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12.07.2015

Como nasceram os blogs após 1999

  • Através da militância pela internet livre, surgiram os blogs

  • Há 16 anos surgiam os coletivos que se tornaram expoentes do ativismo por liberdade e privacidade na rede
Por Observatório da Privacidade e Vigilância - Sociedade e Liberdade de Comunicação na Internet (fonte no final do texto)

Foto Magnus Manske / Wikimedia Commons
OMCEm 30 de novembro de 1999, policial de Seattle joga spray de pimenta em manifestante anti-OMC. Violência policial marcou a data
A última segunda-feira (4/dez) marcou os 16 anos do protesto que ficou mundialmente conhecido como N30, ou a Batalha de Seattle nos EUA, quando, no dia 30 de novembro de 1999, mais de 40 mil ativistas “antiglobalização” (entre membros de ONGs, anarquistas, sindicalistas, ambientalistas) se organizaram de maneira descentralizada para protestar contra Organização Mundial do Comércio (OMC).
A OMC dava início à rodada do milênio para negociar maior abertura do comércio mundial, no auge do neoliberalismo. A manifestação foi violentamente reprimida, mas terminou vitoriosa com o cancelamento da rodada.
A Batalha de Seattle é um dos marcos iniciais do uso da internet como ferramenta política e espaço de disputa: os manifestantes usaram uma improvisada rede de comunicação, com celulares, rádios e notebooks, para publicar na rede imagens e relatos – prática que é hoje protocolar em qualquer organização política – inaugurando um formato de publicação que mais tarde se converteria e popularizaria nos blogs.
Essa percepção da internet como ferramenta, mas também como espaço de disputa, levaria ao surgimento de uma militância responsável justamente por desenvolver e aplicar ferramentas para a utilização de criptografia, navegação anônima e outros mecanismos de segurança na internet, em um esforço de garantir a liberdade e a comunicação segura de organizações e movimentos sociais – são os chamados coletivos técnicos radicais.
“Nós já sabíamos que a polícia invadia as contas de email de ativistas e, além disso, já que protestávamos contra grandes corporações, não queríamos depender delas para nos comunicar”, conta Micah Anderson, americano nascido em Seattle e membro-fundador do coletivo americano Rise Up, criado em 1999, durante os protestos.
Desde então, o Rise Up funciona como um servidor autônomo que oferece serviços gratuitos de email, listas de discussão, serviços de mensagem instantâneas, hospedagem de servidores, (todos seguros e criptografados), para movimentos sociais e ativistas. “Naquele momento estávamos mais preocupados em criar alternativas seguras e eficientes para nos comunicar na internet, do que com espionagem massiva”, relembra.
No mesmo período, junto com o surgimento dos coletivos técnicos radicais, surgiam também os coletivos de mídia independentes ou blogs. Anderson também participou da criação da rede Indymedia, que se espalhou em diversos coletivos locais pelo mundo, e chegou ao Brasil na forma do CMI, o Centro de Mídia Independente. Foi de dentro do CMI que, em 2005, inspirado pelo Rise Up e outros coletivos que atuavam de maneira semelhante, nasceu o Saravá.
Segundo seus porta-vozes, o coletivo Saravá se mantém organizado em torno destas questões, as quais denominam “tecnopolíticas”. Eles explicam que “o escopo dos movimentos antiglobalização não era exclusivamente a defesa da internet livre ou do direito a privacidade”, mas que essas pautas sempre foram e ainda são necessárias para todos os coletivos que lutam por transformação social. A atuação do Saravá e do Rise Up fornece, portanto, bases tecnológicas para as atividades políticas destes grupos.
Micah Anderson conta que se no início a preocupação central da atuação do Rise Up sempre foi essa: “tornou-se muito óbvio, muito rápido, que a vigilância chegaria a ter o alcance que sabemos que hoje ela tem”, referindo-se às revelações de espionagem internacional massiva feitas pelo ex-consultor da NSA (Agência Nacional de Segurança, dos EUA), Edward Snowden, em 2013.
Distopias pós-Snowden
Anderson recorda que quando viram a rápida ascensão de ferramentas como o Google, se deram conta do perigo que as possibilidades de espionagem e monitoramento na internet representavam. “Percebemos que as grandes corporações haviam descoberto como a espionagem poderia ser economicamente rentável, e, há cerca de 10 anos, começamos um esforço de debater e divulgar o perigo que isso representava”, conta Anderson.
“Se, por um lado, Snowden nos ajudou a ter acesso a uma série de documentos que comprovam a vigilância por parte das agências governamentais, ainda precisamos destrinchar os meandros da vigilância corporativa, que funciona como um modelo de negócio”, afirma.
O Saravá cita o Facebook – que está em negociações com o Estado Brasileiro para o fornecimento de serviços de internet em regiões ainda desprovidas de conexão no País através do Internet.org – como um exemplo bem acabado das estruturas de poder que operam na internet através da vigilância: “o Facebook não inovou as comunicações, ele criou bolhas de participação política, social e econômica. Além de ser uma ferramenta abrangente de marketing e de publicidade, capaz de vigiar e analisar as tendências das pessoas em tempo real”, explicam.
Para Anderson, a internet surgiu como uma “utopia maluca e anárquica” de liberdade de organização e expressão que, no entanto, não se concretizou, pois “foi encapsulada pelas mesmas estruturas de poder que estavam fora dela”.
Apesar de ambos os coletivos observarem que há um interesse maior na militância pelo direito a privacidade e a segurança como resposta ao “cenário distópico” comprovado pelas revelações de Snowden, o Saravá nota que as pessoas têm muita dificuldade de aprender e levar adiante a utilização de ferramentas seguras de comunicação, porque “qualquer preocupação com a segurança da sua comunicação é acompanhada de algum nível de perda de conforto”, e ferramentas como Google e Facebook, que “capturaram a diversidade da internet em múltiplas bolhas”, exercem uma espécie de “encantamento” por conta de sua eficiência e alcance.
Tanto Anderson quanto o membros Saravá acreditam que enquanto as pessoas não se dispuserem a sair de sua zona de conforto para encarar o fato de que, além do Estado, empresas extraem enormes lucros de seus dados pessoais, nós “não conseguiremos nem fazer cócegas na estrutura da vigilância em massa”.
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/como-nasceu-a-militancia-pela-internet-livre-8374.html

