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10.03.2025

A mulher e o homem são o ponto fraco da exploração...

...cuidamos do corpo regressando à natureza  e à Terra das quais, há séculos, nos havíamos exilado ou afastado...

por Leonardo Boff* no Mangue do Cachoeira

Somos seres complexos, vale dizer, sobre o que representa um sem-número de fatores, materiais, biológicos, energéticos e espirituais. Temos uma aparência com a qual nos fazemos convivemos uns com os outros e pertencemos ao universo dos corpos. Nosso interior é habitado por vigorosas energias positivas e negativas que formam a individualidade psíquica. Somos portadores da dimensão do profundo, assim rondam as questões mais significativas do sentido de nossa passagem por este mundo.
Estas dimensões convivem e interagem permanentemente, uma influenciando a outra e moldam aquilo que chamamos o ser humano.

Tudo em nós tem que ser cuidado, caso contrário perdemos o equilíbrio das forças que nos constroem e acabamos por perder a humanidade interior.
Ao abordar o tema do cuidado do corpo, antes de mais nada, devemos opor-nos conscientemente as duas coisas importantes  que a cultura mantem: por um lado o “corpo”, sem o espírito e por outro o “espírito” sem o corpo. Pensando e vivendo assim, perdemos a unidade da vida humana em corpo e espírito.


A propaganda comercial explora estes dois aspectos, apresentando o corpo não como a totalidade exterior do humano, mas sua parte separada entre corpo e espírito; enfim seus músculos, suas mãos, seus pés, seus olhos, o corpo físico separado do espírito, emocional.
A principal vítima desta verdadeira retaliação são as mulheres, pois o machismo secular se refugiou no mundo da comunicação, da propaganda, do marketing,da imprensa, expondo  partes da mulher, seus seios, seus cabelos, sua boca, seu sexo  e outras partes, continuando a fazer da mulher um “objeto de consumo” de homens machistas. Devemos nos opor firmemente a esta deformação cultural.

Importa tambem rejeitar o “culto do corpo” promovido pelo sem número de academias de ginástica e outras formas de trabalho sobre a dimensão física, como se a mulher-corpo ou o homem-corpo fossem uma máquina destituída de espírito, buscando performances musculares cada vez maiores.

Com isso não queremos desmerecer os exercícios dos vários tipos de ginástica a serviço da saúde e de uma integração maior corpo-mente. Pensamos nas massagens que revigoram o corpo e fazem fluir as energias vitais, particularmente, as ginásticas orientais como o yoga que tanto favorece uma postura meditativa ou emocional da vida. Ou no incentivo à uma alimentação equilibrada e sadia, incluíndo também o jejum, seja como opção voluntária ou seja como forma de equilibrar as energias vitais.

O vestuário ou a roupa que se usa merece consideração especial. Não possui apenas uma função utilitária ao nos proteger das intempéries da natureza ou do ambiente. Ele pertence ao cuidado do corpo, pois o vestuário ou a roupa representam uma linguagem, uma forma de revelar-se no teatro da vida. É importante cuidar  que a roupa seja expressão de um modo de ser e mostre o perfil estético da pessoa mesmo na moda. Especialmente significativo é na mulher, pois ela possui um relação mais íntima com o próprio  corpo e sua aparência.

Nada mais ridículo a demonstração de anemia de espírito, que as belezas construídas à base de botox e de plásticas desnecessárias, enfim da estética artificial, forçada. Sobre este embelezamento artificial está montada toda uma indústria de cosméticos e práticas de emagrecimento em clínicas e SPAs, que dificilmente servem a uma dimensão mais integradora do corpo. Entretanto não há que se invalidar as massagens e os cosméticos importantes para pele e para o justo embelezamento das pessoas.

Mas cabe reconher que há uma beleza própria de cada idade, um charme que nasce da existência feita de luta e trabalho, que deixaram marcas na expressão “corporal” do ser humano. Não há photoshop ou fotografia camuflada que substitua a beleza rude de um rosto de um trabalhador(a), talhado(a) pela dureza da vida e com traços faciais moldados(as) pelo sofrimento. A luta de tantas mulheres trabalhadoras, nas cidades,  no campo e nas fábricas  deixou em seus corpos um outro tipo de beleza, não raro,  com uma expressão de grande força e energia. Falam da vida real e não da artificial e construída. As fotos trabalhadas dos ícones da beleza convencional, são quase todos moldados, por tipos de beleza da moda e mal disfarçam a artificialidade da figura e a vaidade fria que aí se revela.

Tais pessoas são vítimas de uma cultura ou um estilo de viver que não cultiva o cuidado próprio de cada fase da vida, com sua beleza e irradiação do espírito, mas também com as marcas de uma vida vivida que deixou estampada no rosto e no corpo as lutas, os sofrimentos, as superações. Tais marcas criam uma beleza singular e uma irradiação específica, ao invés de engessar as pessoas num tipo de perfil de um passado irrecuperável.

Positivamente, cuidamos do corpo regressando à natureza  e à Terra das quais, há séculos, nos havíamos exilado ou afastado, imbuídos de uma atitude de sinergia e de comunhão com todas as coisas. Isso significa estabelecer uma relação, de amor, de biofilia e de sensibilidade para com os animais, as flores, as plantas, os climas, as paisagens e para com a Terra. Quando esta é mostrada a partir do espaço exterior, com essas belas imagens do globo terrestre, transmitidas pelos grandes telescópios ou pelas naves espaciais, irrompe em nós um sentido de reverência, de respeito e de amor à nossa Grande Mãe, de cujo útero todos viemos.

