Páginas

7.20.2023

Dívida de Países em Desenvolvimento Aumentou 5 Vezes e Deixou-se de Investir em Educação e Saúde

Cerca de 3,3 bilhões de pessoas – mais de 41% da população mundial – vivem em países que hoje gastam anualmente mais com o pagamento de suas dívidas do que investem em Educação ou Saúde, conforme estudo da ONU

por Vinicius Konchinski no Brasil de Fato – Sociedade e Sistema Financeiro Mundial Fracassado

  Enquanto governos gastam cada vez mais com dívidas, faltam recursos para obras de bem-estar para a população - Foto: Thiago Araújo / INESC

Cerca de 3,3 bilhões de pessoas – mais de 41% da população mundial – vivem em países que hoje gastam anualmente mais com o pagamento de suas dívidas do que investem em Educação ou Saúde. Essa é a principal conclusão do estudo "Um Mundo de Dívidas", divulgado neste mês pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Segundo esse estudo, a dívida pública de todos os países do globo quintuplicou em 20 anos: saiu de 17 trilhões de dólares em 2002 e atingiu 92 trilhões de dólares nos ano passado – cerca de R$ 450 trilhões hoje.

Ao mesmo tempo, o crescimento da produção mundial de riquezas triplicou – ou seja, cresceu num ritmo 40% menor em relação ao crescimento da dívida pública.



Dívida pública de países quintuplicou e atingiu 92 trilhões de dólares, de acordo com estudo da ONU / Arte/Brasil de Fato

O descompasso entre o aumento das dívidas e da produtividade tem pressionado os orçamentos públicos de nações mundo afora. O problema aflige principalmente os países mais pobres, chamados de países em desenvolvimento. Isso faz com que cada vez mais recursos sejam destinados ao pagamento de credores e menos para o bem-estar da população, que mais precisa de atenção do Estado.

"3,3 bilhões de pessoas são mais do que um risco sistêmico, são uma falha sistêmica", disse António Guterres, secretário-geral da ONU, no evento de apresentação dos dados sobre dívidas levantados pela organização.

Para Guterres, o sistema financeiro internacional é um "fracasso" à medida que retira recursos de áreas estratégicas para o desenvolvimento de países quando, na verdade, deveria servir a este desenvolvimento.

O estudo aponta que só 30% das dívidas públicas do mundo pertencem a países pobres. Para eles, porém, elas pesam mais, já que o orçamento deles é menor que o dos ricos. Pesa mais também porque os juros que eles pagam sobre essa dívida são mais altos para os mais pobres.



Estudo da ONU compara taxas de juros de títulos da dívida pública com prazo de 10 anos de vencimento / Arte/Brasil de Fato

Na Alemanha, por exemplo, um título com prazo de vencimento de dez anos emitido pelo governo para obter recursos e financiar sua operação paga juros de 1,5% ao ano. No continente africano, um título semelhante tem juros de 11,6% ao ano.

Em 2022, países em desenvolvimento gastaram 6,9% de suas receitas e 1,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) somente para pagar juros dos seus débitos. Há 20 anos, eram 4,2% das receitas e 0,9% do PIB.

O gasto com a dívida, aliás, cresce mais rápido do que com investimentos em obras, Educação e Saúde. "Isso é um resultado da desigualdade intrínseca de um sistema financeiro mundial obsoleto, que reflete as dinâmicas coloniais da época em que foi criado", disse Guterres, ressaltando que boa parte dos credores de países mais pobres são bancos de países ricos ou instituições controladas por esses países.



Crescimento dos gastos com juros supera crescimento com investimentos em Educação, Saúde e obras / Arte/Brasil de Fato

Mauricio Weiss, economista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), acrescentou que esses bancos também são responsáveis por dívidas de países mais ricos. Nos Estados Unidos e na Grécia, por exemplo, a dívida pública cresceu porque o governo foi obrigado a socorrer os bancos quando eles ficaram perto de quebrar.

"Teve a pandemia que elevou a dívida, mas também o socorro de países a bancos e cidadãos, como no caso da Grécia", disse ele.



Dívida pública cresce mais em países em desenvolvimento do que em países desenvolvidos, segundo ONU / Arte/Brasil de Fato

O caso Brasil e a Dívida Externa

A ONU indica que 70% das dívidas de países mais pobres são de Índia, China e Brasil.

