Páginas

7.07.2023

Os povos indígenas são essenciais na luta pela preservação do meio ambiente

A preservação das terras e das vidas indígenas é a preservação da vida como um todo e do futuro do nosso país e do planeta

O Marco Temporal é um projeto que coloca em risco 63% das reservas indígenas atuais, deixando essas terras expostas ao garimpo ilegal, ao desmatamento, à mineração e outro agentes comprometedores para a saúde do planeta

por Alva Rosa Tukano* nojornalggn@gmail.com – Sociedade e Sobrevivência da Vida na Face da Terra

Fabio Rodrigues Pozzebom – Agência Brasil

A demarcação de terras indígenas tem sido uma pauta bastante discutida no Brasil nos últimos anos. Após quatro anos com o tema tendo sido colocado de lado pelas autoridades governamentais, 2023 já ficou marcado por uma série de acontecimentos que reaqueceram o debate. Um desses eventos foi a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 490/2007, que estabelece o Marco Temporal como limite no tempo para a demarcação de terras indígenas. 

Esse projeto de lei coloca em risco diversas conquistas e a própria existência dos povos indígenas, além de ameaçar a fauna e a flora brasileiras e a existência desses povos, comprometendo o futuro do nosso clima, das nossas águas e florestas, da nossa alimentação, da nossa saúde. Tamanho retrocesso resultaria do fato de que o Marco Temporal tem como premissa redefinir a forma como uma terra indígena (TI) é demarcada. O PL propõe que a demarcação dessas terras só aconteça uma vez que seja comprovada a presença de povos originários vivendo nela na data da promulgação da Constituição brasileira, do ano de 1988. 

A questão do Marco Temporal deixou de ser uma pauta nacional para ser abordada globalmente. No dia 13 de junho, o relator da ONU sobre os direitos dos povos indígenas, José Francisco Calí Tzay, afirmou que aprovar o projeto de lei seria contrário aos padrões internacionais e que é preciso proporcionar uma maior proteção para as comunidades indígenas. Diante deste contexto, é necessário enfatizar que o projeto coloca em risco 63% das reservas indígenas atuais, deixando essas terras expostas ao garimpo ilegal, ao desmatamento, à mineração e outro agentes comprometedores para a saúde do planeta

Por isso, é necessário ter em mente o papel das organizações e comunidades indígenas como as grandes aliadas para o enfrentamento do aquecimento global e a preservação do ecossistema brasileiro. De acordo com o levantamento divulgado em 2022 pelo Instituto de Recursos Mundiais e Climate Focus, o Brasil não será capaz de cumprir as metas climáticas definidas pela Agenda 2030 da ONU, plano global para promover um planeta melhor até o tempo pré-determinado, a não ser que proteja os territórios indígenas. 

Segundo a mesma pesquisa, 92% das zonas protegidas absorvem mais carbono do que emitem, e cada hectare é responsável pela captura de cerca de 30 toneladas desse gás de efeito estufa por ano. Isso ocorre, principalmente, devido às comunidades adotarem uma economia de subsistência, respondendo somente por 1,6% do desmatamento da Amazônia nos últimos 36 anos, segundo o estudo lançado pelo MapBiomas no ano de 2021. Em contrapartida, os locais ocupados pelo grande setor da agropecuária totalizam 52,3% da degradação do ecossistema, de acordo com o censo do IBGE de 2010. 

O PL 490/2007, que ainda vai passar pela apreciação do Senado, agora chamdo PL 2903/2023, também é preocupante para as aldeias isoladas. Dados de um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em parceria com a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) divulgado em 2023, revelam que 34% das 44 reservas com presença dos povos isolados não tiveram seus processos de regularização de demarcação de terra concluído, sendo que 12 estão sob grande ameaça de garimpo e queimada ilegal. 

A história dos povos indígenas no Brasil, assim como suas conquistas, é marcada pela luta contínua contra todas essas violações de direitos. Hoje, a defesa dos nossos direitos tem ganhado cada vez mais visibilidade, mas é preciso reforçar a necessidade da participação de toda a sociedade nessa luta. Para isso há diversos mecanismos e entidades que ajudam a fazer a conexão com a nossa causa, como o Fundo Brasil de Direitos Humanos, que sistematicamente promove campanhas a favor dessa e de outras iniciativas emergentes. 