Ela é pequena, no espaço cósmico já envelhecida, mas irradiante, irreverente, viva.
Talvez o desafio maior para a mulher-corpo ou o homem-corpo consiste em ter um equilíbrio entre a auto-afirmação, sem cair na arrogância e no menosprezo dos outros e entre a integração no todo maior, da família, da comunidade, do grupo de trabalho e da sociedade, sem deixar-se massificar e cair no aceitar sem a mínima noção do que acontece. A busca deste equilíbrio não se resolve uma vez por todas, mas deve ser assumido no dia-a-dia,  pois, ele nos é cobrado a cada momento.

Há que se encontrar o equilíbrio adequado entre as duas forças que nos podem destruir ou fazer viver.

O cuidado em nossa aceitação no estar-no-mundo, envolve nossa dieta: o que comemos e o que bebemos. Fazer do que comemos um ato de nutrição, um rito de celebração e de comunhão com os outros que se alimentam e com os frutos  da generosidade da Terra. Saber escolher os produtos orgânicos ou os que tem menos química. Daí resulta uma vida saudável, que assume o princípio da precaução contra eventuais enfermidades, que podem se originar do ambiente danificado, degradado.

Assim a mulher-corpo ou  o homem-corpo deixam transparecer sua harmonia interior e exterior, como membro da grande comunidade de vida.

Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é autor, também, de 'Proteger a Terra e cuidar da vida: Como escapar do fim do mundo' (Record, Rio de Janeiro, 2011).

Fonte: http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2013/12/09/cuidado-do-corpo-contra-o-culto-do-corpo/

Celular: aplicativos populares estão cheios de rastreadores da Google, Apple, Uber e mais...

“A verdadeira pergunta que deve ser feita às empresas é: o que as motiva a usar múltiplos rastreadores?”

por Yael Grauer para The Intercept Brasil – Globalização e Redes Sociais Usurpadoras

Pesquisadores do Laboratório de Privacidade (Privacy Lab) da Universidade de Yale e da Exodus Privacy, organização francesa sem fins lucrativos, analisaram a proliferação de programas de rastreamento em smartphones e descobriram que aplicativos comuns — como os de clima, os que criam uma luz de lanterna, os de compartilhamento de caronas e até de relacionamento, entre outros — estão infestados de dezenas de rastreadores, que coletam um enorme volume de informações dos usuários para melhor direcionar os anúncios.
Os pesquisadores da Exodus identificaram 44 rastreadores em mais de 300 aplicativos para smartphones com Android, o sistema operacional móvel do Google. Os aplicativos analisados já foram baixados bilhões de vezes. O Laboratório de Privacidade, que faz parte da faculdade de Direito de Yale, está tentando reproduzir os resultados da Exodus e já divulgou relatórios sobre 25 rastreadores.
 
Os pesquisadores da universidade americana só conseguiram analisar aplicativos Android, mas imaginam que muitos desses rastreadores também existam no iOS, uma vez que as empresas costumam distribuir para ambas as plataformas. Para encontrar os scripts de rastreamento, os pesquisadores da Exodus desenvolveram uma plataforma de auditoria customizada para o ecossistema Android, que pesquisou os aplicativos em busca de “assinaturas” digitais extraídas de rastreadores já conhecidos. Uma “assinatura” pode ser um conjunto de palavras-chave sinalizadoras ou uma cadeia de bytes, encontrados num arquivo de aplicativo, ou uma representação matematicamente derivada do próprio arquivo (um “hash”).
Esses resultados reforçam a onipresença das ferramentas de rastreamento, a despeito de um sistema de permissões no Android que deveria dar aos usuários controle sobre seus dados. Eles também destacam como um grupo grande e variado de empresas atua para permitir o rastreamento.
 
“Acho que as pessoas, bem ou mal, se acostumaram à ideia de que o Lyft pode estar rastreando seus dados”, disse Sean O’Brien, pesquisador visitante no laboratório de Yale. “E se acostumaram ao fato de que, se o Lyft está no Android e vem do Google Play, então o Google pode estar fazendo rastreamento também. Mas eu não acho que elas nem imaginam que seus dados estão sendo revendidos ou pelo menos redistribuídos por meio desses outros rastreadores.”
 
Os pesquisadores identificaram, no sistema Android, que os aplicativos de relacionamento Tinder e OkCupid, o app do Weather Channel e o de lanterna Superbright LED Flashlight continham seis ou sete rastreadores cada um. O aplicativo do serviço de música digital Spotify tinha quatro rastreadores, sendo dois do Google; o serviço de transporte Uber, três rastreadores; e eles estavam presentes também no Skype, Lyft, Accuweather e Microsoft Outlook.
 
(Em nota, um representante do Spotify afirmou: “Levamos a sério a segurança de dados e a privacidade. Nosso objetivo é dar aos usuários e aos parceiros anunciantes uma ótima experiência enquanto mantemos a confiança dos consumidores.” Um representante do Uber indicou a The Intercept uma publicação detalhada sobre o uso de cookies pela empresa, que inclui uma lista não exaustiva dos seus provedores de cookies de terceiros. Os usuários que visitam a seção de política de privacidade no site do Uber podem clicar em um link para optar por não permitir [“opt-out”] o acesso dos rastreadores, que aparentemente só se aplica à publicidade baseada em interesses sobre o tráfego web. Essa preferência não funciona se o usuário desabilitar cookies de terceiros, e os usuários precisam optar novamente depois de deletar seus cookies.) 
Alguns aplicativos têm plataformas próprias de análise de tráfego, mas também incluem outros rastreadores em seu código. O Tinder, por exemplo, usa cinco rastreadores além do seu script próprio.
 
“A verdadeira pergunta que deve ser feita às empresas é: o que as motiva a usar múltiplos rastreadores?”, indagou O’Brien.
 
