Páginas

11.28.2015

Enfim, um tucano preso. Motivo? Se filiou ao PT! E agora...

  • A prisão de Delcídio escancara que a corrupção na Petrobras não começou com o PT e nem respeita partidos, embora a justiça pareça fazer de conta que não enxerga isso



Por Najla Passos, para Boletim Carta Maior de SP - Sociedade e Disputa de Poderes no Brasil

Créditos da foto: Geraldo Magela / Agência Senado 
Geraldo Magela / Agência Senado

Mal a imprensa anunciara, na quarta (25/nov), a prisão do senador Delcídio Amaral (PT-MS), líder do governo no senado, na 20ª  fase da operação lava jato, a piada pronta já se espalhava pelas redes sociais:

- Hoje é um dia histórico para o país... finalmente um tucano foi preso!

- Verdade? Não acredito... o que ele fez?

- Um monte de coisas que não devia... mas, principalmente, se filiou ao PT!

A piada serviu para o regozijo para boa parte da militância petista, que jamais enxergou em Delcídio “um dos seus”. Mas não reflete toda a verdade. Como também não o fazem as manchetes dos jornalões que estamparam a prisão do “senador petista”.

Delcídio não é exatamente petista. Nem tão pouco tucano. É uma espécie de ser híbrido – meio petista, meio tucano – cuja prisão escancara que a corrupção na Petrobras não começou com a chegada do PT e nem respeita siglas partidárias, embora a justiça pareça não querer enxergar isso.

Natural de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, Delcídio é aquele tipo de político que tem bom trânsito entre partidos diversos. No início da carreira, atuou na Eletrosul, na Secretaria Executiva do Ministério de Minas e Energia e foi presidente do Conselho de Administração da Companhia Vale do Rio Doce, que viria a ser privatizada mais tarde pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Em 1994, foi nomeado ministro de Minas e Energia pelo então presidente Itamar Franco, que tinha Fernando Henrique Cardoso à frente da Fazenda. Durante o governo do tucano de FHC, se filiou ao PSDB e acabou assumindo a diretoria de Gás e Energia da Petrobrás. Foi lá que ele conheceu Nestor Cerveró, que atuava como seu sub-diretor, e hoje o acusa de pressioná-lo a se calar na delação premiada.

Também foi nesta época que ele começou a se relacionar com Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como um dos principais operadores do esquema da Petrobrás, que, em delação premiada, afirmou que foi Delcídio quem indicou Cerveró para a diretoria da estatal, já em tempos de governo petista.

Em 2001, quando o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso caminhava para o fim, aceitou o cargo de secretário de Estado de Infraestrutura e Habitação no governo do Zeca do PT. Em 2002, candidato ao Senado, já pelo PT, e foi eleito com cerca de 500 mil votos.

Amigos de ontem 

No parlamento, Delcídio manteve os amigos que trazia do passado tucano. Sempre foi muito próximo do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual e apontado pela Forbes como a 13ª maior fortuna do país. Esteves, que também foi preso nesta quarta, é aquele amigo do peito do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Amigo ao ponto de pagar as despesas da lua de mel do tucano, quando foi a Nova York em 2013.

Esteves também é sócio de Pérsio Arida, eleito presidente interino do BTG nesta quinta (26). Arida é um dos economistas gurus de Fernando Henrique Cardoso, sócio do banqueiro Daniel Dantas, do Banco Oportunity, e ex-marido de Elena Laudau, a ex-diretora do BNDES que ajudou FHC a promover as privatizações que até hoje escandalizam o país.

Inclusive, foi com financiamento do BNDES que, em 1997, o Banco Oportunity comprou percentual da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), apontada como uma das principais financiadoras do “mensalão tucano” – aquele mensalão anterior ao petista, no governo Fernando Henrique Cardoso, mas que nunca vai à julgamento... Em 2005, na presidência da CPI dos Correios, o senador pelo PT Delcídio Amaral ajudou o PSDB a silenciar as denúncias sobre o caso.

Amigos de hoje

Mas se Delcídio tem boas relações com os tucanos, também as têm com muitos petistas. Não por acaso é o líder do governo no Senado, o que, pelo menos teoricamente, o qualifica como parlamentar em fina sintonia com linha política adotada pela presidenta Dilma Rousseff no momento, além de dotado de grande capacidade de articulação em outros ninhos.

E ele é, de fato, figura influente no parlamento. Preside a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), uma das mais importantes do parlamento. E é membro efetivo das Comissões de Serviços de Infraestrutura, Agricultura e Reforma Agrária, Ciência e Tecnologia, Ambiente e Defesa do Consumidor e da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, o que não é pouco.

O presidente do PT, Rui Falcão, disse que o partido não irá tratar Delcídio com a mesma solidariedade que prestou ao ex-tesoureiro João Vaccari, outro petista preso pela lava-jato. Segundo ele, são casos diferentes, porque Delcídio agiu por conta própria, em atividades não partidárias.

Por que não Cunha?

Delcídio é o primeiro senador da república a ser preso no exercício da função desde a redemocratização do país, em 1985. Conforme o Ministério Público, ele ofereceu R$ 50 mil e uma rota de fuga para que o comparsa Cerveró não apontasse sua participação no esquema da Petrobrás na delação premiada que acertou com a justiça.