A preservação das terras e das vidas indígenas é a preservação da vida como um todo e do futuro do nosso país e do planeta. Por isso, enquanto não houver garantia de sobrevivência e da manutenção da qualidade de vida dos povos indígenas, continuaremos nos mobilizando e ocupando mais espaços na política para, desse modo, garantir liberdade e dignidade aos nossos povos e proteção às florestas brasileiras. 

*Alva Rosa Tukano – Professora, primeira mulher indígena a obter o título de doutora pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e presidente do Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (FOREEIA)

Publicado no GGN: 5 de julho de 2023

Fonte: https://jornalggn.com.br/questao-indigena/os-povos-indigenas-sao-essenciais-na-luta-pelo-meio-ambiente/

 

O mais Grave Golpe Contra a Economia Brasileira Aplicado por Jorge Paulo Lemann

Sua estratégia é de abandonar investimentos e manutenção, gradativamente a Eletrobrás, empresa chave para a economia brasileira, será depreciada até o momento em que se transforme em uma nova Americanas

Eletrobrás, Cemig e Copel nas mãos do grupo 3G  de  Jorge  P. Lemann

Dessa loucura não passarão imunes a indústria automobilísticas, a de máquinas e equipamentos, a indústria têxtil, as grandes redes nacionais

por Luis Nassif* no jornalggn@gmail.com – Sociedade e Grupos Econômicos Brasileiros Inescrupulosos

 

Os homens que soterraram as Americanas: Jorge P. Lemann e sócios

Provavelmente é mais um balão de ensaio, a ideia de que o governo abriria mão da reestatização da Eletrobrás, em troca de um adiantamento na conta que permite redução de tarifas.

Essa cortina de fumaça é para ocultar o mais grave golpe contra a economia brasileira, mais grave que o golpe nas vendas das refinarias. Está a caminho uma jogada audaciosa para agregar à Eletrobras, a Cemig e a Copel. Seria um poder absoluto na geração e na transmissão nas mãos de um dos grupos econômicos mais inescrupulosos do país.

Tarifas são apenas um dos subprodutos do golpe da privatização. O primeiro problema sério é o grau de concentração que ficará nas mãos do grupo Jorge Paulo Lemann.

O caso Americanas, e o estudo do caso Ambev, revelou de forma clara os princípios que regem o modelo Lemann – copiados de Jack Welch o executivo responsável pelo desmonte da mais simbólica multinacional americana, a General Eletric.

A lógica do crescimento saudável de uma empresa é o investimento permanente em inovação, melhoria dos recursos humanos e fortalecimento da rede de fornecedores.

Há dois valores de uma empresa de capital aberto: o valor intrínseco e o valor de mercado. O valor intrínseco leva em conta a perpetuidade da empresa, as estimativas de crescimento do faturamento e do lucro, os novos investimentos, os avanços em inovação.

Já o valor de mercado considera especificamente sua capacidade de gerar dividendos no curto prazo.

Qual é o estilo Welch, que soterrou a GE, comprometeu o próprio capitalismo americano e, imitado por Lemann, soterrou as Americanas? É o saque continuado sobre a empresa. Se não investe em inovação, em manutenção, está comprometendo seu futuro em favor de um aumento imediato dos dividendos. Ou seja, perdem os fornecedores, os empregados, o país, em favor unicamente dos rentistas.

O caso é muito mais grave quando se analisa o valor estratégico dessas empresas – Eletrobras, Copel e Cemig – para a economia brasileira e para o próprio setor elétrico.

O modelo elétrico brasileiro é constituído da energia contratada (contratos de longo prazo com as distribuidoras) e o mercado livre, no qual grandes empresas negociam com comercializadores de energia.

