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11.04.2023

Os verdugos dos palestinos serão condenados pela história

 “...a sentença moral será profundamente condenatória às decisões e às ações dos Estados Unidos e de Israel acerca do que fizeram, estão fazendo e farão em Gaza de modo particular e com os palestinos em geral”, Aldo Fornazieri

por Aldo Fornazieri* no GGN – Sociedade e EUA e Israel não são e não sabem o que é um ser humano

 Foto IDF – Flickr

Quando a tempestade de bombas cessar, quando o rugido de morte dos tanques e canhões se aquietar, quando os prédios deixarem de queimar e de ruir, sobrará uma coisa. Quando as valas comuns de mulheres e crianças não forem mais visíveis, quando não existir mais terror nos olhos das meninas e dos meninos, quando o choro e os lamentos não forem mais ouvidos, quando os gemidos de dor se apagarem, sobrará uma coisa. Quando os generais tiverem sua sede de sangue saciada, quando as análises do realismo político e militar se apagarem na palidez dos tempos, quando a falha justiça dos homens estiver morta, quando Biden, Netanyahu, seus ministros e estrategistas virarem pó, sobrará uma coisa.

Sobrará o implacável juízo da História. Claro, a história pode ser escrita e reescrita, pode ser contada de várias maneiras, mas o seu juízo sempre tem um sentido universal. E no sentido universal deste juízo sobressai a sentença moral, pois é a perspectiva da humanidade, de sua construção e de sua opção que estará em jogo. Esta sentença moral será profundamente condenatória às decisões e às ações dos Estados Unidos e de Israel acerca do que fizeram, estão fazendo e farão em Gaza de modo particular e com os palestinos em geral.

Se olharmos para as sentenças morais da história de todos os tempos, não resta duvida de que o tirano, o dominador, o explorador, o exterminador, o genocida será condenado. Os oprimidos, os explorados, os humilhados, os espezinhados, os massacrados serão louvados, porque são as vítimas. A compaixão humana sempre triunfa sobre a impiedade, embora as vítimas quase nunca triunfem sobre a crueldade dos tiranos criminosos.

A história condenará Estados Unidos e Israel e seus atuais governantes e renderá suas homenagens aos palestinos. Não ao Hamas, mas ao povo palestino. É o povo palestino que está sofrendo as piores aflições. O Deus de Moisés mandou que este voltasse para o Egito, libertasse os hebreus, pois eles estavam sofrendo terríveis aflições. Os palestinos de hoje são os hebreus antigos. Esperam um líder, um enviado de Deus, para que os liberte da tirania dos “faraós” de Tel Aviv e de Washington.

Ao voltar de Israel, onde foi dar apoio a Netanyahu para continuar a matança em Gaza, Biden pretendeu buscar legitimidade nos discursos fundacionais de John Winthrop. Trata-se de uma farsa: Os Estados Unidos não são mais uma cidade no alto da colina a espargir a luz da razão e da liberdade no mundo como uma lamparina. Despois da Segunda Guerra, os Estados Unidos começaram a pairar sobre o mundo como uma nuvem escura, ameaçadora da liberdade e da autodeterminação dos povos.

Agrediram o Vietnã, incendiaram inocentes, semearam fogo, mentiram para destruir o Iraque, invadiram o Afeganistão, derrubaram governos democráticos e apoiaram ditaduras. Nessas guerras todas, os Estados Unidos já foram sentenciados e condenados pela história. Além disso, foram derrotados e voltaram para casa com os ombros cobertos de vergonha. Não aprenderam essas lições da história e agora são o escudo da brutalidade praticada por Israel em Gaza.

Desde a criação do Estado de Israel, são o escudo para que Israel desobedeça as resoluções da ONU, viole as balizas originais das destinações de territórios. São o escudo para que os judeus ortodoxos roubem as terras dos palestinos, cometam massacres e deslocamentos desses deserdados da terra.

O conceito de “dois Estados” é uma mentira que vem sendo propagada há mais de 50 anos. Os judeus têm seu Estado e isto é correto. Mas por que, até hoje, os palestinos não têm o seu? Porque Israel e os Estados Unidos não querem.

Biden comparou o Hamas a Putin. Deveria ter comparado os Estados Unidos com a Rússia e Putin com Netanyahu. A guerra de Gaza não é uma guerra da barbárie contra a democracia. É uma guerra por terra e liberdade contra grileiros e opressores.

O secretário geral da ONU, António Guterres tem razão: o terrorismo do Hamas é injustificável, mas ele não vem do vácuo. A opressão imposta aos palestinos por Israel e os Estados Unidos é a causa dessa violência. Os palestinos, há mais de 50 anos, têm suas casas invadidas, suas terras roubadas, suas fontes tomadas. Não podem cultivar seus campos, colher os frutos de suas oliveiras, videiras e romãzeiras. Não podem ter paz, não podem sonhar com a paz, não podem criar seus filhos em paz, não podem sonhar com um futuro esperançoso. É neste terreno de sofrimentos e humilhações que germina o terrorismo.