Uma gravação feita pelo filho de Cerveró, Bernardo, durante uma reunião realizada em um hotel em Brasília para discutir a fuga, há cerca de 15 dias, atesta a participação inequívoca de Delcídio no planejamento da fuga, que o Ministério Público classificou como crime de obstrução à Justiça.

Dúvida de fato, nas instâncias dos poderes em Brasília, é só mesmo acerca da legitimidade ou não da sua prisão, já que a lei diz que um senador em cumprimento de mandato só pode ser preso em flagrante. Mas o próprio Senado reconheceu, já na noite desta quarta, por 59 votos a 13, a validade da polêmica decisão tomada antes pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Nos corredores do Congresso, não falta quem associe o precedente aberto ao caso do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), investigado pela mesma lava-jato. Não se tem notícia de que Cunha oferecera rota de fuga a nenhum dos condenados pela operação, mas é praticamente consenso que ele tem empreendido uma manobra após a outra para evitar que ele próprio seja investigado.

Para muito além da base do PT

Eduardo Cunha não é o único preocupado com os desdobramentos da prisão de Delcídio. A tal gravação que comprova que o senador tentara obstruir o trabalho da Justiça expõe vários outros ditos “homens importantes” da república. E para muito além das esferas do PT. Entre eles, o espanhol Gregório Marin Preciado, um velho parceiro do senador José Serra (PSDB-SP), casado com uma prima do tucano e ex-sócio dele em negócios imobiliários.

Na gravação, Delcídio atesta que Preciato é o espanhol que participou das negociações do pagamento de propina de R$ 15 milhões pela compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobrás. Um Espanhol que, ainda segundo ele, a justiça brasileira não teria conseguido identificar.

Aliás, conforme Delcídio, Preciato é muito mais do que um operador do esquema, mas sim a verdadeira cabeça. “O Fernando [Baiano] está na frente das coisas e atrás quem organiza é o Gregório Marin [Preciato]”, afirma. Na gravação, Delcídio também registra a preocupação de Serra de que as denúncias cheguem até o amigo-parente.

“O Serra me convidou para almoçar outro dia, ele rodeando no almoço, rodeando, rodeando, porque ele é cunhado do Serra”, disse Delcídio, acusando o tucano de tentar extrair dele informações sobre as investigações.

Preciado é próximo a Serra desde que foi membro do Conselho de Administração do Banespa, de 1983 a 1987, enquanto o tucano era o secretário de Planejamento de São Paulo. Na campanha de 1994, quando Serra concorreu ao Senado, Preciado chegou a fazer doações eleitorais para ele.

Ele caiu em desgraça quando o governo tucano chegou ao fim. Como aponta o livro Privataria Tucana, de Amauri Ribeiro Junior,  foi um dos alvos da CPI do Banespa, por conta de supostas operações irregulares no banco. Também foi acusado de se beneficiar da amizade com o ex-tesoureiro do PSDB e então diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, que lhe conseguira um abatimento de R$ 73 milhões em uma dívida. 
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Enfim-um-tucano-preso-Motivo-Se-filiou-ao-PT-/4/35063



Ventos e furacões neoliberais voltam na Argentina...e agora...

  • IBM, Telecom e ONU, as ligações da futura chanceler neoliberal argentina

  • Em decisão inesperada, Mauricio Macri eleito novo presidente, anunciou que a chefa de sua diplomacia será a atual mão direita de Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU


PorMartín Granovsky, para o jornal diário Página/12 - Sociedade e Geopolítica Sul-Americana
 
Gustavo Ferreira / MRE
A cadeira não foi dada nem a um economista argentino como Alfonso Prat-Gay, nem para um diplomata de carreira como Rogelio Pfirter. Tampouco para o secretário de Relações Internacionais do PRO, Diego Guelar. Na designação mais surpreendente das que realizou até agora, Mauricio Macri anunciou que o Ministério de Relações Exteriores será ocupado por Susana Malcorra, a atual chefa de gabinete do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.
 

Créditos da foto: Gustavo Ferreira / MRE

“É uma persona preparada, de proceder correto, capaz de se atualizar rapidamente com os detalhes da política exterior argentina”, disse ao jornal Página/12 um diplomata que conviveu com ela em Nova York.

Malcorra não milita no PRO, o partido liberal de Macri, e tampouco foi sugerida pelos aliados social-democratas da União Cívica Radical radicalismo, embora tenha antigas simpatias com relação a este partido.

É uma executiva que conhece por dentro não só o sistema de decisões da ONU como também o âmbito das indústrias de serviços dos Estados Unidos. Fez carreira na IBM, que antes do surgimento de empresas como Apple e Google era o símbolo da modernidade norte-americana.

Quem conhece o mundo das indústrias de serviços dos Estados Unidos pode entrever as ideias básicas da política exterior, comercial e de defesa de Washington – ainda mais se complementa essa bagagem de conhecimentos com um posto de observação no edifício novaiorquino da ONU.