A energia contratada, fornecida pelas distribuidoras, é para os pequenos consumidores e para as residências. O mercado livre é para as comercializadoras e para as grandes empresas. A privatização jogará a energia contratada ao mar, penalizando pequenos produtores e residências. Há uma cegueira generalizada das grandes empresas, que acreditam que, com o mercado livre, se livrarão desse peso.

O mercado livre é instável. Uma seca, ou excesso de chuvas, pode alterar radicalmente as cotações. O que garante o equilíbrio do setor é a geração das grandes estatais e dos reservatórios de sua propriedade. O que acontecerá na primeira crise hídrica, com todo esse potencial nas mãos do maior especulador da história moderna do país?

Bastará segurar a vazão dos reservatórios, ou reduzir a oferta de energia, para manipular o mercado à vontade.

Mais que isso. Como sua estratégia é de abandonar investimentos e manutenção, gradativamente a Eletrobras, empresa chave para a economia brasileira, será depreciada até o momento em que se transforme em uma nova Americanas.

Parem com isso! Dessa loucura não passarão imunes a indústria automobilísticas, a de máquinas e equipamentos, a indústria têxtil, as grandes redes nacionais. É ilusão. Basta analisar o tratamento da 3G aos fornecedores das Americanas e da Ambev para se ter uma ideia do seu senso de responsabilidade.

  *Luis Nassif é um jornalista brasileiro. Foi colunista e membro do conselho editorial da Folha de S. Paulo, escrevendo por muitos anos sobre economia neste jornal. Nas composições que faz dos possíveis cenários econômicos, não deixa de analisar áreas correlatas que também são relevantes na economia, como o sistema de Ciência & Tecnologia.

Publicado no GGN: 6 de julho de 2023

Fonte: https://jornalggn.com.br/coluna-economica/eletrobras-cemig-e-copel-nas-maos-da-3g-por-luis-nassif/

 

7.01.2023

Vamos ser a última geração a ver a Amazônia de pé?

Estudo mostra que 'limite climático' em diversos ecossistemas pode ser atingido antes do esperado

por redação do Brasil de Fato – Sociedade e Amazônia: colapso à vista?

 Processo de destruição da Amazônia pode estar avançando acima do estimado – foto FLORIAN PLAUCHEUR / AFP

A próxima geração pode não conviver com a Amazônia viva. O alerta é dos cientistas britânicos John Dearing e Simon Willcock, que realizaram estudo que mostra como diversos novos fatores podem acelerar o colapso de diferentes ecossistemas pelo mundo. A pesquisa foi publicada na edição de junho da revista científica Nature Sustainability.

O estudo usou modelos de computador para simular o avanço da degradação amazônica e de outros exemplos, como a atividade pesqueira no litoral da Índia, e verificar a aproximação de um conceito que pode ser chamado de "limite climático" - que é quando o ecossistema colapsa. No caso da Amazônia, isso representaria que a floresta atual, fechada e úmida, seria substituída por outra mais seca e aberta.

Estimativa da Organização das Nações Unidas prevê que esse tipo de colapso no ecossistema amazônico acontecerá por volta do ano de 2100. Mas as pesquisas de Willcock e Dearing mostraram que, de acordo com as condições atuais, isso pode acontecer antes.

"Pode acontecer mais cedo do que se pensa. Podemos dizer realisticamente que vamos ser a última geração a ver a Amazônia", lamentou Willcock em entrevista à emissora portuguesa RTP (Rádio e Televisão de Portugal).

O cientista também foi ouvido pela reportagem da Folha de S. Paulo. Ao jornal, explicou que a Amazônia sofre por uma combinação entre mudança climática, desmatamento, perda de biodiversidade devido à caça e eventos climáticos extremos. Isso tem acelerado o processo de degradação.

"Um trabalho recente mostrou que a Amazônia já está perdendo resiliência, enquanto outro indicou que, uma vez que o colapso começar, ele será rápido. Segundo esse trabalho, se o processo começar em 2030, por exemplo, ele poderá se completar em 2080. A principal incerteza é saber quando esse limiar crítico será cruzado", afirmou à Folha.