“Os dados são o óleo que faz a máquina funcionar, e acho que eles estão só procurando diferentes formas de extraí-los.” 
Graças ao uso intenso de rastreadores, o Tinder tem conseguido realizar análises de comportamentos de seus usuários. Está sendo paga pela companhia de produtos de barba Gillette para fazer uma pesquisa altamente segmentada: universitários do sexo masculino com pelos faciais bem aparados recebem mais deslizes à direita no Tinder do que aqueles com pelos faciais em desalinho?
 
As funcionalidades dos rastreadores descobertos pela Exodus incluem segmentar usuários com base em dados de terceiros, identificar atividade offline por meio de aprendizagem de máquina, rastrear comportamento em diversos aparelhos, identificar e correlacionar usuários isoladamente, e segmentar também usuários que abandonam carrinhos de compras. A maior parte dos rastreadores funciona derivando um código de identificação do seu dispositivo móvel ou navegador web, que então é compartilhado com terceiros para traçar o seu perfil com maior precisão. Criadores de aplicativos podem até mesmo vincular dados coletados por rastreadores a perfis ou indivíduos, incluindo detalhes de nome e conta. Algumas companhias de rastreamento alegam que anonimizam os dados e que possuem regras rígidas para impedir  o compartilhamento público de informações identificáveis, mas o imenso volume de dados coletados pode permitir a identificação de usuários mesmo com essas precauções.
 
Embora alguns dos aplicativos identificados pelos pesquisadores (se não todos) em tese divulguem o uso de rastreadores nas letras miúdas de suas políticas de privacidade, termos de serviço ou descrições de aplicativo, é no mínimo difícil para usuários de smartphones ter uma noção clara da extensão e da natureza do monitoramento que sofrem. Até porque, no fim das contas, o objetivo de usar um aplicativo móvel normalmente é economizar tempo.
“Quantas pessoas sequer sabem que esses rastreadores estão lá?” disse Michael Kwet, outro pesquisador visitante no Laboratório de Privacidade de Yale. “A Exodus precisou desenvolver um programa só para detectar que eles existiam.”
 
Alguns rastreadores oferecem aos usuários a possibilidade de optar, por e-mail ou pelas configurações de privacidade, por não permitir o rastreamento. A função, no entanto, pode voltar a operar mesmo depois que essa medida seja tomada. Um determinado aplicativo, por exemplo, exige que os usuários que esvaziam a memória cache façam a opção novamente. Algumas opções são temporárias. E mesmo quando são permanentes, poucos usuários sequer sabem como ativá-las.
 
O poder dos rastreadores
 
O Google tem um interesse próprio em permitir o livre uso dos rastreadores nos aplicativos distribuídos pelo Google Play: um dos rastreadores mais difundidos é desenvolvido por sua plataforma de publicidade Double Click, que direciona os anúncios para os usuários por localização e em diferentes dispositivos e canais; segmenta usuários com base em seu comportamento online;  vincula isso a informações pessoalmente identificáveis; e oferece compartilhamento de dados e integração com vários sistemas de publicidade. É possível encontrar o rastreador da DoubleClick em vários aplicativos populares, incluindo Tinder, OkCupid, Lyft, Uber, Spotify, Weather Channel e Accuweater, e até mesmo nos aplicativos de lanterna Superbright LED e LED Light.
 
Um representante do Google confirmou que suas plataformas de publicidade DoubleClick for Publishers e AdMod veiculam anúncios em dispositivos Android e iOS, e que as informações coletadas pelas redes são vinculadas a um identificador permanente para mensurar o engajamento dos usuários. Embora os usuários possam controlar as informações que o Google usa para exibir anúncios, não podem especificamente optar por não permitir o DoubleClick.
O DoubleClick proíbe aos vendedores compartilhar informações pessoalmente identificáveis ou outros identificadores únicos. Afirma que só armazena dados gerais de localização como cidade e código postal, a não ser que os usuários habilitem o histórico de localização na conta Google. Desenvolvedores de aplicativos que usam o DoubleClick Ad Exchange devem divulgar em suas políticas de privacidade que o identificador do usuário será compartilhado, salvo se o usuário optar por não permitir o rastreamento de publicidade, e devem também explicar ao usuário como redefinir seu identificador. O Google compartilha dados de atribuição com anunciantes e parceiros de mensuração por meio do uso desses identificadores.
 
Talvez o rastreador mais invasivo seja o Fidzup, uma plataforma de marketing de performance para lojas físicas de varejo sediada na França. A empresa afirma em sua seção publicitária ter desenvolvido um meio de comunicação entre um emissor sônico e um aparelho móvel (iOS ou Android) ao emitir um tom inaudível para localizar um usuário em um shopping center ou uma loja. Os telefones dos usuários recebem o sinal e o decodificam para revelar sua localização. A empresa também usa geofencing [“cercamento virtual”] para rastrear usuários de uma “área de captação” específica, como uma determinada seção de uma loja, onde ela pode então veicular anúncios direcionados, possivelmente de uma loja concorrente.
Mathieu Vaas, representante da Fidzup, disse que a empresa não usa os tons inaudíveis há dois anos; em vez disso, está usando uma tecnologia baseada em WiFi para obter dados sobre o comportamento dos consumidores em lojas, de forma a permitir redirecionar os anúncios para atingi-los. As informações sobre a tecnologia sônica, no entanto, estão publicadas no site da Fidzup (acessado em 21 de novembro), e há maiores detalhes numa versão mais antiga do site, acessada em 15 de outubro. Vaas declarou que essas páginas estão desatualizadas e são inacessíveis a partir da página principal, e que serão removidas no novo site que está em desenvolvimento.
Ele também confirmou que, mesmo usando apenas tecnologia WiFi, a Fidzup consegue rastrear comportamentos altamente específicos dentro das lojas, tais como os corredores que foram visitados, o tempo gasto em cada um deles, o número de visitas à loja, entre outros. A Fidzup também consegue potencializar outros aplicativos para obter dados de geolocalização, mas os únicos terceiros que recebem esses dados são os comerciantes que tenham instalado a tecnologia WiFi da empresa em suas lojas, e os dados só estão relacionados ao comportamento dentro de cada loja.  Vaas posteriormente declarou que a Fidzup não compartilha informações com terceiros.
“Em cada loja onde estamos presentes, informamos ao público sobre a presença de tecnologia de coleta de dados na loja e informamos que podem desligar seu WiFi, e também fornecemos um link que permite fazer o opt-out permanente do Fidzup. Nesse caso, os dados serão reconhecidos e apagados automaticamente, e não receberão mais anúncios direcionados da Fidzup”, disse ele por e-mail.
 