É certo que as queixas do povo palestino não justificam a violência do Hamas. Mas também é certo que o terror do Hamas não justifica o terrorismo de Estado praticado por Israel contra a população civil de Gaza. Nem o discurso do extermino do Hamas pode encobrir o massacre dos palestinos. O holocausto ensejou a criação do Estado de Israel. Mas o holocausto não legitima a história de violência que o Estado de Israel desenvolve contra os palestinos. No fundo, Netanyahu e seus ministros radicais querem exterminar os palestinos. Já vocalizaram esta intenção várias vezes.

A destruição de hospitais, mesquitas, escolas, edifícios, bairros e cidades em Gaza precisa parar. Gaza já é um campo de concentração a céu aberto. Agora, os bombardeios impiedosos, estão transformando Gaza num grande cemitério a céu aberto. São milhões de pessoas sem comida, sem água, sem remédios.

Não podemos ficar indiferentes com o que está acontecendo em Gaza. Precisamos nos indignar e agir. Milhares de pessoas estão se manifestando pelo mundo em favor dos palestinos. O senso moral dessas pessoas e sua compaixão diante do sofrimento, dor e morte, mobilizam essas pessoas nas ruas. Querem o fim da matança e querem uma solução definitiva para a causa dos palestinos.

Só existem três medidas justas, neste momento, em relação à guerra em Gaza: a suspensão da matança, ajuda humanitária aos palestinos e a libertação dos reféns do Hamas. O resto vem depois. São medidas urgentes, desesperadas, capazes de impedir milhares de mortes. Mas Israel e os Estados Unidos não querem estas medidas. Sem escrúpulos morais, desprovidos de valores humanistas, a história os condenará.

 *Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

Publicado no GGN: 25 de outubro de 2023

Fonte: https://jornalggn.com.br/oriente-medio/gaza-e-a-falencia-moral-dos-eua-e-de-israel-por-aldo-fornazieri/

 

11.01.2023

Campos Neto participa de reunião que decide a taxa de juros mesmo suspeito de favorecer financeira brasileira

 Suspeito de ter feito aplicações em paraísos fiscais, presidente do Banco Central não poderia atuar na definição da Selic, já que se beneficiaria da decisão

por redação Rede Brasil Atual* – Sociedade e Classe Alta Brasileira Corrupta

 Campos Neto apareceu ligado à empresa COR Asset, aberta em 2004, nas Ilhas Virgens, com um aporte de US$ 1 milhão. Foto Lula Marques / Agência Brasil

Sob a acusação de envolvimento em operações suspeitas no exterior, aplicações em offshore em paraísos fiscais e em fundos exclusivos, entre elas algumas que variam conforme a Selic, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, participou, nesta quarta-feira (1.nov.2023), de reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que definirá se baixa a taxa básica de juros. Pelas revelações, Campos Neto não poderia participar desta definição, já que se beneficiaria da decisão.

Hoje, a Selic é de 12,75% ao ano, uma das mais altas do mundo. Economistas ligados aos bancos preveem que a taxa deve baixar meio ponto percentual mensalmente.

 Charge no informativo da rede digital da CUT

Em outubro de 2021, no escândalo dos Pandora Papers, um consórcio internacional de mídia revelou os nomes de figurões detentores de empresas em paraísos fiscais – as chamadas off shore. O de Campos Neto apareceu ligado à empresa COR Asset, aberta em 2004, nas Ilhas Virgens, com um aporte de US$ 1 milhão.

Após a revelação, o presidente do BC, no cargo desde fevereiro de 2019, se defendeu afirmando ter fechado a offshore em agosto de 2020. Ou seja, por 15 meses, ele acumulou as funções no Banco Central e as de investidor em offshore.

Em resumo: escapava da obrigação de pagar impostos no Brasil e ainda podia obter ganhos extras na hipótese de o dólar se valorizar em relação ao real, cujo preço é diretamente influenciado por medidas adotadas pelo BC. Foi a partir do escândalo internacional que a Comissão de Ética Pública da Presidência da República abriu investigação sobre as atividades de Campos Neto.

Escândalo do presidente do BC pode ser maior

Na última sexta-feira (27.out.2023), a revista Carta Capital noticiou, em reportagem de capa, as operações suspeitas do presidente do BC. Intitulada “Dois lados do balcão”, a matéria informa que Campos Neto abriu, ao todo, quatro empresas em paraísos fiscais: Peacock Asset, COR Asset, ROCN (iniciais do nome do proprietário) e Darling Corp. A primeira nas Bahamas, e as outras nas Ilhas Virgens. A revista se baseou em documentos apresentados pelo economista ao Senado à época de sua indicação para o BC.

O caso estava sendo investigado pela Comissão da Ética Pública sobre conflito de interesses, a pedido do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), relacionado a um outro caso suspeito. No entanto, a apuração foi suspensa em 27 de setembro de 2023 por determinação da Justiça Federal.

Segundo o que vinha sendo investigado, Campos Neto teria ligação com um fundo exclusivo registrado, em 10 de janeiro de 2018, na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e na Receita Federal. O fundo possui um único cotista, pessoa física e detentor de 100% do patrimônio desde o início. O CNPJ é 30.077.624/0001-78.