No Brasil, a taxa básica de juros da economia, a Selic – que serve de referência para a dívida pública – é hoje de 13,75% ao ano – a mais alta do mundo, segundo o governo federal.

Monitoramento realizado pela organização Auditoria Cidadã da Dívida informa que, em 2022, o governo gastou R$ 4,06 trilhões. Disso, R$ 1,87 trilhão foram destinados a pagamentos de juros e da própria dívida – 46,3% do total. Na Educação, foram 2,7%; na Saúde, foram 3,3%.

"O principal problema do país é a taxa de juros", acrescentou Weiss. "Nesse atual patamar da Selic, o aumento de 1 ponto percentual representa algo em torno de R$ 30 a R$ 40 bilhões na nossa dívida."

Weiss ressaltou que a dívida pública, em si, não é ruim. O problema é quando ela cresce de forma desequilibrada com o crescimento da economia –o que não é o caso do Brasil.

Pedro Faria, economista e pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ratifica a avaliação de Weiss.

Para ele, a taxa de juros no Brasil é alta. Mesmo assim, nem todo endividamento público pode ser considerado negativo. "Às vezes você tem um déficit, mas está investindo em busca de crescimento e reduzindo a relação dívida-PIB no futuro."

Edição: Leandro Melito

Publicado no BdF: 19 de Julho de 2023

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2023/07/19/divida-de-paises-quintuplica-em-20-anos-e-compromete-orcamento-de-nacoes-mais-pobres

 

No Brasil em 30 Anos de Privatizações os Investimentos Caíram e Dívida Pública Subiu

Venda de empresas públicas não abriu espaço para investimento privado nem pagou dívida

"O recurso que os governos arrecadam por conta da privatização serviram basicamente para atender o serviço da dívida pública [os juros]. Não serviu para ampliação de investimento ou gasto social", afirmou  o economista Pochmann da Unicamp

por Vinicius Konchinski no Brasil de Fato – Sociedade e Grande Perda de Estatais Brasileiras em 30 Anos

 População foi às ruas para protestar contra a privatização da companhia Vale do Rio Doce, vendida "a preço de banana" em 1997 - Arquivo - Brasil de Fato

Há pouco mais de 30 anos, durante a gestão do então presidente Fernando Collor (hoje no PTB), o governo lançou um plano robusto de privatizações: Programa Nacional de Desestatização (PND), que existe até hoje.

Naquela época, com o país em processo de redemocratização e precisando crescer, a venda de grandes empresas públicas era apresentada como uma dupla solução: primeiro, levantaria dinheiro para pagamento da dívida nacional; depois, contribuiria com o crescimento dos investimentos no país já que setor privado aumentaria sua participação neles.

Passados todos esses anos e vendidas estatais estratégicas como a Vale do Rio Doce e a Telebras, é possível dizer que as privatizações não serviram a nenhum dos objetos propostos: a dívida pública brasileira é maior do que era quando o PND foi lançado, em 1990; já o investimento ficou menor do que há 30 anos.

Segundo dados oficiais compilados pelo Observatório de Política Fiscal da Fundação Getulio Vargas (FGV), em 1990, o Brasil investia 20,66% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Só o governo federal investia 0,88% do total gerado pela economia brasileira num ano; estatais investiam 1,48%; já o setor privado investia 15,45%.

Desde que as privatizações começaram, com a venda da Usiminas, em 1991, a taxa de investimento oscilou, mas nunca atingiu os 21%. Em 2013, durante o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT), chegou a 20,91%. Desde então, caiu e fechou 2021 em 19,17%.

Quando o PND foi lançado, economistas liberais argumentavam que, ao vender suas empresas ao capital privado, o Estado "abriria espaço" para que o investimento privado crescesse e as modernizasse. Em 2021, no entanto, o setor privado investiu 17,11% do PIB nacional, percentual maior do que em 1990, mas insuficiente para elevar o nível de investimento total.

Entre 2010 e 2020, o investimento privado correspondeu a 14,77% do PIB, na média. A taxa é menor do que a registrada em 1990.

Já o investimentos das estatais que restaram caiu para 0,66% em 2021. Isso é menos da metade do de 30 anos atrás.

"Ao contrário do discurso neoliberal de que é necessário o esvaziamento do Estado para que então o setor privado possa avançar, o que se observou de maneira geral é que a privatização não implicou adicional de investimento produtivo", ratificou o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcio Pochmann.

