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4.10.2014

Biogás leva autossuficiência energética a produtores no Paraná

No interior do estado, um projeto para transformar excrementos agropecuários em combustível une 33 famílias de agricultores
por Paloma Rodrigues - Energia - Sociedade  
Alexandre Marchetti / Itaipu
Ajuricaba
Seu Pedro, um dos 33 agro produtores que participam da geração de biogás a frente do biodigestor da sua propriedade
Vinte cabeças de gado se espalham pela pequena propriedade do casal Pedro e Isolda Regelmeier, no município de Marechal Cândido Rondon, interior do estado do Paraná. Além do leite retirado das 11 vacas da criação, os animais são responsáveis por gerar a própria energia em um local onde não chega a conta de luz nem de gás. Na casa da família tudo funciona a partir do biogás: lâmpadas, sistema de aquecimento e refrigeração e até o fogão, adaptado por uma empresa de eletrodomésticos para funcionar a partir do uso do material.
A matéria prima vem dos próprios animais da propriedade. Mais especificamente, de seus dejetos que, depois de passarem por um processo de biodigestão (foto), transformam-se em biogás.
Como eles, outros 32 pequenos produtores da cidade se utilizam dos excrementos gerados por seus suínos, bovinos e aves para gerar energia em suas propriedades.
Dona Isolda é vice-presidente da Cooperativa do Condomínio Ajuricaba. Na vida dos pequenos produtores rurais, o impacto vai além da economia nas contas de gás e luz. “Melhorou a qualidade de vida da gente, porque ficou mais pratico, mais higiênico”, diz a agricultora.
A chamada “raspagem”, processo de retirada dos dejetos das estribarias, acontece diariamente, mas agora o material não é mais depositado no solo. “O serviço não diminuiu, mas sem o material estar na terra, o número de insetos diminuiu, não tem mais mosca, nem mosquito”, diz. “Olha aqui, é uma estribaria e não tem cheiro.”
No processo de raspagem das instalações, a solução se transforma em ganho ambiental: a limpeza é feita com água da chuva, captada por um sistema de calhas no telhado das unidades.
O processo é simples: o material segue para uma caixa que torna todo o material homogêneo. De lá, segue para o biodigestor. No caso de propriedades como a de seu Pedro e dona Isolda, a propriedade gera 350 litros de dejetos por dia. O biodigestor tem capacidade para armazenar o material de 32 dias. O sistema funciona com composição em camadas: o material mais novo entra na parte debaixo do biodigestor e o material mais velho vai subindo com o passar do tempo.
A produção de biogás, nesses moldes, pode ser levada a outras cidades, explica o engenheiro João Carlos Zank, do Parque Tecnológico Itaipu (PTI), e já começa a ser replicado na cidade de Entre Rios do Oeste, também no interior do Paraná, e também no Uruguai. “Em cada bacia hidrográfica que se tenha pecuária de corte de ave, bovinos ou suínos ou tenha produção de leite, é possível replicar esse modelo”, diz. “Cada caso precisa de um estudo de viabilidade para que se saiba a quantidade de gás possível ser gerada e o fim que ele terá, que pode ser a energia elétrica, térmica ou veicular, vai depender da escala de produção do local.”
O material degradado segue pela tubulação para alimentar a propriedade e o restante segue pelo gasoduto até chegar a central. O engenheiro explica que se o fosse depositado no solo ou em rios - como antes acontecia em todas as propriedades -, o material também se converteria em gás, mas não poderia ser captado para o uso.
Cada unidade, retém uma diferente porcentagem de energia para sua autossuficiência – em média de 10 a 15% do total da energia gerada, segundo Zank. O restante vai para a Central de Energia do condomínio, que produz energia térmica e elétrica e pode produzir combustível para veículos. “O filtro instalado na nossa unidade já permite o uso veicular desse combustível. Estamos desenvolvendo uma cadeia de uso de biogás de qualidade e segurança”, afirma o engenheiro.
“Esse é o agricultor do futuro, o que produz sua própria energia”, acredita Jorge Samek, diretor da usina Itaipu, a maior apoiadora e idealizadora do projeto. A Itaipu Binacional administra a maior usina da América Latina, responsável por quase um quinto da produção de energia elétrica do Brasil. Samek afirma que a empresa viu um novo polo gerador de energia a partir de um problema enfrentado na administração da usina: a contaminação das bacias hidrográficas e dos lençóis freáticos que abasteciam os reservatórios de Itaipu.
A contaminação era fruto dos excrementos dos animais, dispostos diretamente sobre o solo das propriedades dos pequenos agricultores. Agora, eles recolhem os desejos dos animais e os armazenam no biodigestor, que gerará o gás.
“O Paraná é o maior estado produtor de agropecuária no Brasil”, afirma Samek, “e Itaipu fica justamente em uma de suas regiões de maior produção. Temos propriedades aqui com 240 mil suínos. Agora, isso está virando energia.”
“Esse agricultor contamina menos seu solo, pode ter seu próprio carro elétrico e o abastecer com a energia que ele mesmo gerou, sem nenhuma emissão de poluentes e com uma economia absurda”, completa.
Durante a última semana, representantes de dez países membros da Agência Internacional de Energia (IEA) visitaram o Parque Tecnológico e discutiram, entre outros assuntos, iniciativas de seus países para a produção do biogás. Ajuricaba, apostam os especialistas, pode ser o carro chefe das energias alternativas do Brasil. "As cidades que se abastecem com o gasoduto estão próximas do litoral, onde estão as maiores capitais. Essa é a maneira que temos de descentralizar a geração de energia: em vez de você trazer o gasoduto até o estado, ele está saindo do interior e encontrando a capital", diz Zank. "Dessa forma, o biogás pode gerar independência e descentralização da geração de energia."
Um dos objetivos futuros da Força Tarefa 37 é regulamentar a produção do biogás, para que ela seja uniforme em todo o País. Um dos benefícios da regularização seria a produção de gás combustível para veículos, como já acontece com o gás GNV.
 *A repórter viajou a convite da Itaipu Binacional
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-biogas-pode-tornar-pequenos-agricultores-autossuficientes-em-energia-8481.html

