 23 % das reservas mundiais de terras raras, domina 98 % das reservas de nióbio e possui quantidades significativas de lítio, grafita, cobre, cobalto e urânio. Ainda assim, segue marginal na produção e dependente da exportação de matéria-prima. Essa lógica se insere no que a sociologia ambiental crítica denomina neo-extrativismo e neo-colonialismo mineral, nos quais países do Sul Global permanecem fornecedores de recursos estratégicos enquanto Norte Global captura valor tecnológico e econômico. Anunciou-se uma ambiciosa meta de formular uma Política Nacional de Minerais Críticos, com incentivos para pesquisa mineral, industrialização interna, controle estatal sobre concessões e redistribuição via CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral). Previa ainda a reestruturação da Agencia Nacional de Mineração (ANM )e sinergia entre os ministérios de MME, Ciência e Economia, além da criação de linhas de crédito via BNDES para transformar minérios em tecnologia. Essas promessas, porém, permanecem não cumpridas. O governo Lula 3 criou uma “comissão ultra especial” para mapear jazidas minerárias (estimando que 70 % do território ainda não havia sido explorado nas diretrizes) e uma divisão na ANM específica para minerais críticos. No entanto, falta um marco regulatório para garantir agregação de valor local, critérios rigorosos para transferência tecnológica e consulta às comunidades afetadas. Em suma, o que se reafirma é a predisposição à abertura do setor a investidores. Sobretudo, a necessidade de debate constante a respeito do direito a consulta livre, prévia e informada. 

No campo do racismo ambiental, o padrão de exploração mineral tendencialmente afeta des-proporcionalmente povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que são frequentemente excluídos dos processos decisórios. Impactos como poluição por mercúrio, violência ou remoções compulsórias recaem sobre esses grupos, sem que haja mecanismos de compensação ou participação. É essa in-justiça socio-ambiental que revela a dimensão racial e territorial da disputa pelos recursos. A ausência de um projeto soberano nacional — contendo um plano que integre mineração, ciência, tecnologia e justiça socioambiental segue gerando desigualdades e compondo a política ambiental e energética do país. Primeiro, o país segue majoritariamente exportando matéria prima, sem transformar valor em território nacional. Segundo, a transição energética no Brasil permanece desconectada dos debates sobre tecnologia, inovação e autossuficiência. Terceiro, as populações mais vulnerabilizadas continuam expostas a riscos ambientais e sociais sem contrapartida substancial de investimentos ou participação na grande maioria das políticas públicas. Mesmo, que sob uma lógica capitalista, vamos supor, segundo noticiado pela mídia corporativa, a exploração sustentável e industrializada de minerais críticos poderia gerar R$ 243 bilhões ao PIB até 2050, com criação de empregos qualificados e impulso à inovação tecnológica. Essa projeção exige, no entanto, mesmo que sob uma lógica extrativista, exigiria um rompimento com o modelo de neo-colonial e a adoção de políticas públicas estratégicas e estruturantes, que priorizem a valorização local, controle político sobre os minerais e respeito aos direitos territoriais e ambientais. Em síntese, a promessa de um Brasil de mineração soberana no plano de 2022 ainda não se concretizou. A tensão entre defesa da soberania e mais abertura a interesses estrangeiros, torna-se mais evidente à medida que os efeitos da ausência de um projeto nacional soberano se manifestam. Estamos diante de um processo de decisão na política ambiental e energética, no qual a equipe econômica mais uma vez atua de modo dis-funcional nesse processo, o que pode reforçar o neo-colonialismo verde mediante lógica neo-extrativista e silenciar os povos nos territórios. Ou pode, mesmo que a chance pareça ser remota, construir um projeto pautado em uma justiça social e ambiental que transforme minerais em bem viver, ciência, equidade e democracia. 

Para onde ir? 

Não há solução fácil diante do cenário ambiental que está posto no Brasil e no mundo diante das mudanças climáticas em curso. Talvez, primeiro pautar as políticas públicas a partir da as experiências das organizações e movimentos, pois são as ações apropriadas e con-textualizadas aos territórios e as formas de vida locais em sua diversidade e especificidade. Na Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil: Balanço do governo Lula 3”, diversos movimentos e organizações sociais apresentaram ao governo Lula 3 um conjunto articulado de propostas socioambientais que visam reverter o modelo predatório vigente e efetivar a justiça climática e territorial no país. Por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) exige a retomada da reforma agrária com criação de novos assentamentos, infraestrutura, crédito agrícola e apoio à produção agroecológica, além da revogação de decretos que criminalizam ocupações produtivas. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), por sua vez, cobra a demarcação imediata de terras indígenas, a retirada de invasores, o fortalecimento da Funai, o respeito à consulta prévia conforme a Convenção 169 da OIT e a participação efetiva nos processos da política ambiental. A 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente (CNMA), realizada em maio de 2025 (após 11 anos) foi elogiada no âmbito do governo por sua representatividade (56 % de mulheres, 64 % de pessoas negras e cerca de 33 % de delegados indígenas e de povos tradicionais), representação de 2 570 municípios consultados. Ocorreu a elaboração de 2.635 propostas, sendo 100 selecionadas que versavam sobre justiça climática, transição ecológica e governança ambiental. No entanto, por parte das organizações e movimentos sociais participantes, surgiram diversas críticas e denúncias apontando contradições entre o discurso inclusivo e as práticas instauradas. Organizações da sociedade civil questionaram a ausência de Lula durante a conferência, interpretando essa ausência como reflexo da distância entre o protagonismo simbólico pretendido e a falta de engajamento efetivo da Presidência. Diversos municípios, especialmente no sul do país, sequer aderiram ao processo preparatório. Por exemplo, menos de 40% das cidades do Rio Grande do Sul participaram, evidenciando algumas fragilidades no alcance nacional da conferência. Destaca-se que, embora acessível à imprensa especializada e a grupos urbanos, faltou conexão real com os desafios regionais, como mobilidade urbana, conflitos hídricos e mineração — temas priorizados na CNMA, mas que permanecem invisíveis na agenda executiva dos ministérios, revelando uma lacuna entre deliberação social e execução real do governo. A proposta mais votada foi “Construir o plano nacional de regularização fundiária e cogestão socioambiental de territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais e periféricas junto a um amplo sistema de áreas protegidas acelerando demarcação e homologação de territórios indígenas, titulação de territórios quilombolas, fiscalização e proteção contra crimes ambientais e valorização do conhecimento ancestral”. As pautas entregues englobam três eixos principais: reforma agrária com apoio à agroecologia, reconhecimento e demarcação de territórios tradicionais, e reforço institucional para combater o desmonte ambiental. Também foi pedido o arquivamento do PL da Devastação (o que não aconteceu) e a adoção de políticas territoriais que incluam populações afetadas por mineração e conflitos hídricos. Detalhe: esses pontos estavam presentes no plano de governo eleito em 2022. 