A matéria da Carta Capital informa que, em 27 de setembro de 2023 , horas antes de Lindbergh pedir investigação na Comissão de Ética Pública, o deputado inquiriu Campos Neto em uma audiência da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara sobre se ele era o dono do referido fundo. A reportagem lembra que, durante a audiência, o parlamentar ficou sem respostas do presidente do BC, inclusive para a pergunta sobre se o fundo exclusivo tem investimentos em Tesouro Direto ou em títulos do Tesouro.

Título público é um papel que o governo vende no mercado financeiro em troca do compromisso de devolver o dinheiro lá na frente ao comprador e de pagar um adicional sobre o valor original da venda. Uma das referências usadas para remunerar compradores de títulos é a taxa básica de juros (Selic), que o presidente do Banco Central mantém nas alturas, sufocando a economia brasileira.

“Ao manter a taxa Selic elevada por tanto tempo, que é muito mais do que um ano, o Banco Central prejudica a economia brasileira. Isso porque juros altos aumentam a dívida do governo nos juros pagos com os títulos públicos, dinheiro que poderia ser utilizado para expandir infra-estrutura e para ser investido em saúde e educação. Os juros altos também prejudicam as famílias e as empresas, porque o crédito e o financiamento ficam mais caros. Famílias e empresas endividadas consomem e investem menos, e com isso há menos geração de emprego”, explicou a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e vice-presidenta da CUT, Juvandia Moreira.

*Com informações da Carta Capital e do Brasil de Fato

Publicado no Brasil Atual31/10/2023

Fonte: https://www.redebrasilatual.com.br/politica/acusado-de-operacoes-suspeitas-campos-neto-participa-de-reuniao-que-decide-a-taxa-de-juros/

 

Governo Federal Brasileiro Herdou uma Ditadura Parlamentar Pós-Golpe 2016

Alçapão anti-democrático do congresso brasileiro torna indispensável o recurso ao mais tradicional instrumento da luta política: a mobilização popular, Paulo M. Leite

por Paulo Moreira Leite no Brasil 24/7 - Sociedade e Elite Brasileira Fora de Contrôle

Política no Brasil 2022-2023, imagem na internet

Após golpe jurídico-parlamentar-militar-empresarial em 2016 e sob comando de Artur Lira, entre 2020 e 2022 o congresso brasileiro instituiu uma camisa-de-força institucional, capaz de estrangular a luta parlamentar do terceiro governo administrado sob a agenda petista a partir de 2023.

Invisível para o cidadão comum, um pacote de mudanças anti-democráticas foi deixado como herança institucional na câmara de deputados. Pela ação conjunta de Arthur Lira e Jair Bolsonaro entre ao longo de dois anos – 2021 e 2023 – configurando um muro de concreto destinado neutralizar a soberania popular e instituir uma ditadura parlamentar, na qual o poder executivo seja esterilizado e desfigurado.

Esta situação foi denunciada na reportagem "Cúpula do Congresso concentra força inédita e cria desafio para governo Lula", de André Shalders e Daniel Weterman, que contém as principais informações reunidas neste texto. (Estado de S. Paulo, 24/10/2023).

Para entender melhor a mudança, convém fazer uma comparação.

Em 2003, início de seu primeiro mandato presidencial no planalto em Brasília pela administração petista, o governo federal contava com uma bancada de 376 deputados – ou 73% do plenário, proporção espetacular – e não sofreu uma única derrota.

 Lula fala durante café da manhã com setoristas do palácio do planalto 27/10/2023 (Foto: Ricardo Stuckert)

Já em 2023, a soma nominal de parlamentares aliados chega a 389 deputados federais. Só parece muita coisa. Numa estimativa que dispensa os casos notórios de falsidade parlamentar, a contabilidade fica em 283. Para aprovar uma emenda à constituição, indispensável para realizar mudanças essenciais ao desmonte da herança nefasta, um de seus principais compromissos de campanha, o governo necessitará de pelo menos 308 votos.

Num balanço das relações do governo federal com o congresso, é possível enxergar duas situações. No primeiro mandato, em 2003, foi possível aprovar 54 medidas provisórias (mp’s) e não se perdeu nenhuma. Em 2023, apenas 17 já perderam a validade e apenas 7 foram aprovadas.

Outra comparação: em 2003, 28% dos projetos que se tornaram lei no período nasceram de iniciativa da presidência da república. Nos primeiros dez meses de 2023, essa presença foi reduzida a 18%.

Não custa sublinhar a importância fundamental das medidas provisórias na ordem constitucional nascida a partir da constituição de 1988. Num sistema político que assegurou uma nova musculatura a um congresso que ambicionava recuperar poderes suprimidos ao longo da ditadura de 64, as mp’s destinam-se a cumprir uma função essencial.