Movimentos sociais brasileiros comemoram proibição de doações de empresas para campanhas

Natasha Pitts - Adital
Foto: Reprodução

A maioria do Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inconstitucionais as doações de empresas privadas a partidos e candidatos no processo eleitoral. Com a antecipação de voto dos ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski, o placar no julgamento da ação direta de inconstitucionalidade (ADI) n° 4.650, ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, chegou a seis votos contra um, garantindo maioria para a proibição do financiamento das pessoas jurídicas.
A decisão, para os movimentos sociais, é considerada uma vitória importante da sociedade civil, que luta por um sistema político mais democrático e livre das influências do poder econômico. "Foi uma surpresa para nós que lutamos por uma reforma política há tanto tempo. Não se imaginava que conquistaríamos tão cedo essa proibição do financiamento empresarial privado, já que, até agora, as campanhas são fundamentalmente financiadas pelas empresas”, afirma Ivo Lesbaupin, diretor executivo da Abong (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais) e representante da entidade na coalizão pela reforma política democrática e eleições limpas, articulação que reúne parcela significativa das organizações e movimentos sociais brasileiros na luta por mudanças no sistema política.
A proposta da coalizão prevê o fim do financiamento por empresas, o fortalecimento do financiamento público e a possibilidade de financiamento privado individual (por pessoas físicas) até o valor de um salário mínimo.
"O problema se encontra no financiamento empresarial, em que os financiadores determinam as políticas que serão seguidas, seja pelos governantes ou pelos parlamentares. Se permitir o financiamento privado, o poder econômico determina o resultado das eleições e depois controla os votos no congresso, como hoje ocorre. Em primeiro lugar, os financiadores e só depois os eleitores", analisa Lesbaupin, que considera que o fim desse modelo de financiamento implicará também em campanhas políticas mais baratas e em uma distribuição de gastos mais equilibrada entre os candidatos.
Jovita José Rosa, diretora do movimento de combate à corrupção (MCCE), também avaliou a conquista em entrevista à Adital. Ela lembra que a sociedade brasileira já vinha reclamando dessa aberração, que é o financiamento de campanhas políticas por parte de empresários.
"Mesmo que a votação no superior tribunal federal (STF) ainda não tenha terminado, já consideramos isso como uma vitória. Fica como exemplo para que o congresso cumpra seu papel e não espere pelo STF. Eles tiveram a oportunidade de discutir o assunto, de colocar em pauta, e não o fizeram. A sociedade sai vitoriosa. Nossa expectativa é que, talvez a partir de agora, a política seja desenvolvida em torno de ideias e propostas e não sob o domínio do poder econômico. Essa decisão permite privilegiar pessoas vocacionadas à política”, manifestou Jovita.
Julgaram até agora a ação procedente o relator Luiz Fux, além dos ministros Luís Roberto Barroso, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Dias Toffoli. O voto contrário foi de Teori Zavascki.
Ainda faltam os votos de quatro magistrados. O julgamento foi suspenso porque o ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo, possivelmente com o intuito de atrasar o final do julgamento. Quando for retomado, o que não tem data para ocorrer, o STF definirá se a regra vale para 2014 ou só nas eleições posteriores. A demora na volta do julgamento ao plenário pode impedir sua aplicação nas eleições de outubro.