12.04.2015

Brasil - Uma nação que se reorganiza nas atividades econômicas e sociais globalizadas

  • Para representante da Comissão Economica para a América Latina e Caribe-Cepal, inclusão social continua sendo um dos principais problemas brasileiros

Por Helder Lima, da Rede Brasil Atual - Sociedade e desenvolvimento
Foto - MEMÓRIA/Empresa Brasileira de Comunicação
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Clemente: “O Dieese quer olhar os desafios para contribuir com o movimento sindical"
São Paulo – Os desafios que o Brasil tem pela frente para retomar o crescimento da economia e colocar a criação de emprego e renda no centro das políticas públicas do governo foi o tema discutido em 3/dez/2015, na abertura do encontro que marca a comemoração dos 60 anos do Departamento Intersindical de Estudos Sociais e Econômicos - Dieese. O evento foi realizado no auditório do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), na Praça da República, centro de São Paulo. Líderes sindicais, pesquisadores, representantes da sociedade civil, economistas, trabalhadores, estudantes e interessado(a)s lotaram o auditório.
O Dieese e sua Origem

“O Dieese quer olhar os desafios do Brasil e da América Latina para contribuir para o movimento sindical. Esse é o espírito deste encontro”, disse o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, depois de fazer uma retrospectiva histórica da entidade, que nasceu em 22 de dezembro de 1955, motivada pela necessidade de ser um órgão unitário dos trabalhadores para produzir conhecimento e alternativas sobre a realidade do trabalho no país.
O surgimento do Dieese também está ligado a uma mobilização histórica dos trabalhadores paulistas em 1953, que ficou conhecida como “Greve dos 300 mil” – diversas categorias se uniram contra a a alta da custo de vida na época, exigindo que o então presidente Getúlio Vargas nomeasse um ministro do Trabalho comprometido com as causas dos trabalhadores. Desse processo, surgiu a nomeação de João Goulart para o cargo, o mesmo político que uma década depois dirigiu o país até a deflagração do golpe de março de 1964.
A Nação se Reorganiza
“O país tem alavancas para a retomada do crescimento”, disse Coutinho, presidente atual do BNDES. “Temos o programa de concessões, que pode induzir investimentos, como nas frentes de energia, com destaque para as energias renováveis, como eólica, hidrelétrica e biomassa. Além disso, o novo patamar da taxa de câmbio (entre R$ 3,50 e R$ 4) permite pensar em estratégias exportadoras que possam recuperar oportunidades de mercado, especialmente para o setor de manufatura. Esse caminho pode ajudar a recuperar a produtividade e competitividade da indústria, com aplicação de tecnologias de informação que requerem treinamento e qualificação. São esses os desafios que se colocam e devem compreender a continuidade do processo por meio da geração de empregos”, defendeu.
As mudanças climáticas e, nesta semana, a 21ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 21), em Paris, colocam em relevo essa temática. Para Coutinho, a questão ambiental “é uma responsabilidade de todos que precisa se integrar à estratégia de desenvolvimento do país, na direção da redução das emissões de carbono, diretriz essencial para as estratégias de futuro”, disse.
O secretário executivo-adjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Antonio Prado, refletiu sobre crescimento e desigualdade nos países do continente. “O que há de comum entre o Dieese, o Cepal e o BNDES é a dedicação ao desenvolvimento. O crescimento é condição necessária para o desenvolvimento. O país vem crescendo desde os anos 50, mas não incorporou muitos segmentos da sociedade, não promoveu a inclusão. Esse é o grande desafio, a exemplo da redução da pobreza que houve nos últimos 12 anos”, afirmou.
Situação Mundial
Prado analisou o contexto da crise internacional que abala as economias do mundo hoje. “Não sabemos o que vai acontecer com Estados Unidos e Europa. O Japão está em processo de estagnação. A incerteza é a regra do mundo hoje”, disse o representante da Cepal. Entre as mudanças mais recentes da economia mundial, ele destacou que o comércio agora cresce na mesma proporção do PIB mundial, quando historicamente acumulava taxas superiores. “Todo país quer uma fatia do mercado mundial e por isso existe uma superconcorrência. Os países da América Latina têm de pensar nessa questão”, defendeu.
Ele disse ainda que o contexto da crise de proporções mundiais indica um excesso de liquidez, que convive ao mesmo tempo com uma carência de investimentos, devido ao pensamento rentista que domina nos setores financeiros, apesar de esse excesso de liquidez estar evitando a ocorrência de uma grande depressão. “Todo mundo quer reter moeda, ninguém quer gastar”, sustentou. “Muito dinheiro empossado e poucos empréstimos emperram os investimentos e o consumo.”
O secretário executivo-adjunto do Cepal afirmou que existe grande heterogeneidade entre os países do continente, mas que problemas comuns impõem uma alta vulnerabilidade às economias. Ele relacionou a debilidade institucional, a volatilidade externa e os problemas de infraestrutura. “A heterogeneidade estrutural é uma fábrica de desigualdades”, disse o estudioso, destacando que na realidade das economias do continente, setores de alta produtividade oferecem poucos empregos. “A encruzilhada em que nossas economias se encontram exige mudar isso, mudar a estrutura produtiva.” Essa mudança, segundo ele, passa pela diversificação das economias, problema que se impõe desde os tempos históricos, com as monoculturas produtivas.
http://www.redebrasilatual.com.br/economia/2015/12/nos-60-anos-do-dieese-debates-analisam-desafios-da-retomada-do-crescimento-na-america-latina-8907.html