Conclusões

Em síntese, entre as dez prioridades definidas para o enfrentamento da emergência climática, estão: 

a destinação mínima de 5% dos orçamentos públicos para ações climáticas; 

a taxação progressiva de grandes fortunas para financiar políticas socioambientais; 

o fomento à agricultura sustentável e regenerativa; 

a gestão integrada de resíduos sólidos com base na economia circular; 

a criação de um Programa Nacional de Justiça Climática; o fortalecimento das brigadas florestais comunitárias; 

a implementação de políticas de educação ambiental permanente, de-colonial e transformadora, em todos os níveis de ensino; 

a criação de uma política nacional sobre os direitos dos animais; 

o fortalecimento dos comitês de bacias hidrográficas; 

e a regularização fundiária e a cogestão de territórios indígenas, quilombolas e tradicionais. 

Com base nessas pautas, para mudar os rumos da política ambiental em curso no governo Lula 3 em direção a políticas públicas relativas a um projeto de país popular e soberano, ainda mais em um cenário de tarifaço, faz-se necessário emergencialmente, pelo menos implementar cinco dessas propostas aprovadas na CNMA

1) instituir uma reforma fiscal progressiva com imposto sobre grandes fortunas e títulos verdes vinculados à justiça climática; 

2) vincular o “plano de transformação ecológica” a orçamentos mínimos para fiscalização, regularização fundiária e apoio à agroecologia; 

3) condicionar financiamentos públicos e incentivos fiscais ao fim do desmatamento autorizado em unidades de conservação; 

4) reconhecer e financiar diretamente os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais como agentes centrais da gestão territorial; 

5) a curtíssimo prazo incluir cláusulas no arcabouço fiscal — que é o grande projeto do governo Lula 3 — que afastem o teto de gastos de ações climáticas, garantindo fonte permanente de recursos ambientais. 

Considera-se, que sem a decisão por essas mudanças por parte do governo não ocorrerá o início de um processo de transição efetivo para uma política ambiental com justiça social e ambiental no Brasil. Até o momento o que se observa em relação a política ambiental do e no governo Lula 3, embora tenha decidido por ações simbólicas no campo ambiental no início do governo, é a gestão de um modelo predatório agro-extrativista, liberação massiva de agrotóxicos, esvaziamento político e institucional do MMA, ausência de reforma agrária e investimentos concentrados no agronegócio. isso revela que mesmo com o marketing político de “potência ambiental”, o governo segue operando sob a lógica da gestão do caos climático em curso no Brasil e no mundo, mas de forma menos intensiva que no governo Bolsonaro. A política de transformação ecológica da Fazenda, por sua vez, avança como um projeto tecnocrático de mercado verde, sem articulação real e efetiva com os territórios, povos tradicionais ou com o debate da justiça climática. Ao invés de uma política estruturante, redistributiva e comprometida com o enfrentamento das causas da devastação ambiental, o que se vê até o momento é um conjunto de ações dispersas e orientadas em grande parte pela lógica do capital financeiro e de marketing internacional. Claro, há exceções por meio de algumas ações e manifestações por grupos políticos postos a margem dentro do governo. O plano de governo prometia protagonismo ambiental, agroecologia, industrialização verde e fortalecimento dos povos originários, mas essas metas vêm sendo atropeladas pelo arcabouço fiscal, pela combinação de ingerência administrativa e agenda da reeleição no interior do governo, bem como pelo receio de confrontar os interesses que lucram com a devastação ambiental. Ou seja, a política ambiental no governo Lula 3 tem em suas relações de produção política severas contradições internas conforme foram descritas nesse balanço parcial e inicial. Entretanto, deve-se reconhecer e de forma meritória que há sim setores no Ministério do Meio Ambiente por meio de parte de servidores(as) comprometidos(as) e engajados(as) nas pautas ambientais que atuam na tentativa de rearticulação da fiscalização, ampliando unidades de conservação etc. Mas, enfim, para prosseguir com a conversa, fica a pergunta: onde está no governo Lula 3 a política ambiental construída a partir da soberania popular, da justiça social e ambiental para a sociedade brasileira? 

 *O artigo é de Sérgio Botton Barcellos, professor do Depart. de Ciências Sociais/CCHLA/UFPB e docente do Programa de Pós-graduação em Sociologia — UFPB. 

Publicação no IHU Unissinos: 15 Agosto 2025 

Fonte: https://ihu.unisinos.br/categorias/655877-qual-e-a-politica-ambiental-do-governo-lula-3-artigo-de-sergio-botton-barcellos

8.18.2025

Agronegócio é o depredador do Brasil

Temos um governo completamente refém de um congresso dominado e bancado pelo agronegócio

  O agronegócio destrói a natureza com queimadas _ foto na internet

por Ana Carolina Vasconcelos e Lucas Salum no Brasil de Fato – Sociedade e Grande Agro Enganador

 “O agronegócio é o inimigo público número um da sociedade brasileira”. Essa tese é defendida pelo professor e pesquisador Luiz Marques, em sua mais recente obra, Ecocídio: Por uma (agri)cultura da vida, lançada pela editora Expressão Popular. 