Os movimentos ressaltam que os ministros do STF, que já votaram, podem mudar o voto enquanto não terminar o julgamento, por isso é preciso ter cautela e aguardar o fim da votação para confirmar qual o resultado final. Na prática, dificilmente alguém muda o voto.
"Acredito que, dificilmente, valerá para este ano por causa da regulamentação no congresso nacional. As campanhas e o processo de financiamento já estão em andamento. Acho que valera a partir de 2016, mas só o fato de proibir já é uma revolução do sistema político brasileiro. Depois do ficha limpa, é a maior conquista em relação a reforma política", afirma Lesbaupin.
A diretora do MCCE destacou outras pautas que fazem parte da reforma política e que ainda precisam conquistar vitória, entre elas a paridade entre homens e mulheres, questões ligadas à transparência, resgate dos partidos políticos e um referendo que possibilite a participação popular em uma possível reforma na constituição.
Dentro do mesmo tema, a comissão de constituição e justiça do senado (CCJ) aprovou, em primeiro turno, um projeto de lei que também proíbe a doação de recursos de empresas e pessoas jurídicas para o financiamento de campanhas eleitorais, sejam as doações em dinheiro ou em forma de publicidade. O projeto segue direito para a câmara dos deputados e só volta ao senado se algum senador entrar com recursos pedindo votação da matéria em plenário.

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=80090

Frei Betto analisa em entrevista, a democracia brasileira após 50 anos do golpe militar

Adital - Direitos Humanos 
Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido como o Frei Betto , (Belo Horizonte, 25 de agosto de 1944) é um escritor e religioso dominicano brasileiro. Adepto da Teologia da Libertação, foi militante engajado em movimentos pastorais e sociais, tendo ocupado a função de assessor especial do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2004. Foi coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero.
Reprodução
Frei Betto esteve preso por duas vezes sob a ditadura militar: em 1964, por 15 dias; e entre 1969-1973. Após cumprir quatro anos de prisão, teve sua sentença reduzida pelo STF para dois anos. Sua experiência na prisão está relatada nos livros "Cartas da Prisão" (Agir), "Dário de Fernando - nos cárceres da ditadura militar brasileira" (Rocco) e Batismo de Sangue (Rocco). Premiado com o Jabuti de 1983, traduzido na França e na Itália, Batismo de Sangue descreve os bastidores do regime militar, a participação dos frades dominicanos na resistência à ditadura, a morte de Carlos Marighella e as torturas sofridas por Frei Tito. Baseado no livro, o diretor mineiro Helvécio Ratton produziu o filme Batismo de Sangue, lançado em 2007.

Frei Betto recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares.

Frei Betto, você que foi preso, torturado durante a ditadura, como analisa esta data de 50 anos de golpe militar?
Frei Betto: É preciso comemorar, no sentido etimológico de fazer memória, os 50 anos da implantação da ditadura no Brasil. Como diria Marx, para que a história, uma tragédia, não se repita como farsa. As novas gerações precisam saber como foi, o que foi e o que fez a ditadura ao longo de 21 anos governando o Brasil. Ainda temos, em nosso país, "viúvas" da ditadura e quem apregoa que a volta dos militares haverá de melhorar o país...