Nascida em 1954, em Rosário, ela fez sua carreira universitária nessa cidade, e foi a única mulher formada em engenharia eletrônica na sua turma. Aos 61 anos, Malcorra exibe um currículo que mostra uma longa carreira na IBM, desde os postos mais baixos, em 1979, até a cúpula da filial argentina da multinacional, 14 anos depois. Chegou a conduzir a relação com o setor público, o coração da firma. Ao deixar a empresa, em 1993, ela passou a trabalhar na Telecom, com Juan Carlos Masjoan, outro ex-IBM. Na Big Blue – o gigante azul, como a empresa é conhecida – Masjoan foi um duro competidor de Ricardo Martorana, o ascendente executivo e lendário vendedor que terminou envolvido no escândalo IBM-Banco Nación, pelo pagamento de subornos do setor privado ao Estado, em 1994.

Na ONU, sua especialidade continuou estando vinculada com a logística. Malcorra é chefa de gabinete do secretário-geral, e antes foi subsecretária do Departamento de Apoio às Atividades Externas. Suas funções eram a de ajudar na execução das missões de paz da ONU em todo o mundo, um dispositivo que já supera as 120 mil pessoas, entre militares, policiais e civis, segundo informação da própria Secretaria Geral.

Malcorra chegou à ONU em 2004, com o ganês Kofi Annan. Foi funcionária de Operações, logo diretora executiva adjunta do Programa Mundial de Alimentos – que não é a FAO (Departamento das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, presidido pelo brasileiro José Graziano) –, mas sim a estrutura de operações humanitárias ou de emergência. Agregou, nesse período, conhecimento a respeito de operação de contingência em crises humanitárias como as da Costa do Marfim, Serra Leone e Haiti, ao seu currículo de experiências na indústria de serviços.

No mês passado, Malcorra moderou um painel sobre “Ética para o desenvolvimento” no qual também participaram o economista argentino Bernardo Kliksberg e o atual ministro do Trabalho, Carlos Tomada.

Em 2014, ela disse que a agenda da ONU este ano estaria voltada à tarefa pendente de buscar a paz na Síria, à definição das metas de desenvolvimento e à cúpula do clima de Paris.

As bombas e os assassinatos em massa fizeram com que essa agenda fosse alterada, e agora Malcorra deverá enfrentar esses temas a partir do seu novo cargo de ministra, a segunda chanceler da Argentina, desde que Susana Ruiz Cerutti ocupou o cargo, no final do governo de Raúl Alfonsín.
 Tradução: Victor Farinelli

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/IBM-Telecom-e-ONU-as-ligacoes-da-futura-chanceler-argentina/6/35057



11.23.2015

Políticos que têm rádio e TV são denunciados no Ministério Público Federal

  • Movimentos pela democratização da comunicação entram com representação contra 40 deputados e senadores por violação de artigo constitucional que proíbe políticos com mandato de possuir concessões
Por Redação Rede Brasil Atual - Democratização da Sociedade 
Agência Senado e Câmara dos Deputados
políticos-com-concessão-de-.jpgLigação de políticos – como Agripino, Jereissati, Aécio, Sarney Filho, Collor e Barbalho – a canais de rádio e TV é indevida
FNDC – Treze organizações da sociedade civil protocolaram hoje (23) representação no Ministério Público Federal (MPF) contra 32 deputados e oito senadores sócios de emissoras de rádio e TV. A representação baseia-se no artigo 54, incisos I e II da Constituição Federal, que proíbe políticos titulares de mandato eletivo de possuírem ou controlarem empresas de radiodifusão e empresas que gozem de favor decorrente de contrato com a União.
Além de pedir o cancelamento das concessões, permissões e autorizações de funcionamento dessas emissoras, as signatárias também pedem a responsabilização do Ministério das Comunicações pela falta de fiscalização do serviço público de radiodifusão.
A representação foi feita à Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Estado de São Paulo. A partir dela, o MPF deverá entrar com ações em 17 estados. Na semana passada, o MPF já havia protocolado ações contra veículos de radiodifusão associados aos deputados federais Antônio Bulhões (PRB); Beto Mansur (PRB) e Baleia Rossi (PMDB), todos de São Paulo.
Além da Constituição, a representação se baseia, ainda, em jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) e em entendimento anterior da própria Procuradoria-Geral da República (PGR). O documento destaca trechos dos votos dos ministros Luís Roberto Barroso e Rosa Weber no julgamento da Ação Penal 530. Para ambos, a proibição da propriedade ou sociedade em emissoras de rádio e TV por deputados e senadores tem por objetivo prevenir abusos decorrentes do poder político e do controle de veículos de comunicação de massa.
Na representação, as entidades lembram, ainda, que a própria PGR afirmou a inconstitucionalidade da participação de políticos como sócios de emissoras de rádio e TV em parecer emitido nos autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 246, de autoria do Psol.
Lista

Quem assina

• FNDC - Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
• Artigo 19
Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
Andi – Comunicação e Direitos
Associação Juízes para a Democracia (AJD)
Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)
Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)
Levante Popular da Juventude
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
Proteste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor.