Embora sediada na França, a empresa tem escritórios em São Francisco, e Vaas disse que há planos para começar a efetivamente operar nos EUA em breve. Segundo ele, por ser francesa, a Fidzup está sujeita a normas e regulamentos mais rígidos de privacidade do que nos EUA, e eles planejam manter esses padrões em território norte-americano, uma vez que respeitam “profundamente os direitos dos consumidores à privacidade e às liberdades civis”.
O’Brien e Kwet não ficaram muito impressionados pelo compromisso de privacidade da empresa. Para eles, “as práticas da Fidzup espelham as da Teemo (antes conhecida como Databerries), a empresa de rastreamento que se envolveu em um escândalo no começo do ano por estudar a geolocalização de 10 milhões de cidadãos franceses“. A Teemo coletou dados de navegação de usuários de dispositivos móveis e os utilizou para aumentar as vendas das lojas, segmentando os usuários com base nos locais que eles haviam visitado. Seu site afirma que eles podem coletar dados de localização usando GPS, torres de celular, pontos de acesso WiFi, redes sem fio, e sensores como giroscópios, acelerômetros, bússolas e barômetros. Além de coletar endereços IP e identificadores atribuídos a dispositivos móveis, o rastreador pode obter informações de terceiros e combiná-las com as que se encontram em seu poder, e também compartilhar suas informações com terceiros (com algumas restrições). Como também acontece com a Fidzup, não está claro até que ponto a Teemo opera nos EUA. Embora seja uma empresa francesa sediada em Paris, ela tem um escritório em Nova York. A Teemo não se manifestou quando questionada sobre o assunto.
 
Escalada da vigilância
 
Nem todos os rastreadores são tão invasivos, embora muitos capturem mais informação do que em tese deveriam. O Crashlytics do Google, por exemplo, é em princípio apenas um notificador de falhas, mas na prática faz muito mais do que simplesmente analisar os relatórios de erro. Tinder, OKCupid, Spotify, Uber, Superbright LED e LED Light usam o Crashlytics, que também consegue vincular usuários através de múltiplos cookies e dispositivos. Já o HockeyApp, da Microsoft, usado pelos aplicativos Microsoft Outlook, Skype e Weather Channel, vai além de simplesmente coletar e analisar relatórios de falhas. Ele consegue rastrear também os usuários ativos diariamente e mensalmente, o número líquido de novos usuários e as contagens de sessões. O AppFlyer (usado pelos aplicativos Tinder, Superbright LED e Weather Channel) faz prevenção de fraudes e protege contra malwares, mas também identifica dispositivos por seus IDsrastreia usuários em diferentes conjuntos de dados para contornar a fragmentação causada pelo uso de dispositivos diversos pelos usuários, e rastreia quais usuários instalam quais aplicativos. Um representante do AppsFlyer encaminhou a The Intercept a política de privacidade da empresa, e declarou que o rastreador só funciona com negócios e anunciantes, sem se envolver com usuários finais. Seus termos e condições também exigem que os clientes divulguem a coleta e o uso de dados em suas próprias políticas de privacidade.
 
Além de DoubleClick, Teemo e Fidzup, Braze (antes chamado App-Boy) e Salesforce DMP (antes chamado Krux) parecem coletar grandes volumes de dados. O Braze, usado pelos aplicativos OKCupid e Lyft, consegue rastrear os usuários por local, segmentá-los em diferentes dispositivos e canais, e veicular publicidade direcionada com base nas ações dos consumidores. Já o Salesforce DMP, usado pelo OKCupid, não apenas captura os cliques, downloads e outras interações dos usuários, mas também usa gerenciamento fragmentado de dispositivos (“hashed device management”) para contornar o bloqueio do navegador Safari a cookies de terceiros. O rastreador permite aos vendedores utilizar aprendizagem de máquina para revelar personas, usa uma ID entre diferentes dispositivos. Faz até mesmo uso de análise de comportamentos para adivinhar quando um usuário está dormindo e de um algoritmo de combinação probabilística para fazer correspondência de identidades entre dispositivos. Há uma opção para excluir permissões no site do Salesforce, embora não esteja claro qual proporção de usuários do OKCupid sequer tem consciência de que o site de relacionamentos está permeado pelo rastreador, muito menos de que deveria optar por não permitir esse acesso. O OkCupid não se manifestou quando questionado sobre o assunto.
 
