(A senadora e líder ruralista Katia Abreu ao receber o prêmio Motosserra de Ouro do Greenpeace)
Ainda intrigada com a enquete do blog (“
Qual o papel social dos ruralistas?”;
veja ao lado), pedi ao amigo economista José Carlos Peliano para tentar
responder se é mito ou realidade essa história de que os ruralistas são
“fundamentais” para equilibrar a balança comercial. E sabem o que
descobri? Que ninguém se interessou em calcular se, tirando os subsídios
governamentais que recebem, os números se manteriam os mesmos. Ou se
este é um caminho equivocado que o Brasil tomou muito tempo atrás e
continua assim, até por inércia do governo.
Um artigo publicado no
Le Monde Diplomatique três anos atrás
também questionou a “verdade absoluta” da importância do agronegócio. O
professor Sergio Sauer, da UnB, critica os sucessivos alongamentos de
prazo das dívidas dos ruralistas e ainda as renúncias fiscais e isenções
de impostos que os beneficiam. “Dados da Receita Federal demonstram que
a União deixou de recolher mais de R$ 37,8 bilhões desde 2003; a
estimativa é de uma renúncia de R$ 8,85 bilhões só em 2010″, escreveu
Sauer. “Outro aspecto que deve ser contabilizado como renúncia fiscal é a
total ineficiência histórica na cobrança de tributos territoriais”.
Isso para quem domina a maioria das terras no Brasil! Imaginem a moleza.
“Diante desses números, a concordância com a ênfase na contribuição do
agronegócio deve ser, no mínimo, relativizada”, adverte o
professor .
Para Peliano, o mais absurdo é estas contas nunca terem sido feitas
de forma independente, ao contrário do que acontece com programas
sociais como o Bolsa Família, sempre alvos do escrutínio midiático.
Aceita-se que os ruralistas são necessários e pronto. Quem aponta este
modelo como arcaico, da época dos coronéis, é que fica como
“intolerante”. Em vez de se situar de forma veemente ao lado dos índios e
dos sem-terra nessa briga, o PT cede no Congresso a essa gente que
pouco ou nada faz de verdade pelo Brasil.
***
Por José Carlos Peliano*
Aquele dito popular “quanto mais mexe, mais fede” cabe para responder
à pergunta: “qual o papel dos ruralistas?”. Outro que fica bem é: “não
sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. (Os ruralistas em sua
grande maioria são tanto os parlamentares que são empresários na área
rural quanto os empresários que os elegem). Ditos que dizem pouco e que
dizem muito sobre o que fazem os ruralistas para o país, afora elegerem
representantes no Congresso Nacional em números expressivos, indicarem
ministros para pastas estratégicas, especialmente agricultura,
conseguirem isenções e estímulos fiscais e até perdão de dívidas com
bancos e órgãos públicos.
Errado isto? Absolutamente, não fosse a dúvida imediata: quanto valem
todo esse movimento e esforço político? Foi feito algum dia o simples
exercício de calcular os custos totais que esses benefícios acarretam ao
caixa público menos as receitas que as iniciativas apadrinhadas trazem
para a sociedade brasileira? Se positivo ou negativo o resultado e o
tamanho alcançado, é um trabalho considerável a ser empreendido diante
das ramificações das iniciativas e atividades do grupo. Sem falar dos
lançamentos imponderáveis patrocinados pelos auxiliares diretos e
associados que perambulam pelas instituições públicas, bancárias e
representativas em busca de apoio, garantia, sustentação e recursos.
O que vem sempre à tona, em geral pela grande imprensa, sobre o lado
positivo, são as extensões das terras agrícolas cultivadas, os volumes
das safras anuais –algumas ditas recordes–, o montante de recursos
dispensados pelo governo para financiamento da produção, a abertura de
novos mercados no exterior, e os tipos e totais de investimentos em
mecanização moderna no campo. Do lado negativo, entre outros, as
intempéries climáticas que prejudicam as plantações e as colheitas, as
notificações das pragas esporádicas ou endêmicas, as quedas de preços
das
commodities no mercado internacional, os impactos inflacionários de insumos e juros.
Mas e a conta? Alguém já fez? Engraçado que há contas e cobranças
feitas em relação aos programas populares tipo Bolsa Família, Prouni e
Minha Casa Minha Vida, e de decisões públicas tipo a fixação do valor do
salário mínimo, as cotas de negros nas universidades e a desapropriação
de terras para reforma agrária. No caso do mundo dos ruralistas, não, a
sociedade não sabe até hoje se o aparato público destinado a apoiá-lo
juntamente com o movimento de recursos envolvido é satisfatório ou não,
compensatório ou não, e em que termos e graus de magnitude.
Antes de continuar, um alerta: embora todos no mesmo barco, há
ruralistas e ruralistas, grandes ou médios. Pequenos são contradições em
termos: ou sonhadores ou oportunistas. Muitos dos médios não estão na
cola dos parlamentares, trabalham sério e com dificuldades semelhantes
aos sem amparo político. Mas podem acabar ficando se prometem apoio
eleitoral.
Há, no entanto, mais coisas engraçadas. Uma delas: do lado da
agricultura familiar, há contas feitas com resultados não só positivos
mas também estratégicos e duradouros. Os ruralistas estão mais
preocupados com as plantações de
commodities, os familiares com
a produção de verduras, legumes, tubérculos e grãos caseiros. O que
isso tem a ver? Tem a ver que se não houver também apoio do governo para
os familiares em moldes “parecidos” com os ruralistas corre o risco de a
sociedade brasileira não ter à mesa, entre outros, saladas, inhoques,
purês, angu, feijão, tutu, inhame, goiaba, banana, jabuticaba, arroz e
arroz doce.
Outra graça: existe uma briga intestina entre os ministérios da
Agricultura e do Desenvolvimento Agrário por conta da política agrícola.
O primeiro considera esforço desnecessário do governo o apoio aos
familiares, enquanto o segundo luta para conseguir espaço e garantir
produção doméstica, orgânica, sem defensivos e transgênicos, os quais
são a marca registrada do agronegócio em mãos dos ruralistas. Estes
querem garantir mais e mais produtividade, aqueles mais e mais qualidade
da produção; um se volta mais para a exportação, o outro para a
alimentação, abastecimento e saúde populares.
A pecuária, como a Justiça, tarda mas não falha. Ficou por último no
rol do grupo ruralista. Anda ainda às turras com as pressões localizadas
por reforma agrária, sempre de encontro aos sem-terras. Quanto mais
extensões de terra houver, mais gado será distribuído para corte. Quanto
mais apoio orientado tiver, os familiares terão gado de leite para a
produção caseira de queijos e demais derivados caseiros. Parecem Golias
contra Davi –seria cômico se não fosse sério.
E a conta? A conta terá de ser feita. Pelo menos estimada,
aproximada, para se saber a importância, a oportunidade e a
continuidade, e em que moldes, do papel dos ruralistas na produção
agrícola do país. O resto é discurso, nos palanques ou fora deles.
*José Carlos Peliano é doutor em Economia pela Unicamp
Publicado em 30 de janeiro de 2014