A representação é uma articulação das organizações que compõem o Fórum Interinstitucional pelo Direito à Comunicação (Findac), que reúne procuradores federais, entidades da sociedade civil e institutos de pesquisa, e recebeu, este ano, o Prêmio República 2015 de Valorização do Ministério Público Federal, promovido pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR).
http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/11/entidades-denunciam-no-mpf-politicos-que-tem-canais-de-radio-e-tv-9233.html

Petrodólares financiam o terrorismo mundial


  • São eles, os fornecedores de armas aos terroristas que nos ameaçam e matam seus povos, membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU
Por Roberto Amaral - Sociedade e Segurança Mundial (fonte no final)

Como é financiado tanto terror?
Quem entrega armas e equipamentos de guerra nas mãos dessa violência?
A resposta inescapável é única: são os que hoje derramam lágrimas de crocodilo.
O chamado Estado Islâmico, uma decorrência da Al Qaeda – por sua vez uma criação dos EUA – é financiado pelos petrodólares dos países do Golfo Pérsico, à frente de todos a Arábia Saudita, a maior potência do Oriente Médio, e principal aliada do Ocidente (seja lá o que isso hoje signifique).
São também esses dólares que financiam a indústria bélica do EUA, da Inglaterra e da França, os maiores fabricantes de armas e equipamentos de guerra do mundo, os maiores fornecedores e os maiores traficantes de armas. E, não obstante, ou por isso mesmo, são eles, os fornecedores de armas aos terroristas que nos ameaçam e matam seus povos, membros com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Segurança?
Foto Armée française
Caça da FrançaCaça francês decola para novo ataque aéreo na Síria
Osama Bin Laden – é sabido – foi recrutado, treinado e financiado pelos EUA para dar combate às tropas soviéticas que defendiam o governo do Afeganistão. Em crise, a Al Qaeda (aquela do atentado contra as torres gêmeas) foi salva pela invasão do Iraque pelo segundo Bush. Dela surge o EI.
Assim e em nome de nada – ora em nome do combate a tropas soviéticas no Afeganistão, ora em nome de mentiras deslavadas (as 'armas de destruição em massa' de Sadam Hussein), ora sob o pretexto da defesa de minorias (Síria), ora sob pretexto nenhum (Líbia), os EUA – com a cooperação militar da França e da Inglaterra –, destruíram as estruturas sociais-religiosas do Iraque e dos demais países, acenderam conflitos religiosos e tribais, destruíram nações e as organizações políticas. Em  síntese, com a anarquia e o caos, ensejaram a proliferação de verdadeiros 'Estados' armados com exércitos agressivos, exércitos de terroristas aptos a agir em qualquer parte do mundo.
O Estado Islâmico e seu califado no Iraque e na Síria são fruto da invasão e destruição do Afeganistão, do Iraque, da Síria e da Líbia. A França interveio na Síria e os EUA financiam e dão assistência militar (inclusive com o fornecimento de armas e munições aos terroristas (que eles batizam de 'rebeldes') que lutam contra a ditadura de Bashar al-Assad, que, por seu turno, apoiado pela Rússia, combate o EI.
Os facínoras do EI colhem o fruto da destruição dos Estados árabes, de suas organizações sociais e politicas, e, nomeadamente, da destruição das forças armadas do Iraque, da Síria e da Líbia, cujos quadros foram atraídos pelos fanáticos, que também se beneficiam, ainda graças à intervenção do 'Ocidente', com o rompimento do tênue equilíbrio de forças entre xiitas e sunitas consequente das derrubadas de Saddam Hussein e Muamar Kadafi.
Os EUA, após a ignomínia do 11 de Setembro, conduziram operações secretas, com drones e execução de civis suspeitos em 70 países. Da injustificada invasão do Iraque – país que nada tinha com o ataque covarde – resultou uma guerra desastrosa (condenada até mesmo nas memórias do Bush pai) que fortaleceu a Al Qaeda (lembremos mil vezes, criada pelos EUA para combater os soviéticos  no Afeganistão) e propiciou as condições para o surgimento do EI. Deu no que deu. O medíocre François Hollande, elevado pelos terroristas à condição de 'presidente marcial' fala em guerra.
Que virá depois?
O simplório Jeb Bush, irmão do Bush 2 (o principal responsável pela depredação do Iraque e suas consequências vividas hoje), já declarou, em campanha pela candidatura republicana à presidência dos EUA, que o atentado de Paris é "uma tentativa de destruição da civilização ocidental".
Antes dele, e melhor e mais perigosamente do que ele, Samuel Huntington já havia anunciado o 'choque de civilizações' (na essência a 'guerra' contemporânea teria como eixo os conflitos culturais e religiosos, opondo nossas civilizações), dando sua lamentável contribuição para a intolerância e o ultra anti-islamismo que ameaça infeccionar a sociedade norte-americana.
O cenário é muito mais complexo do que supõe a mediocridade, dividindo o mundo entre os  'bons' (nós) e os 'maus' (os outros)  com o que a nova direita europeia (ex-socialistas incluídos) e os republicanos estadunidenses simplesmente repetem o maniqueísmo dos fanáticos que pretendem combater, os 'cruzados' com sinal trocado, pois, hereges, agora, somos nós, os que não seguimos Alá.
Algozes e vítimas, cada um a seu modo, se identificam na estratégia de propagar o ódio contra os que não compartilham sua ideologia. O ódio de um é a força que alimenta o ódio do outro e, assim, se tornam irmãos siameses e interdependentes.
Voltamos às Cruzadas?
A violência terrorista avança no mundo e agora grassa em uma Europa onde a xenofobia não é nova mas é crescente. As manifestações de preconceitos étnicos, especialmente contra os árabes, soma-se à intolerância religiosa, particularmente o anti-islamismo, reforçado pelos atos de terrorismo.
Essas manifestações prosperam em todo o mundo, mas avançam principalmente nos EUA (onde se tornam corriqueiras entre os pré-candidatos republicanos) e na Europa, símbolo de civilização que não conhece a inocência, mas sim a guerra como a arte da política: guerras fratricidas, guerras de conquista, séculos de exploração e depredação coloniais, uma história de colonialismo, pirataria, opressão dos povos subjugados. Em um só século duas guerras mundiais e o holocausto.
Leia mais em www.ramaral.org
http://www.cartacapital.com.br/internacional/paris-e-as-lagrimas-de-crocodilo-7992.html

11.20.2015

Crianças: como lidar com a ansiedade de na escola?