E quem poderia imaginar que os aplicativos de clima, tão populares, incluem funcionalidades de vigilância? Tanto o Accuweather como o Weather Channel (e também o Spotify) usam o rastreador ScoreCardResearch, que também consegue rastrear dados de utilização, inclusive informações sobre navegação web e comportamento de uso de aplicativos ao longo do tempo e entre diferentes propriedade online, e possíveis relações entre navegadores e dispositivos — que podem ser fornecidas a terceiros para fins publicitáriosO rastreador pode inclusive usar provedores de serviço de terceiros para obter mais informações não pessoalmente identificáveis para incluir em seus perfis únicos por meio de cookies.
O rastreador Millennial Media (antes chamado Nexage) é usado pelo Accuweather e pelo Super Bright LED para “automatizar a compra e a venda de publicidade para dispositivos móveis” segmentada por canal e características demográficas, como no caso de uma empresa de shampoo direcionando anúncios para “mulheres com idades entre 25 e 55 anos, com ênfase em […] gravidez, estresse e coloração/descoloração“.
 
Microsoft Outlook, Weather Channel, Superbright LED e LED Light também usam o Flurry, uma plataforma de publicidade em dispositivos móveis que foi comprada do Yahoo! pela Oath, subsidiária da Verizon. O Flurry rastreia as métricas de performance de dispositivos e aplicativos, analisa as interações dos usuários, identifica seus interesses, armazena perfis de dados como personas, agrupa e correlaciona dados de usuários e injeta anúncios, inclusive de vídeo. Um representante da Oath informou que os termos de serviço do Flurry exigem que os desenvolvedores de aplicativos divulguem uma política de privacidade notificando sobre os dados que são coletados, armazenados e compartilhados, e providenciando um link para a política de privacidade do Flurry ou descrevendo a possibilidade de optar por não permitir o acesso. Além disso, o representante disse que apenas informações que não sejam pessoalmente identificáveis podem sair do sistema do Flurry.
Um outro rastreador, Tune, segue o comportamento online e offline dos usuários de compartilhamento de caronas em diferentes dispositivos e também rastreia o comportamento de usuários dentro dos aplicativos, identifica usuários de forma específica e rastreia sua localização.
O rastreador AppNexus, usado pelo Superbright LED, entre outros aplicativos, usa aprendizagem de máquina para fazer publicidade direcionada. Por telefone, o representante do AppNexus Joshua Zeitz confirmou que o rastreador coleta identificadores de publicidade de dispositivos móveis, tipos de telefone, endereços IP, e um identificador de aplicativo específico. A empresa armazena os identificadores de publicidade de dispositivos móveis e também os cookies dos usuários web, mas Zeitz diz que os dados sobre quais anúncios foram veiculados para quais identificadores são mantidos por apenas 33 dias; que o rastreador não coleta nomes, números de telefone ou números de conta; que são mantidos indefinidamente apenas os identificadores de dispositivo e de navegador e os cookies; e que ele não consegue desfazer o anonimato dos usuários a partir do seu conjunto de dados. A AppNexus declarou que não compartilha os identificadores de dispositivo e de navegador com terceiros.
 
O’Brien esclareceu que os desenvolvedores de aplicativos podem escolher que tipo de publicidade adotar, mas que é pouco provável que os usuários tenham essas decisões em mente ao instalar os aplicativos. Ele também não acha que as permissões sejam a solução. “Se você chegou ao ponto de ter que perguntar à vítima quanto de rastreamento ela autoriza, você já foi longe demais. Já é um problema”, ele disse.
Sem uma completa revisão desse sistema de publicidade dos telefones, O’Brien considera que a melhor alternativa seja usar o repositório de software F-Droid, que distribui apenas programas gratuitos e de código aberto que não incluam rastreadores ou códigos desconhecidos ou disfarçados.
 
Tradução: Deborah Leão
 
Fonte: https://theintercept.com/2017/12/04/aplicativos-populares-para-celular-estao-cheios-de-rastreadores/

10.01.2025

Povos tradicionais e bio-diversidade no Brasil ainda existe e tem pesquisa publicada e de livre acesso

Contribuições dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a bio-diversidade, políticas e ameaças 
 
Fonte: https://portal.sbpcnet.org.br/publicacoes/povos-tradicionais-e-biodiversidade-no-brasil/

9.26.2025

Brasil: Os Ricos Roubaram a Democracia

Democracia moderna: blindagem, anistia e o assalto ao princípio democrático

Não sei o que as próximas noites nos reservam nas decisões da Câmara Federal Brasileira, mas os deputados federais desta legislatura parecem ter um apego especial pela “ausência de luz”

Fonte na internet:  ‘depositphotos’. Dois deputados em uma moto: blindagem, anistia e o assalto ao princípio democrático

por Gustavo Livio no GGN – Sociedade e Estímulos a Continuidade da Vida na Terra

Na calada da noite do dia 16 de setembro de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou a chamada PEC da Blindagem, que condiciona a abertura de processo criminal contra um parlamentar à autorização de sua casa legislativa. Se um deputado federal porventura assaltar alguém em cima de uma moto ou desviar bilhões em esquemas de orçamento secreto (e essa é apenas uma hipótese), só poderá ser processado criminalmente se houver autorização de seus colegas da Câmara dos Deputados no Brasil. 

E na calada da noite do dia seguinte (17 de setembro), a Câmara dos Deputados empilhou mais uma atrocidade: aprovou urgência para a votação de um projeto de lei de anistia para os condenados pela tentativa de golpe de estado ocorrida em 08 de janeiro de 2023.

Não sei o que as próximas noites nos reservam, mas os deputados federais desta legislatura parecem ter um apego especial pela ‘ausência de luz’, para ser bem sutil em minha crítica. Os horários das votações e os orçamentos secretos que o digam. Mas se a fotofobia é uma epidemia generalizada que se instaurou nas casas legislativas brasileiras (nos níveis federal, estadual e municipal), tratemos de lançar luz sobre alguns pontos.

Em primeiro lugar, as duas propostas são flagrantemente inconstitucionais.