Como você analisa hoje o processo de redemocratização do Brasil? Quais os maiores avanços desta conquista?
FB: A ditadura foi derrubada pelo acúmulo político provocado pelas mobilizações dos movimentos sociais: CEBs, associações de bairros, luta pela terra, sindicatos, grupos de arte e cultura etc. Conseguimos eleger um metalúrgico - Lula - presidente da República, consolidando processo democrático. Grandes avanços ocorreram ao longo dos 11 anos de governo do PT: controle da inflação, elevação do salário mínimo, inclusão econômica de 55 milhões de pessoas etc. Porém, os arquivos da ditadura de posse das Forças Armadas não foram abertos até hoje e a Comissão da verdade, que apura os crimes do regime militar, não tem poder de punir. Além disso, nenhuma reforma de estrutura foi implementada nesses 11 anos de governo, nem a agrária, nem a política, nem a tributária etc

O processo de democratização no Brasil forjou ao longo desses anos um Estado de direito?
FB: Sim, mas falta muito para aperfeiçoá-lo. Precisamos de uma nova carta constitucional, e esperamos que o povo brasileiro vote a favor disso no plebiscito que ocorrerá a 7 de setembro. Precisamos, após a inclusão econômica de inclusão política, pela qual os jovens se mobilizam nas ruas. Nossa democracia ainda é meramente "delegativa” e não participativa. Há muito a fazer e lutar!

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=80097

4.01.2014

ONU adverte para um maior risco de conflitos devido à mudança climática

por Antonio Hermosín, da Efe publicado 31/03/2014 11:11, última modificação 31/03/2014 11:42
MARTIN GERTEN/efe
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No caso da Europa, as mudanças climáticas vão provocar um aumento das restrições de água
São Paulo A mudança climática já afetou a disponibilidade de alimentos e de água em diversas partes do planeta, segundo um relatório apresentado nesta segunda-feira em Tóquio por analistas da Organização das Nações Unidas (ONU), que preveem um aumento dos fluxos migratórios e um maior risco de conflitos devido a estes fenômenos.

O novo documento elaborado pelo II Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudança Climática (IPCC) é o mais extenso e contundente até o momento sobre este processo climatológico.

O relatório analisar seus efeitos sobre o homem e sobre a natureza em todas as regiões do planeta da atualidade até o ano 2100.

O relatório foi redigido durante uma semana em Yokohama (Japão) por cerca de 500 especialistas internacionais e responsáveis políticos de 70 países a partir dos últimos estudos científicos.

Trata-se de "um dos mais amplos relatórios científicos da história", que inclui "sólidas evidências de todas as disciplinas", segundo disse ao apresentar o documento em entrevista coletiva o secretário da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), Michel Jarraud.

O analista afirmou que já não há nenhuma dúvida de que o clima está mudando, e acrescentou que "95% desta mudança se deve à atividade humana".

"A mudança climática já teve impactos observados e documentados em todo o planeta", ressaltou o vice-presidente do painel da ONU, o argentino Vicente Barros.

Em particular, o documento cita 120 impactos nos seis continentes com atribuição total ou parcial à mudança climática, segundo explicou em entrevista à Agência EFE o professor de Climatologia da Universidade de Buenos Aires.

Entre os exemplos há quedas do rendimento dos cultivos em diversas partes do mundo, "eventos climáticos extremos" como ondas de calor, tufões, fortes chuvas, inundações, secas e mudanças nos padrões migratórios de diversas espécies animais.

A queda do rendimento agrícola se observa em regiões como o Sul da Europa ou da América do Sul, e sobretudo em cultivos como o do milho ou do trigo, segundo Barros.

Mas as maiores consequências da mudança climática sobre a segurança alimentar se observarão em zonas como a África e o Sudeste asiático, "onde a população rural faz em sua maior parte uma economia de subsistência", disse Barros.

"Isto afetará centenas de milhões de pessoas se não fizermos nada. O mundo deve tomar este relatório muito a sério", alertou o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri.

A falta de alimentos e os eventos climáticos extremos "provocarão com toda segurança um aumento dos fluxos migratórios e dos conflitos entre povoações, e terão implicações na integridade territorial, sobretudo nas zonas menos desenvolvidas", ressaltou o analista.