  • Em entrevista, o psicólogo americano Philip Kendall diz que os pais e professores deveriam prestar mais atenção aos alunos ansiosos



Menina com ansiedade
Crianças muito ansiosas tem mais chance de apresentar transtornos na vida adulta
Crianças que sofrem de muita ansiedade não costumam ser vistas como um problema na escola. Para o psicólogo Philip Kendall, porém, professores e pais precisam prestar mais atenção aos sinais de alto nível de ansiedade em seus alunos e filhos.  “A ansidade por vezes passa despercebida. Mas, se nada for feito, o problema aparece depois”, afirma o professor da universidade norte-americana de Temple, na Filadélfia.
Segundo Kendall, crianças ansiosas tendem a apresentar mais chance de desenvolver transtornos de ansiedade ou depressão na vida adulta. O psicólogo conversou com Carta Educação em Porto Alegre (RS), onde ministrou um curso sobre o tema no I Congresso Wainer de Psicoterapias.*
Carta Educação: As causas da ansiedade são conhecidas? Por que algumas pessoas são ansiosas e outras não?
Philip Kendall: Existe uma resposta simples: não. Mas temos algumas indicações e evidências de que a ansiedade é parte biológica, parte cognitiva e parte relacionada ao meio em que se vive. Assim, uma criança pode ter um pai ansioso, mas não ser ansiosa e vice versa. Não é automático. Da mesma forma, não é porque você teve uma experiência assustadora quando criança que automaticamente se tornará uma pessoa ansiosa. Quando olhamos não para a causa, mas para aquilo que mantêm as crianças ansiosas, aí temos temos mais propriedade. As famílias, os professores e o meio em que a criança vive têm um papel importante tanto em manter a ansiedade indesejada quanto na sua redução.
CE: Como a escola ou o professor pode identificar um aluno ansioso?
PK: Há uma notícia boa e outra ruim. Na verdade, crianças moderadamente ansiosas costumam ser boas alunas: elas são motivadas, obedientes, fazem a lição de casa e se importam. Por isso, o professor não costuma identificá-la como um problema, até porque ela não é. Mas uma forma de identificar um caso de ansiedade extrema é observar o que a criança evita. Quando uma criança diz: “Eu não posso fazer isso porque estou com medo”, isto é, quando o medo torna-se uma justificativa para não realizar alguma atividade. Existem testes e entrevistas, mas eles levam tempo. Acredito que o melhor sinal para o professor é se perguntar: “a criança está evitando alguma coisa?”  
CE: Por que é importante para o professor se importar com o nível de ansiedade de seus alunos?

PK: A maioria dos adultos e dos professores estão preocupados com crianças que inflingem a lei, roubam, carregam armas, etc. Tendemos a não nos preocupar com crianças ansiosas porque elas não nos incomodam. Mas, na verdade, quando eles não interagem com seus pares, estão mais propensos a  desenvolver, mais tarde, problemas psicológicos. A ansiedade é por vezes passa despercebida e, outras vezes, não é dada a devida atenção a ela. Mas, se você não fizer nada, o problema vai aparecer depois. Crianças ansiosas tem uma maior probabilidade de sofrer transtornos de ansiedade, maior probabilidade de desenvolver depressão, abuso de substância e suicídio na idade adulta. Se você tratar as crianças, pode reduzir esses problemas nos adultos.
CE: A ansiedade interfere na aprendizagem?