Servem de garantia à ação governamental, encarnada pelo presidente da república, única autoridade escolhida por sistema no qual cada eleitor ou eleitora vale 1 voto, num contraponto indispensável ao congresso, onde a força fora do comum das oligarquias regionais (elites locais) assegura um oxigênio escandaloso à direita política ou as elites. Enquanto um deputado federal por São Paulo representa -- matematicamente -- os interesses de 650 000 eleitores e eleitoras, aquele que foi eleito em Roraima fala por 72 000. Um parlamentar do Amazonas fala por 510 mil, da Bahia, 379 mil, de Minas Gerais, 396,9 mil, enquanto um mesmo colega de Roraima precisa de 72 000 votos para se eleger, 103 300 no Amapá e 100 600 no Acre. Para conhecer a lista completa, Estado por Estado, ver portal da câmara de deputados. Por essa representação parlamentar, é possível entender a discrepância democrática brasileira, herança da ditadura militar de 1964.

Em entrevista ao Estadão, a professora Graziella Testa, da Escola de Políticas Públicas e Governo, da Fundação Getúlio Vargas, descreve a situação. "São dois processos concomitantes. Um deles é o fortalecimento do legislativo em relação aos outros poderes. E o outro é o de centralidade (das decisões) na câmara. No senado, o processo ocorre residualmente, mas na câmara isso tem um impacto maior", diz a professora Graziella.

Nessa operação de concentração de poderes, Artur Lira conseguiu transformar as votações on-line em decisões que têm validade – ou não – conforme sua vontade como presidente da câmara. Em novo sintoma de seus poderes imperiais, cabe ao presidente da câmara definir pela validade ou não, de uma votação remota, onde um parlamentar "só precisa de um celular com internet", diz Graziella Testa.

Para um governo eleito com a missão necessária de desfazer o edifício de mudanças reacionárias produzidas em período recente de golpe e retomar um projeto de desenvolvimento econômico e distribuição de renda, o alçapão anti-democrático do congresso torna indispensável o recurso ao mais tradicional instrumento da luta política – a mobilização popular, capaz de modificar uma relação de forças desfavorável.

Alguma dúvida?

  *Paulo Moreira Leite (São Paulo, 1952) é um jornalista brasileiro.

Publicado no Brasil 24/7: 1 de novembro de 2023

Fonte: https://www.brasil247.com/blog/aviso-aos-navegantes-lula-enfrenta-uma-ditadura-parlamentar

 

10.24.2023

Israel x povo palestino: conflito sem fim

"Israel não tem condições políticas e mesmo militares, apesar do seu poderio, de realizar a limpeza étnica que lhe permitiria ter uma fronteira separando os judeus de outros povos. Por outro lado, embora o Hamas não tenha a adesão clara da maioria dos palestinos, até porque não se submete a eleições desde que ganhou-a na faixa de Gaza em 2006, ele tem o suficiente de adesão, sobretudo da juventude. Esta não tem qualquer perspectiva de uma vida normal à sua frente e vive submetida a uma opressão e miséria que tem um alvo claro, o governo de Israel e um instrumento de combate também claro, o Hamas. Israel pode destruir a infraestrutura do Hamas e liquidar sua liderança, mas enquanto o sentimento de revolta estiver persistindo e enquanto houver Estados islâmicos dispostos a financiar, tudo isto pode ser reconstruído."

por Jean Marc von der Weid no IHU Unissinos – Sociedade e Ser Humano Sem Controle Emocional e Físico

Muita gente qualificada ou não já gastou um rio amazonas de tinta (metaforicamente, é claro, ninguém escreve mais com tinta) a partir dos mais diversos ângulos (militar, político, diplomático, geopolítico, sociológico, histórico, ...). Abordagens pró e contra Israel, com ou sem inclusão dos Estados Unidos e pró e contra o Hamas tenderam a dominar as mensagens. Uma parcela minoritária da esquerda condenou o Hamas e defendeu a causa palestina e foi execrada nas redes. Será que existe algo de novo ou de diferente a ser apresentado neste tema? Provavelmente não, mas vou assumir o risco de chover no molhado, sem pretensão de ter uma abordagem diferente ou de trazer novas informações. É no arranjo dos argumentos que espero fazer uma diferença e, sobretudo, na avaliação dos possíveis desdobramentos.

Antes de entrar na matéria, gostaria de analisar alguns argumentos que encontrei, mais ou menos explícitos entre os defensores das ações do Hamas. De forma sintética, eles podem ser reduzidos a algumas frases:

Os fins justificam os meios.

O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

A violência dos oprimidos se justifica pela violência dos opressores.

Guerra é guerra

Estes argumentos concernem a definição de terrorismo neste debate. Na esquerda ninguém discute a existência de um terrorismo de Estado aplicado pelo governo israelense; os fatos falam por si. Mas uma parte da esquerda recusa-se a condenar o Hamas e a caracterizar sua ação como terrorista. Os mais explícitos defendem o direito do Hamas de massacrar civis israelenses como parte de sua estratégia político-militar, aceitando, no limite, que esta ação terrorista seja admissível no contexto desta guerra desigual. Outros discutem se o termo terrorismo é aplicável neste caso. A meu ver trata-se da busca da divisão em quatro de um fio de cabelo, ou seja, jogo de palavras para disfarçar uma posição altamente impopular de apoio à atos de violência contra inocentes.