A PEC da blindagem atenta contra a divisão de poderes e impõe barreiras desarrazoadas, que na prática garantem a impunidade de parlamentares. E para quem duvida disso, trago à luz um fato histórico. Quero lembrar aos des-memoriados que este mesmo regime de blindagem já esteve em vigor no Brasil entre 1998 e 2001, período em que a abertura de processo criminal contra parlamentares também dependia da aprovação das respectivas casas (Câmara e Senado). Como era esperado, o corporativismo parlamentar impediu a tramitação de quase todos os processos criminais que o Ministério Público tentava mover contra os congressistas. Nesse noturno período, foram 253 pedidos de abertura de processo criminal embarreirados e apenas em uma oportunidade a autorização foi concedida. O placar é esse mesmo: 253 a 1. Reparem que o número é bastante expressivo. 254 processos criminais contra parlamentares em 4 anos. A média é de aproximadamente 60 casos de impunidade por ano. E ainda querem fazer crer que a lei penal é para todos.

A solitária exceção foi a autorização concedida no caso do deputado federal Jabes Rabelo (PTB-RO), acusado de receptação por comprar um veículo roubado. Nos outros 253 casos, a autorização foi rejeitada pela complacência dos colegas de legislatura. Destaco apenas alguns exemplos, como o caso do ex-deputado federal Hildebrando Pascoal, acusado de liderar um grupo de extermínio no Acre e que teve o pedido de abertura de processo criminal engavetado. Outro caso famoso foi o do então deputado federal Nobel Moura, acusado de tentativa de homicídio contra um caminhoneiro. Para fechar a lista exemplificativa, no ano 2000, o STF pediu autorização para processar criminalmente o senador Luiz Estevão por desvio de verba pública na construção do prédio do TRT em São Paulo. Em todos esses casos, o regime de blindagem garantiu a impunidade dos parlamentares.

A anistia por crimes que atentam contra a democracia também é flagrantemente in-constitucional. A fundamentação é um tanto óbvia: o Estado de direito e a democracia são princípios fundamentais de organização do Estado brasileiro e qualquer a-tentado contra estes pilares não pode passar em branco. O laboratório da história brasileira exige que não devemos repetir a receita da impunidade dos bárbaros crimes cometidos durante a ditadura empresarial-militar de 1964-85. Não repitamos o erro. A anistia para atentados contra a democracia é uma escatologia jurídica e o STF tem precedentes neste sentido.

As duas propostas provavelmente não serão aprovadas. Não porque são in-constitucionais, isso não é problema nenhum para a maioria dos parlamentares. Elas não devem ser aprovadas porque a repercussão na mídia e nas redes sociais foi muito negativa. A repercussão é um holofote que ilumina tudo aquilo que os deputados querem que permaneça nas sombras. Atrai a atenção da mídia, do Ministério Público e do Judiciário e cria um sentimento de desgaste que prejudica a renovação da legislatura. E esse é o ponto que gostaria de me aprofundar no que toca às chamadas “crises da democracia”.

A crise democrática global ou a crise das democracias

Que as instituições da democracia burguesa (feita para os ricos) não representam de fato os interesses do povo, isso é um tanto óbvio para qualquer um que dedique vinte minutos para ler as manchetes dos jornais. O ponto não-óbvio é a inter-relação entre o modo de produção capitalista (a base econômica da sociedade) e as instituições político-estatais que lhe suportam. O capitalismo, tal como o Rei Midas (mitologia grega), transforma em mercadoria tudo o que toca. Com isso, a superestrutura que lhe suporta (dentre elas, as instituições do Estado) também passa a ser regida pela lógica da concorrência mercantil. É o princípio da concorrência, não o do bem comum ou do interesse público. Esta forma de administração publica que rege o sistema político nos países de democracia formal-burguesa, pois é este o princípio que regula a Economia e estrutura a sociedade. Como resultado, formou-se um “mercado eleitoral” que disputa a atenção dos eleitores em troca de voto. Este mercado desvirtua os canais reais de representação e impõe a institucionalidade política para o resto da população.

Essa é, inclusive, uma questão histórica. A ontologia genética das democracias modernas (primeiramente implantada na Grécia aristotiliana) demonstra que elas não foram implementadas para instituir governos populares, longe disso. Na verdade, o objetivo era delimitar o poder político à classe ascendente, à classe de proprietários. Sobre os EUA, basta ler os Federalistas para identificar que a representação política foi idealizada porque os “pais fundadores gregos” acreditavam que os interesses da nação estariam mais bem garantidos se ficassem apenas nas mãos dos proprietários escravocratas. O argumento era que a virtude política se identificava com a propriedade. A representação não foi idealizada somente em função da complexidade das sociedades modernas, mas porque se trata de um mecanismo eficaz de manutenção do poder econômico das classes dominantes. Não à toa, a democracia moderna começa sua jornada histórica com o voto censitário (permitido somente a algumas castas) e assim permaneceu durante muito tempo, até que o sufrágio universal, depois de muita luta, fosse conquistado.

Mas o sufrágio universal não garantiu que a política passasse a ser regida pelo bem comum ou pelo interesse do povo. A democracia burguesa não ultrapassa seu aspecto formal, porque a igualdade formal-jurídica que lhe serve de fundamento, pouco interfere nas nítidas des-igualdades sócio-econômicas, criadas e mantidas pela estrutura econômica capitalista. Se democracia, dentre outros elementos, é determinada como um princípio de socialização do poder político em direção ao bem comum, então temos aqui uma contradição insuperável: se o capitalismo, enquanto estrutura econômico-produtiva funciona como uma máquina de desigualdades sociais, regida por leis gerais de concentração de riqueza e se a concentração do poder econômico engendra a concentração do poder político, então é claro que aquela ideia de socialização do poder típica de um regime materialmente democrático, não passará de um sonho. Enquanto o princípio democrático em sentido material demanda socialização do poder político e busca pelo bem comum, a estrutura econômica capitalista direciona seus circuitos no sentido oposto, no sentido da centralização.