PK: Níveis muito baixos de ansiedade não são positivos, pois a criança pode dizer: “Eu tenho um teste importante amanhã, mas não me importo”. Níveis altos também não são bons. O que é melhor é o intermediário, isto é, a ansiedade moderada. A ansiedade moderada é bastante funcional. A ansiedade interfere na aprendizagem? Quando é muita alta, sim. Quando é moderada, na verdade, ela ajuda.
CE: Então a ansiedade em si não é uma coisa ruim.
PK: Sim, ela só é nociva se for muito intensa.
CE: O senhor afirmou que pais e professores tendem a fazer ajustes quando lidam com crianças ansiosas. Por que isso, ao contrário do que diz o senso comum, não é bom?
PK: Quando um pai ou mãe fica emocionalmente abalado ao ver a criança muito ansiosa ou chateada, a solução mais rápida é eliminar a causa da ansiedade na criança. Por exemplo, a criança tem medo de andar de carro, então você anda com ele de ônibus. É uma solução rápida, mas, com o tempo, ela na verdade piora a situação. Os efeitos de curto prazo desses ajustes é reduzir instantaneamente a angústia da criança mas, no longo prazo, os efeitos são indesejados. Isso torna cada vez mais difícil para a criança andar de carro, porque eles sentem que não são capazes de fazê-lo. Eles se tornam convencidos de que não conseguem.
CE: A superproteção de uma criança também contribui para agravar os casos de ansiedade?
PK: Sim. Na vida, você aprende na escola, por meio de seus pais e com seus erros. Se você não comete nenhum erro, você não aprende. Se você passa 10 anos da  sua vida com a mamãe e o papai te protegendo de tudo, quando algo der errado você não saberá o que fazer. Se os seus pais não deixam você interagir com seus amigos para te proteger, quando você precisar fazer algo que os envolva, você não saberá como agir. A superproteção cria uma criança que não está preparada para a vida adulta.
CE: As pessoas estão mais ansiosas hoje do que há 100 anos?
PK: Sim. A tendência atual é ir na direção errada. Na minha infância você ia para a escola, lá brincava e depois provavelmente fazia esportes ou tocava um instrumento musical – mas tudo era organizado pelas crianças. Hoje em dia, especialmente nos Estados Unidos, os pais organizam a brincadeira das crianças. As crianças não brincam, eles tem “playdates”. Em vez de se reunirem como crianças e inventarem um jogo, eles tem pais que dizem qual será o jogo e quais regras precisam ser seguidas. As crianças estão sob controle parental até quando deveriam estar só brincando. A brincadeira deveria acontecer livremente, sem a interferência dos adultos, brincar é saudável, é bom para as crianças, é assim que eles aprendem a se relacionar com os outros. Quando a brincadeira é muito organizada, você retira um estágio importante do desenvolvimento mental.
CE: E no longo prazo? As pessoas se tornam mais ansiosas?
PK: Um pouco mais ansiosas, e também mais isoladas.
CE: Que tipo de comportamento da parte do professor pode aumentar o nível de ansiedade nos alunos?
PK: A impossibilidade de prever eventos e a impunidade. Na vida, nós podemos nos tornar menos ansiosos quando é possível minimamente fazer previsões e controlar a situação. Quando você sabe que horas é preciso ir para algum lugar ou sabe que o Sol vai se levantar amanhã, por exemplo. O que torna as as pessoas mais ansiosas é quando não é possível prever. E se você não soubesse se amanhã terá emprego ou se haverá comida em sua mesa? A imprevisibilidade nos deixa com a senção de “o que eu vou fazer”? Quando pais e professores são explosivos, gritam, e esse comportamento é imprevisível, ele deixa a criança pensando: “quando vai acontecer de novo? Pode ser a qualquer momento”. 
CE: Que tipo de recomendações ou conselhos você daria a um professor para que ele se relacione melhor com alunos ansiosos?
PK: Eu diria: dê a eles oportunidades, pouco a pouco, de serem mais corajosos. Não espere seus alunos irem de ansiosos para não-ansiosos. Trata-se de um processo lento, com pequenos passos ou pequenas oportunidades para agir com mais coragem. Se a criança tem medo de falar em sala de aula, não o coloque em frente aos seus colegas imediatamente, dê uma chance para que ele fique brevemente em frente da classe ou responda a pergunta simples. Dê a ele oportunidades graduais para enfrentar as situações com coragem.
CE: O que acontece se o professor também for ansioso?
PK: Isso não é nada bom. Na vida, se você é exposto a pessoas sem medo, ansiedade ou preocupações, você acaba acreditando que essa é a forma de se viver a vida. Nós queremos que as crianças ansiosas sejam expostas a pessoas capazes, elas mesmas, de tomar algumas atitudes. Porque não é possível controlar tudo e, se você não tentar, você nunca vai saber. Um professor disposto a deixar a criança a tentar, ela conseguindo ou não, é uma boa coisa.

CE: Que tipo de informação os professores e os gestores públicos deveriam saber sobre a ansiedade?
PK: Ansiedade é uma coisa normal. As emoções não são boas ou ruim. Se seu desejo é que o produto final seja pessoas corajosas, engajadas e bem-sucedidas, não crie crianças medrosas e preocupadas. Crianças medrosas e preocupadas, em geral, não não se tornam adultos corajosos e bem sucedidos. Elas se tornam adultos ansiosos, medrosos e preocupados.
* A jornalista viajou à Porto Alegre a convite do Wainer Psicologia Cognitiva
http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/como-lidar-com-a-ansiedade-na-escola/

Por que o mercado de orgânicos ainda não deslanchou no Brasil?

  • Especialistas afirmam que há interesse dos consumidores e que futuro é promissor, mas setor esbarra numa série de dificuldades para os produtores
Por Jean-Philip Struck para Deutsche Welle - Sociedade e Alimentos Orgânicos (fonte no final)