Abertura de impeachment aumenta chance de Dilma ficar, diz revista 'Economist'


O início do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados pode, ironicamente, aumentar as chances de sobrevivência política da presidente até 2018, avalia a revista britânica conservadora "The Economist".
Com dois textos dedicados ao novo capítulo da crise política brasileira, a edição da revista direcionada a um público elitista, que chega às bancas nesta sexta-feira (4/dez) criticou o acolhimento do pedido de impeachment pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
"A ação de Cunha é falha e ameaça apenas afundar o Brasil ainda mais na lama", afirmou a publicação, em referência a reportagem de fevereiro em que citava o "lamaçal" econômico e político no país.
Embora faça críticas a Dilma –citada como "a presidente mais impopular e ineficaz da história moderna brasileira" (sic), a revista conclui que o "tempo trabalha a favor" da petista, já que o gesto de Cunha "parece um ato de vingança" diante do cerco que o deputado enfrenta na Operação Lava Jato.
O deputado está entre os cerca de 40 políticos com foro privilegiado investigados por suspeita de participação no escândalo de corrupção na Petrobras. O Ministério Público Federal descobriu contas não declaradas do peemedebista na Suíça, que teriam sido abastecidas com dinheiro desviado da estatal. Cunha nega corrupção e diz que não tinha controle sobre as contas, que seriam apenas usadas para planejamento sucessório e educação dos filhos (alguém acreditou?).
"Cunha pode ser facilmente visto como agindo em interesse próprio do que um homem de Estado, colocando uma interrogação sobre toda a confusão. O PT tende a cerrar fileiras em apoio à presidente, e Dilma sem dúvida será mais firme do que nunca em não renunciar, como alguns na oposição esperavam" (a elite brasileira), diz o texto intitulado "Dilma's Disasters" (Os Desastres de Dilma).
CENÁRIOS POSSÍVEIS
Na avaliação da "Economist", a oposição não tem hoje os 342 votos (entre 512) necessários na Câmara para derrubar Dilma, mas o quadro pode mudar se surgirem provas contra a presidente na investigação da Petrobras.
A publicação responsabiliza a presidente pelo "desastre econômico" no país, como se não existisse uma brutal concentração de renda no país, se não a maior do mundo, uma das maiores, que associada a "políticas fiscais e monetárias irresponsáveis e ao incessante intervencionismo microeconômico" do primeiro mandato (2010-2014) (aqui se faz de conta que as administrações pública anteriores foram maravilhosas, sic), mas diz que ela "merecia mais alguns meses para tentar retomar as rédeas" da economia.
"Se ela falhasse, aí haveria um motivo forte para convencê-la a renunciar pelo bem do país", afirma a revista. "Ao atacar cedo demais e com os motivos mais inconvincentes, Cunha talvez tenha dado sobrevida maior a uma presidente fraca e destrutiva."
Sobre os motivos citados por Cunha para acolher o pedido –sobretudo a abertura por Dilma, em 2015, de créditos suplementares em desacordo com a Lei Orçamentária–, a revista diz que a presidente "não seria a primeira a adulterar contas públicas", mas lembra que a gestão da petista foi a primeira a ter contas rejeitadas por órgão de controle (Tribunal de Contas da União).
"É tudo o que o Brasil precisava. Com um enorme escândalo de corrupção a todo vapor, economia em queda livre, finanças públicas em frangalhos –e uma classe política que age em causa própria e sem intenção de enfrentar nenhum desses problemas–, o país agora foi servido com uma crise constitucional", diz a publicação.
2015 E 1992
Ao comparar a situação de Dilma com a do ex-presidente Fernando Collor de Mello, que sofreu um processo de impeachment em 1992, a revista aponta três semelhanças: a falta de habilidade para lidar com um quadro político fragmentado, a baixa popularidade e a economia em baixa.
Por outro lado, diz a "Economist", a presidente não é acusada de enriquecimento ilícito e mantém o apoio de seu partido. "E talvez o mais importante: há pouca evidência de que a oposição queira assumir a bagunça das mãos de Dilma. Preferiria vê-la sofrer e obter uma vitória fácil na próxima eleição em 2018."
"Infelizmente, o furor irá deslocar a atenção já dispersa dos políticos brasileiros das soluções para os muitos problemas do país, a começar pelo déficit crescente no Orçamento. A História poderá julgar esse como o maior pecado de Cunha." 
Como se nota no texto acima, é interessante que se tenha noção do pensamento da elite internacional e nacional, podendo-se entender a pretenção e ações que envolvam o jogo de xadrez geopolítico mundial e local.
http://aposentadoinvocado1.blogspot.com.br/2015/12/abertura-de-impeachment-aumenta-chance.html