Dívida Brasileira Aumentou Apesar da Venda de Estatais Importantes

Segundo Pochmann, as privatizações das estatais sequer serviram para aumentar a capacidade de investimento do governo federal, que em 2021, ficou em 0,26% do PIB – cerca de um quarto do que era em 1990. Ele lembrou que existia essa previsão quando o PND foi lançado. As vendas arrecadariam recursos, que seriam usados para pagamento da dívida pública, e assim sobrariam fundos para construção escolas, hospitais, estradas, por exemplo.

Os números, porém, mostram que não foi isso que aconteceu. Além do investimento federal nunca mais ter alcançado o patamar de 1990, a dívida brasileira aumentou de lá pra cá, apesar do dinheiro recebido com a venda das estatais. Em 1990, a dívida pública bruta era de 63% do PIB, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ela fechou 2021 em 80,3%, segundo estatística do Banco Central (BC).

"O recurso que os governos arrecadam por conta da privatização serviram basicamente para atender o serviço da dívida pública [os juros]. Não serviu para ampliação de investimento ou gasto social", afirmou Pochmann.

Privatização: Discurso Equivocado do Empresariado Brasileiro

Simone Deos, que também é professora da Unicamp, disse os dados sobre investimentos e dívida são eloquentes para demonstrar a ineficiência das privatizações como solução para o crescimento e desenvolvimento. Para ela, é errado pensar que o investimento público "tira espaço" do privado.

Ela explicou que, na verdade, o que acontece é o contrário. Empresários só investem quando têm expectativa de lucro. Quando o setor público investe, a economia como um todo tende a crescer. Se isso acontece, é maior a chance do empresário lucrar. Maior também a chance de ele querer investir.

"O investimento público e investimento privado geralmente aumentam ao mesmo tempo", disse ela. "Não existe essa coisa de um expulsar o outro. Na verdade, o que deveria haver é uma complementaridade."

Daniel Negreiros Conceição, economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse que essas expectativas equivocadas não são meros erros. Para ele, há interesses no aumento das privatizações no Brasil. Esse interesse é de grandes empresários, os maiores beneficiados das vendas das estatais.

"Os capitalistas obviamente não querem enfrentar a concorrência estatal", disse Conceição. "Cada vez que você estatiza e começa a promover serviços públicos, você tira a oportunidade do setor privado fazer isso. Então o sonho do capitalista é a privatização."

Governo Bolsonaro Reviveu Pauta da Venda do Patrimônio Público

Segundo Conceição, esses capitalistas têm hoje influência sobre "extremistas liberais" que comandam a economia nacional durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL). Por isso, neste governo, as privatizações voltaram à pauta econômica.

Durante a gestão Bolsonaro, o governo privatizou 36% das estatais brasileiras. Quando ele assumiu a Presidência, a União controlava 209 empresas. Hoje, são 133.

A última privatização relevante realizada foi a venda do controle da Eletrobras, maior empresa de energia da América Latina. A operação também ocorreu porque, segundo o governo, isso possibilitaria o crescimento de investimentos da companhia.

A venda, aliás, ocorreu enquanto países como França e Alemanha discutem reestatizar empresas de energia para garantir sua soberania.

"O Brasil está na contramão. Parece surdo e cego ao que acontece no resto do mundo", reclamou Simone Deos.

Grandes privatizações desde 1990:

Governo Fernando Collor (1990 a 1992)

. Usiminas (siderúrgica)

Governo Itamar Franco (1992 a 1994)
. Companhia Siderúrgica Nacional
. Embraer (aviação)

 Governo Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002)
. Telebras (telefonia)
. Vale do Rio Doce (mineração)
. Bancos estaduais

Dilma Rousseff (2011 a 2016)
. Instituto de Resseguros do Brasil (seguradora)

Michel Temer (2016 a 2018)
. Distribuidoras de energia
. Linhas de transmissão

Jair Bolsonaro (2019 a 2022)
. Eletrobras (energia)
. BR Distribuidora (Petrobrás - combustíveis)
. Transportadora Associada de Gás - TAG (Petrobrás - combustíveis)
. Refinaria Landulpho Alves (Petrobrás - combustíveis)

Edição BdF: Thalita Pires

Publicado no BdF:  25 de Setembro de 2022

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2022/09/25/30-anos-de-privatizacoes-investimentos-caem-e-divida-publica-sobe

 