Carlos Alberto/Imprensa MG
Agricultura-familiar
O mercado de orgânicos no Brasil é uma iniciativa de pequenos agricultores
O Brasil figura desde 2009 como o líder mundial no consumo de agrotóxicos. Na contramão dessa tendência, o mercado de alimentos orgânicos, que foca numa produção mais saudável, vem crescendo no país nos últimos anos.
O setor, no entanto, ainda enfrenta vários problemas, como dificuldades de logística, excesso de burocracia e carência de insumos.
Não há estatísticas oficiais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) sobre o volume de orgânicos produzidos e comercializados no país. Só estão disponíveis estimativas elaboradas com base em dados de associações de supermercados e de produtores, que não conseguem abranger todo o mercado.
Segundo o Organics Brasil, um programa ligado à Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), uma das poucas organizações que compila esses dados, o mercado de orgânicos vem crescendo a uma taxa de quase 40% ao ano – um número bem superior às médias registradas nos Estados Unidos e na Alemanha, alguns dos maiores mercados de orgânicos do mundo.
Só que esse crescimento se dá sobre uma base que era bastante diminuta há até poucos anos. "A legislação nacional sobre orgânicos só foi regulamentada em 2011, o que só permitiu a entrada de muitas empresas e produtores há pouco tempo", afirma Ming Liu, coordenador executivo do Organics Brasil. "Nos EUA, a legislação já está em vigor desde 2000. Estamos mais de uma década atrás."
Segundo as estimativas do projeto, o mercado de orgânicos no Brasil teve receitas de 2 bilhões de reais em 2014, um número pouco expressivo diante dos 468 bilhões de todo o setor agropecuário no ano passado, e responde por apenas 0,4% do total produzido no país.
O volume ainda está bem atrás de mercados já tradicionais, como os EUA e a Alemanha, onde o setor responde por 4% a 5% do total produzido. Nos EUA, o maior mercado do mundo, os alimentos orgânicos geraram receitas de 35 bilhões de dólares em 2014.
Plantação
É só uma questão de tempo para que grande empresas entrem no mercado com força / Arnaldo Alves/ANPr

Futuro promissorNo Brasil, o mercado de orgânicos ainda é uma iniciativa típica de pequenos agricultores e extrativistas familiares e de alguns poucos empresários ousados.
"Ainda não há nada parecido no país com grandes redes de orgânicos, como a Bio Company, na Alemanha, e a Whole Foods, nos EUA. Nós ainda estamos com o mercado em formação", afirma Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura. "Ainda assim, é possível ver que o mercado está crescendo por causa de algumas amostras, como as feiras livres de orgânicos, que vêm aumentando o faturamento", afirma.
O Mapa afirma que existem 11 mil agricultores no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos. Já o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) calcula que haja mais de 400 feiras livres no país. Mesmo assim, não é possível saber exatamente qual foi o mercado total abocanhado por esses produtores e feirantes.
Para Lyu, é só uma questão de tempo para que grande empresas entrem no mercado com força. "Já existem iniciativas nesse sentido. Gigantes do varejo, como Casino, Carrefour e Walmart, já oferecem centenas de produtos orgânicos para o consumidor brasileiro. Nas lojas do grupo Casino, por exemplo, os orgânicos já respondem por 1,5% dos produtos comercializados. Outras empresas, como a Coca-Cola, já lançaram chá-mate orgânico", afirma.
Ambos os especialistas afirmam que, apesar de muitos problemas, o futuro dos orgânicos no Brasil é promissor. "O mercado de orgânicos no Brasil não está sendo empurrado por empresas que tentam vender um produto mais saudável, mas pelo consumidor que está mais preocupado com a sua saúde. As empresas tentam correr atrás. A demanda já está estabelecida, só falta uma cadeia produtora mais organizada", afirma Wachsner.
Entre os problemas da cadeia, além das típicas dificuldades de logística enfrentadas por todos os setores produtivos no Brasil, está a falta de insumos para a elaboração de produtos orgânicos de valor agregado, o que faz com que a oferta ao consumidor seja limitada aos produtos primários.
"Quem quer produzir chocolate orgânico, por exemplo, muitas vezes não consegue por meses obter cacau que se enquadre nas regras porque o cultivo ainda é muito pequeno", afirma Wachsner.
Para Ming, o setor em que a falta de insumos é mais evidente é a pecuária, pois a produção de carne e laticínios orgânicos é praticamente insignificante. "Poucos produtores brasileiros conseguem comprar com regularidade rações que não incluam sementes ou produtos geneticamente modificados. Muitas vezes, quando esse tipo de proteína vegetal está disponível, o agricultor prefere exportar o produto, provocando escassez para os empresários locais", afirma. "Nós temos uma demanda maior que a oferta."

Produtos-orgânicos
O mercado interno de orgânicos ainda é tímido / Arnaldo Alves/ ANPr
Dificuldades também para exportar Se o mercado interno de orgânicos ainda é tímido, o setor de exportações está ainda mais atrás, apesar da vocação brasileira para a exportação de alimentos.
De acordo com os dados da Organics Brasil, o país exportou 136 milhões de dólares em produtos orgânicos, como açúcar, castanhas e óleos vegetais, em 2014.
Segundo Liu, um dos principais problemas para as exportações é a falta de acordos entre o Brasil e outros países e blocos que normatizem as regras para a concessão do selo de produto orgânico.
A legislação brasileira regulamentada em 2011 fez com que o Brasil seguisse vários padrões praticados no exterior, mas também criou novos mecanismos.
Entre eles estão os chamados "sistemas participativos de garantia" e o "controle social para a venda direta sem certificação", que são mais baseados na confiança e na relação entre associações, produtores individuais e consumidores – e que dispensam a atuação sistemática de empresas certificadoras.
"Blocos como a União Europeia não querem nem ouvir falar disso, preferem as auditorias porque temem manipulação ou falsificação. Isso faz com que o exportador brasileiro tenha que procurar certificar seus produtos duas vezes, uma vez aqui e outra no exterior, o que encarece o produto, já que não há equivalência entre o selo brasileiro e os estrangeiros. Por isso o Brasil continua a exportar só orgânicos primários e não produtos de mais valor agregado, já que a certificação deles lá fora seria mais demorada", afirma Liu.
A falta de acordos também prejudica as importações. "Um supermercado que importar uma barrinha de cereal do exterior vai ter que procurar certificação para cada um dos ingredientes usados se quiser vendê-la como orgânica. É um processo longo e complicado. Algumas redes chegam ao ponto de retirar o selo estrangeiro de 'orgânico' dos seus rótulos para evitar a burocracia, mesmo que isso signifique frustrar consumidores que procuram os produtos", afirma.
http://www.cartacapital.com.br/economia/por-que-o-mercado-de-organicos-ainda-nao-deslanchou-no-brasil-1987.html

