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11.17.2022

Cop 27: para salvar a Terra, a solução é banir o petróleo e o carvão

...a guerra da Russia contra a Ucrania "tira um tempo vital da humanidade para evitar a extinção"... afirma Petro

 

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Nos sete minutos de seu discurso na Cop 27, Petro presidente eleito recentemente na Colombia solicitou a contribuição da comunidade internacional para salvar a Amazônia, definida como um dos "pilares climáticos" fundamentais, assegurando que seu país também fará sua parte, destinando 200 milhões de dólares ao ano por 20 anos. Mas não parou por aí. Se, disse ele, "desde a Cop 1   até hoje, a liderança política fracassou", foi porque para "superar a crise climática" não tomou o único caminho possível: "Parar de consumir hidrocarbonetos".

Para isso, disse, é necessário um plano global de des-carbonização imediata: “A solução é um mundo sem carvão e sem petróleo”. Mas o mercado não pode ser “o principal mecanismo” para combate à emergência climática, considerando que “é precisamente a acumulação de capital que a produziu”: sendo a causa, não pode ser também o remédio. Será, necessariamente, a mobilização da humanidade que trará uma mudança de rumo, "não o acordo entre tecnocratas condicionado pelos interesses das companhias de hidrocarbonetos": é, em suma, "a hora da humanidade e não aquela dos mercados".

Para controlar os últimos detalhes de seu discurso, todo escrito a mão, Gustavo Petro até faltou na foto oficial dos chefes de estado na Cop 27. Ele havia anunciado um decálogo de recomendações contra a crise climática e fazia questão que sua mensagem chegasse alta e clara.

Um objetivo, sem dúvida, que o presidente colombiano alcançou plenamente.

Nos sete minutos de seu discurso, Petro solicitou a contribuição da comunidade internacional para salvar a Amazônia, definida como um dos "pilares climáticos" fundamentais, assegurando que seu país também fará sua parte, destinando 200 milhões de dólares ao ano por 20 anos. Mas não parou por aí. Se, disse ele, "desde a Cop 1 até hoje, a liderança política global fracassou", foi porque para "superar a crise climática" não tomou o único caminho possível: "Parar de queimar hidrocarbonetos".

Para isso, disse, é necessário um plano global de des-carbonização imediata: “A solução é um mundo sem carvão e sem petróleo. Mas o mercado não pode ser “o principal mecanismo” para combate à emergência climática, considerando que “é precisamente a acumulação de capital que a produziu”: sendo a causa, não pode ser também o remédio. Será, necessariamente, a mobilização da humanidade que trará uma mudança de rumo, "não o acordo entre tecnocratas condicionado pelos interesses das companhias de hidrocarbonetos": é, em suma, "a hora da humanidade e não aquela dos mercados", como até hoje vem ocorrendo nas Cop’s.

Mas o Petro tinha críticas para todos: são a Organização Mundial do Comércio e o Fundo Monetário Internacional que devem respeitar as decisões da Cop, e não vice-versa; o FMI deve iniciar um programa de substituição da dívida por investimentos em adaptação e mitigação; os bancos devem parar de financiar a economia dos hidrocarbonetos. E, finalmente, as negociações de paz devem começar imediatamente: "A guerra", concluiu, "tira um tempo vital da humanidade para evitar a extinção".

Se sua posição firmemente anti-extrativista é uma exceção na própria América Latina, na frente de defesa da Amazônia Petro pode contar com importantes aliados.

Em primeiro lugar, Lula, que chegará a Sharm El Sheikh no dia 14 de novembro acompanhado, entre outros, de Marina Silva, que muitos gostariam de ver novamente como ministra do Meio Ambiente, e precedido de enormes expectativas em nível mundial. Não à toa, das 34 mensagens de felicitações recebidas no dia de sua vitória, dez se referiam à questão ambiental.

Embora, ao contrário de Petro, continue apostando no extrativismo, Lula se empenhou em combater de forma decisiva o desmatamento - responsável por quase 50% de todas as emissões que alteram o clima no Brasil -, recuperando aquelas estratégias que no passado levaram a uma redução de quase 80% na taxa de desmatamento. E prometeu ainda a criação de um Ministério dos Povos Originários, que provavelmente será presidido, o anúncio poderia ocorrer justamente na Cop27, por uma das maiores lideranças indígenas do país, Sônia Guajajara, recém-eleita deputada federal.

E com Petro e Lula também se posicionou Maduro, embora ele também muito distante das posições anti-extrativistas do presidente colombiano: muito duras, não por acaso, as críticas que lhe foram dirigidas em matéria ambiental, a partir do lançamento, já em o 2016, do megaprojeto do Arco Mineiro do Orinoco, a exploração de uma área de 120 mil quilômetros quadrados na Amazônia venezuelana na qual foram descobertas grandes quantidades de ouro, coltan, diamantes, ferro, bauxita e outros minerais.

Na Cop27, porém, Maduro chegou com propostas novas, a começar por aquela, discutida com Petro e Lula, para "retomar a defesa da Amazônia", relançando a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (Otca), criada em 1995 pela BolíviaBrasilColômbiaEquadorGuianaPeruSuriname e Venezuela e realizando, o mais rápido possível, uma cúpula latino-americana em defesa da floresta.

Tradução: Luisa Rabolini

Publicado no IHU Unissínos: 10 Novembro 2022

 Fonte: https://ihu.unisinos.br/623786-o-decalogo-de-petro-abala-a-cupula-a-solucao-e-um-mundo-sem-petroleo

 

11.05.2022

Planeta Terra: um mundo onde caibam muitos mundos , será possível ?