Acho que, não fosse esta camisa de força ideológica, os fatos também falariam por si na caracterização da violência do Hamas. Só o negacionismo mais cru e cruel pode desconhecer que o assassinato a frio de mais de mil civis israelenses, quer na rave quer nos Kibutz ou nas estradas e vilas, foi um típico ato terrorista, em qualquer dicionário de política que se acesse. Argumentos querendo minimizar os atos como excessos de (alguns) palestinos revoltados por décadas de violência e opressão não fazem sentido quando se olha a amplitude do massacre. Bastante claro, as mortes foram planejadas pela direção do Hamas e executadas pelos seus quadros militares. Não é uma “reação visceral”, explicável com sociologia e psicologia, mas um ato preconcebido e com objetivos políticos e sobretudo militares.

Qual o objetivo político? Indicar para a população israelense que ela está vulnerável e, com isso, enfraquecer o governo de ultradireita de Netanyahu. Do ponto de vista da população de Israel, segundo pesquisas de opinião que ninguém questiona, a tática deu certo e o primeiro-ministro tem quase 80% de desaprovação. Mas e daí? Em que este impacto favorece os objetivos estratégicos do Hamas? Só para lembrar, o Hamas defende a liquidação do Estado de Israel e é de todo impossível que os cidadãos israelitas, de todas as posições políticas e ideológicas, venham a aceitar esta posição, por mais que fiquem preocupados e mesmo deprimidos com o estado de guerra interminável com as organizações palestinas.

E o objetivo militar? É claríssimo o fato de que a força armada do Hamas, que pode dispor de alguns milhares de combatentes, não tem poder para derrotar o exército israelense, não só muitíssimo mais bem armado como muitíssimo mais numeroso. O Hamas provocou o exército israelense com os massacres, e recuou para o labirinto de ruelas e túneis da faixa de Gaza, onde se aglomeram mais de dois milhões de pessoas. O governo de Israel adotou, até agora, uma posição de retaliação punitiva através de bombardeios pretensamente cirúrgicos para destruir a infraestrutura civil e militar do Hamas. É uma ação de baixa eficiência militar e alto custo político, já que a população civil é quem paga o preço nos bombardeios. Abrigados em túneis, os militares e militantes do Hamas estão a mais de 50 metros de profundidade, e podem esperar razoavelmente intocados que Israel reduza a parte norte de Gaza a um monte de escombros.

O governo de Israel acusa o Hamas de usar a população como “escudo humano” para inibir os bombardeios e se exime da responsabilidade das baixas civis provocadas pelas suas bombas. É isso mesmo que o Hamas está fazendo, mas o objetivo não é impedir os bombardeios porque nos muitos anos de ação da artilharia e da força aérea israelense isto nunca aconteceu. O objetivo é desgastar politicamente as forças armadas israelenses e este objetivo está sendo amplamente alcançado no plano internacional.

O governo israelense sabe que os bombardeios têm efeito politicamente negativo e têm efeito pífio militarmente, mas não tem alternativa a não ser a invasão da faixa de Gaza. Esta decisão parece que já foi tomada desde os primeiros dias da crise, mas vem sendo adiada por várias razões. A primeira foi a ordem de evacuação da população da região norte, com o objetivo de isolar os militantes e militares do Hamas e permitir um bombardeio ainda mais pesado. Há controvérsias sobre as novas bombas americanas adquiridas por Israel, e que seriam capazes de atingir os mais profundos túneis. De toda forma, até para chegar a este ponto da destruição da infraestrutura de proteção do Hamas, o impacto sobre o conjunto das edificações neste território vai deixar o monte de escombros de Stalingrado (cidade russa destruída pelos alemães na 2ª. guerra mundial) no chinelo. E calcula-se que ainda sobram quase 500 mil civis palestinos, homens, mulheres, crianças, velhos, doentes na futura “no man’s land”. O bombardeio pré-invasão terrestre vai ser um banho de sangue e o isolamento político e diplomático de Israel no mundo vai se aprofundar.

Como o exemplo citado de Stalingrado já demonstrou, o combate entre escombros de uma cidade arrasada diminui as vantagens do combatente mais equipado, impedindo a ação de blindados, por exemplo. Fica favorecido o combatente com mais mobilidade, como deverá ser o caso dos militantes do Hamas usando os túneis e, sobretudo, os mais aguerridos. Apesar da fama de super força armada, o exército de Israel não tem uma infantaria com experiência neste combate de rua, de túneis e de escombros e o grau de entusiasmo dos seus jovens é certamente menos intenso do que aquilo que a imprensa ocidental chama de “fanatismo” dos militantes do Hamas. Vai ser outro banho de sangue, incluindo um contingente de soldados israelenses em proporções nunca vistas nas suas guerras anteriores.

Hamas pode estar apostando, também, na expansão dos combates, atraindo ataques do Hezbolah a partir do sul do Líbano e do oeste da Síria. Seria um enorme aumento na pressão militar sobre as forças armadas de Israel que teriam que lutar em três frentes.

Muita coisa está ainda em especulação, inclusive a invasão de Gaza, depois dos conselhos dos militares americanos em contrário, acompanhados pela oposição pública de Biden, apesar de todo o seu “apoio total” a Israel.