"Onde irão as pessoas quando virem que não têm o básico para viver? Isto já está ocorrendo e se intensificará com a mudança climática", advertiu Pachauri, destacando a necessidade de atenuar estes fenômenos "tomando medidas urgentes", particularmente reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

O documento apresentado hoje é a segunda das três partes do extenso relatório que o IPCC está elaborando por etapas e cujas conclusões finais se apresentarão em outubro em Berlim. O texto recebeu o apoio de distintas organizações por meio de um comunicado conjunto da rede Climate Action Network (CAN).

"O relatório é claro: o impacto da mudança climática sobre a alimentação é pior do que se tinha estimado", afirmou o analista da Oxfam International Tim Gore, que convocou os governos para adotarem ações urgentes.

O Greenpeace, além disso, exigiu que os líderes políticos acelerem a transição para energias limpas e seguras para evitar ameaças maiores sobre a segurança humana e para proteger florestas, oceanos e espécies naturais de importância vital.

Por último, a organização conservacionista World Wildlife Fund (WWF) assinalou que embora o relatório fale "dos custos econômicos" da mudança climática, as verdadeiras consequências deste processo sobre a vida humana e sobre a natureza "não podem ser representadas em termos econômicos".

http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2014/03/onu-alerta-para-mais-secas-inundacoes-e-incendios-florestais-na-europa-7244.html

3.31.2014

A Terra é Viva: Aprendamos à Conhece-la



Leonardo Boff *
A partir dos anos 70 do século passado ficou claro para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. A Terra se apresenta com tal dosagem de elementos, de temperatura, de composição química da atmosfera e do mar que somente um organismo vivo pode  fazer o que ela faz. A Terra não contém simplesmente  vida. Ela é viva, um superorganismo vivente, denominado pelos andinos de Pacha Mama e pelos modernos de Gaia, o nome grego para a Terra viva.
A espécie humana representa a capacidade de Gaia ter um pensamento reflexo e uma consciência  sintetizadora e amorosa.  Nós, humanos, homens e mulheres, possibilitamos à Terra apreciar a sua luxuriante beleza, contemplar a sua intrincada complexidade e descobrir espiritualmente o Mistério que a penetra.
O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em relação ao cosmos por nós conhecido.  O cosmos não é um objeto sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é, segundo muitos cosmólogos contemporâneos (Goswami, Swimme e outros), um sujeito vivente que se encontra num processo permanente de gênese. Caminhou 13,7 bilhões de anos, se enovelou sobre si mesmo e madurou de tal forma que num canto dele, na Via Láctea, no sistema solar, no planeta Terra, emergiu a consciência  reflexa de si mesmo, de donde veio, para onde vai e qual é a Energia poderosa que tudo sustenta.
Quando um ecoagrônomo estuda a composição química de um solo, é a própria Terra que estuda a si mesma. Quando um astrônomo dirige o telescópio para as estrelas, é o  próprio universo que olha para si mesmo.
A mudança que esta leitura deve produzir nas mentalidades e nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no século 16 ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao redor do sol. Especialmente, a transformação de que as coisas ainda não estão prontas, estão continuamente nascendo, abertas a novas formas de autorrealização. Consequentemente, a verdade se dá numa referência aberta e não num código fechado e estabelecido. Só está na verdade quem caminha com o processo de manifestação da verdade.

