Não há tempo para ingenuidades,
nem denegação ou fuga de nosso passado traumático, do Psicanalistas pela Democracia
Por uma
Operação Simon Bolivar
por Paulo Endo no
Jornal GGN e Pátria Latina– Sociedade e Governo Federal Golpista
Imagem: obra de Fulvia Molina –
Memória do esquecimento: humanos, demasiado humanos.
Todos sabem da certeza absoluta que os golpistas de
1964 tinham em mãos. Golpe urdido com o governo americano que deflagrou a
conhecida operação Tio Sam. Era a retaguarda para a eventualidade de haver
resistência suficiente no Brasil para resistir ao golpe. Não houve. Caso
houvesse, estavam de prontidão o componente naval que consistia no porta-aviões
USS Forrestal, um porta-helicópteros e seis destróieres, além de quatro
petroleiros; o componente aéreo era composto por sete aviões C-135, oito aviões
de abastecimento, um de apoio e socorro aéreo, oito caças, um avião de
comunicações, um posto de comando aerotransportado, armas e munição. Se
entrassem em ação seria um massacre e ambos, golpistas brasileiros e governo
norte americano, estavam dispostos a isso.
Não havia caminho para o golpe não ser bem sucedido
com o apoio inconteste do governo John Kennedy e seu successor Lyndon Johnson.
O apoio logístico norte americano, contudo, não foi necessário. O golpe sucedeu
sem a necessidade do apoio das máquinas de guerra estado unidenses.
Há poucas semanas o assassinato de um apoiador do
partido dos trabalhadores baleado no dia de sua festa de aniversário por um
bolsonarista, comandado por seu patrão jair bolsonaro causou imensa dor, mas
também indignação, revolta e desejos de vingança que o atual ocupante do cargo
de presidente tanto insuflou, desejou, armou e trabalhou para que acontecesse.
Há poucos meses das eleições, enfim os comandados
de bolsonaro começam a fazer seu serviço. A previsão é de que muito mais virá,
para que mortes se tornem justificativa para mobilizar militares apaniguados e
policiais violentos a ocuparem as ruas e sustentar o tão ansiado golpe. Hoje
nas ruas não há resistência. Instruídas pelos partidos as ruas foram esvaziadas
há quase um ano esperando bolsonaro sangrar, mas quem sangra é o Brasil.
Podemos dizer que as tantas violências que se
esparramaram pelo Brasil, com uma contundência e convicção nunca vistas,
puderam ser detidas pelas instituições e pelos que se opõe ao atual governo?
Cartas e manifestos domesticarão a verve golpista de jair? Avisos, sinais e
ameaças o impedirão de conclamar os dispostos a matar e ameaçar pessoas? A resposta
é mil vezes não
Porque essa alucinação negativa persiste e insiste
entre partidos, instituições e pessoas progressistas no Brasil?
Em psicanálise chamamos de alucinação negativa uma
falha na percepção que opera como um recalque. Percebemos tudo, menos o
elefante no meio da sala. A negação da coisa evidente, nos faz duplamente cegos
e, por vezes, inconscientemente tentamos nos defender antecipadamente: “não,
não haverá golpe”- assim nos tornamos duplamente vulneráveis. Por não constatar
o óbvio e, como consequência dessas não constatação, banalizamos o excepcional
(“ele é assim mesmo”). Efeitos de denegação colocam o psiquismo, sociedades e a
democracia em risco.
O homem que quer jogar o Brasil na vala comum não
foi detido em nenhum aspecto e em nenhum momento. Começou e continuou
insuflando ódio, desinformação e violência diariamente ao longo dos últimos 3
anos e meio. Seus seguidores, por sua vez, se armaram para praticar
ilegalidades em todas as áreas e em todos os lugares. Seu golpe já está sucedendo
com o desmonte total de todas as políticas importantes de direitos humanos no
país, aumento de mortes no campo, assassinatos de indígenas e crimes milicianos
autorizados em toda parte e o acúmulo de centenas de milhares de mortes
evitáveis durante a pandemia.
O Brasil de bolsonaro é o Brasil do estupro, dos
assassinatos impunes, da perda vexaminosa de direitos dos mais vulneráveis, da
defesa de medicações estéreis para doenças gravíssimas e da escalada de
criminosos e milícias ao poder. Temos certeza de que não haverá país algum se,
de algum modo, ele se mantiver no poder. Mas de que adiantam certezas ante a
negação dessas certezas?
-Não há clima para golpe
-Os militares não vão aderir
-As instituições reagirão, etc
Nada disso aconteceu até agora e o STF permaneceu
na corda bamba, ameaçado e desafiado. O atual ocupante do governo criou o clima
de golpe e o atualiza todos os dias sem ser impedido de nenhum modo.
Ninguém sabe como reagirão os militares ou parte
deles, por isso o medo grassou antes do último 07 de setembro ano passado
diante das ameaças de jair, sem que nenhum estudioso ou especialista em forças
armadas pudesse prever coisa alguma. As instituições funcionam? Quais? Se
congresso e PGR são, há quase 4 anos, flagrantemente bolsonaristas? Quais dessas
certezas estamos negando duplamente? E porque?