A lei geral de concentração capitalista (descrita por Max em O Capital) é a doença que contamina todo o sistema político, pois a burguesia continua com poder econômico, para garantir que seus interesses dominem o modo geral de pensar. Ela pode financiar pensadores e universidades, pagar lobistas e advogados e contratar espaços publicitários dizendo que o “Agro é pop”. É por isso que surgem as famosas “bancadas”, como as do boi, da bala e da bíblia (a explosão de igrejas neopentecostais também é um exemplo de como as instâncias sociais são capturadas pela forma-mercadoria-capital), com advogados e lobistas que dia sim e dia também ocupam os corredores do Congresso e dos tribunais para zelar pelos interesses dos grupos econômicos que lhes contratam.

O próximo des-dobramento dessa doença na arena política – e é este o ponto que interessa agora – é a criação de castas parlamentares relativamente distantes dos interesses gerais do povo. Digo relativamente por que os círculos da burguesia, é claro, continuam com livre acesso às autoridades políticas brasileiras, faculdade que, é claro, não é estendida à massa da população (muito menos aos movimentos sociais). Estas castas passam então a trabalhar também para o próprio interesse, como se as instituições fossem finalidades auto-rreferenciadas. Fins em si mesmos e não instâncias deliberativas a serviço do interesse público. O terreno oculto da produção legislativa, as negociatas, a troca de favores e o “toma lá, dá cá” de projetos, tudo isso cria um campo no qual a classe política escapa das relações reais de representação e passa a atuar em causa própria. E para esse propósito, a ‘ausência de luz’ é decisiva para a continuidade dos circuitos da corrupção parlamentar. E por corrupção parlamentar quero me referir à prática de atuação legislativa em causa própria como antí-tese ao princípio democrático de socialização do poder político, em direção ao bem comum e ao interesse público.

Não é à toa que existe grande déficit no sentimento representativo da população. Há verdade neste sentimento de revolta; não há representação real entre os interesses dos eleitores e o dos políticos eleitos. E este é um fenômeno mundial do que tem se convencionado chamar de “crise das democracias”. Embora o termo seja pouco elucidativo, fato é que o modelo de democracia formal-burguesa, com seus movimentos de conquistas e retrocessos, não se provou capaz de garantir uma identidade aproximada entre representantes e representados. E a grande questão é que esse próprio modelo formal de democracia, erguido sob uma estrutura capitalista (e em especial, nos países periféricos de capitalismo dependente), engendra as contradições que colocam em risco sua própria existência.

Uma das explicações para isso reside justamente na formação de um “mercado político-eleitoral” no qual os parlamentares e candidatos disputam a atenção dos eleitores com chavões genéricos e promessas vazias. O Rei Midas, que transformava tudo o que tocava em ouro, sofria na verdade de uma maldição; pois não conseguia abraçar sua filha ou se alimentar sem que o objeto do seu toque se transformasse em ouro e a ganância devorasse sua existência. Da mesma forma, o capitalismo universaliza a forma-mercadoria-capital e transforma tudo ou organiza em uma instância mercadológica regida pelo espírito da concorrência.

A política eleitoral foi transformada em um mercado.

A maldição que lhe segue, neste ponto específico, é o difundido sentimento da anti-política, que deságua em formações fascistóides que direcionam sua revolta de forma abstrata e genérica “contra tudo isso que está aí”. Incapazes de lançar luz adequadamente sobre o problema, personificam seu ódio contra minorias, inventam falsos problemas, denominam tudo de “comunismo” e lutam contra moinhos de vento. E esse é o grande perigo, pois embora insuficiente, a democracia formal é indispensável. Precisa ser aprofundada, não descartada. O ponto a ser destacado é que a democracia liberal-burguesa, entremeada por espaços de desvirtuamento do interesse público e incapaz de garantir espaços reais de representação popular, engendra as contradições que colocam sua própria existência em risco. E aqui me refiro especialmente aos movimentos neo-fascistas que tentaram deslegitimar o resultado das eleições de 2022 e dar um golpe de estado no dia 08 de janeiro de 2023. São esses mesmos movimentos que esfarelam a democracia em cima de uma moto.

Ao lado do confuso movimento da anti-política, há outro sentimento igualmente perigoso: o da des-politização, o desinteresse pela política. Lima Barreto disse certa vez que “o Brasil não tem povo, tem público. Povo luta por seus direitos, público só assiste de camarote (ou na arquibancada)”. Eu trocaria apenas o termo “camarote” (o povo brasileiro em geral não tem condições financeiras para isso), mas fato é que a des-mobilização política do povo guarda conexão com a desilusão verdadeira e real com os caminhos da política institucional.

São movimentos corporativistas como estes, de flagrante tentativa de garantia de impunidade, que alimentam os sentimentos de anti-política que ameaçam a frágil democracia formal que nos resta. O assalto ao interesse público é a chave do sentimento de aversão à política que domina a população brasileira.

Brinquei com o título, mas a verdade é que dois homens em uma moto, dois parlamentares em uma moto… o sentimento geral é de que “ninguém presta na política”, de que “lá só tem ladrão”. Tenho certeza de que o leitor e a leitora já ouviram essa frase. É claro que temos parlamentares sérios, mas o senso comum de déficit representativo é real, essas pessoas não estão de todo erradas. São movimentos de blindagem como esse que alimentam as rodadas de descrédito na política institucional. A degeneração ética da política parlamentar coloca as condições de sua própria destruição, ao mesmo tempo em que cria a necessidade de maiores e mais amplas blindagens. E com isso se cria um circuito perigoso, errático e incerto que sequer tangencia a raiz do problema: a própria forma liberal-burguesa da democracia formal e o sistema capitalista como um todo.