No livro, ele, que também é colaborador do departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas  (Unicamp) e co-fundador do curso de pós-graduação em história da arte da mesma instituição, discute como o setor impacta negativamente nos biomas brasileiros e tem se apropriado economicamente das receitas do país.

“Além de degradar o meio ambiente, cada vez mais, o agronegócio vampiriza o Estado brasileiro, de maneira a garantir que os lucros sejam garantidos. Eles também não pagam imposto de importação, nem de exportação, não pagam coisa nenhuma e são mega subsidiados”, explica, em entrevista ao Conversa Bem Viver

Diante desse cenário, Marques também discute um conjunto de iniciativas que apontam para a superação do atual modelo. Todas elas, na avaliação do pesquisador, passam pela mobilização intensiva da sociedade. 

“Eu não tenho a menor ilusão de que uma transição para fora do agronegócio venha de qualquer governo. Terá que vir da sociedade. O MST é um modelo positivo de agricultura. O Brasil tem, ao mesmo tempo, esse modelo positivo e o modelo mais negativo do mundo, que é o agronegócio. A sociedade brasileira tem que optar exatamente entre o modelo positivo e o modelo negativo”, enfatiza. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Por que precisamos entender a dinâmica do agronegócio no Brasil? Quais são os principais impactos do setor no país?

Luiz Marques: O Brasil é o país mais rico do mundo em termos biológicos e nem todos os brasileiros têm consciência desse fato, de que, de alguma maneira, nós somos o centro do mundo no sentido da biosfera.

Desde o começo do século 21, foram definidos 17 países chamados de países megadiversos, ou seja, que têm a maior quantidade de espécies endêmicas, que só existem naquele lugar, naquele território. O Brasil é o primeiro país do mundo em termos de quantidade de espécies endêmicas. É uma riqueza enorme e, para ter uma ideia, o segundo lugar vem bem depois. E nós estamos descobrindo novas espécies todos os anos. Além disso, se você pegar essa lista de 17 países, cinco deles são amazônicos.

A Amazônia é uma região extraordinariamente estratégica do ponto de vista da nossa capacidade de sobreviver no planeta. Sem Amazônia, sem água, por exemplo. Muita gente ainda não entende que a Amazônia é a grande doadora de água para o Sul, por meio daquilo que comumente é chamado de rios voadores.

A Amazônia emite para a atmosfera uma quantidade tão grande de vapor de água que ela retira do solo, na medida em que faz a evaporação, transpiração e fotossíntese, que é maior do que a quantidade de água despejada no oceano pelo Rio Amazonas. E é essa fonte de água, de umidade, que permite que haja agricultura no Brasil. Não só agricultura, permite também que haja hidroelétrica e que nós possamos nos abastecer de água.

Em 2014, nós estivemos por um triz, com uma falta absoluta de água no sistema. Nós estamos destruindo a Amazônia de uma maneira, assim, absolutamente vertiginosa e fulminante.

Para você ter uma ideia, só de desmatamento completo, que chamamos de desmatamento por corte raso, que significa a eliminação completa da floresta e substituição daquele território por pastagens ou por soja, nós já desmatamos mais de 20%, o que equivale a mais ou menos 870 mil km quadrados da floresta que existia quase de forma integral até 1970. Então, um elemento que precisamos entender é a magnitude, mas o outro ainda mais importante é a velocidade dessa destruição.

Essa velocidade é o que faz com que a própria floresta não tenha condições de se adaptar. Isso falando apenas da destruição completa. Se você pegar a degradação da floresta, a extração seletiva de madeira, abertura de picadas, de pequenas estradas, exposição da floresta às bordas que agora estão recebendo insolação que não recebiam antes, você tem mais ainda Amazônia degradada do que a área da Amazônia suprimida.

Isso faz com que a Amazônia esteja à beira daquilo que é chamado o ponto de não retorno. Algumas regiões da Amazônia, exatamente aquelas que foram mais devastadas pelo agronegócio, já passaram do ponto de não retorno. Ou seja, é muito difícil agora que, mesmo que você não retire mais nenhuma árvore de lá, haja recuperação. Porque ela já está evoluindo em direção a uma transição para um sistema não florestal ou de uma floresta não típica equatorial, como nós tínhamos até agora.

Outras regiões ainda estão a caminho dessa situação. Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagens. É o agronegócio especificamente o grande responsável por isso.

Os incêndios na Amazônia são gigantescos e estão aumentando cada vez mais. No ano passado, não apenas na Amazônia, no Brasil todo, houve mais de 300 mil km quadrados de incêndios no Brasil. Pense que o estado de São Paulo tem 248 mil km quadrados.

99% dos incêndios no Brasil são de causa humana. Não é porque caiu o raio. É porque efetivamente houve um incêndio provocado. E quem que provoca esses incêndios? Basicamente, o agronegócio

Um outro elemento que é muito importante lembrar é o seguinte: as emissões de gases de efeito estufa no Brasil que promovem o aquecimento global. O Brasil é o quarto país do mundo, se você retirar a União Europeia, emissor de gás de efeito estufa. Quem é que emite 75%? O agronegócio. Seja porque desmata e põe fogo, seja porque o rebanho de gado no Brasil é hoje da ordem de 230 milhões de cabeças. Tem mais gado no Brasil do que gente. É o maior rebanho do mundo. E esse gado bovino são ruminantes que, quando fazem o rúmen, emitem metano.

O metano é um gás de efeito estufa ainda mais poderoso que o CO2. Embora ele fique menos tempo na atmosfera, é mais poderoso. O Brasil tem uma grande oportunidade, se transitarmos rapidamente para uma agricultura genuína, que produz alimentos e não apenas commodities, como faz o agronegócio.  

O agronegócio não produz comida, produz commodities, que são objetos para o mercado externo, cujos preços são fixados na bolsa de mercadorias, nas transações e especulações de derivativos futuros. Não tem nada a ver com a comida que você ou eu colocamos na mesa.

Quem produz comida no Brasil é o pequeno proprietário rural, gente como os militantes do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que está próximo do consumidor, e não que pega 150 milhões de toneladas de soja e manda para o outro lado do planeta. 

Como podemos superar o atual modelo do agronegócio?