...continuamos a ser demasiado eurocêntricos, demasiado “Um”, pensando ser ainda possível falar na América Latina como uma sociedade da qual todos nos sentimos parte. Que isso aconteça depois de cinco séculos pode ser desmoralizante, triste ou o que queiram, mas a realidade é irredutível, Zibechi

Entrevista com o uruguaio Raúl Zibechi, escritor, cientista social, pensador progressista popular polêmico 

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por Isadora Attab na Editora Elefante – Sociedade e Maneiras de Povos/Nações se Protegem do Neocapitalismo

A entrevista de Alana Moraes, Lucas Keese e Marcelo Hotimsky  com Rául Zibechi segue abaixo:

Desde que começamos a organizar este livro, muitos eventos políticos importantes ocorreram na América Latina e no mundo. Houve a derrota eleitoral do primeiro ciclo de governos progressistas ao mesmo tempo que líderes políticos de extrema direita se fortaleceram com grande apoio popular e chegaram ao poder. Mais recentemente, surge um novo fôlego eleitoral com uma renovada onda de governos progressistas, mas, ainda assim, a extrema direita segue conquistando espaços importantes na sociedade. Em seus textos, você destaca a questão do modelo econômico extrativista na América Latina no contexto da acumulação por des-possessão ou Quarta Guerra Mundial,1 nos termos zapatistas, que seriam modos político-econômicos presentes inclusive nos governos progressistas da região. Seria possível pensar que o avanço da extrema direita seja a expressão mais bem acabada desse projeto extrativista e possa enterrar de vez as expectativas por “inclusão social” e formas mais negociadas de gestão da pobreza? Ou estaríamos vendo um projeto de outra natureza em curso? Como você entende a emergência desse cenário no contexto latino-americano diante da chamada crise dos progressismos e o que as lutas por autonomia, tão caras à sua obra, podem nos apontar neste momento?

Raúl Zibechi (RZ) Acredito que os governos de extrema direita não têm necessariamente um projeto definido, mas provavelmente sejam a expressão da crise, uma resposta a partir das classes dominantes e médias, mas também das instituições que sentem que essa crise é algo novo e diferente, que pode varrê-las. Se nossos projetos estratégicos têm sido desbaratados pela realidade, podemos pensar que acontece algo similar com as direitas. Acredito que a única instituição que continue de pé, e seguirá durante muito tempo, são as Forças Armadas. Não é nenhum acaso que, em plena crise no Brasil, elas tenham dado um passo à frente, ocupando espaços cruciais do poder.

Minha impressão é a de que as classes dominantes têm apenas um projeto: continuar no topo, continuar dominantes. O restante, elas improvisam. Enquanto isso, apelam ao Estado para resolver as urgências. É um erro pensar que a economia, o lucro, é o aspecto primordial para elas. O capitalismo não é uma economia, e nesse ponto sigo Abdullah Öcalan, é um projeto de poder, um tipo de poder tecido em torno da dominação das mulheres e dos povos originários e negros. É uma utopia, portanto, pensar que seja possível tomar o controle do Estado, porque é o Estado deles, uma ferramenta criada pela burguesia para servi-la.

Creio, assim, que o problema está do nosso lado: dois séculos de estado-centrismo levaram a política emancipatória à falência. Essa é uma conclusão baseada na experiência, não tem nada a ver com as ideologias, nem com o marxismo ou o anarquismo. Mas sejamos francos: não existe uma alternativa já preparada para substituir uma política ancorada na tomada do Estado.

No pensamento crítico, existe um problema maior. Se a acumulação por reprodução ampliada do capital, o capitalismo industrial, correspondeu no Primeiro Mundo ao Estado de bem-estar social, ou a formas menos acabadas de negociação entre sindicatos, Estado e empresas, como na América Latina, devemos analisar que tipo de Estado corresponde ao período da acumulação por des-possessão, no Sul do mundo e nas zonas do não ser.

É aí que ganha vigor o conceito de Quarta Guerra Mundial do zapatismo. Uma guerra permanente de usurpação para retirar as pessoas dos territórios, apropriar-se deles e redesenhá-los conforme sua conveniência. Isso é o que acontece nas áreas de expansão do agronegócio na Amazônia, da mineração e das mono-culturas em todo o continente, mas também do extrativismo urbano nas grandes cidades. As Olimpíadas e a Copa do Mundo foram a desculpa para desalojar centenas de milhares de pessoas de suas moradias, como aconteceu com a Vila Autódromo, no Rio de Janeiro.

O tipo de Estado que corresponde a essa forma brutal de acumulação não pode ser a democracia. A ocupação militar nas favelas, a guerra contra os pobres em todo o continente são o modo de dominação que torna possível a espoliação. A esquerda não quer entrar nesse debate e acredita que, se cair Bolsonaro, tudo voltaria a ser “paz e amor”. Impossível. O Brasil não vai voltar ao ciclo FHC e Lula, a menos que ocorra uma revolta popular muito potente, muito além de junho de 2013.

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Persistem no campo das esquerdas na América Latina diversos movimentos e tendências que, a despeito de divergências táticas e estratégicas, têm em comum a rejeição ou a incapacidade de atuar por meio de formas políticas que não desejam unificar, homogeneizar, reduzir as diferenças. Em muitos movimentos sociais, as imagens de “politização” têm a ver com o processo levado a cabo por forças centrípetas externas que seriam capazes de integrar “partes” ao “todo”, fazendo com que indivíduos aparentemente desorganizados, demasiado conectados com a “experiência” e as “necessidades”, superem sua suposta dis-funcionalidade política para assim se tornarem “maiorias”. Em seus textos, entretanto, você chama a atenção para a existência de outro modo de pensar e fazer política que passa não por essa reverência ao ideal do “Um”, como aponta Pierre Clastres, mas pela potência de ser outro, de produzir diferenças: “um mundo onde caibam muitos mundos”, como dizem os zapatistas. Seriam, assim, modos de agir politicamente que não estão apartados do cotidiano, ao contrário, são feitos por meio dele, uma política que não opõe os imperativos da luta à potência de diferenciação da vida, mas faz dessa relação sua maior força. 

Seria possível pensar esse como um dos mais significativos contrastes nas imaginações revolucionárias hoje? Quais seriam os êxitos mais destacados dos movimentos que não se deixam sequestrar pelo ideal do “Um”, pela necessidade de ser Estado, e poderiam expandir a imaginação revolucionária da esquerda, atualmente tão empobrecida?

RZ Além de evitar cair no conceito de “Um”, Estado, partido ou exército revolucionário, acredito que devemos recusar a ideia de “Uma” sociedade. As duas ideias deveriam caminhar juntas. Recusar a unidade e a homogeneização — ambas vão de mãos dadas — implica apostar na diversidade e em um conceito de totalidade diferente do herdado por nós da Europa. São os temas de Aníbal Quijano, que nos fala sobre uma totalidade integrada por partes que não são idênticas, mas heterogêneas. Aqui o conceito de heterogeneidade é tão importante quanto o de totalidade.