7.13.2023

Terra: Colapso Ecológico e Social por Causa do Aquecimento Global

O “aquecimento global” derrete o gelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares elevando o nível do mar e deixando bilhões de pessoas afetadas pela invasão da água salgada e escassez da água potável. A acidificação e a morte dos oceanos vai ter um impacto devastador para a humanidade. O aquecimento e a acidificação também vai afetar a agricultura e o preço dos alimentos deve subir, aumentando a insegurança alimentar e acendendo uma centelha capaz de incendiar grandes mobilizações de massa

A súbita “mudança climática” pode levar a civilização ao colapso. Não é a natureza que está ameaçando o ser humano. O ser humano é que está se autodestruindo ao aquecer a temperatura do Planeta. E o pior é que muitas espécies inocentes podem desaparecer no Antropoceno devido à irresponsabilidade e ganância de uma espécie egoísta e que só pensa em aumentar o seu padrão de vida às custas das riquezas naturais

 Imagem onda global de calor _ the guardian _ na internet

por José Eustáquio Diniz Alves* no EcoDebate e IHU Unissinos – Sociedade, Aumento da Temperatura na Terra e Impactos na Humanidade

"A 6ª extinção em massa das espécies e o agravamento do “aquecimento global” são apenas o prelúdio de um “colapso ecológico e social” que se vislumbra no horizonte. No dia 22 de abril de 2020 comemorou-se os 50 anos do Dia da Terra e foi uma boa oportunidade para as pessoas manifestarem-se e mobilizaram-se contra o caminho “ecocida e suicida que a humanidade está seguindo", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate em 20-01-2020 (ver referência bibliográficas no final do texto).

Cenário Climático na Terra está Ficando Cada Vez Mais Perturbador

“A prosperidade da vida humana e das suas culturas é compatível com um substancial decrescimento da população” (1984) - Arne Næss and George Sessions em 8 Princípios da Ecologia Profunda

Enquanto a roda viva dos eventos sociais gira de maneira alucinante e as atividades antrópicas crescem continuamente, há um desastre ecológico ocorrendo em câmara lenta (para os olhos humanos), mas que segue um ritmo aceleradíssimo para a escala geológica. Aquilo que os cientistas chamavam de maneira cautelosa de “mudanças climáticas” transformou-se em “crise climática” ou “caos climático”, passando a representar um perigo existencial à civilização e uma ameaça concreta à sobrevivência da vida humana e não humana. Como disse Greta Thunberg: “Nossa casa está pegando fogo”. A crise climática é a ameaça mais urgente do nosso tempo. E o tempo para reverter o aquecimento global está se esgotando.

Depois de 5 anos (2014-2018) das temperaturas mais altas já registradas desde o início da série histórica que começou em 1880, o ano de 2019 marcou a vice-liderança e, mesmo não sendo um ano de “El Niño”, ficou 0,95º C acima da média do século XX. A atual década tem sido marcada por um calor excepcional, indicando uma tendência preocupante. O cenário climático está ficando cada vez mais perturbador, mais ameaçador e se agravando com muita rapidez e profundidade e os incêndios e queimadas da Austrália são apenas uma “amostra grátis” do que vem por aí.

 Imagem Terra em destruição _ Unoesc _ na internet

Terra: Estudo Mostra que a Emissão de CO2 Devido a Queima de Combustíveis Fósseis é o Principal Motivo de Aumento da Temperatura

O gráfico abaixo, da “NOAA”, tendo como referência básica a temperatura média do período 1901-2000, mostra as temperaturas mensais entre 1880 e 2019 e a reta de tendência dos últimos 20 anos (1999-2019). Assim, em relação à média do século XX, a temperatura de 2019 foi 0,95º C mais alta (sendo que no mês de dezembro apresentou um aumento de 1,05º C). Mas em relação ao período pré-industrial a anomalia foi de cerca de 1,2º C. Na primeira metade do século XX as temperaturas estavam abaixo da média do século e passaram a ficar bem acima da média na segunda metade do século. Já no século XXI o aumento é ainda mais significativo, pois das 19 maiores temperaturas, 18 ocorreram entre 2001 e 2019 e 8 dos anos mais quentes ocorreram na atual década.


Variação mensal da temperatura global 1880-2019 e tendência do período 1999-2019

Nota-se que, não somente o ano de 2019 apresentou um “calor excessivo”, como o ritmo do aquecimento da série histórica aumentou para 0,22º C por década. A tendência do aumento da temperatura entre 1880 e 2019 foi de 0,07º C por década. A tendência entre 1950 e 2019 foi de 0,14º C por década e entre 1999 e 2019 foi de 0,22º C por década. Mas o mais surpreendente é que a tendência 2009 a 2019 apresentou um aumento de 0,36º C.