Eu não tenho a menor ilusão de que uma transição para fora do agronegócio venha de qualquer governo.

Terá que vir da sociedade.

Os governos só vão agir se houver uma pressão muito mais forte do que nós que temos hoje, no sentido de exigir uma mudança política nesse sentido.

Se olharmos para o Congresso Nacional, mais da metade dos deputados pertencem à agropecuária. Basicamente, são grandes fazendeiros. Não tem ilusão tola em achar que do Congresso Nacional pode vir alguma medida no sentido de nos tirar dessa situação crítica.

O governo Lula, que é muito mais progressista do que os governos anteriores, ainda assim está na mão do agronegócio. O Brasil, só em renúncia fiscal, ou seja, em imposto que ele deixa de cobrar, são R$ 158 bilhões por ano em favor do agronegócio. 

Depois, eles ficam chorando e dizendo que nós temos um problema de déficit fiscal e não podemos isentar as pessoas que ganham até R$ 5 mil do Imposto de Renda. O Brasil é o único país do mundo, junto com a Estônia, que não cobra imposto de distribuição de lucros das empresas, porque considera isso bitributação. É a lógica de que a empresa já pagou e, portanto, o dono da empresa não precisa pagar pelo lucro que ele recebeu. 

Será que só o Brasil e a Estônia estão certos?  O resto dos 194 países estão errados?

Em síntese, existe uma situação em que o Brasil está levando o agronegócio nas costas, o que é o contrário, inclusive, do que o agronegócio diz.

O agronegócio diz que leva o Brasil nas costas, mas é exatamente o contrário. Nós estamos efetivamente financiando o agronegócio e o subsidiando. Isso acontece não só porque eles têm muito poder. O Brasil é um dos países com maior concentração de terras do mundo. Mas o problema não é só porque eles têm poder, mas porque hoje o agronegócio já é economicamente inviável, por causa da questão climática.

A quantidade de secas, inundações, picos de calor, tempestades de areia, etc, fazem com que a atividade do agronegócio hoje já seja de alto risco, com quebras de safra, diminuição das expectativas de safra, etc.

Por isso, cada vez mais, o agronegócio vampiriza o Estado brasileiro, de maneira a garantir que os lucros sejam garantidos. Eles também não pagam imposto de importação, nem de exportação, não pagam coisa nenhuma e são mega subsidiados. 

Qualquer que seja o governo, estou falando do Lula porque agora é o Lula o governante, não há condições políticas de romper com o agronegócio, a menos que convoque a sociedade para apoiá-lo. Mas eu não estou vendo o Lula fazer isso. 

267 deputados votaram a favor do PL da Devastação. Para que o congresso possa derrubar o veto do Lula, basta 257 votos. Portanto, eles têm 10 votos a mais, o que lhes garante a possibilidade de derrubar o veto. É uma situação extremamente complicada.

Ou seja, temos um governo completamente refém de um congresso dominado e bancado pelo agronegócio.

Publicado no BdF: 15.ago.2025

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/podcast/bem-viver/2025/08/15/agronegocio-e-o-inimigo-numero-um-do-brasil-defende-pesquisador/

7.10.2025

Lutas por libertação nas auto-biografias de Gandhi, Luther King Jr. e Mandela

por Ingrid Gomes Bassi / Scielo – Sociedade e Lutas Libertarias Humanas

Pintura Salvador Dali 1943, criança geopolítica observa o nascimento do novo homem

Artigo completo ver em: https://www.scielo.br/j/interc/a/czCmRwpQzrzjhsKfNHgTTPK/             

Auto-biografias

Gandhi: a busca por transcendência

Mohandas Karamchand Gandhi escreveu o livro “Minha vida e minhas experiências com a verdade” (2014) por volta de 1927, contando com 436 páginas.

Gandhi descreve, brevemente, na primeira parte, a respeito do seu ambiente familiar, do sentimento de tristeza de ter se casado ainda na idade infantil, da dificuldade da família com a morte do pai, dos seus estudos para se formar em advogado no estrangeiro, da familiaridade com o vegetarianismo, do aprendizado na Inglaterra e da própria desconfiança ao exercer a profissão de advogado quando retorna à Índia.

No segundo momento do livro, Gandhi comenta como foi atuar no seu primeiro processo jurídico, conta sobre sua viagem à África do Sul a trabalho. Narra as descobertas do tratamento desumano que vivencia na África com as pessoas de “cor”, das desigualdades nos navios e no transporte terrestre. Explica que teve seu encontro com a profissão, a de mediar conflitos. Problematiza a respeito da sua timidez em atos públicos e ressalta suas habilidades em entender o outro, inclusive outras religiosidades.

Ao continuar, na terceira parte, explica brevemente sobra sua estada na Índia. Depois, ao retornar à África, em Natal, dá andamento político ao Congresso, formado pela comunidade de indianos e outros colaboradores, tendo como objetivo promover a liberdade de ação aos indianos no país. Nesse momento, narra sobre sua necessidade de potencializar a autopurificação, por meio do voto de viver a brahmacharya, em sânscrito, uma vida celibatária e de disciplina. Descreve sua participação ativa como membro da enfermagem, no grupo de apoio para a guerra dos bôeres junto à causa britânica. No retorno da guerra, articula procedimentos para a reforma sanitária e para a campanha contra a fome, com colaboração do Congresso. Novamente na Índia, trabalha com advogados para compreender as novas estruturas do Congresso e Parlamento indiano e volta a Natal.

Na quarta parte traz suas experiências em Natal, quando colabora com um grupo de indianos novamente no setor de enfermagem na “rebelião” zulu, ajudando os feridos zulus. Aprofundou-se nos ensinamentos e práticas da dieta alimentar baseada em vegetais. Explica sua aproximação na espiritualidade. Forma com colaboradores uma comunidade à luz do satyagraha (a firmeza na verdade, na luta por direitos justos), a ashram (em sânscrito “comunidade”). Estuda e experimenta tratamentos médicos de hidroterapia e dieta alimentar.