Last but not least”, é preciso avaliar os impactos geopolíticos e diplomáticos desta crise. Há quem atribua a ação do Hamas a um “estímulo” do governo iraniano, cujo objetivo seria evitar os acordos sendo negociados com os auspícios do governo americano, entre Israel e a Arábia Saudita, que isolariam a posição dos aiatolás no Levante. De fato, governos com acordos com Israel já consolidados, como os do Egito e Jordânia, somaram-se aos do LíbanoSíriaTurquiaOUA (Organização da Unidade Africana), Arábia SauditaEmirados Árabes entre outros, para condenar Israel.

O isolamento de Israel está arrastando a diplomacia americana para o mesmo buraco, como ficou patente no veto (um contra 12 e duas abstenções) no Conselho de Segurança da ONU. A proposta brasileira da criação de um corredor humanitário foi extremamente hábil e representou uma espetacular vitória política do Brasil na presidência do Conselho. Vitória tão mais importante por colocar a nu a caduca estrutura decisória do Conselho, com os poderes de veto atribuídos aos países vitoriosos na Segunda Guerra Mundial (Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França e China). Esta posição anacrônica é dura de entender para quem não estuda a história da ONU. Afinal de contas, quando esta decisão foi tomada em 1945, nem a França nem a China podiam ser consideradas forças vitoriosas na II GM. Mas o temor dos EUA de uma expansão comunista nos dois países levou a valorizar sua participação como parte de uma política de neutralização, que deu certo na Europa, mas não na Ásia. O presidente Lula tem repetido a crítica a este sistema ultrapassado pela evolução da geopolítica, pleiteando uma redistribuição de responsabilidades com maior destaque para forças como ÍndiaJapãoIndonésiaÁfrica do Sul, EgitoAlemanhaCanadáMéxico e Brasil. O absurdo do poder de veto ficou mais do que evidenciado neste episódio.

A discussão mais importante nesta crise deve ser a da busca de uma solução para o impasse que já está fazendo quase 75 anos.

As resoluções da ONU definindo a existência de dois Estados, representando a nação israelense e a nação palestina, são tão velhas que é preciso que sejam revistas em função das transformações ocorridas desde então. A alternativa de um Estado laico, unificando os territórios hoje em disputa, com direitos iguais para os dois povos vem sendo levantada por alguns analistas, mas será possível neste quadro com três gerações de conflitos?

O problema de fundo está na origem da criação do Estado de Israel. O movimento sionista, iniciado sem muita expressão no final do século XIX, tem como princípio o “direito” dos judeus a uma nação e um Estado próprio, localizado na região imprecisamente definida como Palestina. Com base nesta ideia, promoveu-se uma migração de judeus de todo o mundo, que foram se estabelecendo em terras, inicialmente parte do império Otomano e, após a primeira grande guerra, sob o controle de um “protetorado” britânico. A mobilização de recursos dos judeus da diáspora, sobretudo dos Estados Unidos e da Inglaterra, comprando terras dos nativos da Palestina permitiu a formação de assentamentos judaicos, os kibutz. Com o fim da segunda grande guerra e o impacto político do Holocausto promovido pelo nazismo, este movimento ganhou muita força e os assentamentos foram se multiplicando com a migração dos sobreviventes, sobretudo dos países do leste europeu e da antiga União Soviética.

A pressão pelo reconhecimento do direito à nação judaica foi crescendo, inclusive no território sob controle britânico, com o uso do terrorismo por organizações judaicas como a Hagana e o Likud. A decisão de criar o Estado judaico, intitulado Israel, foi tomada sem se considerar que a população judaica, seja de nativos da região ou de migrantes de outras partes, era muito inferior à população muçulmana. A propaganda pró Israel falsificou esta realidade com uma narrativa absurda onde foram apresentadas as manchas de terras compradas pelos judeus em contraste com espaços supostamente vazios.

Nestes espaços, ditos vazios, mais de dois milhões de não judeus viviam há séculos, mas foram deslocados manu militari, em ações com características terroristas, nos anos imediatamente posteriores à fundação de Israel. Empurrada para Gaza e para o Líbano, esta população foi viver em acampamentos de refugiados que estão na origem do movimento permanente de retomada das suas raízes territoriais. Este movimento de ocupação foi sendo estimulado pelo novo Estado, com maior ou menor ação agressiva, inclusive guerras que levaram à expansão territorial de Israel, tomando a Cisjordânia da Jordânia, as colinas de Golã da Síria e pedaços (menores) do Egito e do Líbano. Nestes territórios as colônias judaicas foram se espalhando e expulsando mais e mais palestinos.

A questão não é apenas a expansão das colônias e a expulsão dos não judeus. Apesar de momentos em que governos israelenses buscaram acordos para garantir espaços para os palestinos (Camp David, Oslo), a ideologia dominante entre os israelenses foi se perfilhando sempre mais próxima ao princípio do direito inalienável dos judeus a estas terras. Este princípio tem como corolário a limpeza étnica que foi sendo adotada por governos sempre mais à direita em Israel. Os não judeus remanescentes dentro do território sempre foram cidadãos de segunda classe, sem direitos e hostilizados pelos segmentos mais extremados do sionismo. Com este quadro de distribuição populacional, não existe mais, no mundo de hoje, espaço para um Estado Palestino, cujo embrião é a paródia de uma administração dividida entre a Cisjordânia e a faixa de Gaza, com muitos milhares de potenciais cidadãos ainda aglomerados em acampamentos nas fronteiras.