Me explico melhor com exemplos. Em sociedades homogêneas, a totalidade se impõe sobre as partes porque existe apenas uma lógica, pois as partes têm características similares ao todo, a ponto de o todo estar nas partes, e estas são partes da totalidade. Mas na nossa América Latina, onde temos enorme heterogeneidade histórica (povos oriundos de vários continentes, com histórias diversas) somada à heterogeneidade estrutural (cinco relações de trabalho, quatro delas não salariais), a totalidade não é capaz de refletir essa diversidade. Nem mesmo os Estados plurinacionais, que estão armados sobre a matriz estatal, adornada com cores diversas.

Por isso, como afirma Quijano, a revolução não pode consistir na saída de uma totalidade (capitalismo) do cenário social para dar lugar a outra totalidade (socialismo, digamos). Isso não funciona, nem pode funcionar. “Os processos de mudança não podem consistir na transformação de uma totalidade historicamente homogênea em outra equivalente, seja gradual ou continuamente, seja por saltos e rupturas”, diz o sociólogo peruano.

Isso é o que vemos nos feminismos e o que vivi em Chiapas. É evidente que o mundo das mulheres muda, mas de maneira muito heterogênea. É impossível que todas as mulheres, de todos os setores sociais, geográficos, de faixas etárias e dos diversos povos, movam-se para a mesma direção. Seria preciso impor a mudança, como foi feito na União Soviética. As mulheres mapuche têm uma história, e as operárias, outra, com relações familiares muito diferentes, e relações sociais e com o meio bastante distintas e até contraditórias.

Nas comunidades zapatistas, predomina a heterogeneidade. É muito difícil encontrar uma comunidade em que todas as famílias sejam zapatistas. Ali a questão é como se relacionam com os que são pró-governo ou indiferentes, ou evangélicos, ou seja o que for. Além disso, cada povo maia, em cada geografia, encara as coisas de modo distinto, mesmo que seja zapatista.

Antes da pandemia de covid-19, a América do Sul começava a experimentar um novo ciclo de lutas contra os consensos neoliberais, como na Colômbia, no Equador, no Peru e no Chile. No contexto internacional da crise relacionada à pandemia e seus efeitos vindouros, entretanto, há um claro discurso de fortalecimento do Estado como “protetor” e administrador da vida dos corpos. Novas tecnologias de vigilância e bio-vigilância parecem ter legitimidade inclusive dentro de setores que se identificam como progressistas. Além disso, vale lembrar que, só em São Paulo, 373 pessoas foram mortas pela polícia nos quatro primeiros meses de 2020. No mês de abril, um mês crucial de contágio, São Paulo registrou o maior índice de letalidade policial desde 2001. O horizonte de fortalecimento do Estado não seria uma proposta de volta às condições anteriores à derrocada dos “governos progressistas” que de certa forma ajudaram a produzir a situação atual? O que há hoje de experiências autônomas (e o que pode haver) de auto-defesa e de cuidados coletivos, mesmo em termos de autonomia técnica para sustentar a vida em comum diante do fortalecimento de uma cultura imunitária, securitária, vigilante e racista?

RZ Acredito que, com a crise de 2008, junho de 2013 e a queda do PT, encerra-se um ciclo de democracias pós-ditaduras. No plano concreto, deixa de haver governabilidade, hegemonia e certo consenso, para se instalar a dominação pura e simples e uma crise prolongada da governabilidade, no sentido dado por Foucault, não tanto de consenso, mas de técnicas de governo capazes de criar as condições para fazer o sistema funcionar.

Para os movimentos, o desafio consiste em se desprender da velha estratégia em dois passos (como analisa o sociólogo Immanuel Wallerstein) para se concentrar em outras formas de fazer política, que não excluem a relação com o Estado e os governos, mas que não se organizam em torno disso. A questão é: então qual o caminho? É preciso inventá-lo, porém não com a simples imaginação, mas com base no que foi feito e no que tem sido feito pelos povos nesses anos.

Observemos o que acontece no âmbito da pandemia no sul da Colômbia, no Cauca, entre os povos Nasa, Misak e Kokonuco, ligados ao Cric (Consejo Regional Indígena del Cauca [Conselho regional indígena do Cauca]). Realizaram uma minga hacia adentro [mutirão no plano interno], que consiste em um processo de harmonização coletiva nas comunidades e entre elas e a natureza. Reúnem-se em torno de fogueiras, fazem defumações com plantas curativas e médicos tradicionais perto das lagoas e dos locais sagrados. A comunidade é um princípio curativo e de  cuidados. Além disso, intensificam e diversificam cultivos, enviam alimentos a indígenas urbanos, trocando-os por produtos de higiene. Realizam trocas entre produtores de terras quentes e frias, sem dinheiro, com base nas necessidades.

Todo o processo é protegido por sete mil guardas indígenas “armados” com bastões de mando, que vigiam setenta pontos de entrada e saída dos resguardos, ou territórios indígenas. Em todo o continente, existe uma enorme variedade de iniciativas de autodefesa: guardas indígenas Nasa do Cric, que agora estão sendo adotados pelos povos negros como os guardias cimarrones e os trabalhadores sem-terra como os guardias campesinas; polícia autônoma em Guerrero, no México, além do EZLN (Ejército zapatista de liberación nacional [Exército zapatista de libertação nacional]); rondas campesinas [patrulhas dos trabalhadores rurais] no Peru, que já têm cinquenta anos, e nos lugares em que existe mineração se transformam em Guardianes de las Lagunas [Guardiões das lagoas]; auto-defesas em muitos bairros periféricos. Agora surgiu a guardia washek, no norte da Argentina, no Chaco.

Em estreita relação com as auto-defesas, as autonomias se multiplicam. No norte do Peru, temos há quatro anos o Gobierno Territorial Autónomo de la Nación Wampis [Governo territorial autônomo da nação wampis], caminho seguido por outros três povos amazônicos. Além disso, há muitas autonomias de fato que não se definem desse modo, mas funcionam. Como determinar o que acontece entre os Munduruku ou entre os Tupinambá da Serra do Padeiro, na Bahia? Ou em vários quilombos e em todo o continente? À medida que avançam a espoliação e a ultradireita, os povos intensificam sua inflexão autônoma. Simplesmente porque eles não têm outro caminho para se defender e continuar a ser povos.