No final da obra, retorna à Índia e começa a peregrinar no interior do país. Conversa com comunidades locais sobre as mazelas de vida dos indianos, cria propostas comunitárias para resolver situações conflituosas, experimenta o saber das vidas distantes, das aldeias mais humildes e afirma o quanto foi importante sua “firmeza na verdade”, dos seus sacrifícios humanitários e no seu ideal de humano. Por fim, colabora na popularização do Congresso indiano nas aldeias, irrita as autoridades britânicas e vê o indiano se indignar e agir sem medo em busca da sua liberdade e respeito. Ao finalizar a autobiografia, traz a história das reivindicações dos tecelões por matéria-prima.

Luther King Jr.: ativismo não violento

O livro “A autobiografia de Martin Luther King” é uma coletânea do material narrado por Martin Luther King Júnior, realizada pelo historiador Clayborne Carson, de 2014.

A obra de 464 páginas traz o trajeto de Luther King Jr. como ativista e um dos autores principais de muitos protestos históricos nos Estados Unidos. Luther King Jr. protagonizou reivindicações dos negros ocuparem de forma igualitária os recintos e espaços públicos, além do direito ao voto e outras marchas expressivas. Na história ocidental, deixou também a possibilidade da prática de protestar a partir da não violência.

O livro apresenta 32 capítulos. No início, há a recuperação autobiográfica de sua infância e da sua herança cultural familiar. Também é descrito o confronto inicial de Luther King Jr. com a desigualdade social e o sistema segregacionista. Pontua-se a união com a musicista Coretta e o alinhamento teórico de protestar à luz da não violência, baseado nas obras de Mahatma Gandhi. Nesse começo, também contextualiza Luther King Jr. como decidido a ser pastor e continuar estudando sobre a teologia social. Finaliza esses capítulos com a ida de Luther King Jr. para Montgomery, para servir na Igreja Batista, da Avenida Dexter.

A inspiração dos protestos, com Rosa Parks ousando desrespeitar as leis segregacionistas ao sentar no assento específico para branco, marca o capítulo oito em diante. Luther King Jr. expõe sobre a trajetória de Parks até os protestos locais de enfrentamento coletivo, com os políticos em Montgomery, contra as leis segregacionistas de assentos nos ônibus. Luther King Jr. protagoniza as manifestações a favor de Parks e une-se a Associação para o Progresso de Montgomery, como membro de chefia, na articulação dos protestos.

No capítulo treze define-se a estratégia formativa do protesto não violento; ensinado por Gandhi, parte-se da lógica de envergonhar o oponente usando o protesto da não violência. Os sujeitos à frente dos protestos apresentavam reivindicações pontuais, também se organizavam coletivamente para saírem às ruas em número significativo, além de terem colaboração participativa de grupos formados por brancos. Luther King Jr. descreve a prática da não violência: ao manifestante cabia receber os xingamentos, abusos, maus-tratos, socos, chutes, cicatrizes e assassinatos sem retornar violentamente. Portanto, na prática dos protestos a maioria dos manifestantes conseguiam resistir pacificamente, mas resistiam, só que faziam uso da não violência como norte de defesa. Para Luther King Jr. esse cenário demarcava as violências praticadas por policiais, políticas e governo, e pelos outros grupos claramente segregacionistas.

Do capítulo catorze para frente, a autobiografia expõe sobre os protestos e as manifestações contrárias à segregação. Explora Luther King Jr., como mediador e colaborador entre as instituições religiosas e privadas, para que elas incentivem as reivindicações, em especial, pagando as fianças de milhares de ativistas presos no país, por participarem das marchas de protestos. Narra a formação de movimentos extra cidade e região sul, nos protestos por direitos e liberdade, tal como a marcha sobre Washington e a campanha de Chicago.

Na finalização da autobiografia, Luther King Jr. narra seu protagonismo contra a posição do governo de levar soldados americanos à guerra do Vietnã. Justifica sobre seu entendimento a respeito da expressão “poder negro”, identificando inicialmente problemas de característica linguística e política. Finaliza a obra trazendo imaginações futurísticas, afirmando a existência do momento em que o negro será incluído, entretanto não se observa nessa projeção.

Mandela: do direito à vida

O livro “Nelson Mandela, Longa Caminhada até a liberdade” (2012) impresso em 1994, dividido em onze partes, apresenta 776 páginas. Nelson Rolihlahla Mandela narra a maior parte da autobiografia no presídio em Ilha Robben, na África do Sul, com a colaboração dos membros mais antigos do partido Congresso Nacional Africano (CNA). Entretanto, alguns capítulos posteriores à época do presídio, são detalhados após a sua eleição e fim do regime do apartheid no país.

No início da obra, descreve a infância e o ambiente rural que cresceu. Aponta a morte do pai como o momento desafiador e narra a chance de recomeçar a vida em outras relações de afeto no Grande Local, com a educação do regente e sua família.

No segundo e terceiro momentos, expõe como fugiu para a capital, Johannesburgo, com o companheiro, Justice, filho do regente. Descreve também as experiências de moradia, em cômodos pequenos, até chegar ao assentamento popular de Alexandra. Conta sobre iniciar na política, participando do CNA, além de mencionar sobre os trabalhos e experiência em advogar e mediar. Contextualiza a história do país, identifica o cenário segregado e desumano dos trabalhos, cotidiano, transporte e a vida de forma geral dos negros.

No quarto, quinto, sexto e sétimo capítulos define sua vida pela luta por direitos humanos na África do Sul, esclarece a respeito das escolhas que fez em optar pelo recurso da não violência, ao realizar a desobediência civil e não cooperação ao regime do apartheid e, mais à frente na narrativa, pontua a sabotagem e a luta de guerrilha como propostas assertivas contra o governo instalado aos sul-africanos. Justifica essas experiências, em parte, pelo governo decretar Lei Marcial e restringir de forma significativa a sobrevivência de qualquer partido político que vá contra o Nacionalismo do regime do apartheid, do presidente Malan. Ainda, no decorrer desses capítulos fala de cada preparação de defesa, argumentos, declarações, cenários e julgamentos, visto que se criou uma atmosfera popular de protestos e manifestações.