Opinião do Coletivo Transforma MP

Coletivo Transforma MP    - o coletivo reúne promotores e procuradores de todas as esferas do Ministério Público brasileiro, além de apoiar diversos movimentos sociais. O Coletivo Transforma MP é uma associação de membros de todas as esferas do Ministério Público, sendo os MPs estaduais, MPF e MPT, inclinados ao campo progressista, que visa proteger os direitos humanos e as garantias constitucionais do povo brasileiro.

*Gustavo Livio – doutorando pela PUC-Rio. Mestre pela UFRJ com pesquisa em Direito e Economia. Promotor de Justiça do MPRJ. Integrante do coletivo Transforma MP. Ex-Defensor Público do Estado da Bahia.

Publicado no GGN: 19 de setembro de 2025

Fonte: https://jornalggn.com.br/opiniao/dois-deputados-em-uma-moto-blindagem-anistia-e-o-assalto-ao-principio-democratico-por-gustavo-livio/

 

9.23.2025

O risco para a vida devido à falta de diversidade na alimentação, agricultura e criação de animais

Ameaça à segurança alimentar hoje é o excesso, não a escassez

A segurança alimentar do século 21 está na abundância da vida e não no excesso daquilo que a destrói

por Ricardo Abramovay* na Folha de São Paulo – Sociedade e a luta para manter a vida no planeta

Colheita do milho pelo agro

COP30, em novembro próximo, é uma excelente oportunidade para que se re-defina a segurança alimentar, até aqui sistematicamente associada a produzir cada vez mais.

No entanto, as conquistas científicas e os dispositivos tecnológicos, que foram fundamentais para o aumento das safras e a drástica redução da fome na segunda metade do século 20, se converteram hoje na mais importante ameaça à segurança alimentar global. O que nos ameaça não é a mais a escassez. É o excesso.

sistema agroalimentar global é marcado por uma tríplice separação: a agricultura separou-se da bio-diversidade; as “factory farmings” (“pecuária industrial”) separaram os animais de criação das fontes de sua alimentação e a alimentação se separou da saúde. Esta tríplice separação se exprime, por sua vez, numa tríplice monotonia (falta de diversidade).

A primeira monotonia (falta de diversidade) é a da agricultura. A humanidade conhece mais de 7.000 produtos comestíveis, dos quais 400 são cultiváveis. No entanto, 75% de nossa alimentação vêm de apenas seis produtos: soja, milho, trigo, cana-de-açúcar, arroz e batata. E esses produtos são obtidos com base em técnicas que transformaram micro-organismos, insetos, fungos —e, de forma geral, a bio-diversidade— em inimigos a serem eliminados por meio de técnicas que fazem do combate à vida a base do aumento da produtividade. Esta é a dupla face da monotonia (falta de diversidade) agrícola e do excesso que a caracteriza: ela se revela nos produtos e nas técnicas para obtê-los.

A segunda monotonia (falta de diversidade) vem da homogeneidade das raças e das técnicas utilizadas na criação de animais, num regime que tortura sistematicamente seres dotados de inteligência e sensibilidade com consequências desastrosas sobre a saúde humana, expressas no avanço da resistência anti-microbiana, uma das mais sérias preocupações atuais da Organização Mundial da Saúde, em função das chamadas “super-bactérias”.

E a terceira monotonia (falta de diversidade) é a da alimentação, com a oferta crescente de ultra-processados, produtos que nem deveriam ser chamados de comida. O escritor norte-americano Wendell Berry o exprime de forma emblemática, quando diz que a indústria alimentar não se preocupa com a saúde e a indústria da saúde não se preocupa com os alimentos.

Essa tríplice monotonia (falta de diversidade) está sendo cada vez mais contestada, não apenas por cientistas e ativistas, mas pelo Banco Mundial, pelo Grupo Consultivo em Pesquisa Agrícola Internacional e mesmo por organizações como o Fórum Econômico Mundial e o grupo financeiro Mitsubishi, sétimo maior grupo financeiro global que acaba de publicar um relatório alertando para os perigos dos ultra-processados e do uso de anti-bióticos na produção animal.

A boa notícia vem da América Latina: é aqui que estão emergindo as bases científicas que vão permitir ultrapassar os dispositivos da Revolução Verde, por meio de um conjunto de bio-insumos dos quais Brasil, Argentina e Colômbia ocupam hoje a vanguarda global.

Além disso, os próprios fazendeiros nas regiões produtoras de soja, no Brasil, começam a contestar sua dependência de insumos químicos que erodem seus solos e corroem seus rendimentos.

O sistema agro-alimentar é apenas um exemplo daquilo que, de forma geral, podemos chamar de economia do excesso. Não se trata de se opor ao crescimento econômico, mas sim ao crescimento daquilo que compromete o bem-estar das sociedades contemporâneas, promovendo o que melhora a vida social e rejeitando o que agride a saúde humana, o bem-estar animal e compromete serviços ecossistêmicos dos quais todos dependemos. A segurança alimentar do século 21 está na abundância da vida e não no excesso daquilo que a destrói.

*Ricardo Abramovay é autor de Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia e Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, além de outras contribuições em artigos e prefácios.

Publicado na Elefante: 18 de setembro de 2025

Fonte: https://editoraelefante.com.br/ameaca-a-seguranca-alimentar-hoje-e-o-excesso-nao-a-escassez/