Desta forma, há, indubitavelmente, uma inquestionável aceleração do ritmo do aquecimento global. Isto quer dizer que o aquecimento pode atingir 1,5º C (o limite estabelecido no Acordo de Paris) até 2030 e pode atingir 2º C antes de 2050, abrindo a possibilidade de se chegar a algo em torno de 4º C no final do século. O mundo sairia da “emergência climática” para o “caos climático”.

Os seis anos mais quentes do Antropoceno aconteceram entre 2014 e 2019 e os dois gráficos abaixo mostram as variações mensais da temperatura. No primeiro gráfico são apresentadas as anomalias mensais e o valor de cada entre parênteses. No segundo gráfico são apresentas as variações mensais para todos os anos da série, sendo os anos mais frios em azul e os mais quentes em vermelho (2019 com os marcadores pretos).


GISTEMP Seasonal Cycle since 1880

Com os “sucessivos recordes anuais”, a atual década (2011-20) é a mais quente já registrada desde o início das medições em 1880. A temperatura média da atual década ficou 0,82º C acima da linha de base 1901-2000. Nota-se que a década de 1970 ficou 0,09º C acima da média do século XX, a década de 1980 ficou 0,30º C, a década de 1990 ficou 0,41º C e a década de 2001-10 ficou 0,63º C acima da média do século XX.

 


Variação anual e decenal da temperatura global 1880-2020

Todos os dados acima foram reforçados por estudo publicado dia 15 de janeiro de 2020 por “James Hansen e colegas do Goddard Institute for Space Studies (GISS)”. Utilizando uma linha de base de 1880-1920 (início da série histórica), os autores mostram que a temperatura em 2019 ficou em 1,2º C acima. O estudo mostra que a emissão de CO2, em função da queima de combustíveis fósseis é o principal vetor de aumento da temperatura.


Temperatura global da superfície em relação a 1880-1920

Antecedente de um “Colapso Ecológico e Social” que se Vislumbra no Horizonte Sobre a Terra

 De fato, a humanidade vive uma situação inusitada. Nunca, desde o surgimento dos primeiros hominídeos – há cerca de 3 milhões de anos – houve concentração tão alta de CO2 na atmosfera e nunca, desde o “surgimento do Homo sapiens – há cerca de 200 mil anos” – houve uma temperatura tão alta como a que se projeta para os próximos 30 anos. Na maior parte de sua história, o Homo Sapiens viveu em temperaturas menores do que as atuais. O clima atual é uma situação totalmente atípica e que a humanidade nunca conviveu desde que desceu das árvores e passou a derrubá-las.

Acontece que esta súbita “mudança climática” pode levar a civilização ao colapso. Não é a natureza que está ameaçando o ser humano. O ser humano é que está se autodestruindo ao aquecer a temperatura do Planeta. E o pior é que muitas espécies inocentes podem desaparecer no Antropoceno devido à irresponsabilidade e ganância de uma espécie egoísta e que só pensa em aumentar o seu padrão de vida às custas das riquezas naturais.

Acordo de Paris, de 2015, propõe limitar o aquecimento global preferencialmente até 1,5º C e, no máximo, em 2º C. Porém, a meta mais baixa já está praticamente impossível de ser atingida e a meta superior pode ser ultrapassada até meados do atual século (aproximadamente 2050). O resultado deste processo de aquecimento deve ser calamitoso.

Artigo recente publicado na revista “Geophysical Research Letters (Mark Zelinka, 03/01/2020)” mostra que os modelos antigos subestimaram o ritmo do “aquecimento global” e novos estudos “representam as tendências climáticas atuais com mais precisão”. Segundo os autores, no ritmo atual o mundo caminha para uma temperatura de 5º C acima dos níveis pré-industriais, o que torna as metas do Acordo de Paris cada vez mais distantes.

O “aquecimento global” derrete o gelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares elevando o nível do mar e deixando bilhões de pessoas afetadas pela invasão da água salgada e escassez da água potável. A acidificação e a morte dos oceanos vai ter um impacto devastador para a humanidade. O aquecimento e a acidificação também vai afetar a agricultura e o preço dos alimentos deve subir, aumentando a insegurança alimentar e acendendo uma centelha capaz de incendiar grandes mobilizações de massa.