A reflexão sobre os movimentos e as revoltas associados a povos indígenas é muito importante em sua obra. O que para você parece singular na experiência não só dos povos indígenas, mas de todos os povos que se diferenciam de modo mais destacado ao que chamamos de Ocidente, e o que nessas experiências pode apontar para um alargamento dos modos de pensar e fazer política? Quais os diálogos e os encontros desejáveis entre essas formas de luta e a tradição dos movimentos de esquerda de origem europeia diante da profunda corrosão das formas democráticas que hoje nos atravessa na América Latina e no mundo?

RZ Os territórios, a territorialização de povos, classes, cores de pele e gêneros. Diria que sem territórios não somos nada, não conseguimos nos ancorar como sujeitos coletivos e nos desmanchamos no ar, como dizia Marx. A classe operária foi derrotada quando conseguiram neutralizar seus espaços, como as tabernas, e quando des-territorializam a fábrica, fragmentando o processo produtivo. A força operária nunca esteve apenas na fábrica. Sem o bairro operário, sem a sociabilidade densa entre famílias, nunca teria acontecido algo que chamamos de poder operário. Os sovietes eram territoriais, correspondiam a uma região operária, como os Cordones Industriales,2 no Chile de Salvador Allende, ou o ABC paulista durante a última ditadura.

Existe uma fantasia que situa os sindicatos como chave da luta de classes, algo não demonstrado pelas pesquisas empíricas sobre a classe operária. A potência da classe foi constituída pelas comunidades em seus territórios, muitos deles ao redor ou próximos das fábricas. Aliás, os sindicatos continuam a existir, mas, se não há comunidades operárias, eles não têm a menor força, nem mesmo representatividade. Estudei durante sete anos em uma comunidade operária em uma pequena cidade que girava em torno de duas fábricas, as maiores de seu ramo no Uruguai (Zibechi, 2006). Consultei arquivos sindicais de trinta anos e pude ver como o sindicato era uma casca, que se dedicava a negociar com a entidade patronal quando os operários e as operárias das camadas mais baixas colocavam a fábrica de pernas para o ar com greves selvagens, enfrentando o despotismo dos capatazes. As pessoas não se levantam contra um sistema, ao menos não inicialmente, mas contra a opressão concreta: dos capatazes, dos policiais, como agora nos Estados Unidos, dos machos alfa, do poder direto que as oprime. Não existe uma luta contra o patriarcado ou contra o capitalismo em abstrato, a não ser na cabeça de alguns intelectuais de esquerda. Uma das conclusões a que cheguei é que a luta era mais potente quando os operários eram uma multidão (organizada informalmente em suas redes de amizades “naturais”) do que quando se transformam em “classe” hierarquizada e institucionalizada no sindicato.

Depois de toda essa volta, vejo que agora na Europa começam a existir movimentos territoriais, sobretudo depois da crise de 2008. Hortas urbanas e, especificamente nas periferias, espaços públicos resgatados pelos vizinhos para um lazer não mercantil, além de edifícios autogeridos, fábricas e fazendas recuperadas e até um bairro inteiro Errekaleor, em Vitoria-Gaistez, no País Basco, uma experiência magnífica. Vi isso apenas na Itália, na Grécia e no Estado espanhol, mas antes essas iniciativas não existiam.

Com essa territorialização, o vínculo entre movimentos da Europa e da América Latina começa a mudar. Antes a relação era de solidariedade daqueles conosco, que se mantém, mas sempre unilateral e monetária, o que provoca situações horríveis nas quais algumas pessoas se aproveitam e muitas ficam à margem. Essa é uma das razões que levaram os zapatistas a criar as Juntas de Buen Gobierno [Conselhos de bom governo], para superar a sacrossanta solidariedade entre esquerdas institucionais e ONGs. Agora começamos a fazer coisas mais interessantes, trocar experiências, aprender como fazem em cada local para superar as dificuldades, ou seja, começamos a nos irmanar, um tipo de vínculo muito mais profundo e criativo.

Você costuma colocar em suas análises que a questão do território é central para a existência dos movimentos autônomos. Em alguns momentos você formula essa questão utilizando a metáfora dos territórios como “arcas”, espaço para os povos se protegerem do dilúvio capitalista. Ao mesmo tempo que essa imagem dialoga com a crise climática, ela abre espaço para uma leitura de descrença nas disputas que possam alterar a produção desse cataclismo. Davi Kopenawa Yanomami vem afirmando que o aumento desenfreado da destruição produzida pelo capitalismo faz com que não haja nenhum lugar seguro para se refugiar. Seja nas cidades ou nas florestas, o céu cairá sobre a cabeça de todos. Desse modo, seria possível pensar ações políticas produzidas por esses territórios-refúgios que apontem para além de si mesmos? Ações com potência de intervir sobre esse mundo, o qual caminha para uma iminente queda do céu?

RZ É evidente que os povos sabem muito mais do que nós. O que é dito por Davi é absolutamente correto. Já não existe algo externo ao material. Além disso, e isso é terrível, a destruição não depende mais apenas do capital, mas daquilo que perturbava Pasolini: a mutação antropológica implicada pelo consumismo. Pretender evitar o colapso é inútil, porque deveríamos convencer a maioria qualificada da população mundial a tomar outro rumo. Impossível. A degradação do ser humano é demasiada para que se mudem os modos de vida sem uma catástrofe. Mais ainda, duvido que uma catástrofe possa nos mudar. Nesse sentido, parece-me que pensamentos como os de Slavoj Žižek não levam a nada, porque não estão amparados na realidade. Refiro-me àquela afirmação de que agora as pessoas vão compreender que não é possível continuar assim. Não, isso não funciona porque o sistema nos confinou, mas nos deu uma janela diabólica: a internet.

É a maior droga já inventada. Os que estão fazendo algo diferente são, justamente, os povos que têm “carência” de internet, os que não dependem dela porque têm uma conexão péssima ou inexistente ou porque vivem na natureza, muito superior à tela por nos conectar a nós mesmos, a nossos amigos e companheiros e a todo o mundo, a partir do coração e das emoções. A emoção/natureza, bem como a emoção/amor, é insubstituível, e apenas quando nos amputamos dessa dimensão podemos nos transformar em prisioneiros de algo tão pobre como uma tela.

Durante mais de 25 anos, os zapatistas tentaram fazer isso que vocês dizem: juntar-se a outros para fazer alguma intervenção no cenário político. O resultado, como sabem, é muito pobre. Aqui quero propor algo distinto ao que Davi diz: é certo que já não existem lugares seguros, mas podemos criá-los. Se não o fizermos, desapareceremos como espécie, pelo menos como tem sido a comunidade de seres humanos até não muito tempo atrás. Quero dizer que o governo wampis, os territórios da Serra do Padeiro, as autonomias nasa e zapatistas são criações das três últimas décadas, espaços e territórios que não existiam previamente.