A contribuição milionária da imprensa para ampliar a crise econômica brasileira

Por Paulo Nogueira*para blog Diário do Centro do Mundo - Sociedade e comunicação de massa

  • O Brasil vive um momento de profecia auto-realizável. Tanto a mídia, por motivações políticas, gritou que o Brasil vivia um inferno econômico que as coisas, efetivamente, se complicaram. Não há economia que resista a maciços ataques de catastrofismo. 

Só notícias ruins
Só notícias ruins

 
Paulo NogueiraExiste uma expressão em inglês chamada self fulfilling prophecy. Numa tradução livre, profecia auto-realizável. O termo foi cunhado em 1949 pelo cientista social americano Robert Merton.

É mais ou menos o seguinte.

Você tanto fala numa coisa com bases falsas que ela acaba se tornando realidade. Um exemplo comumente citado é o de alguém que, ao acordar, já fala que vai ter um mau dia. Se ele colocar isso na cabeça, acabará por criar as condições para que seu dia seja, efetivamente, ruim.

O Brasil vive um momento de profecia auto-realizável. Tanto a mídia, por motivações políticas, gritou que o Brasil vivia um inferno econômico que as coisas, efetivamente, se complicaram.
Não há economia que resista a maciços ataques de catastrofismo.


Seria um ano difícil, sem dúvida. O Brasil vinha de dez anos de crescimento ininterrupto, e não há vento que sempre bata para um só lado na economia.
 Adicionalmente, a crise global começou a cobrar – enfim – seu preço do Brasil. Mundo afora, o dólar estourou, para ficar num caso.

Mas a imprensa se apressou em atribuir o drama do dólar apenas ao Brasil. Não era o universo em convulsão. Era o Brasil. Quer dizer, era o governo Dilma.

Demorou semanas para que alguém, na mídia, mostrasse a floresta, e não a árvore: o dólar crescera diante de todas as moedas, do euro ao yuan chinês.

Agora, imagine. Você é empresário, e está submetido a uma corrente interminável de previsões apocalípticas.

O que você faz?

Vai para a defesa, naturalmente. Isso significa demitir, cortar investimentos e coisas do gênero.
Pronto. A profecia se auto-realizou.

Os rugidos negativistas da mídia encontraram o parceiro ideal numa oposição obcecada em derrubar Dilma, e cassar assim 54 milhões de votos, a qualquer preço.

Projetos fúnebres para o país – as apropriadamente chamadas pautas bombas – foram aprovados com a execução de Eduardo Cunha e a contribuição milionária do PSDB de Aécio.

A crise política nascida abjetamente do desejo sujo de dar um golpe na democracia acabou piorando, também, a crise econômica. Mais uma vez, era a profecia auto-realizável em ação.

Ainda haveria um outro fator para dar dimensões muito maiores a um problema que poderia ser relativamente pequeno: a Lava Jato, com seu espalhafato.

Segundo a BBC, a Lava Jato pode ter tido um impacto negativo no PIB de 2,5 pontos. Uma recessão de coisa de 1% negativo pode chegar a menos 3,5%. Grandes corporações ficaram imobilizadas com a Lava Jato.

Alguém terá feito a conta do custo benefício da Lava Jato? Moro pegou uma calculadora? Duvido.
Haveria uma forma de enfrentar a corrupção no mundo do petróleo sem o custo devastador que se apresentou? Muito provavelmente.

E o ciclo pode continuar. O economista Gustavo Loyola, presidente do Banco Central na era FHC, está no noticiário dizendo que a crise econômica vai até 2018.

É bom que se desconfie dessa previsão, muito mais fundada na política do que nos fundamentos econômicos.

Até porque, se ela se propagar, poderemos perfeitamente estar, neste final de 2015, começando a fabricar uma crise que cederá apenas em 2018.

A isto o professor americano Merton deu, em meados do século passado, o nome de profecia auto-realizável.