No oitavo momento, expõe a sua vivência no presídio, na Ilha de Robben. Descreve a rotina como preso político, o trabalho pesado, o quebrar pedras, a comida à base de milho, a dificuldade de contato com os guardas para as diversas reivindicações.

No nono e décimo capítulo comenta sobre as ressignificações afetivas que a Ilha lhe proporcionou. Descreve que, em razão de algumas reivindicações constantes, conseguiram melhorar dificuldades da prisão. Também pontua que sua atuação como advogado, mesmo clandestino, contribuiu com vários presos que não teriam defesa. Expõe a colaboração política do CNA na prisão, explica como se organizavam, pautavam e decidiam de forma coletiva.

Na parte final, narra a negociação com o então presidente da África do Sul, Klerk, sobre o fim do regime do apartheid, e o desmantelamento de várias leis segregacionistas. Expõe como ocorreu o processo de constituição da assembleia nacional, eleita por voto popular, para a ocupação de cargos no governo sul-africano. Descreve a eleição. Fala o discurso que pronunciou, como presidente da África do Sul e, na última parte, reflete experiências pessoais sobre bondade, medo, amor e liberdade.

Resultados & Discussão

A partir da descrição sócio histórica e das definições da AC (Análise de Conteúdo) delimitadas nesta pesquisa, avança-se para as interpretações e reinterpretações, seguindo a ordem de apresentação das autobiografias.

Mahatma Gandhi formou com amigos e colaboradores um espaço de discussão, em razão da sociedade em Natal – África do Sul – praticar preconceito cultural com os trabalhadores indianos que vinham para à cidade em contratos informais, que, de funcionários, os contratantes atribuíam aos indianos características de servidão, além das agressões e violências físicas. Chamado de Congresso, a esfera de informação e protesto proporcionava atmosfera reivindicatória tanto em Natal como para a região, em 1894 (GANDHI, 2014). Nos episódios destas narrativas sobre a formação do Congresso, visualizam-se as categorias-conceito de direitos à comunicação e direitos humanos. A comunicação compartilhada (PERUZZO, 2013) no Congresso interviu na desconstrução representada pelos próprios indianos sobre eles, bem como se ampliou suas construções a respeito dos direitos ao trabalho, à saúde e acesso a bens como os de patrimônio histórico e cultural (BOBBIO, 2004; GALLARDO, 2014).

Gandhi traz as reivindicações dos direitos humanos, do direito à comunicação e do conceito de satyagraha, na amplitude do direito a ser (FROMM, 1956, 1976, 1977). Para Gandhi, portanto, a luta cidadã, ao passo que é um direito do indivíduo enquanto formas de ser e agir, também se relaciona a esse cumprimento do ser, para que as reivindicações cotidianas se desdobrem em características voltadas à cidadania de fato.

O direito a ser, em Gandhi, inclui a racionalidade da não violência, ou seja, ao indivíduo cabe o direito de representar-se no mundo de forma a desprezar qualquer forma de violência. Para o filósofo Muller (2007, p.197), Gandhi, ao trazer exigência ética da não violência, “[...] consolida a humanidade do homem, como também na experimentação da estratégia de ação não-violenta, que permite a resolução pacífica dos conflitos”. Provoca, remetendo às práticas de Gandhi, respostas empíricas do poder humano de formular por si próprio resoluções das problemáticas essenciais, as quais se relacionam ao sentido da existência e da própria história (MULLER, 2007, p.198).

A opção pela não violência (MULLER, 2007) do ser em Gandhi liga o indivíduo a outros direitos relacionados, em especial à ternura e ao amor. O amor conceitua-se como estado evoluído do conflito sócio histórico da humanidade (FROMM, 1976), representa-se também como uma atividade criadora e seu papel é ampliar a vida. A ternura conceitua-se como negativa constante da violência, desde a íntima como a relacionada ao externo. Esse entendimento coloca a presença do outro como indispensável para a conquista das ações à base de ternura (RESTREPO, 1998). A partir dessa proposta sobre ternura, o ser humano desloca sua condição de cidadão desarmado e impotente para fortalecer-se do não comprometimento do “negócio da morte” (RESTREPO, 1998, p.81).

Reconhecido o direito de ser, ternura e amor, a cidadania em Gandhi age como plataforma, conecta os direitos, depois os expressa; assim, corrobora na manifestação da ahimsa, em sânscrito, a não violência a todos os seres.

A partir do norte da ahimsa, as categorias-conceito de dialogia (SENNETT, 2012; RESTREPO, 1998), do ser transutilitário (FROMM, 1977) e do ser amor (FROMM, 1956, 1976) são identificadas nas narrativas de Gandhi quando retorna para o interior da Índia, ao deparar-se com privações locais, em especial com o detalhamento das condições de abuso e injustiças que sequencialmente os agricultores de anil, na região de Champaran – ao norte da Índia –, eram submetidos pelos proprietários das terras que arrendavam. Ao intermediar a situação, por volta de 1917, Gandhi permanece na localidade por aproximadamente dois anos, ouvindo mais de 100 camponeses, em conjunto com autoridades policiais, e identificando que o problema transcendia a produção de anil e outros impostos abusivos, também envolviam falta de infraestrutura de saneamento básico, educação, autoestima e perspectiva de vida para as famílias (GANDHI, 2014).

Como resultado histórico, o sistema abusivo de produção e arrendamento foi abolido por lei, assim como os impostos ilegais foram indicados para serem ressarcidos aos camponeses. E assim, o Projeto de Lei Agrária foi aprovado e com valor social para a região dos camponeses e suas famílias (GANDHI, 2014).

Para tanto, em Gandhi, o estudo para a cidadania plena compete ao ser humano buscar-se agir de forma ética consigo, num processo anterior à própria reivindicação e luta coletiva. No intuito de anteceder e preparar o processo dialógico com o outro. A não violência em Gandhi permitiu essa observação, porque não ser violento com o outro é necessário para não ser violento consigo. O caminho da luta cidadã sob à luz da não violência prospecta ideologias de percurso histórico diferentes. Nesse sentido, a cidadania inclui o direito à ternura e o amor, e a mudança paradigmática da não violência.