Pelo que posso intuir, apenas várias intervenções nessa direção podem criar um conjunto de espaços que serão seguros não por razões técnicas, mas políticas, pelos laços de confiança e de comunidade que somos capazes de criar. As arcas não são construções fortes, com materiais à prova de bombas ou tsunamis, mas vínculos sólidos para resolver os problemas entre aqueles que estão no território que resiste.

Em síntese: continuamos a ser demasiado eurocêntricos, demasiado “Um”, pensando ser ainda possível falar na América Latina como uma sociedade da qual todos nos sentimos parte. Que isso aconteça depois de cinco séculos pode ser desmoralizante, triste ou o que queiram, mas a realidade é irredutível.

Zibechi, gostaríamos de saber sobre a relação entre seu percurso e o conjunto de suas reflexões. Falando um pouco sobre sua trajetória, quais encontros provocaram em você mudanças ou produziram deslocamentos de questões que até então lhe eram caras? Nesse sentido, quais seriam os pontos de virada que você identifica em sua trajetória como militante? É possível pensar em formas de conhecer e pesquisar que não estejam mais separadas dos próprios modos de fazer política, dos modos de existência em luta?

RZ Houve dois ou três momentos de virada. No exílio na Espanha, nos anos 1970, foi importante conhecer a primeira onda feminista. A verdade é que, chegando da América Latina, isso foi um golpe duro para o ego masculino revolucionário, e a reação inicial foi defensiva. Apesar do impacto, consegui questionar minha forma de pensar ligada naquele momento ao marxismo e ao leninismo, mas agora vejo que progressivamente o feminismo foi atravessando minhas convicções sobre a forma de compreender o poder, o Estado, o partido e a revolução.

A segunda inflexão foi o zapatismo. Há anos vinha conhecendo comunidades indígenas na região andina, nos anos 1980, e isso me impactou muito, assim como a escrita de José María Arguedas e de alguns pensadores peruanos, como Alberto Flores Galindo. Mas o zapatismo foi fundamental, já que provocou em mim um duplo impacto, político e de pensamento, e ao mesmo tempo afetivo. Conviver com as comunidades e as bases de apoio muda sua forma de ver o mundo, de ver a si mesmo e põe em xeque os modos de pensar e de fazer.

Talvez exista uma terceira, mais recente, mas acredito que é muito cedo para compreendê-la em profundidade. Ela se relaciona com a crise do progressismo iniciada em junho de 2013, o vazio deixado por ele e a emergência dos sujeitos coletivos de “mais abaixo”, como povos negros e amazônicos. Em dado momento, eu havia confiado nos governos progressistas, sobretudo no de Lula, que foi quase o primeiro, mas o entusiasmo durou bem pouco. Então, junho de 2013 era, e de algum modo continua a ser, algo distinto, não tanto pelas ruas, que sempre são importantes, mas por dois motivos adicionais: mostrar os limites do progressismo e das esquerdas e ensinar que as coisas podem ir por outro caminho, pelas mãos de outros sujeitos.

Jovens, mulheres e favelados têm exercido um papel mais importante do que parece. Não é possível ver tudo isso no momento seguinte a junho de 2013, mas vai saindo pouco a pouco da sombra. Sob a pandemia de covid-19, ficam completamente evidentes tanto a crise das esquerdas (do PT ao MST) quanto a recomposição do campo popular. Nesse sentido, conhecer militantes em favelas como Maré e Alemão, no Rio de Janeiro, me encheu de perguntas e me levou a buscas de outro tipo, de Abdias do Nascimento ao papel do teatro e da música na formação de sujeitos coletivos negros.

Sobre as formas de conhecer, pensar e pesquisar, é evidente que, com a ruptura dessas esquerdas, também desmorona o papel do indivíduo branco, acadêmico ou escritor e militante. Estamos diante de outra realidade. O pensamento crítico deixa de estar centrado na escrita, no livro, e se diversifica nas produções do mundo popular, como na dança, na ritualidade, na atuação e nos movimentos corporais. Quero dizer que meu papel como pessoa branca adulta também é questionado pela emergência desses sujeitos coletivos, em particular feministas e jovens negros, no caso do Brasil. É o momento de pensar: o que vem depois?

Como vocês podem imaginar, não tenho a resposta. Seria muito egocêntrico pensar que eu, como indivíduo, vou tê-la a partir de uma racionalidade urbana ocidental. O que vem a seguir é um trabalho intenso, individual e coletivo, anti-patriarcal, anti-colonial e anti-eurocêntrico. Tudo isso implica um trabalho sobre o ego branco masculino. Não pensem que vou me suicidar. Não por enquanto, mas o momento é de nos repensar, de trabalhar com outros e outras e, sobretudo, cada vez mais distante do centro, nas margens. Sob a pandemia, tenho tentado ser apenas o fio transmissor do que os povos estão fazendo, porque são eles os que nos ensinam, e nós somos apenas seus alunos. Os zapatistas têm dito isso há anos, mas às vezes pensávamos ser apenas retórica.

Em resumo, temos de nos repensar desde quem fala, a partir dos territórios dos quais se emite um discurso, o que supõe nos colocarmos em questão, em debate, e aceitar que não somos centro de nada, mas apenas uma dobradiça.

Referências da entrevista:

Zibechi, Raúl. Livros De multitud a clase: formación y crisis de una comunidad obreraJuan Lacaze (1905-2005). Montevidéu: Ediciones Ideas, 2006.

1 O jornal mexicano La Jornada publicou em 2001 fragmentos do discurso do subcomandante Marcos que detalham a visão dos zapatistas sobre o tema. Após a Terceira Guerra Mundial (a Guerra Fria), a liderança zapatista afirma que a Quarta Guerra busca tomar territórios para impor a globalização, vista aqui como universalização do mercado. (Subcomandante insurgente Marcos, “La Quarta Guerra Mundial”, La Jornada, 23 out. 2001) [n.t.]

2 Órgãos que administravam fábricas com autogestão dos operários durante o governo de Salvador Allende (1970-1973). [n.t.]