O jornalista David Wallace-Wells tem escrito sobre a possibilidade de uma catástrofe ambiental. Seu influente livro The uninhabitable Earth: life after warming (2019), começa com a frase: “É pior, muito pior do que você pensa”. Ele mostra que o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isso quer dizer que os efeitos danosos das “mudanças climáticas” vão se agravar com o tempo e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram e vão nascer no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental. A “degradação ambiental” vai ocorrer em várias áreas, com a acidificação dos solos, águas e oceanos, a precarização dos ecossistemas e os “desastres climáticos extremos” (secas, chuvas, furacões e inundações de grandes proporções), tornando muitos lugares da Terra bastante inóspitos ou inabitáveis (Alves, 2019).

Para mudar este quadro, libertar-se dos combustíveis fósseis é essencial. Porém, está cada vez mais evidente que não basta mudar a matriz energética, descarbonizar a economia e promover uma maquiagem verde no processo de produção e consumo. É preciso, urgentemente, colocar na ordem do dia o debate sobre os meios de se promover o decrescimento das atividades antrópicas. A meta de “redução da pobreza” deve ser alcançada pelo decrescimento das desigualdades sociais e não pelo crescimento demográfico e econômico desenfreado.

A Destruição do Meio Ambiente a Nível Global Provocará Condições Sociais Muito Precárias

A destruição do meio ambiente e os efeitos deletérios da globalização vão provocar um agravamento das condições sociais de amplas parcelas da população mundial, gerando levantes populares e rebeliões. Análise da consultoria Verisk Maplecroft  em 16/jan/2020 mostrou que 47 países ao redor do mundo conviveram com distúrbios civis no ano passado, como Hong Kong, Chile, Nigéria, Sudão, Haiti e Líbano. E este número pode subir para 75 países em 2020.

Até a elite econômica de Davos, na Suíça, reconhece a gravidade da situação ecológica. O novo relatório do Fórum Econômico Mundial, de janeiro de 2020, afirmou que a crise climática é o maior risco global, pois se nos anos anteriores os problemas econômicos eram considerados as maiores ameaças, agora os temores de colapso climático ficaram no centro do palco. As percepções de risco se desviaram para condições climáticas extremas, desastres ambientais, perda de biodiversidade, catástrofes naturais e falha na mitigação das mudanças do clima”. Uma das estrelas do evento foi Greta Thunberg que reforçou a demanda pelo fim do uso dos “combustíveis fósseis”.

Assim, não é possível mais negar a gravidade da situação. A 6ª extinção em massa das espécies e o agravamento do “aquecimento global” são apenas o prelúdio de um colapso ecológico e social” que se vislumbra no horizonte. No dia 22 de abril de 2020 foi comemorado os 50 anos do Dia da Terra e foi uma boa oportunidade em que as pessoas manifestarem-se e mobilizaram-se contra o caminho ecocida e suicida que a humanidade está seguindo.

Referências Bibliográficas:

ALVES, JED. Os 25 anos da CIPD: Terra inabitável e o grito da juventude, R. bras. Est. Pop., v.36, 1-13, e0085, 2019.

ALVES, JED. A maior temperatura em 5 milhões de anos, Ecodebate, 19/09/2016.

ALVES, JED. O clima na era dos humanos, Ecodebate, 27/07/2016.

James Hansen et. al. Global Temperature in 2019, GISS, 15 January 2020.

Mark D. Zelinka et. al. Causes of higher climate sensitivity in CMIP6 models, Geophysical Research Letters, 03 January 2020.

Miha Hribernik and Sam Haynes. 47 countries witness surge in civil unrest – trend to continue in 2020. Political Risk Outlook 2020, Verisk Maplecroft, 16 January 2020.

The Global Risks Report 2020. Para acessar  _  https://www.weforum.org/reports/the-global-risks-report-2020  .

 *José Eustáquio Diniz Alves sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. Foi professor da Universidade Federal de Ouro Preto de 1987 a 2002. Entre 2002 e 2019 foi professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde foi coordenador da Pós-graduação de 2005 a 2009. Pesquisador aposentado do IBGE desde abril de 2019. Colaborador dos sites Colabora, Ecodebate e Portal do Envelhecimento.

Publicado no IHU Unissinos: 20 Janeiro 2020

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/595739-recorde-de-temperatura-no-sexenio-2014-2019-preludio-do-colapso-ecossocial