Importa, antes de mais nada, importa reintegrar  o tempo. Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento.  Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há 13,7 bilhões de anos, quando principiaram  a se organizar todas aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso corpo e de nossa psique. Quando isso madurou, então nascemos de verdade, e sempre abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.
Se sintetizarmos o relógio cósmico de 13,7 bilhões de anos no espaço de um ano solar, como o fez Carl Sagan no seu livro Os dragões do Eden (N.York, 1977, 14-16), e querendo apenas realçar algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:
A primeiro de janeiro ocorreu o Big Bang. A primeiro de maio o surgimento da Via Láctea. A nove de setembro, a origem do sistema solar. A 14 de setembro, a formação da Terra. A 25 de setembro, a origem da vida. A 30 de dezembro, o aparecimento dos primeiro hominídeos, avós ancestrais dos humanos. A 31 de dezembro, os primeiros homens e mulheres. Nos últimos 10 segundos de 31 de dezembro foi inaugurada a história do homo sapiens/demens, do qual descendemos diretamente. O nascimento de Cristo ter-se-ia dado  precisamente às 23 horas 59 minutos e 56 segundos. O mundo moderno teria surgido no 58º segundo do último minuto do ano. E nós, individualmente? Na última fracção de segundo antes de completar meia-noite.
Em outras palavras, somente há 24 horas o universo e a Terra têm consciência reflexa de si mesmos.  Se Deus dissesse a um anjo "procure no espaço e identifique no tempo a Denise ou o Edson ou a Silvia", certamente não o conseguiria porque eles são menos que um pó de areia vagando no vácuo interstelar e começaram a existir há menos de um segundo. Mas Deus,  sim, porque Ele escuta o pulsar do coração de cada filho e filha seus, porque neles o universo converge em autoconsciência, em amorização e em celebração.
Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria introduzir nestas dimensões que nos evocam o sagrado do universo e o milagre de nossa própria existência. Isso em todo o processo educativo, da escola primária à universidade.
Em seguida faz-se mister reintegrar o espaço dentro do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, nos descobrimos um elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Estamos numa dos 100 bilhões de galáxias, a Via Láctea.  Numa distância de  28 mil anos-luz de seu centro; pertencemos ao sistema solar, que é um entre bilhões e bilhões de outras estrelas, num planeta pequeno mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução  de formas cada vez mais complexas e conscientizadas de vida: a Terra.
Na Terra nos encontramos num Continente que se independizou há cerca de 210 milhões de anos, quando a Pangea (o continente único da Terra) se fraturou e ganhou a configuração atual. Estamos nesta cidade, nesta rua,  nesta casa, neste quarto, e nesta mesa, diante do computador, a  partir de onde me relaciono e me sinto ligado à totalidade de todos os espaços do universo.
Reintegrados no espaço e no tempo, nos sentimos como Pascal diria: um nada diante do Todo e um Todo diante do nada. E nossa grandeza reside em saber e celebrar tudo isso.
 *Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor. É dele o livro ‘Proteger a Terra e cuidar da vida: Como escapar do fim do mundo' (Record, 2010). - leonardo Boff  
http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2014/03/31/reintegrar-se-no-espaco-e-no-tempo/

3.25.2014

Sanções contra a Rússia agilizam a formação de novo mercado financeiro, inclusive o Brasil

Por Redação, com agências internacionais - de Moscou

Peskov falou sobre a formação de um mercado financeiro independente 
Peskov falou sobre a formação de um mercado financeiro independente
As sanções anunciadas pela União Europeia e EUA contra a Rússia também voltaram a mexer com o mercado investidor, nesta terça-feira, após uma entrevista com o porta-voz do Kremllin, Dmitry Peskov. A Rússia voltou a cogitar a formação de um mercado financeiro paralelo ao de Wall Street, com negociações realizadas em moedas como o rublo, o yuan e o real, em resposta às pressões do Ocidente contra a anexação do Estado independente da Crimeia.
Segundo Peskov, as sanções contra a Rússia foram “o último gatilho” para a criação de um sistema financeiro independente, baseado na economia real. Segundo afirmou, “o mundo está mudando rapidamente”.
– Quantas civilizações cresceram e se extinguiram no curso da História? Quem está apto a resistir à pressão de um sistema perto da falência e indicar ao seu povo o caminho para o futuro? A possibilidade de um novo sistema financeiro independente do dólar, que segue perto de um colapso após a crise de 2008 será uma consequência das sanções contra a Rússia que, doravante, passará a reforçar seus laços econômicos com o países do BRICS, em particular com a China, que é dona de grande parte da dívida externa norte-americana – afirmou.
O mundo, hoje em dia, segundo análise do porta-voz do governo russo, “deixou de ser bipolar” e países como Brasil, Índia, China e África do Sul, que integram o BRICS, juntos com a Rússia, representam 42% da população mundial e cerca de um quarto da economia, o que coloca este bloco como um importante ator global. As sanções determinadas pelo Ocidente “podem significar uma grande catástrofe para os EUA e os europeus, no futuro”, acrescentou Peskov.
A discussão sobre um novo sistema financeiro, no entanto, não começou agora. Desde a formação do BRICS, há mais de uma década, estuda-se a possibilidade de se formar um novo mercado, que aceite outras moedas, e não apenas o dólar norte-americano, na liquidação dos negócios. Os países que integram este bloco estão todos de acordo com os princípios legais, em nível mundial, e o volume de negócios entre estas nações tem batido novos recordes a cada ano, nas mais diferentes áreas.
Com o objetivo de modernizar o sistema econômico global, que tem no centro dele os EUA e a UE, os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul criaram o BRICS Stock Alliance, um embrião deste novo mercado sem o dólar, e têm desenvolvido mecanismos bancários capazes de financiar seus grandes projetos de infraestrutura. Apesar do ceticismo dos mercados formais, “estes países têm mostrado bons resultados em suas balanças comerciais”, concluiu.