Para Muller (2007), a ideologia da violência instrumentaliza o homem. A tônica para uma cultura da não violência seria a reversão desse processo ideológico de aplaudir e heroicizar a violência. “A questão que se apresenta hoje ao homem racional é saber se não seria possível inventar uma outra história experimentando uma outra técnica de ação sem ser a da violência” (MULLER, 2007, p.244), na procura de apoderar esse homem de sua humanidade e valor.

Outro exemplo que remete a categoria-conceito da prática da não violência, é a conciliação entre tecelões e proprietários de fábricas em Ahmedabad, sobre ajuste salarial e condições de trabalho (GANDHI, 2014). Gandhi propôs organizar ações coletivas de não cooperação entre os operários, assim como formar a ashram à luz da prática da não violência (MULLER, 2007), realizando propostas que solidificaram a irmandade humana em comunidade, num ambiente de cooperação, a partir da aproximação das diferenças entre as relações sociais existentes. A busca por esse valor humano nas relações sociais também fez parte da ideia de direitos humanos nas experiências de luta contra a segregação racial e desigualdade social na autobiografia de Martin Luther King Jr.

Luther King Jr. apropriou-se da prática da não violência (MULLER, 2007), categoria-conceito, de Gandhi para a construção de sua prática cidadã, bem como teve o cuidado em incluir aquele outro, vítima do sistema de segregação além do negro, ou seja, a população branca.

No contexto histórico dos boicotes de ônibus segregados, até o momento em que a lei perecesse e não tivesse mais divisão no transporte, na cidade de Montgomery, no sul dos EUA, transformou-se em “ato popular de não cooperação” (CARSON; LUTHER KING JR., 2014, p.73-75), os manifestantes iam para suas atividades cotidianas na caminhada e via carona. Esse protesto durou 381 dias, até 1956, quando a Suprema Corte dos EUA declarou inconstitucionais as leis segregacionistas nos ônibus. Segundo Luther King Jr. foi essencial esse movimento ter se organizado a partir da tutela do amor (CARSON; LUTHER KING JR., 2014).

Os ideais vividos de ser amor e transutilitário (FROMM, 1956, 1976, 1977), categorias-conceito, configuraram à Luther King Jr. lutar pelos direitos da sociedade negra, manifestando-se não violentamente, ou seja, não cooperando com o sistema discriminatório nos ônibus, depois nas escolas e demais locais públicos. A configuração posterior do movimento corroborou na reivindicação por igualdade social e pelo direito ao voto.

Esse processo de luta por direitos em que o outro se insere numa proposta assertiva para a unidade, promove a dialogia (SENNETT, 2012; RESTREPO, 1998), categoria-conceito, e a alteridade ao componente da cidadania.

O conceito de alteridade abarca o respeito ao diferente na prospecção de sua diversidade ser contemplada (ARRUDA, 2002) e dialogia como a troca de saberes e experiências na busca de uma resolução em comum, acordada e bem-sucedida, a partir de um diálogo em que impere equidade entre as partes (SENNETT, 2012). Nesse processo, valoriza-se a negociação de diferenças (ARRUDA, 2002). Um dos maiores entraves para essa negociação veio da própria cultura ocidental reforçar a ação unilateral do analfabetismo emocional reduzindo a segundo plano à racionalidade humana o direito e a alternativa do afeto (RESTREPO, 1998). Ao mesmo tempo proporcionando ao “público” todos os direitos e legalizações para governar o “íntimo”.

Para Restrepo (1998), deve-se ainda à cultura ocidental o legado de todas as informações referentes ao íntimo, ao subjetivo, estar distanciado do movimento das ações políticas cotidianas, minimizando a compreensão por uma ética cidadã plena, àquela a qual deveria incluir também como se constroem “intimamente” as relações de poder em sociedade (RESTREPO, 1998, p.10). A partir dessa premissa de subjugar o valor das questões referentes à esfera do íntimo e enaltecer tutelando ao “público” o controle, incide a dificuldade das alternativas, como a não violência e a ternura de problematizarem-se como plataformas culturais de direito.

A proposta de cidadania em Luther King Jr. contempla a alteridade na meta de incluir as diferenças e o direito emocional. Esse posicionamento sobre a cidadania é ativo e reconhece nas ações políticas o valor humano da ética do coletivo.

As características de ser ativo fizeram Mandela preferir viver, mesmo no ambiente hostil e torturante da Ilha de Robben (MANDELA, 2012). Na prisão reivindicavam óculos, calças compridas, alimentos iguais, luz para estudo, advertiam sobre injustiças, não importando a dimensão delas. Além disso “[...] lutávamos contra a injustiça para preservar a nossa humanidade” (MANDELA, 2012, p.498).

Em conversas com guardas e outros funcionários do presídio, Mandela descreve o aprendizado no dialogar a partir das referências deles sobre presos políticos. “Ele teria acreditado que éramos terroristas e comunistas que desejam atirar os homens brancos no mar” (MANDELA, 2012, p.514). À medida do desenrolar das conversas, Mandela explicava a ideia não racialista do movimento, da política do CNA, da intenção de direitos iguais e, para alguns, o argumento Nacionalista não fazia mais sentido. A ideia central de Mandela era “desarticular os preconceitos” dos guardas e funcionários (MANDELA, 2012, p.558).

Mandela não abdicou de seus direitos fugindo do conflito necessário, pelo contrário foi via conflito, entre os policiais e autoridades na prisão da Ilha, e posteriormente, com o governo, estabelecendo a possibilidade de um contato entre as partes, com o objetivo de gerar equidade entre eles, no intuito de conceder seus respectivos direitos. Por isso a necessidade do ser ativo à adversidade do outro, mesmo diferente e distante (MULLER, 2007).