Publicado na Editora Elefante: 16 DE SETEMBRO DE 2022

Fonte:  https://elefanteeditora.com.br/entrevista-com-raul-zibechi-autor-de-territorios-em-rebeldia/

11.02.2022

A estratégia da ultra direita global contra a liberdade social brasileira

... o objetivo de médio prazo dos golpistas é impedir que o presidente Lula da Silva termine o seu mandato...

... a legitimidade do poder é tornar o Brasil justo entre as classes sociais, pois hoje o maiores problemas são a má distribuição de renda , o domínio das elites  que criou a desigualdade social, racial e sexual muito injusta e perversa

por Boaventura de S. Santos no DCM e OutrasPalavras* - Sociedade e Capitalismo destruindo o Homem

ICL 

 Bolsonaristas fazem bloqueio na Rodovia Regis Bittencourt. Foto: Na internet

Neste domingo tornou-se evidente que está em curso um golpe de Estado no Brasil. É um golpe de tipo novo, cujo curso poderá não ser substancialmente afetado pelo resultado das eleições, ainda que a vitória de Lula da Silva certamente afetará o seu ritmo.

É um golpe que começou a ser posto em movimento em 2014 com a contestação dos resultados das eleições presidenciais ganhas pela presidente Dilma Rousseff; prosseguiu com o impeachment da presidente Rousseff em 2016; com a prisão ilegal do ex-presidente Lula da Silva em 2018 de modo a impedi-lo de concorrer às eleições que foram ganhas pelo presidente Bolsonaro, beneficiário principal do golpe de Estado na sua fase atual.

Com a eleição de Bolsonaro encerrou-se a primeira fase do golpe e iniciou-se uma segunda. Tal como Adolfo Hitler em 1932, Bolsonaro tornou claro desde o primeiro momento que se servira da democracia exclusivamente para chegar ao poder e que, uma vez atingido este objetivo, exerceria o poder com o exclusivo objetivo de destruir. Nesta segunda fase, o golpe assumiu a forma de esvaziamento lento da institucionalidade e da cultura política democráticas, cujos principais componentes foram os seguintes.

No domínio da institucionalidade: exploração de todas as debilidades do sistema político brasileiro, nomeadamente do poder legislativo, aprofundando a mercantilização da política, a compra e venda de votos dos representantes do povo no período entre eleições e a compra e venda de votos de eleitores durante os períodos eleitorais; a cumplicidade do sistema judiciário conservador incapaz de imaginar a igualdade dos cidadãos perante a lei e habituado a conviver tanto com o primado do direito como com o primado da ilegalidade, dependendo dos interesses em causa; a captura das forças armadas através da distribuição massiva de cargos ministeriais e administrativos.

No domínio da cultura política democrática: a apologia da ditadura e dos seus métodos repressivos, incluindo a tortura; utilização massiva das redes sociais para divulgar notícias falsas e promover a cultura do ódio e uma ideologia de bem-estar esvaziada de outro conteúdo que não o do mal-estar ou sofrimento infligido ao “outro” construído como inimigo; a capilarização no âmago do tecido social do imperialismo religioso conservador dos EUA (evangelismo neopentecostal) em vigor desde 1969 como preferencial política contra-insurgente.

Esta fase concluiu-se no final do primeiro turno das eleições presidenciais em 2 de outubro passado. A partir daí, entrou numa fase nova assente no ataque frontal ao núcleo duro da democracia liberal, o processo eleitoral e as instituições encarregadas de garantir o seu decurso normal. Esta fase é qualitativamente nova em razão de dois fatores.

Em primeiro lugar, tornou-se mais clara a internacionalização do ataque à democracia brasileira por via de organizações de extrema-direita globais originárias e financiadas pela plutocracia norte-americana. O Brasil transformou-se no laboratório da extrema-direita global; aí se testa a vitalidade do projeto fascista global em que o neoliberalismo joga um novo (último?) fôlego.

O objetivo principal é a eleição de Donald Trump em 2024. Informações fidedignas dão-nos conta de que as empresas de desinformação e de manipulação eleitoral ligadas ao notório fascista Steve Bannon estiveram instaladas em dois andares de uma das ruas principais de São Paulo donde dirigiram as operações.

Nesta fase eleitoral, as duas estratégias principais foram as seguintes. A primeira foi a intimidação para impedir o “voto errado” e os benefícios a troco do “voto certo” oferecido pelo baixo empresariado e por políticos locais. A segunda, muito utilizada pelas forças conservadoras nos EUA, sob o nome de vote suppression, foi a supressão do voto. Tratou-se de um conjunto de medidas excepcionais, sempre sob o verniz da normalidade legal, destinadas a impedir os grupos sociais mais inclinados a votar no candidato oposto aos golpistas de exercer o seu direito de voto: bloqueios de estradas, excesso de zelo na fiscalização de veículos que transportam potenciais votantes, intimidação de modo a provocar a desistência, suspensão de transportes gratuitos decretados pela lei eleitoral para promover o exercício do direito de voto aos mais pobres.

E agora, Brasil? A democracia brasileira sobreviveu a esta nova fase do golpe de Estado continuado. Para isso contribuiu o notável e destemido envolvimento dos democratas brasileiros que viram no seu voto a prova de uma vida minimamente digna, a afirmação da sua auto-estima civilizatória, o principio a tivo da energia democrática para os tempos difíceis que se avizinham. Contribuiu também a firmeza das instituições da justiça eleitoral, no meio de pressões, de desautorizações e de intimidações de todo o tipo.

Mas seria estultícia irresponsável pensar que o processo golpista terminou. Não terminou e vai entrar numa nova fase porque as condições e as forças nacionais e internacionais que o reclamam desde 2014 continuam vigentes e só se fortaleceram nestes anos mais recentes. O golpe de Estado continuado vai entrar numa nova fase. De imediato, será provavelmente a contestação dos resultados eleitorais para compensar o fracasso dos golpistas em não terem conseguido os resultados que pretendiam com as múltiplas fraudes que praticaram. Depois, o golpe assumirá outras formas, ora mais subterrâneas com a utilização do crime organizado para intimidar as forças democráticas, ora mais institucionais com a mobilização desviante do poder legislativo para criar uma situação de permanente ingovernabilidade, nomeadamente com a ameaça de impeachment do governo eleito e dos quadros superiores do sistema judicial.