*Paulo Nogueira. Jornalista, fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
http://contrapontopig.blogspot.com.br/2015/12/contraponto-18319-contribuicao.html

12.03.2015

O capitalismo será derrotado pela Terra

  •  Depois que a sociedade passou a ser de mercado e tudo virou oportunidade de ganho, até as coisas mais sagradas como órgãos humanos, água e a capacidade de polinização das flores são fatores de lucro fácil
 
Por Leonardo Boff  para - Sociedade e sobrevivência do planeta
 
Há um fato incontestável e desolador: o capitalismo como modo de produção e sua ideologia política, o neoliberalismo, se sedimentaram globalmente de forma tão consistente que parece tornar qualquer alternativa real inviável.
De fato, ele ocupou todos os espaços e alinhou praticamente todos os países a seus interesses globais. Depois que a sociedade passou a ser de mercado e tudo virou oportunidade de ganho, até as coisas mais sagradas como órgãos humanos, água e a capacidade de polinização das flores, os chefes de Estados, em sua grande parte, são forçados a gerir a macroeconomia globalmente integrada e cada vez menos atender ao bem comum de seu povo.
Vivemos tempos de explícita barbárie
Vivemos tempos de explícita barbárie
O socialismo democrático, em sua versão avançada de ecossocialismo, representa uma opção teórica importante, mas com pouca base social mundial de implementação. A tese de Rosa Luxemburgo, em seu livro Reforma ou Revolução, de que “a teoria do colapso capitalista é o cerne do socialismo científico”, não se verificou. E o socialismo, na sua pior forma como ditadura do Estado, ruiu.
A fúria da acumulação capitalista alcançou os níveis mais altos de sua história. Praticamente 1% da população rica mundial controla cerca de 90% de todas as riquezas. 85 opulentos, conforme a séria ONG Oxfam Intermon, de 2014, têm dinheiro igual a 3,5 bilhões de pobres do mundo.
O grau de irracionalidade e também de desumanidade do sistema falam por si. Vivemos tempos de explícita barbárie.
As crises conjunturais do sistema ocorriam até agora nas economias periféricas. Mas a partir de 2007/2008 a grande crise explodiu no coração nos países centrais, nos EUA e na Europa. Tudo parece indicar que se trata não de uma crise conjuntural, sempre superável, mas desta vez, de uma crise sistêmica, pondo fim à capacidade de reprodução do capitalismo.
As saídas encontradas pelos países que hegemonizam o processo mundial são sempre da mesma natureza: mais do mesmo. Vale dizer, continuar com a exploração ilimitada dos bens e serviços naturais, orientando-se por uma medida claramente material (e materialista) que é o PIB.
Ai dos países cujo PIB não cresce cada ano. Condenam-se à falência, com consequências sociais desastrosas.
Esse crescimento piora o estado da Terra, diminuindo ainda mais o que resta de sua reserva biótica. O preço das tentativas de manter e de aumentar o crescimento é aquilo que seus corifeus chamam de “externalidades” (o que não entra na contabilidade dos negócios). Elas são fundamentalmente duas: uma degradante injustiça social com níveis altos de desemprego e crescente desigualdade; e uma ameaçadora injustiça ecológica com a degradação de inteiros ecossistemas,erosão da biodiversidade (com o desaparecimento entre 30-100 mil espécies de seres vivos, por ano, segundo dados do biólogo E. Wilson), crescente aquecimento global, escassez de água potável e insustentabilidade geral do sistema-vida e do sistema-Terra.
Estas duas injunções estão pondo de joelhos o sistema capitalista. Se ele quisesse universalizar o bem-estar que propicia aos países ricos, precisaríamos, pelo menos, de três Terrasiguais a esta que dispomos, o que evidentemente é impossível.
O nível de exploração das “bondades da natureza”, como são chamados pelos andinos os bens e serviços naturais, são de tal ordem que em setembro deste ano se verificou “o dia da ultrapassagem” (the Earth overshoot Day). Em outras palavras, a Terra não possui mais a capacidade, por si mesma, de atender as demandas humanas. Ela precisa de um ano e meio para repor o que lhe subtraímos durante um ano. Ela se tornou perigosamente insustentável.
Ou refreamos voracidade da acumulação de riqueza e de consumo para permitir que ela descanse e se refaça ou devemos nos preparar para o pior.
Por se tratar de uma super-Ente vivo (Gaia), limitada, com escassez de bens e serviços e agora doente, mas sempre combinando todos os fatores garantindo as bases físicas, químicas e ecológicas para reprodução da vida, tal processo de degradação despropositada pode impossibilitar a reprodução do sistema e gerar um colapso ecológico-social de proporções dantescas.
A consequência seria que a Terra teria derrotado definitivamente o sistema do capital, subtraindo-lhe a capacidade de se reproduzir junto com sua cultura materialista de consumo ilimitado e individualista. O que não temos conseguido historicamente por processos histórico-sociais alternativos (era o propósito do socialismo), o conseguirão a natureza e a Terra. Esta, na verdade, se livraria de uma célula cancerígena que está ameaçando de metástase todo o organismo de Gaia.
Nesse entretempo a nós cabe a tarefa de desde dentro do sistema, alargar as brechas, explorar todas as suas contradições para garantir especialmente aos mais humildes da Terra o essencial para sua subsistência: a alimentação, o trabalho, a moradia, a educação, os serviços básicos e um pouco de lazer. É o que vem sendo feito no Brasil e em muitos outros países. Do mal tirar o mínimo de bem necessário para a continuidade da vida e da civilização.
E no mais, é rezar e se preparar para o pior.
Leonardo Boff, é articulista do Jornal do Brasil on line,membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.
http://www.correiodobrasil.com.br/o-capitalismo-sera-derrotado-pela-terra/

12.01.2015

A oferta de empregos e a construção de casas populares

  • Como conciliar a oferta de empregos com a construção de casas populares?