A estratégia de Israel é o controle total do espaço contínuo entre as fronteiras do Egito, da Síria, da Jordânia e do Líbano e o mar mediterrâneo. Para alcançar este fim vai ser preciso expulsar três a quatro milhões de pessoas. Para completar este quadro, não podemos esquecer que Israel tende cada vez mais a se tornar um Estado teocrático, regido pelas normas da religião. Como poderiam conviver com uma população não judia e em sua maioria amplíssima composta por muçulmanos?

Do outro lado, a população não judaica, com uma identidade política definida pela busca de um Estado Palestino, não tem como conviver com um Estado Judaico. A criação de um Estado palestino exigiria a retirada maciça dos colonos da Cisjordânia e de outras partes do território.

A solução alternativa à criação de um Estado Palestino é a criação de um Estado laico com direitos iguais para os defensores das diferentes confissões, não esquecendo que existem ainda minorias cristãs variadas. Mas com uns e outros cada vez mais dominados pelos diferentes fundamentalismos (Sharia para uns e Torá para outros) admitir um Estado laico e coexistir com diferentes crenças é cada vez mais uma possibilidade remota.

Tudo isso aponta para o prolongamento do impasse ad aeternumIsrael não tem condições políticas e mesmo militares, apesar do seu poderio, de realizar a limpeza étnica que lhe permitiria ter uma fronteira separando os judeus dos outros. Por outro lado, embora o Hamas não tenha a adesão clara da maioria dos palestinos, até porque não se submete a eleições desde que ganhou-a na faixa de Gaza em 2006, ele tem o suficiente de adesão, sobretudo da juventude. Esta não tem qualquer perspectiva de uma vida normal à sua frente e vive submetida a uma opressão e miséria que tem um alvo claro, o governo de Israel e um instrumento de combate também claro, o Hamas. Israel pode destruir a infraestrutura do Hamas e liquidar sua liderança, mas enquanto o sentimento de revolta estiver persistindo e enquanto houver Estados islâmicos dispostos a financiar, tudo isto pode ser reconstruído.

Resta a questão inicial deste debate: qual o limite ético de uma guerra com estas características? Massacres de civis, seja pelo Hamas ou Estado israelense, não deveriam ser admitidos, seja pelos judeus, seja pelos palestinos, mas o que transparece é a predominância das auto-justificativas. E uns como outros transmitem suas narrativas para a audiência mundial, levando à identificação do bem contra o mal por um e por outro lado. O apoio ao Hamas por ser uma força antissionista e antiamericana, esquecendo sua brutalidade contra civis desarmados e sua ideologia fundamentalista é, a meu ver, uma adesão perigosa à uma ética ou falta dela, justificando qualquer violência contra o “inimigo”, seja ele quem for, militar ou civil. Por outro lado, o apoio ao governo israelense no seu terrorismo de Estado atingindo milhões de pessoas com uma crueldade consciente, através de bombardeios, bloqueios de comida, água, energia e medicamentos, é o outro lado da moeda, agravado pelo fato de ser muito mais poderoso.

Neste complicado imbróglio, a atitude do governo Lula de defender (sintetizando a proposta) um corredor humanitário, é absolutamente correta e pode abrir um canal a ser explorado e ampliado, isolando os extremismos. Parabéns à diplomacia brasileira.

*Jean Marc von der Weid, ex-presidente da UNE (1969-71), jornalista e fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

Publicado no IHU Unissinos: 24 outubro 2023

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/633527-o-confronto-entre-o-estado-de-israel-e-o-povo-palestino-sem-perspectiva-de-solucao-artigo-de-jean-marc-von-der-weid

10.18.2023

Anarriê, alavantú V – Guerra ou Terrorismo?, por Rui Daher

 “O brasileiro na ONU Osvaldo Aranha, perguntou sobre o potencial econômico ao representante estadunidense e ouviu: “Apenas deixe quem tem petróleo fora disso, Arábia Saudita, Emirados Árabes, que desses cuidamos nós. No resto, passem o rodo, que o tempo acaba arrumando isso”.

por Rui Daher* no  jornalggn@gmail.com - Sociedade e Insanidade Humana Anti-Civilização


Hamas versus Israel

Ainda que minhas vontades fossem contrariar a Deus, Ciência, Natureza ou Família, pouco me importaria. Dificilmente, nas últimas semanas, os leitores estiveram indignados a algum alvo ou mesmo a si próprios. Para mim, depois de a todos consultar, decido sozinho o que fazer. Por exemplo, este texto, todos a quem perguntei, sugeriram-me não publicar. Se o for, culpem somente a mim, e não a quem aqui me hospeda há 20 anos.