11.12.2015

Lei Antiterrorismo colocará Brasil na escalada repressiva internacional contra direitos sociais


por Eduardo Maretti, para Rede Brasil Atual - Sociedade e Justiça Social
  • Especialistas em direito e relações internacionais dizem que, se proposta relatada pelo senador Aloysio Nunes passar, democracia estará em risco 
  • No século 21 as medidas de exceção são adotadas “no interior da democracia”, como, por exemplo, por meio de leis ou da atuação do Judiciário 
manifestação.jpgFoto Marcelo Camargo/Agência Brasil
São Paulo – A chamada Lei Antiterrorismo é uma séria ameaça aos direitos individuais e ao estado democrático de direito. “No plano da teoria do Estado, estamos avançando rapidamente para a deterioração absoluta do regime democrático”, afirmou o jurista Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC-SP. “A Lei do Antiterrorismo é pura importação de medidas de exceção de modelagem europeia, que foi transferida ao Brasil sem necessidade. Se na Europa é ruim, aqui vai ser terrível, porque aqui nós temos o Judiciário como agente de exceção”, disse Serrano.
Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, a incorporação de países, principalmente com a importância do Brasil, entre aqueles que adotam medidas nesse âmbito “faz parte da estratégia dos Estados Unidos”. “O Brasil entrou na órbita dessa preocupação. A forma como o Brasil vai lidar com isso é considerada importante”, avalia Nasser.
Márcio Sotelo Felippe, ex-procurador-geral do estado de São Paulo (de 1995 a 2000, no governo de Mário Covas), afirmou que “o projeto traz grave risco à democracia”. “Tanto que, nas justificativas, faz referência aos compromissos internacionais do Brasil.”
O grande problema de tal legislação é que, diante da dificuldade de se conceituar o que é terrorismo, a interpretação caberá a agentes públicos como policiais, promotores e juízes. Segundo o artigo 2° do projeto, “terrorismo consiste na prática por um ou mais indivíduos de atos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”.
O perigo dessa previsão, avalia Felippe, é a ampla possibilidade de interpretação pelas autoridades. “O que é ‘terror generalizado’? Essas conceituações ‘abertas’ permitem a interpretação que for mais conveniente ao policial, ao promotor ou ao juiz. Terror generalizado pode ser um coquetel molotov? Pode ser a bomba de Hiroshima?”, ironiza.
A adoção, pelo Brasil, de medidas “de exceção” como a Lei Antiterrorismo não é casual. “Hoje se dissemina no mundo um crescimento da direita contra movimentos sociais”, constata Felippe. Ele cita a chamada Lei da Mordaça, da Espanha, que fala em “segurança da sociedade”. “Estamos diante de uma escalada repressiva em âmbito internacional.” Para ele, o fato de o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) ter sido o relator do projeto no Senado é sintomático, assim como é estranho que a proposta seja de iniciativa do Executivo e, mais estranho ainda, do Ministério da Fazenda, e não da Justiça, como seria de se esperar.
O PLC 101/2015, já aprovado no Senado, precisa ser novamente votado na Câmara. Proposto pelo Executivo, o projeto relatado por Aloysio Nunes ficou ainda mais preocupante após passar no Senado dia 28 de outubro por 38 votos favoráveis e 18 contra.
Pelo texto aprovado na Câmara, estavam excluídas da tipificação de terrorista “pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios”. No texto original, ficavam fora da tipificação de terrorista “pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais”.
Aloysio retirou a exceção aos movimentos sociais do texto. Isso significa que um movimento de rua ou um protesto, caso a lei entre em vigor, pode ser enquadrado como “terrorismo”, de acordo com os debatedores no seminário do Fórum 21.

História

Pedro Serrano acredita que, enquanto no século 20 as ditaduras eram implementadas por meio de “formas de governos com pretensão de provisoriedade”, no século 21 as medidas de exceção são adotadas “no interior da democracia”, como, por exemplo, por meio de leis ou da atuação do Judiciário. “Marcadamente depois do 11 de setembro, com o Patriot Act (adotado pelo governo norte-americano de George W. Bush), sob o pretexto de combater o inimigo muçulmano.”
Segundo Serrano, “hoje, no primeiro mundo, o que se observa são atos legislativos que se traduzem em medidas de exceção, as quais, a título de combater o inimigo, têm o condão de suspender os direitos humanos fundamentais.” O Brasil caminha nesse sentido, avalia.
http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/11/lei-antiterrorismo-coloca-brasil-na-escalada-repressiva-do-primeiro-mundo-e-ameaca-direitos-5746.html