  • Planejamento de conjuntos habitacionais para populações de baixa renda nos extremos das cidades é um desafio para a mobilidade
Por Roberto Rockmann para revista Carta Capital - Sociedade, moradia e emprego 



Lena Diaz/Fotos Públicas
Metrô-de-São-PauloCom empregos e serviços concentrados em poucas regiões, São Paulo vive o caos diariamente
valorização dos imóveis nos últimos anos, provocada pelo aquecimento do mercado imobiliário e acesso mais fácil ao crédito, intensificou um problema presente nas regiões metropolitanas. A oferta de serviços e de trabalho está cada vez mais distante da moradia das famílias de menor renda, que sofrem crescentemente com a infraestrutura urbana deficiente.
Isso expõe a falha política de uso e ocupação do solo nas cidades brasileiras e exige aperfeiçoamentos. Perto de um terço dos brasileiros passa mais de uma hora por dia no deslocamento entre sua casa e o trabalho ou escola, segundo pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria. Em 2011, primeiro ano da pesquisa sobre mobilidade urbana, 26% gastavam mais de uma hora.
Nas cidades com mais de 100 mil habitantes, 39% dos moradores passam mais de uma hora no trânsito, e 4% dos entrevistados gastam mais de três horas por dia.
Maior cidade do País e uma das cinco maiores do mundo, São Paulo convive com uma oferta de empregos e vagas em escola na zona oeste 20 vezes superior à da zona leste.
As seis subprefeituras que formam o centro expandido da cidade (Sé, Pinheiros, Lapa, Vila Mariana, Santo Amaro e Mooca) reúnem 17% da população paulistana, mas 64% dos empregos. Já a zona leste concentra quase 40% da população, embora ofereça apenas 15% dos empregos.
A principal causa dos problemas é a falta de um planejamento que evite a concentração da oferta de atividades, como educação, saúde, comércio e produção industrial em poucas regiões, normalmente distantes das áreas com maior número de habitantes.
Melhorar a mobilidade exige mudanças na ocupação do solo urbano e muito dinheiro. Estudos realizados em Belo Horizonte apontam que a rede de linhas subterrâneas da cidade deveria ter 150 quilômetros de extensão para atender à demanda.
Para se chegar à extensão necessária, seria preciso investir 150 bilhões de reais. “Isso mostra o desafio que existe, o que mostra que não será o Orçamento da União ou Orçamentos de estados que farão o milagre.
Será preciso adotar soluções diferenciadas, como a atração de investidores estrangeiros que possam operar as linhas”, observa Paulo Resende, coordenador do núcleo de infraestrutura da Fundação Dom Cabral, responsável pelos cursos de pós-graduação desta corporação de ensino. 
http://www.cartacapital.com.br/especiais/infraestrutura/como-conciliar-a-oferta-de-empregos-com-a-construcao-de-casas-populares-8214.html

Do popular, foi reinventada a política...será? E o que o poder tem com isso...

  • Ao PT só resta temer o próprio medo

  • É improvável que o desafio de reinventar o partido tenha êxito se ficar restrito a sua própria estrutura, hoje uma réplica do sistema político carcomido do país

Por Saul Leblon para site Carta Maior - Sociedade e maquinações da política (fonte no final)

Lula Marques
O PT não pode mais assistir ao seu próprio funeral acuado nas amarras da prostração e da perplexidade.

Forças que querem destruí-lo tem tido sucesso nesse intento, graças a um estratagema ardiloso.

Em nome dos erros do partido –que não são poucos— mira-se a desqualificação de suas virtudes e bandeiras


Uma virtude resume todas as demais

O PT ressuscitou a agenda da justiça social como motor e finalidade do desenvolvimento econômico, em contraposição ao exclusivismo mercadista atribuído às metas de inflação (leia-se juros reais elevados); ao superávit fiscal (leia-se arrocho e estado mínimo) e ao câmbio livre (leia-se, livre mobilidade dos capitais).

O partido não trocou uma coisa pela outra: trouxe o antagonismo capitalista para dentro do aparelho de Estado e tentou mediá-lo nos últimos 12 anos.

É esse o ciclo que agora se despede em ruidosa transição.

A dificuldade de se renovar na travessia –e assim reagir ao massacre que o desnorteia-- reside menos na incapacidade de enxergar tropeços e equívocos pregressos, do que no fato de que o PT se tornou uma réplica do sistema político que precisa combater para ressuscitar.