Apesar do alerta, Willock e Dearing destacam que algumas atitudes que podem ser consideradas "pequenas" têm potencial para, ao menos, retardar o processo. No caso da Amazônia, por exemplo, a diminuição do desmatamento e da caça poderia representar um bom começo.

"A mesma lógica [que causa destruição] pode funcionar de forma contrária. Potencialmente, se aplicarmos pressão positiva, podemos ver rápidas melhoras dos ecossistemas", resumiu à RTP.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

Publicado no BdF:  29 de Junho de 2023

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2023/06/29/cientistas-alertam-nossa-geracao-pode-ser-a-ultima-a-ver-a-amazonia-de-pe

 

6.29.2023

Salário mínimo: valorização real é sinônimo de justiça social

Valorizar o salário mínimo significa também cumprir a Constituição Federal, que estabelece como direito dos trabalhadores urbanos e rurais, entre outras coisas, um salário mínimo capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de suas famílias (que atualmente não acontece no Brasil)

 Foto na internet_auditoriacidada.org.br

por Merlong Solano na Revista Forum – Sociedade e População Brasileira Excluída e Explorada

 A classe trabalhadora brasileira tem muito o que comemorar com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que a colocou como prioridade central da política econômica e social. Um dos avanços é o resgate da política de valorização do salário mínimo que vigorou nos governos do PT. Com efeito, essa política tem sido um dos principais determinantes da condição de vida material da população brasileira, já que, conforme mostra a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua), quase 70% da população recebe até 2 salários mínimos e é por ela direta ou indiretamente afetada.

 Na internet_fetape.org.br

Em seus 2 primeiros mandatos, Lula assegurou aumento real de 57% ao salário mínimo. Somando o 1º governo Dilma, o aumento foi de 76%. Hoje, depois de um período sombrio, a ênfase no incremento sustentável dos salários dos trabalhadores está de volta, rompendo a lógica neoliberal do governo anterior, que privilegiou o grande capital e os especuladores do mercado financeiro. De 2015 a 2018, quando ainda vigorou a regra de reajuste definida nos governos do PT, o salário cresceu 4%. Já de 2019 a 2022, no governo militarista passado, o salário mínimo desvalorizou 1%.

Valorizar o salário mínimo significa impactar, direta ou indiretamente, um contingente de 54 milhões de pessoas, trabalhadores, aposentados, pensionistas e beneficiários do BPC (Benefício de Prestação Continuada), ou seja, 25,4% da população brasileira, conforme dados de 2021 levantados pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Além do mais, significa impactar especialmente os segmentos mais vulneráveis da população:

·         28,5 milhões de mulheres;

·         34,7 milhões de pessoas afrodescendentes;

·         7,7 milhões de pessoas com 70 anos ou mais; e

·         7,7 milhões de crianças…

É essencial reconhecer a importância para a economia e a sociedade brasileira dessa decisão do governo Lula, que aumenta a justiça social e estimula as atividades produtivas. A economia roda, o comércio vende mais, a indústria produz mais e os trabalhadores têm melhor qualidade de vida.

Foto na internet_Trabalhador-brasileiro_observatorio3setor.org.br

O 1º de Maio deste ano foi marcado pela edição da Medida Provisória 1.172 de 2023, que elevou o salário mínimo para R$ 1.320, 2,8% acima em termos reais do valor herdado do governo anterior. Para que os aumentos virem política de Estado e não sejam descontinuado, o governo Lula enviou ao Congresso um projeto de Lei, que define a política de valorização do salário mínimo a partir de 2024. O texto é fruto de discussões entre governo e trabalhadores e está em análise na Câmara dos Deputados.

A proposta retoma as regras vigentes antes do golpe de 2016, prevendo a correção do salário mínimo pela variação do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulada nos 12 meses encerrados em novembro do ano anterior, acrescida, caso tenha sido positiva, da taxa de crescimento real do PIB (Produto Interno Bruto) do 2º ano anterior.