Refiro-me ao mais do mesmo belicismo entre o Estado de Israel e o embate com os palestinos, esquartejados territorialmente, desde que as decisões da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1948, três anos após o final da II Guerra Mundial, quando presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha (1894-1960), ministro de Getúlio Vargas, permitiram a criação do Estado de Israel.  E mais nada. Olhando para um mapa da região, dos mais simples, por exemplo, do “Brasil Escola”, não seria muito difícil imaginar o número de conflitos que viriam pela frente.

“Ah, mas naquela região eles são todos da mesma origem, quase irmãos, queijo de cabra, falafel, humus de grãos-de-bico, o quibe libanês, michuis e kebab (como churrasquinhos de carne admirados nos portões de estádios de futebol no Brasil – consumidos por árabes e judeus), charutinhos de arroz e carne moída enrolados em folhas de uvas ou repolhos, guefiltefish (bolinhos de peixe). Até se casam e transam numa boa, paixões grassam, no máximo, israelitas trocam fluídos sexuais com lindas árabes e vice-versa”.

Diante disso, o brasileiro perguntou sobre o potencial econômico ao representante estadunidense na ONU e ouviu: “Apenas deixe quem tem petróleo fora disso, Arábia Saudita, Emirados Árabes, que desses cuidamos nós. No resto, passem o rodo, que o tempo acaba arrumando isso”.

E assim o retalho de 1948, criou mais de 30 conflitos entre o rebotalho árabe e Israel, resultando em grande número de organizações paralelas, não governamentais, consideradas hoje pelo Ocidente, seja onde for a região conflituosa, como grupos terroristas, como se hoje eles, inquietos, mostrassem intenção de explodir a sede do Clube Hebraica ou a Havan do palhaço em verde e amarelo.

Mas, por quê, ó colunista frequentador do bar e restaurante cultural palestino Al-Janiah? Como disse no início do texto, aos 78 anos, permito-me fazer o que me vem na cabeça, o que inclui admirar judeus, israelitas, e o que eles deixaram (Freud, Marx, Einstein, entre outros) de bem para a sabedoria humana, bem como tê-los entre meus melhores amigos.

No mais, quero saber o porquê, quase três quartos de século passados, até hoje, por votação de seu restrito Conselho de Segurança (China, EUA, Rússia, Reino Unido, França), com direito a voto e veto, a ONU permita e até obrigue o mundo árabe tenha que se defender através de organizações terroristas?

Há, sim, na organização planetária, uma série B – aquela que no futebol só joga às sextas ou sábados. São 10 membros, com mandatos de dois anos. A eles é permitido falar o que pensam mesmo sabendo que suas vozes não serão ouvidas. Aceitam. Deve dar alguma sensação orgástica, isto, num universo de 193 Estados-membros.

A verdade é que desde 1948, vários conflitos, uns mais leves outros catastróficos, todos diante do plácido olhar da ONU e da influência descarada dos EUA pró-Israel patrocinam as cenas repetidas de massacres, agora mais tecnologicamente avançadas e destruídores.

Vocês, leitores enraivecidos comigo, têm algum pet em casa? Adoram-no, não? Pois é, já viram um deles destroçado, farejando entre a destruição, em busca de comida ou cadáveres.  Vão me perguntar o porquê? Não ousem. Responderia com ofensas maternas e os mandaria perguntar aos balanços contábeis das indústrias bélicas.

Continuando à vera, numa tentativa de estabilizar o conflito, mas dentro do status quo atual, em 1994, foi criada a Autoridade Nacional Palestiniana, um órgão provisório de auto-governo, para governar a Faixa de Gaza e partes da Cisjordânia. Deu até em Prêmio Nobel da Paz para Yasser Arafat, (OLP – Organização pela Libertação da Palestina), e Yitzhak Rabin e Shimon Peres, por Israel.

Em 2005, decisão unilateral, Israel até deixou seus assentamentos da Faixa de Gaza (dava muito trabalho e gastos pricipalmente), ampliando a área da OLP, mas mantendo o controle das fronteiras e do espaço aéreo. Diminuíram por algum tempo os conflitos com Israel, mas vieram os confrontos intestinos, entre o Hamas, vencedor das eleições legislativas no território de Gaza, que indicou um presidente, e o Fatah, representante político da Autoridade Palestina, que não gostou e preferiu outro presidente.

E assim, em algum lugar que fosse possível sacrificar populações civis e inocentes, com terror e morte, o pau foi quebrando, até que o Hamas, irritado com o som muito alto vindo de uma rave em Israel, provocou um massacre, que todos sabiam, voltaria em intensidade ainda maior para a Faixa de Gaza. Os resultados estão aí.

– Ô colunista, o momento é muito sério para você vir com suas galhofas ridículas. Não vê as tristes imagens mostradas na TV?

– Vejo, me comovem, mas logo ouço os comentaristas e os “professores convidados” repetindo por dez dias a mesma merda e aí não resisto a inconsciente e maldita gargalhada.  


  *Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

 Publicado no GGN: 18 de outubro de 2023

 Fonte: https://jornalggn.com.br/cronica/anarrie-alavantu-v-guerra-ou-terrorismo-por-rui-daher/