O sistema político brasileiro exige muito pouco dos quadros partidários em termos de identidade programática e coerência de princípios.

Mas premia a densidade dos vínculos com interesses tão ecumênicos quanto os que o poder do dinheiro consegue estabelecer na sociedade.

A naturalidade com o que o senador Delcídio Amaral  transitou nas últimas duas décadas da esfera do PMDB para a filiação ao PSDB e deste para o PT, sem mudar de referências políticas, nem abdicar do seu repertório ecumênico de apoios, é exemplar desse paradoxo.

Sua abrupta derrocada, após flagrante em gravações comprometedoras, reitera a distorção que está despedaçando a democracia e desmoralizando seu espectro partidário –mas sobretudo o PT, pelas razões sabidas.

Delcídio foi diretor de gás e energia da Petrobrás no governo Fernando Henrique, indicado pelo PMDB; filiou-se em seguida ao PSDB onde permaneceu até 2001; por conveniências regionais saltou então para o PT, que lhe facultou a vaga para eleger-se senador da República pelo Mato Grosso, em 2002.

Nesse vaivém de década e meia, manteve-se fiel a um mesmo círculo de interesses integrado entre outros pelos atuais delatores da Lava Jato, Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró.

Não teria sido muito diferente se ainda estivesse no PSDB, ou no PMDB.

É justamente essa indiferenciação que está matando a credibilidade na política como ferramenta de construção do país e do seu desenvolvimento.

Ela impede que a sociedade disponha de alternativas claras e confiáveis para tirar a economa da espiral descendente em que se encontra, empurrada pelo esgotamento de um ciclo de expansão.

O PT, pelas razões que só o juiz Moro pode explicar, foi o elo da corrente escolhido para arrebentar em meio a à geleia geral.

E o partido popular está sendo arrebentado

O episódio Delcídio aperta o cerco em torno de uma sigla que encontra dificuldade crescente para atuar em três frentes distintas mantendo algum grau convincente de coerência: 1) resistir à caçada conservadora que age por tentativa e erro na determinação de desossar o partido até alcançar a cabeça de sua principal liderança; 2) defender um governo embarcado numa trajetória recessiva que estreita a margem de manobra social do partido e agrava a crise política; 3) reinventar seu espaço e sua mensagem na disputa pelo poder nas eleições municipais de 2016 e nas presidenciais, em 2018.

A determinação de manter um rigoroso regime de autocrítica caso a caso diante do cerco policial-midiático promovido contra o partido tampouco tem se mostrado eficaz.

A solidariedade negada pela direção do PT ao senador Delcídio, por exemplo, gerou protestos de um pedaço da bancada, que acusou o comando petista de levar água ao moinho que tritura os ossos da sigla.

A  luta pela sobrevivência parece ter atingido aquele grau em que medidas incrementais de resgate da coerência e da identidade já não fazem mais efeito diante do tempo que encurta e do cerco que não cede.

A verdade é que todo o sistema partidário brasileiro  funciona hoje como um biombo do poder econômico que através do financiamento de campanha encabrestou direções, abastardou programas, manietou governos e semeou um arquipélago de fidelidades e acordos espúrios, unilaterais às siglas, que despedaçam sem coesão interna.

A desenvolta atuação de bastidores do banqueiro André Esteves, dono do Pactual,  com sugestiva fortuna de US$ 3 bilhões aos 43 anos de idade, ilustra a matéria-prima de que é feita essa retaguarda, onde raízes podres e sadias se entrelaçam.

O dono do Pactual  pagou a viagem de núpcias do amigo Aécio Neves. E prometeu ser tão generoso quanto com a família do delator  Nestor Cerveró –em troca da omissão ao nome do banco na delação premiada do ex-dirigente da Petrobrás.

Da reciprocidade combinada com Aécio não há relatos, tampouco investigações, embora seja presumível.

Estamos diante de uma captura dos políticos e do sistema

Uma captura do sistema político que reflete a determinação mais geral e conhecida de sequestrar todas as instâncias e recursos do aparelho de Estado para servir a interesses que enxergam em figuras como a de André Esteves e assemelhados não apenas a validação do mito do ‘empresário matador’.

Mas o altar da proficiência capitalista, diante do qual as instituições e a sociedade devem inquestionável subordinação.

É essa a pegajosa narrativa martelada pelo jornalismo isento ao incensar figuras carimbadas como Eike, Agnelli (ex-Vale), Esteves, Staub e outros impolutos ícones, não raro flagrados em operações de sonegação e lavagem, como mostra a máfia do Carf.

A inexistência de uma verdadeira isonomia no sistema de comunicação para enfrentar a centralidade desse debate dificulta sobremaneira a tarefa do PT de contextualizar seus erros e repactuar os vínculos com a sociedade.

Transformar essa dificuldade em necrológio é o propósito dos interesses que não cessam de perfurar e purgar o metabolismo do partido para carimbar na sua pele –e na de suas maiores lideranças--  a marca de principal responsável pelo derrocada da economia e da política.