A iniciativa proposta resguarda os direitos dos trabalhadores, com reajustes reais programados e cumulativos do poder aquisitivo da população, e proporciona previsibilidade aos agentes econômicos, políticos e sociais, com uma política transparente e sustentável, pois é ancorada no crescimento real da economia.

   foto trabalhadoras em manifestação_esquerdadiario.com.br

Valorizar o salário mínimo significa também cumprir a Constituição, que estabelece como direito dos trabalhadores urbanos e rurais, entre outras coisas, um salário mínimo capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de suas famílias. “A reconstrução nacional, iniciada em 1º de janeiro com o presidente Lula, passa necessariamente pela dignificação do salário mínimo com a qual, espera-se, o Congresso Nacional saberá concordar.”

Créditos: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

 *Merlong Solano Nogueira, 64 anos, é deputado federal e vice-líder da Bancada do PT na Câmara dos Deputados. Formado em história e economia pela Universidade Federal do Piauí, é professor universitário licenciado. Ainda estudante, iniciou a militância junto aos movimentos sociais e sindicais. Em 1980, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores. Ocupou diversos cargos na administração estadual do Piauí de 2003 a 2020.

Publicado na Revista Forum: 25.junho.2023

Fonte: https://revistaforum.com.br/debates/2023/6/25/valorizao-real-do-salario-minimo-sinnimo-de-justia-social-por-merlong-solano-138314.html

 

6.23.2023

O Surgimento de um Mundo Global mais Justo é Real e Irreversível

O colunista Vijay Prashad destaca que governos de países do Hemisfério Sul não aceitam a visão norte-americana sobre a guerra na Ucrânia

por Vijay Prashad* no Brasil 24/7 – Sociedade e Ruptura Socio-Econômica Global

1

 Sahej Rahal (Índia), Juggernaut, 2019.

 Um novo clima de contestação no Sul Global gerou perplexidade nas capitais da Tríade (Estados Unidos, Europa e Japão), onde as autoridades estão se esforçando para responder por que os governos do Sul Global não aceitaram a visão ocidental do conflito na Ucrânia ou apoiaram universalmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em seus esforços para “enfraquecer a Rússia”. Os governos que há muito vinham sendo complacentes com os desejos da Tríade, como as administrações de Narendra Modi, na Índia, e de Recep Tayyip Erdoğan, na Turquia, (apesar da toxicidade de seus próprios regimes), não são mais tão confiáveis.

Desde o início da guerra na Ucrânia, o ministro das Relações Exteriores da Índia, S. Jaishankar, tem defendido com veemência a recusa de seu governo em ceder à pressão de Washington. Em abril de 2022, em uma coletiva de imprensa conjunta em Washington, com o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, Jaishankar foi instado a explicar a compra contínua de petróleo da Rússia pela Índia. Sua resposta foi direta: “Vejo que você se refere à compra de petróleo. Se você estiver analisando as compras de energia da Rússia, eu sugeriria que sua atenção se concentrasse na Europa (…) Nós compramos alguma energia que é necessária para nossa segurança energética. Mas suspeito que, olhando os números, provavelmente nosso total de compras para o mês seria menor do que o que a Europa faz em uma tarde”.

 Kandi Narsimlu (Índia), Waiting at the Bus Stand [Esperando no ponto de ônibus], 2023.

Entretanto, esses comentários não impediram os esforços de Washington para trazer a Índia para sua agenda. Em 24 de maio, o Comitê Seleto do Congresso dos EUA sobre o Partido Comunista Chinês divulgou uma declaração sobre Taiwan que afirmava que “os Estados Unidos deveriam fortalecer o acordo Otan Plus para incluir a Índia”. Essa declaração sobre essa política foi divulgada logo após a cúpula do G7 em Hiroshima, Japão, onde o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, se reuniu com vários líderes do G7, incluindo o presidente dos EUA, Joe Biden, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy.