Embora o objetivo de médio prazo dos golpistas seja impedir que o presidente Lula da Silva termine o seu mandato, o processo do golpe continuará e só será verdadeiramente neutralizado quando os democratas brasileiros se derem conta de que a vulnerabilidade da democracia é em boa medida auto-infligida, pela arrogância em pretender ser a única condição para a legitimidade do poder em vez de assumir que a sua legitimidade estará sempre à beira do colapso numa sociedade socioeconômica, histórica, racial e sexualmente muito injusta.

* Publicado originalmente no OutrasPalavras

Publicação no DCM: 1 de novembro de 2022

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-estrategia-da-direita-contra-lula-por-boaventura-de-sousa-santos/

 

10.27.2022

O homem neo-liberal: a mudança forçada na forma de pensar será a destruição dos corpos pelo neo-liberalismo ?

 Entraremos numa crueldade desconhecida que consiste em querer modificar esse corpo humano velho de 100 mil anos. Para, a partir dele, tentar improvisar outros

A suspensão atual das proibições ou direitos civis, leis ambientais de sustentabilidade, destruição de culturas étnicas, costumes, espiritualidade,  esconde um verdadeiro projeto pós-nazista sustentado pelo capitalismo ou neo-liberalismo. Ao mesmo tempo em que quebra as regulamentações simbólicas, possibilita que a técnica avance sozinha, até quebrar a humanidade, ou seja, dominar os pensamentos, destruir o espírito e nosso corpo de 100 mil anos não mais existirá... 

 "O nascer do novo homem", pintura de Salvador Dali na internet

por Dany-Robert Dufour* na revista Diplomatique- Sociedade e Risco do Capitalismo Destruir o Ser Humano

Dado que só há mais um conjunto de produtos que são trocados por seu estrito valor comercial, os homens devem livrar-se de todas as sobrecargas culturais e simbólicas

No livro L'art de réduire les têtes1, tentatou-se evidenciar a profunda reconfiguração das mentes realizada pelo mercado. A demonstração era relativamente simples: o mercado recusa qualquer consideração (moral, tradicional, transcendente, transcendental, cultural, ambiental…) ou a regulação social existente nos países, que possa impedir a livre circulação da mercadoria no mundo, circulação essa que traga prejuízos a vida. É por isso que o novo capitalismo tenta desmantelar qualquer valor simbólico unicamente em benefício do valor monetário neutro da mercadoria, ou seja, que evidencie somente o lucro em detrimento de quaisquer outros fatores desfavoráveis a existência do neo-liberalismo. Dado que não há mais nada senão um conjunto de produtos que são trocados por seu estrito valor comercial, os homens devem livrar-se de todas as sobrecargas culturais e simbólicas que, até há pouco tempo, garantiam suas trocas. Neste sentido, a materialidade somente do comércio em si mesmo, desfazendo qualquer forma social que ameace ou impeça o puro lucro.

Tem-se um bom exemplo dessa des-simbolização produzida pela expansão do reino da mercadoria quando se examina o papel-moeda emitido em euro no continente europeu. Observa-se que estas notas perderam as efígies das grandes figuras da cultura que, de Pasteur a Pascal e de Descartes a Delacroix, ou outras voltadas aos volores sociais, indexavam, ainda a pouco tempo, as trocas monetárias sobre os valores culturais patrimoniais dos Estados-Nação. Hoje, não há nada impresso nos euros além de pontes e portas ou janelas, exaltando uma fluidez des-culturada ou sem nenhuma cultura. Pede-se aos homens que se curvem ao jogo da circulação infinita da mercadoria (para não dizer, convence-se com argumentos para além do entendimento da sociedade). Pode-se dizer, portanto, que a lei do mercado é destruir todas as formas de lei, que representem uma pressão que de alguma forma, dificulte o lucro sobre a mercadoria.

Ao abolir qualquer valor comum, o mercado ou o neo-liberalismo está em via de fabricar um outro “homem novo”, privado de sua faculdade ou capacidade de julgar (sem outro princípio que o do lucro máximo), levado a usufruir sem desejar (a única salvação possível encontra-se na mercadoria, substituindo os verdadeiros dogmas sociais), formado em todas as flutuações identitárias (não há mais sujeito; existem apenas subjetivações temporárias, precárias) e aberto a quaisquer conexões comerciais, mesmo em prejuízo a sim mesmo. Estamos, aqui, diante de um aspecto muito particular da des-regulamentação neo-liberal que, infelizmente, não é compreendida, mas que já produz efeitos consideráveis em todos os domínios onde o homem atua, particularmente sobre o psiquismo humano (mudança da consciência humana). Um certo número de psiquiatras e de psicanalistas está constantemente atuando nos novos sintomas decorrentes desta des-regulamentação, como a depressão, as diversas dependências, as perturbações narcisistas, a extensão da perversão etc.

Está se fazendo o inventário dos novos sintomas decorrentes desta des-regulamentação, como a depressão, as diversas dependências, as perturbações narcisistas, perversões

Desregulamentação simbólica das regras sociais

Esta des-regulamentação de tipo novo provoca grandes confusões nos debates atuais. Ela é acompanhada de uma sensação de liberdade, baseado na proclamação da autonomia de cada um e numa extensão da tolerância em todos os campos sociais (dentre os quais o dos costumes), que tende a fazer acreditar de maneira enganosa, que estamos em vias de viver um intenso período de libertação. Dado que o antigo patriarcado opressivo está em desvantagem, um dos pontos que mais se prega, acredita-se que uma revolução sem precedentes estaria a caminho... esquecendo-se de que foi o próprio capitalismo que comandou esta “revolução” visando unicamente a facilitar a penetração da mercadoria nos domínios onde ela ainda não reinava – o dos costumes e o da cultura.

Karl Marx² não se enganava quanto a essa face “revolucionária” do capitalismo: “A burguesia”, escrevia ele, “não pode existir sem provocar, constantemente, grandes mudanças nos instrumentos de produção, portanto nas relações de produção e, portanto, no conjunto das condições sociais, as quais, o espirito capitalista tem a sobrevivência baseado nas quebras desse caldeirão de múltiplas valências sociais. De modo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores, era manter inalterado o antigo modo de produção. O que distingue a época burguesa de todas as precedentes é a incessante introdução de mudanças na produção, a des-estabilização contínua de todas as instituições sociais, em resumo, a permanência da instabilidade e do movimento, se assim é possível definir, contra-social. Todas as relações sociais enferrujadas, com seu cortejo de idéias e de opiniões admitidas e veneradas, dissolvem-se; as que as substituem envelhecem antes mesmo de se esclerosarem. Tudo o que era sólido, bem definido, se desmancha no ar, liquidifica (Bauman), tudo o que era sagrado se encontra profanado e, afinal, os homens são forçados a considerar com um olhar desiludido o lugar que ocupam na vida e suas relações recíprocas2.” Esta capacidade de transformar as relações sociais atingiu o ponto máximo através desse novo estado do capitalismo que é chamado às vezes, e com razão, de “anarco-capitalismo (anarquizar o social para capitalizar a vida).