O pesadelo se aproxima perigosamente da fronteira do real da política anti-ética

É cada vez mais palpável o sonho da direita brasileira de matar historicamente o impulso nascido desde as grandes greves operárias do ABC paulista, nos anos 70/80, e que simbolizou a bandeira da luta contra a desigualdade e a injustiça social até os nossos dias.

Cerca de 60 milhões de brasileiros tiveram acesso ao mercado interno e à cidadania graças a esse estirão.

Ele esburacou fortemente a receita secular que permitia às elites revezarem-se no poder, mantendo o povo espremido no acostamento, à espera de caronas que nunca vem.

Recapear esse percurso agora pavimentando uma ampla avenida de regressividade social e política é o motor que move o garrote no pescoço do PT.

Supor que esse enfretamento poderia ter sido evitado por quem ousasse alterar a lógica do capitalismo brasileiro,  é acreditar em fábulas.

Uma das mais  deletérias é essa que hoje se  vende à sociedade na forma de um manual de boas maneiras a seguir para se obter um  desenvolvimento elegante, transparente e equilibrado.

Leia a bula: primeiro, você investe em infraestrutura, então fomenta as exportações, depois, com receitas e contas equilibradas, calibra harmoniosamente a demanda com a oferta prevalecente.

Enquanto isso, a senzala hiberna serena, resignada como num postal de lago suíço.

Quanto tempo a senzala vai continuar no leme?

Os séculos que forem necessários.

Até que os avanços incrementais permitidos pelo mercado produzam a boa sociedade, ancorada na mobilidade das meritocracias perfeitas, tutelada pelos sábios dos mercados não menos virtuosos.

As coisas não acontecem exatamente assim no capitalismo.

No caso brasileiro, a pasta de dente escapou do tubo.

A emergência dos excluídos escancarou a incapacidade do sistema econômico e político para realizar a prometida ascensão disciplinada dos desfavorecidos.

Mãos açodadas tentam devolve-la agora ao frasco, da forma que isso costuma ser feito nas república latino-americanas e com o fair play característico.

Inclua-se nessa determinação de ‘pôr ordem na casa’ jogar no lixo da história tudo e todos que contribuíram para o vazamento precoce e imprevidente.

É aí que entra o ingrediente crucial dedicado a desqualificar, sangra, picar e salgar em praça pública a ferramenta política que favoreceu a heresia: o PT.

Esse é o ponto em que estamos e nele as perguntas reverberam uma urgência de vida ou morte.

Um partido de trabalhadores consegue se despir dos vícios e desvios da política conservadora depois de passar pela experiência do poder no capitalismo?

Consegue sobreviver sem sucumbir aos limites e compromissos inerentes à correlação de forças desfavorável à qual se ajustou?

O popular pode recuperar o rumo sem o qual descansará sob a lápide dos sonhos perdidos?

Por mais que se martele o oposto, a tragédia do PT consiste justamente no fato de não se tratar aqui de um ‘bando’. Mas de um futuro em disputa.

Fosse o PT apenas aquilo que outras siglas se comprazem em personificar não haveria a tragédia.

Não se trata de dissimular decadência em retórica de heroísmo.

Mas de reafirmar que o PT  tem uma –e só uma-- finalidade na história brasileira.

Servir de instrumento dos interesses sociais amplos, de cuja vértebra nasceu o impulso  que agora  fraqueja.

Quando se mostrar incapaz de renovar esse pacto com a sua origem perderá o seu sentido histórico.

A busca de um chão firme para esse reatamento hoje é a questão crucial sobre a qual dirigentes, intelectuais e núcleos de base devem se debruçar febrilmente.

Com uma ideia  na cabeça uma certeza na ação: ao PT só resta temer o próprio medo de ir além dos limites que o sufocam.

Mais que isso.

É improvável que essa busca tenha êxito se ficar restrita aos limites de uma organização que, como se disse antes, tornou-se uma réplica do sistema político contra o qual terá que se reinventar.

Significa que a repactuação do PT com suas bases terá que nascer de um novo programa para um novo ciclo de lutas, que fatalmente exigirá uma nova estrutura: o partido será uma estaca em um conjunto formado por uma frente ampla de forças progressistas e democráticas da sociedade brasileira.

Nenhuma prioridade é mais importante que esse reatamento feito de depuração, renovação e abertura desassombrada para fora e para dentro.

Na virada recente que culminou com a eleição de uma presidência de esquerda, o Partido Trabalhista inglês oxigenou sua estrutura liberando a inscrição de eleitores, militantes e não militantes, mediante pequena taxa.

A campanha de filiação eleitoral se enraizou nas periferias e trouxe a juventude pobre maciçamente de volta à política: o marxista Jeremy Corbyn foi eleito.

Não é uma tarefa para aqueles que hoje não se reconhecem devedores desse agiornamento

Quem não estiver disposto não conta mais como protagonista do partido.

Portas escancaradas servem para quem quiser entrar e quem quiser sair.

Haverá  turbulência. Mas se for dada uma chance ao ar fresco, ele encontrará o caminho para transformar o medo em esperança e a prostração em luta pela democracia social brasileira.
http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Ao-PT-so-resta-temer-o-proprio-medo/35068