A resposta do governo indiano a essa formulação da “Otan Plus” encontrou eco no sentimento de suas observações anteriores sobre a compra de petróleo russo. “Muitos americanos ainda têm na cabeça a construção do tratado da Otan”, disse Jaishankar em uma coletiva de imprensa em 9 de junho. “Parece que esse é o único modelo ou ponto de vista com o qual eles olham para o mundo (…) Esse não é um modelo que se aplica à Índia”. A Índia, segundo ele, não está interessada em fazer parte da Otan Plus, pois deseja manter um grau maior de flexibilidade geopolítica. “Um dos desafios de um mundo em transformação”, disse Jaishankar, “é como fazer com que as pessoas aceitem e se adaptem a essas mudanças”.

 Katsura Yuki (Japão), An Ass in a Lion’s Skin [Um asno em pele de leão], 1956

Há duas conclusões importantes tiradas das declarações de Jaishankar. Em primeiro lugar, o governo indiano, que não se opõe aos Estados Unidos, nem em termos programáticos como de temperamento, não tem interesse em ser arrastado para um sistema de blocos liderado pelos EUA (a “construção do tratado da Otan”, como disse Jaishankar). Em segundo lugar, como muitos governos do Sul Global, ele reconhece que vivemos em um “mundo em transformação” e que as grandes potências tradicionais, especialmente os Estados Unidos, precisam “se ajustar a essas mudanças”.

Em seu relatório Investment Outlook 2023, o Credit Suisse apontou para as “fraturas profundas e persistentes” que se abriram na ordem internacional – outra forma de se referir ao que Jaishankar chamou de “mundo em transformação”. O Credit Suisse descreve essas “fraturas” de forma precisa: “O Ocidente global (países desenvolvidos ocidentais e aliados) se afastou do Oriente global (China, Rússia e aliados) em termos de interesses estratégicos fundamentais, enquanto o Sul Global (Brasil, Rússia, Índia, China e a maioria dos países em desenvolvimento) está se reorganizando para buscar seus próprios interesses”. Vale a pena repetir as palavras finais: “o Sul Global (…) está se reorganizando para buscar seus próprios interesses”.

Em meados de abril, o Ministério das Relações Exteriores do Japão divulgou seu Manual Diplomático 2023 no qual observou que estamos agora no “fim da era pós-Guerra Fria”. Após o colapso da União Soviética, em 1991, os Estados Unidos afirmaram sua primazia sobre a ordem internacional e, juntamente com seus vassalos da Tríade, estabeleceram o que chamaram de “ordem internacional baseada em regras”. Esse projeto de 30 anos liderado pelos Estados Unidos está agora fracassando, em parte devido às fraquezas internas dos países da Tríade (incluindo sua posição enfraquecida na economia global) e em parte devido à ascensão das “locomotivas do Sul” (lideradas pela China, mas incluindo Brasil, Índia, Indonésia, México e Nigéria). Nossos cálculos, baseados no FMI datamappermostram deste ano, apontou que pela primeira vez em séculos o Produto Interno Bruto dos países do Sul Global ultrapassou o dos países do Norte Global. A ascensão desses países em desenvolvimento – apesar da grande desigualdade social que existe neles – produziu uma nova atitude entre suas classes médias que se reflete na maior confiança de seus governos: eles não aceitam mais as visões paroquiais dos países da Tríade como verdades universais e têm um desejo maior de exercer seus próprios interesses nacionais e regionais.

 Nelson Makamo (África do Sul), The Announcement [O anúncio], 2016.

Foi essa reafirmação dos interesses nacionais e regionais no Sul Global que reavivou um conjunto de processos regionais, incluindo a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e o processo BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul). Em 1º de junho, os ministros das Relações Exteriores do BRICS se reuniram na Cidade do Cabo (África do Sul), antes da cúpula entre seus chefes de Estado, que será realizada em agosto em Joanesburgo. A declaração conjunta que eles emitiram é instrutiva: em dois momentos alertaram sobre o impacto negativo de “medidas econômicas coercitivas unilaterais, como sanções, boicotes, embargos e bloqueios” que “produziram efeitos negativos, principalmente no mundo em desenvolvimento”. A linguagem dessa declaração representa um sentimento que é compartilhado por todo o Sul Global. Da Bolívia ao Sri Lanka, esses países, que constituem a maior parte do mundo, estão fartos do ciclo de dívida-austeridade impulsionado pelo FMI e das intimidações da Tríade. Eles estão começando a afirmar suas próprias agendas soberanas.