O medo inibe o pensamento. É um sentimento
conservador que instrui fantasias que se tornam calabouços onde as experiências
não são interrogadas.
Por vezes, parece que estamos torcendo pelo melhor
apoiados em fantasias denegatórias de que teremos eleições tranquilas e uma
sucessão institucionalmente livre e justa, num país em que o presidente repetiu
infinitas vezes que não vai aceitar o resultado e prepara, com todas as forças
que lhe restam, o golpe com a anuência de boa parte do congresso nacional e a
cumplicidade do Procurador Geral da República Augusto Aras.
A maior ambição hoje dos realmente preocupados com
a ameaça de bolsonaro teria de ser uma operação Simon Bolivar na América
latina, e ninguém mais capacitado para construir essa operação do que o
ex-presidente Lula, que goza de respeito e admiração na maioria dos países
latino americanos.
O resultado das eleições ainda é incerto, mas o
golpe já se arma na câmara dos deputados com a aprovação irresponsável,
articulada e apoiada pelo centrão de medidas abusivas que despeja recursos que
impactam no bolso de brasileiras e brasileiros pobres e vulneráveis e tem
potencial para alterar significativamente as últimas as pesquisas eleitorais.
Uma operação Simon Bolivar nas américas, articulada
entre presidentes de esquerda dos países latino americanos, seria o mais
contundente aviso para que o incitador de crimes e atual presidente do Brasil,
seja intimidado de suas promessas e pretensões golpistas e não ouse provocar a
morte de brasileiras e brasileiros, a bem de seu desejo de se manter no poder,
custe o que custar. Sempre bom lembrar: a horda de violentos é sempre composta
de covardes.
A tentativa de golpe que já está ocorrendo e sendo
divulgada mundialmente terá de ser armada e apoiada pelas polícias e as forças
armadas, que contam juntas com contingentes de centenas de milhares de soldados
e policiais esparramados por todos os estados da federação. Alguns certamente
aderirão.
Só a ameaça de uma oposição e reação armada poderá
lhe fazer frente. Não há qualquer possibilidade de resistência interna a um
novo golpe militar/policial/empresarial no Brasil se houver. Porém hoje há a
possibilidade de um posicionamento de todos os presidentes de esquerda da
américa latina contra um golpe institucional no Brasil, em legítima defesa e em
nome da preservação da democracia nas américas. Esse seria o aviso mais
eloquente.
Os presidentes do Chile, Argentina, Colômbia,
Bolívia, México, etc podem liderar esse posicionamento latino americano em
nome, inclusive, da preservação da democracia em seus próprios países que,
direta ou indiretamente, a continuidade eventual do atual governo ameaçará.
Não bastarão as coligações internas, e nem mesmo um
massivo FORA BOSONARO, que foi esvaziado das ruas pelos partidos de esquerda
que apostaram na hemorragia de bolsonaro. Nada disso será o suficiente. É
preciso força institucional internacional e um posicionamento irrevogável pela
democracia, que estará em risco em todo o continente, se bolsonaro encontrar
meios de se preservar no poder.
O governo dos EUA hoje se posiciona por eleições
livres e justas e em nome da democracia, tendo feito o contrário em 1964.
Esperemos, ao menos neutralidade nesse caso. Porém, nenhuma ação será eficaz
contra esse governo, quando e se for derrotado, se não resguardar uma potência
de força e ação imediata contra o golpe armado que bolsonaro prepara desde o
primeiro dia de seu mandato.
Não há tempo para ingenuidades, nem denegação ou
fuga de nosso passado traumático. O prestígio internacional de Lula tem de
servir agora de esteio por uma aliança vigorosa, contra os riscos de
calcinamento da democracia do maior país da américa latina, hoje em chamas.
É preciso afirmar as lições da história. Gandhi
jamais pararia um Hitler e nenhum STF segurará, como fez até agora, os anseios
de destruição de alguém que atua exclusivamente em nome da preservação dos
próprios privilégios e de uma única família. No Brasil o que temos é um
arremedo de Hitler.
Os partidos que são os principais responsáveis pelo
esvaziamento das ruas após a tentativa de golpe fracassado no último 07 de
setembro, devem corrigir o erro agora pelo FORA BOLSONARO nas ruas e são eles
que devem buscar o apoio internacional inconteste em nome de sua própria existência
futura que, sem isso, será reduzida no futuro a uma espúria disputa Arena X
MDB, sem MDB.
Mas também podemos sentar sobre o ‘não há clima
para golpe no Brasil’. Mas falta avisar o ocupante do cargo a presidente, seus
apoiadores diretos, civis e militares que ocupam com altos salários milhares de
cargos no governo, e os milhões que pretendem mantê-lo no cargo.
Publicado no GGN: 12/08/2022
Fonte: https://patrialatina.com.br/por-uma-operacao-simon-bolivar/