Essa transformação funcionou tão bem, que houve quem tentasse reter apenas o lado “libertário”, “jovem” e “conectado” da nova forma, empolgando-se, sem grandes dificuldades, com a revolução dos costumes que ela introduzia. A confusão é tal que quem não faz outra coisa senão seguir essa des-regulamentação cultural e simbólica acredita-se muitíssimo revolucionário – penso na parte da esquerda conectada que se entusiasma com todas as “causas tendência” na sua investida revolucionária contra-social. Ora, é exatamente o que quer dizer o anarco-capitalismo que gosta, se não da “revolução”, pelo menos de todas as formas de des-regulamentação culturais e simbólicas. Todos os spots (mensagens) publicitários mostram isto, basta para entender, estabelecer um paralelo com a moral, o tradicional, o transcendente, o transcendental, a cultural, e a questão ambiental… .

"Esta des-regulamentação simbólica provoca grandes confusões nos debates atuais, pois é acompanhada de um cheiro libertário", ou seja, ela anarquiza para dominar o pensamento do ser humano.

Perigos potenciais para a civilização humana

Parece que as populações pressentem os consideráveis perigos potenciais que a civilização corre diante de tal des-regulamentação simbólica. Mas o mercado pode recuperar tudo em seu proveito: muitos grupos já estão agindo, vangloriando-se e vendendo morais de péssima qualidade. Ora, seria um erro crucial deixar o debate sobre os valores para os conservadores, sejam eles antigos ou “neo” (modernos). De fato, se se abandonar esse terreno, ele será, como nos Estados Unidos, ocupado por Donald Trump pelos tele-evangelistas e seus supostos puritanos, ou, como na Europa, pelos populismos fascistizantes que nos assustam, mas acabam enraizando-se na sociedade sob a ótica neo-liberal. Portanto, é urgente construir uma nova reflexão sobre os valores, sobre o sentido da vida em sociedade e sobre o bem comum destinado às populações confusamente alarmadas pelos estragos morais devidos à extensão infinita do reino da mercadoria, que após 11 de setembro de 2001, auferiu vantagens inimagináveis na rede social, aproveitando-se da internet. É claro que, se esse terreno não for cercado, essas populações serão tentadas a pender para o lado dos que o ocupam de forma tão barulhenta quanto indevida a sociedade, que sofre a mudança forçada na forma de pensar como a burguesia se dá por satisfeita.

Entretanto, restringir o debate a esses aspectos culturais seria cometer um grande engano. Porque parece que essa reconfiguração das mentes não é senão a primeira fase de um mecanismo mais amplo. Para dizê-lo em poucas palavras, a “redução de cabeças” e a des-simbolização são apenas o prelúdio de uma outra re-definição em profundidade do homem, a qual, então, atingiria não só sua mente, mas também seu corpo.

Ora, o homem atual está em via de ultrapassar esse ideal dado que, se estiver efetivamente em via de “esculpir sua própria estátua”, esta bem poderia ser uma estátua viva, chamada a substituir a do próprio homem. Observemos, de passagem, que isso não seria nada menos que o fim da filosofia, que seria abrangida numa tal intenção de redefinição das bases materiais da humanidade. Sua realização suporia, de fato, a transformação irremediável de um empreendimento, incessantemente relançado desde a Antiguidade, de reforma do espírito (pela ascese, pela busca da autonomia, pela re-fundação do entendimento) num objetivo puramente tecnicista de modificação do corpo. Mas de que serviria ganhar um corpo novo se isto significasse perder o espírito?

O anarco-capitalismo acreditou na idéia de que o dar-se leis é cruel e só confina a uma espécie de masoquismo insuportável. E remete cinicamente os que teriam necessidade de um suplemento de alma ao puritanismo obscurantista. É preciso, portanto, lembrar que os filósofos do Iluminismo, como Jean-Jacques Rousseau e Emmanuel Kant, diziam que a liberdade consiste apenas em obedecer às leis que o homem se deu. De fato, temos necessidade de verdadeiras leis jurídicas e morais – e não desses sucedâneos moralizantes – para, enfim, fazer justiça, para salvaguardar o mundo antes que seja tarde demais, para preservar a espécie humana ameaçada por uma lógica cega. Ora, estamos em via de ab-rogar todas as leis – exceto as do mais forte – e, se continuarmos nessa funesta direção, entraremos numa crueldade bem mais intensa que a de ter que se submeter a leis. Entraremos numa crueldade desconhecida que consiste em querer modificar esse corpo humano velho de 100 mil anos. Para, a partir dele, tentar improvisar outros.

A suspensão atual das proibições ou direitos civis, leis ambientais de sustentabilidade, destruição de culturas étnicas, costumes, espiritualidade,  esconde um verdadeiro projeto pós-nazista sustentado pelo capitalismo ou neo-liberalismo. Ao mesmo tempo em que quebra as regulamentações simbólicas, possibilita que a técnica avance sozinha, até quebrar a humanidade, ou seja, dominar os pensamentos, destruir o espírito e nosso corpo de 100 mil anos não mais existirá...
Tradução: Iraci D. Poleti

Edição: Mangue do Cachoeira

Publicado revista Diplomatique: 01.set.2005


* Dany-Robert Dufour, diretor de programa no Collège international de philosophie (Colégio Internacional de Filosofia), Paris. Autor, dentre outras obras, de: On achève bien les hommes, ed. Denoël, Paris, 2005.


1 - Ver, de Dany-Robert Dufour, L'art de réduire les têtes ? sur la nouvelle servitude de l'homme libéré à l'ère du capitalisme total, Denoël, Paris, 2003.

2 - Karl Marx, Manifeste communiste, trad. Lafargue, Ed. sociales, Paris, 1976, p. 35

Fonte: https://diplomatique.org.br/o-homem-neoliberal-da-reducao-das-cabecas-a-mudanca-dos-corpos/