A perspectiva da alteridade no desenvolvimento da política pós-apartheid por Nelson Mandela contribuiu para a base democrática no país condizer com a aproximação dialógica (SENNETT, 2012; RESTREPO, 1998), categoria-conceito. O processo de luta e reivindicação cidadã, por direitos humanos (categoria-conceito), sociais, civis, políticos, direito à comunicação (categoria-conceito), direito à liberdade de ação foi subsidiado pela insistência no diálogo entre partes antagônicas, a partir de conflitos por vezes construtivos. Contudo, a busca por essa cidadania caracterizou-se pela liberdade à vida, pela saudação à vida.

Numa atmosfera marcadamente violenta, em que o extermínio era a saída política do governo, Mandela cooperou emancipando o valor da vida no trato de suas negociações permanentes, agindo de forma ativa com o interlocutor: ora o governo, ora os grupos étnicos, ora as milícias, ora seu próprio partido, recuperando o valor central do direito à vida (FROMM, 1956, 1976, 1977).

O significado do homem esperançoso reivindicador à vida não contabilizada pela violência no país, permite credenciar à cidadania a integridade do humano. Para Fromm (1977), o homem esperançoso é ativo e consegue, das realidades, somar alternativa para diferenciar a humanidade dessas condições. Das condições existentes a dialogia e a alteridade pautaram a luta por direitos humanos em Mandela.

Considerações finais

Na trajetória dos ativistas verifica-se apologia à vida criativa, promovendo justiça pelos pares, por meio da luta cidadã, reivindicando direitos humanos e convivência humana tanto ao prezar alteridade aos seus iguais como aos diferentes, na difícil, porém possível, missão de desafiar ideologias as quais se transformaram em estados orgânicos.

As estruturas orgânicas desenvolvem inclusive a identidade de direitos humanos desvinculada da sua função primeira de igualdade e pró-ação ao ser humano. Para o pesquisador da área Gallardo (2014, p.26), vive-se um protótipo artificial de direitos humanos, pois no imaginário social vigora a ideia de “[...] transformar os inimigos em seres que, por sua maldade, não preenchem o conceito de humanidade”. Esse processo sistematicamente organizado de forma ideológica, moral e política justifica guerras e disputas violentas por apresentarem seres humanos perdedores do pódio da vida.

O pesquisador em direitos humanos propõe como saída um trabalho político integrativo entre as maiorias sociais, com a finalidade de diagnosticarem e revalorizarem os direitos. Indica esse processo como sobrevivência humana, do que se entende como humanidade, depende hoje, do fortalecimento desse processo cultural acerca dos direitos humanos.

Explica como as sociedades estão significativamente diluídas em muitas minorias, o desafio é ressemantizar flexibilizando as particularidades das demandas libertadoras para as maiorias (GALLARDO, 2014). Num movimento de articulação para produzir uma nova cultura de direitos humanos, ressaltando: “[...] sensibilidade de reconhecimento, acompanhamento e solidariedade humana. De uma cultura que aposte no risco de assumir o diferente que se empenha em crescer de maneira libertadora, como referência de aprendizagem e humanidade” (GALLARDO, 2014, p.109).

A construção dessa perspectiva de cultura de direitos humanos reflete a uma possibilidade de experiência civilizadora, a qual casa com o cerne de cidadania proposto por Gandhi, Luther King Jr. e Mandela (GALLARDO, 2014).

Um fator importante nessa articulação de uma cultura por direitos humanos é a problematização dialógica entre as singularidades dos grupos sociais representados, para desenvolverem suas demandas de forma construtiva (MULLER, 2007).

No posicionamento da qualidade da informação e expressão do comunicar, Peruzzo (2009, 2013) inclui a atividade comunicativa, propriamente do direito à comunicação, como parte dos direitos humanos. Fundamenta a importância da comunicação como prática propositiva para emancipar o ser, dando-o possibilidades de conhecer mais profundamente seus próprios direitos em sociedade. “[...] A comunicação pode contribuir nos processos de conhecimento, organização e ação com vistas a assegurar o cumprimento de todos os direitos humanos” (PERUZZO, 2013, p.169).

O direito à comunicação foi utilizado por Gandhi na esfera do Congresso na África do Sul e, posteriormente, na Índia; assim como em toda possibilidade de defesa pública, como também foi incorporado à Mandela como ferramenta de discurso político e educação antiapartheid nos ambientes de julgamento e manifestações. Luther King Jr. oportunizou dos espaços religiosos, das marchas, passeatas, entrevistas, declarações e outros o direito à comunicação vigorar como plataforma de reivindicação sobre a prática da não violência e a visão dessegregacionista.

As narrativas analisadas evidenciam a importância histórica em negociar a partir das habilidades da dialogia, da alteridade e do modo ser amor. As travessias dos autobiografados a partir dos compartilhamentos de cidadania e das características de ação à dialogias, reestruturaram direitos humanos mais próximos de seus valores humanos, promovendo a vida em coletivo, no desafio permanente por justiça nas relações sociais.

Ao caminhar para as finalizações, verificaram-se que as experiências e saberes nas autobiografias agregaram conceitos à cidadania, contribuindo a respeito da emancipação do indivíduo, bem como do indivíduo na dinâmica com o coletivo. No movimento das sociedades cada vez mais complexas e diversificadas, pensar em cidadania na ótica dos ativistas é proporcionar luz às formulações sobre dialogia, alteridade, não violência, ser ativo, esperançoso, terno e amoroso, para além das conceituações, é encontrar nessas referências acertos à vida prática e apta à negociação.

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O presente artigo apresenta os resultados simplificados do pós-doutorado em Processos Comunicacionais ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, na Universidade Metodista de São Paulo, sob supervisão da pesquisadora Cicilia M. Krohling Peruzzo.

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O “ser” entre aspas relaciona-se à ideia de Fromm (1957) do ser humano apenas desenvolver o estado de ser amor quando caracterizado ao olhar do modo ser, diferente da visão do modo ter. Na teoria, Fromm (1957) explica o modo ter como aquele limitador das esferas dos sentidos mais amplos e construtivos do ser amor.

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Fonte: https://www.scielo.br/j/interc/a/czCmRwpQzrzjhsKfNHgTTPK/

 

Publicaçao: abril 2019