É interessante notar que esse renascimento da política soberana não está sendo impulsionado por um nacionalismo voltado para dentro, mas por um internacionalismo não alinhado. A declaração dos ministros do BRICS se concentra no “fortalecimento do multilateralismo e na defesa do direito internacional, incluindo os propósitos e princípios consagrados na Carta das Nações Unidas como sua pedra angular indispensável” (aliás, tanto a China quanto a Rússia fazem parte do Grupo de Amigos em Defesa da Carta das Nações Unidas). O argumento implícito que está sendo apresentado aqui é que os Estados da Tríade, liderados pelos EUA, impuseram unilateralmente sua estreita visão de mundo, baseada nos interesses de suas elites, aos países do Sul sob o pretexto da “ordem internacional baseada em regras”. Agora, argumentam os Estados do Sul Global, é hora de voltar à fonte – a Carta da ONU – e construir uma ordem internacional genuinamente democrática.

 Líderes do Terceiro Mundo na primeira conferência do Movimento dos Não Alinhados, em Belgrado, 1961.

A palavra “não alinhado” tem sido cada vez mais usada para se referir a essa nova tendência na política internacional. O termo tem sua origem na Conferência dos Não Alinhados realizada em Belgrado (Iugoslávia) em 1961, que foi construída sobre as bases estabelecidas na Conferência Asiático-Africana realizada em Bandung (Indonésia), em 1955. Naquela época, o não alinhamento se referia a países liderados por movimentos enraizados no projeto profundamente anticolonial do Terceiro Mundo, que buscavam estabelecer a soberania dos novos Estados e a dignidade de seus povos. Esse momento de não alinhamento foi aniquilado pela crise da dívida da década de 1980, que começou com a inadimplência do México em 1982. O que temos agora não é o retorno do antigo não-alinhamento, mas o surgimento de uma nova atmosfera política e de uma nova constelação política que exige um estudo cuidadoso. Por enquanto, podemos dizer que esse novo não alinhamento está sendo exigido pelos Estados maiores do Sul Global que não estão interessados em ser subordinados pela agenda da Tríade, mas que ainda não estabeleceram um projeto próprio – um Projeto do Sul Global, por exemplo.

 Una Marson (1905-1965) poeta e jornalista jamaicana  escreveu There Will Come a Time [Chegará um momento]

Em 1931, a poeta e jornalista jamaicana Una Marson (1905-1965) escreveu There Will Come a Time [Chegará um momento], um poema de esperança em um futuro “onde o amor e a fraternidade devem ter pleno domínio”. As pessoas no mundo colonizado, escreveu ela, teriam que travar uma batalha contínua para alcançar sua liberdade. Não estamos nem perto do fim dessa luta, mas ainda não estamos na posição de subordinação quase total em que estávamos durante o auge da primazia da Tríade, que durou de 1991 até agora. Vale a pena voltar a Marson, que sabia com certeza que um mundo mais justo viria, mesmo que ela não estivesse viva para testemunhá-lo:

O que importa se somos como pássaros engaiolados
Que batem seus peitos contra as barras de ferro
Até que gotas de sangue caiam, e em canções de partir o coração
Nossas almas passam para Deus? Essas mesmas palavras,
Na angústia cantada, prevalecerá poderosamente.
Não estaremos entre os felizes herdeiros
Dessa grande herança – mas para nós
A gratidão e o elogio deles virão,
E as crianças ainda não nascidas colherão com alegria
O que semeamos em lágrimas. 
Una Marson (1905-1965), poeta e jornalista jamaicana

*Vijay Prashad historiador, editor e jornalista indiano. Escritor e correspondente-chefe da Globetrotter. Editor da LeftWord Books e diretor do Tricontinental: Institute for Social Research.

Publicado no Brasil 24/7: 18 de junho de 2023

Fonte:  https://www.brasil247.com/blog/o-surgimento-de-um-novo-nao-alinhamento