3.21.2014

A Educação Pode Ajudar na Distribuição de Renda

Por Otaviano Helene*
Uma das consequências sociais da concentração de renda é na educação recebida por uma pessoa. No Brasil, a qualidade e a quantidade de educação formal recebida por uma criança ou um jovem é quase totalmente dependente de sua condição social e econômica. Assim, entre os 20% mais pobres (grupo formado por pessoas cujas rendas domiciliares per capita estão abaixo de R$ 300 por mês, aproximadamente, a valores de 2013) a conclusão do ensino fundamental é rara exceção: a regra é deixar o sistema educacional antes dos 8 ou 9 anos obrigatórios. No outro extremo, dos 20% mais ricos, a conclusão do ensino superior é a regra. Conclusões: a nossa péssima distribuição de renda está produzindo uma população com enorme desigualdade educacional e fazendo com que um também enorme contingente deixe a escola com um nível de formação que, já hoje, seria insuficiente para garantir o pleno exercício da cidadania ou a obtenção de uma atividade econômica pelo menos razoável.

                                                   
                                                              planetaeducação.com.br   
Medir a diferença educacional em cifrões pode ajudar a perceber quão grande e grave é a desigualdade educacional no Brasil. O investimento educacional entre aqueles que sequer concluem o ensino fundamental, considerando os valores atuais do Fundeb, pode não atingir R$ 20 mil ao longo de toda a vida. Enquanto isso, nos grupos mais favorecidos, apenas os investimentos escolares, que se iniciam já na primeira infância e duram até pelo menos o final de um curso superior, pode chegar perto de meio milhão de reais ou mesmo ultrapassar esse valor. Se forem adicionados os investimentos voltados à complementação educacional fora das escolas, como cursos de línguas, atendimento psicológico, viagens culturais, atividades esportivas, aulas particulares, materiais educacionais etc., coisas comuns entre os contingentes mais favorecidos e inexistentes nos grupos mais pobres, os valores acumulados na educação dos mais ricos ao longo da vida seriam ainda maiores.

Fechando o círculo vicioso. Assim como a escolarização de uma pessoa depende de sua renda, a renda de uma pessoa depende de sua escolarização. Há muitas informações estatísticas que mostram que (e quanto) a renda de uma pessoa cresce com seu nível de escolarização. Por exemplo, segundo dados do IBGE, trabalhadores com nível superior ganham, em média, três vezes mais do que trabalhadores sem nível superior e pelo menos seis ou sete vezes mais do que aqueles que sequer concluíram o ensino fundamental.
É fechado, então, o círculo vicioso: nosso sistema educacional é muito desigual por causa da combinação da nossa absurda concentração de renda com o fato que a educação é uma mercadoria à qual cada um tem acesso segundo suas possibilidades econômicas; quando as pessoas deixam as escolas e ingressam na força de trabalho do país, a desigualdade educacional se transformará em desigualdade de renda.
Se esse círculo vicioso não for rompido, permaneceremos entre os países mais desiguais do mundo, uma vez que os mecanismos de redistribuição de renda que nos tiraram da pior posição são incapazes de ir além de certos limites e todos os problemas sociais criados por essa desigualdade estarão presentes no futuro. É esse o caminho que seguiremos?

*Otaviano Helene é professor no Instituto de Física da USP, ex-presidente da Associação dos Docentes da USP, ex-presidente do INEP/MEC
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/quase-um-teorema-4522.html